sábado, 28 de dezembro de 2013

Crenças...

Buscadora de si, pisou na areia com pés firmes, abrindo mão dos falsos atalhos que escolhera. Navegou por toda sua vida de antes, com velas içadas a ser levada pelo sopro de outras vozes, ideias tantas e conselhos muitos. E assim, chegando onde não queria, alcançou lugar nenhum. Hoje era o primeiro dia de um ano inteiro a lhe revelar o novo e, entre todos os que lá estavam a contemplar céu colorido e beber champanhe, esperava ela sua primeira promessa do porvir vinda de dentro. Queria traduzir-se amanhã e depois em muitas versões de si mesma, a desmentir o velho triste e a colher próspero interior a florescer madurez. Cansada de levantar muralhas a cobrir o infinito das bençãos procuradas ou, de querer saber qual lado da moeda se irá mostrar, abandonou seus pedaços, seus cacos e suas crenças: pular sete ondas, acender sete velas, colher sete rosas, dar três pulinhos, notas no sapato, lençóis limpos, comer lentilhas, romã, uvas, folhas de louro; não mais entregaria ao destino a boa sorte. Agora, era ela a boa sorte a não mais esperar o mar lhe trazer conchas bonitas ou pedras opacas; resolveu decorar ela mesma de formas novas e cores outras a sua vida. Remaria contra a maré, mas com o vento a seu favor.

(Guilherme C. Antunes, vulgo "eu", em 05.01.2011)

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Feliz Natal...

Pai, verso esta oração pois Tu estás nas minhas mãos assim como eu estou nas Tuas. Vives Tu nas minhas palavras assim como em Ti eu também sou verbo. E nos meus olhos, és semente que confessa a cor dos frutos, o nome de um rio que se rende ao mar, o filho pequeno que abraça a mãe. Pela Tua palavra aprendi a respeitar o inverno, esperar pela primavera e aceitar minhas colheitas; aprendi a ser verão e a voar com as andorinhas. Abençoa-me como abençoas o grão-de-areia, o vento e as estrelas, pela igual oportunidade de habitar a Tua casa. E que o eterno em mim se anuncie, afastando o veneno do meu sangue, os espinhos das minhas flores, o egoísmo dos meus amores e as lanças das minhas mãos. Torna-me doçura quando eu souber ser só amargo; torna-me cura quando souber ser só destruição; torna-me descanso para vestir todos os meus sonhos e torna-me Amor, como resposta para cada pergunta da Vida. Conceda-me todas as sombras da floresta para eu caminhar com a minha própria Luz. E se eu cair, ferir, morrer, matar, sofrer, perder, errar; perdoa-me com o recomeçar, com o novo, com a coragem, com a gratidão por tudo aquilo que fui e pelo que ainda serei; e também com a certeza de que o Senhor é meu pastor, e nada me faltará. 


(Guilherme C. Antunes, vulgo "eu", em 'O Verbo...')

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Calendário...

Tem gente que passa o ano inteiro dormindo e só resolve acordar às vésperas do novo ano; talvez pra voltar a dormir novamente. Tem gente que depende somente da sorte e não das próprias escolhas. Tem gente que irá consultar a previsão do horóscopo, o I Ching, pular 7 ondas, pular num pé só, combinar cores e fazer simpatias como se isso traçasse seus novos caminhos, pois tem gente que vive das sempre mesmas promessas de final de ano. Gente que diz acreditar no amanhã apenas pra empurrar o hoje com a barriga. Tem gente que perdoa o imperdoável para continuar acreditando no amor. Gente que não sabe que a diferença entre crer e saber é a mesma entre muleta e a chave da prisão. Tem gente que se acostuma com adoçante ao invés de doçuras. Que acredita que uma folha a menos no calendário possa ser sua redenção. Ou que pensa que só o amor de alguém possa ser sua redenção. Tem gente que coleciona entulho a vida inteira pensando ser algo de valor. Tem gente que guarda dinheiro e deixa tudo no caixão. Gente que pensa ter a vida inteira e resolve deixar para depois. Tem gente que muito se acha quando na verdade nunca se encontrou. Gente vivendo de sonhos mesmo se alimentando de ilusões. Gente que diz saber do mundo e mal conhece suas solidões. Gente que se acostumou ser gado porque está bom assim. Gente que pensa que pensa e ao final não pensa nada. Somos viciados em tentativas e dependentes de recomeços, que se servem do tempo para nos amansar a pressa e enrugar a pele, partir a Alma e salvar os sonhos, pesar o corpo e libertar o peito, denunciar o Amor e reparar enganos, perder de vista tristezas, perder a conta das lágrimas e não poupar sorrisos, repousar nossas verdades no colo após o cansaço das vidas caminhadas. Ninguém é tanto tempo feliz por mais que queira, nem triste o tempo todo por mais que consiga.

(Guilherme C. Antunes, vulgo "eu", em 17.12.12)

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Resoluções...

Aquele frio que lhe cortava a alma, era vento forte de tempo fechado ou desilusão dos sonhos bonitos de ontem? Pois, insensível aos apelos do porvir, andava cego às gentilezas da vida e surdo às do coração. Abrigou da dor, no seu colo, a própria vida. E cansado de ser mau jardineiro a pisotear as flores que o tempo um dia o brindou com sementes muitas, queria agora semear presença a adoçar sorrisos e curar feridas. Queria voltar a ser quem nunca foi e, aprender o que ainda não havia aprendido: saber que no palco da vida, ele é na verdade, seu único e próprio antagonista. Cansado de refletir tristezas; passou a espelhar em si, amor; passando com isso a cultivar o novo e com o novo, o bonito. E enquanto bonito, não permitir ir embora a esperança. Há ainda de reconstruir caminhos antigos por onde a serenidade trilhou; a denunciar pelas suas próprias confissões a sua fé e sua vontade de recolher por lá, amor hibernando a despertar faminto. Queria também trazer você pra perto e fazer do teu colo, confessionário. E dos teus olhos, o seu espelho; da paixão, o seu abrigo; e do céu, o seu telhado. Carregava consigo tantas vontades engarrafadas; a guardar em vidro bonito o teu carinho para aqueles momentos em que o cansaço mais chama o nosso nome. Salvar-se-ia de vez, daqui pra frente. E sem resoluções a fazer, ele só queria se olhar e descobrir quem ele era de verdade.

(Guilherme C. Antunes, vulgo "eu", em 16.12.10)

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

A menina que colecionava abraços...

Era uma vez menina que colecionava abraços. Da terra distante de onde veio, dizia ela que abraço era assunto apenas dos adultos, como a lista de compras da mãe, as notícias do jornal que lia o avô ou os negócios do seu pai. Menina acreditava que abraço, além de ser coisa de crescidas gentes, era proibido como palavrão! Uma vez espetou dedo numa farpa e falou bem alto dor vestida de palavra, que aprendeu escondida ouvindo seu pai quando desacontecia algo com ele. Achava guria engraçado mas aprendeu que sua mãe não, dizendo que repeti-las faria menina diminuir até para sempre desaparecer. Ficou com medo e pensou que abraço fosse igual porque ninguém em casa praticava esses interessantes apertos. Deveriam mesmo causar coisa ruim. Só soube o que era quando perdendo sono no meio da noite, foi até a sala e viu filme em que um casal de fala esquisita se olhava com olhar de parar o tempo, e de bocas coladas se abraçaram. Parecia algo bonito, e foi guria começar a sorrir com a cena que veio seu pai todo bravo desligar televisão. Mas como tudo que é proibido dá vontade, um dia menina correu no quintal e abraçou árvore enfeitada de passarinhos. Esqueceu-se de si quando fechou os olhos e sentiu que ser abraço era gostoso. Sentiu-se a árvore, o passarinho, o por-do-sol, o infinito. Passou a cometer escondidas proibições no quintal para poder amar de pertinho a natureza e em silêncio florescer. Começou a descobrir que abelha abraçava flor, oceano abraçava rio, chão abraçava os pés, noite abraçava luz, Amor abraçava medo. Suspeitou que abraço era feito de mundo e o mundo feito de abraço. Uma tarde ouviu de longe seus pais brigarem triste como um final de férias. Suspirou e resolveu resolver aquilo lá. Correu em direção do pai e abraçou suas pernas, calando-o. Depois se virou e abraçou a mãe, derretendo-a. Aí então sorriu e apontou ordem para fazerem o mesmo. Abraçaram-se. A briga parou, a dor cessou e soube menina, abraço ser remédio sem gosto ruim de xarope. Servia para nos melhorar mas com jeito de sobremesa. Dali em diante menina começou colecionando abraços a combinar com seus sorrisos, para distribui-los todos na sua rua, a ensinar na escola e a falar de afeto que gostoso aperta quando alguém deslembra que no outro a gente pode crescer e ser feliz.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Se o Amor acaba?

[...] Se o Amor acaba? Sim, e o que permanece é a memória. Quando imersos no Amor, ali, naquele instante, temos a permissão das palavras para jurá-lo eterno. E de senti-lo eterno. Ali, sabemos porque sentimos, e sentimos que amaremos para sempre. Isto porque o Amor nos devolve às dimensões da Alma onde a Alma é, mas o tempo não. O Amor habita apenas o tempo presente em que, inteiros e dispensados do compromisso com os calendários, podemos abraçar os destinos. O Amor permite temporariamente saber-nos atemporais, e concede a graça de nos sentirmos maior que o próprio mundo, tornando-se a nossa própria vida. Assim, sentimos que amaremos até a morte e depois dela, mas o Amor antes tem seu fim porque damos um final a ele. Sufocamos seus imensos com nosso tamanho, dispensamos sua generosidade com nosso egoísmo, atentamo-nos aos espinhos e ignoramos flor, não permanecendo sua força por conta das nossas fraquezas. Por inaptidão, despedimos hóspede que gostaríamos residente, retornando à nossa limitada condição em busca de voltarmos à casa que nós mesmos fechamos a porta. Para cada encontro e para cada tristeza, melhor fica o coração para abrigar o próximo Amor.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Enquanto me aguardo...

Enquanto me aguardo, visitam-me as palavras. Busco entre os meus versos e frutos, alguma desavisada certeza de mim, distraída verdade oculta nas entrelinhas; e entre elas, o tom acertado de minhas escolhas, uma exata explicação dos meus medos; a aguardada revelação dos meus porquês. Sofro de inspirações para que numa próxima eu saiba a chave correta, a porta, o outro, o Amor, as marés, minha Alma. Escrevo para me dar a chance de me encontrar na confissão de um conto que me descreva, que me conte os capítulos meus que não vivi, para que eu não perca de vez a estação que eu deveria descer.

domingo, 17 de novembro de 2013

Repousos...

Amor, tenho urgências para dormir contigo. Sim, dormir para ganhar verdadeiras intimidades com teu corpo, com tua alma e com a tua despretensiosa e entregue horizontalidade. Preciso dormir contigo para despertar outras dimensões e vontades de ser teu. Quero dormir contigo para daqui em diante não mais te procurar no meu sonhar; desejo o descanso daquele que encontrou. Suplico para que durmamos juntos para ser contigo versão de mim que desconheces, a de que sou Amor mesmo em repouso; que embora inconsciente, sou resoluto e lúcido Amor. Logo eu, versado na arte dos descansos, contigo ainda não fiz dueto. Preciso dormir contigo para que esta seja minha incondicional rendição, quando desnudo dos medos e de mim próprio, permanecer tão-somente Amor para tuas presenças. Se fazer amor contigo é declaração de intensas sonoridades, quero agora me declarar para ti deitada sobre os silêncios. Preciso dormir contigo para, na verdade, adormecer as despedidas e, do outro lado da noite, saber você comigo nos dois lados de mim.


“Fazer amor, sim e sempre. Dormir com mulher, isso é que nunca. Dormir com alguém é a intimidade maior. Não é fazer amor. Dormir, isso que é íntimo. Um homem dorme nos braços de mulher e sua alma se transfere de vez. Nunca mais ele encontra suas interioridades”. (Mia Couto)

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Generosos...

"Eis a nossa sina: esquecer para ter passado, mentir para ter destino". (Mia Couto)

Quais seriam as exatas razões-de-ser das lembranças em nós? São pedaços de sonhos que um dia nos aconteceram? São as vozes de páginas passadas que nos ditam os próprios caminhos? Justificativa da memória que nos permitimos esquecer: sobrevivemos por contar histórias que preferimos acreditar; para que as nossas certezas vivam em paz na segurança de um tempo em que não se é mais. Acentuamos detalhes que nos importam por conveniências de existir. Preenchemos lacunas e inevitáveis vazios com explicações à nossa Alma e ao nosso peito que desconvençam medos, olhos e aflições. Remodelamos sensações conforme o encaixe de nossa desmedida lucidez. Pois seriam os amargos menos intensos ou o Amor mais sublime quando vistos com a distância das folhas do calendário? Seriam os momentos realmente tão coloridos no instante em que os resgatamos do passado e dizemos ao outro que assim nos aconteceram? A quase-perfeição em nós se declara inteira nas distâncias que dela mantemos. Costumamos ser mais felizes nos anos que não voltam mais, talvez porque nos seja mais fácil assim. Contamos detalhes de inexatos cenários que criamos por premeditados enganos de nossas fraquezas. E pela necessidade de coerência dos nossos caminhos, de ontem e de amanhã, filtramos como podemos as dores nos véus do esquecimento. Somos sempre mais generosos quando nos recriamos, eis a nossa natureza; que não nos impeça de novos voos e outros sonhos, que não nos prenda no mesmo e no morno, nem proíba sorrisos e ares mais frescos. Que as perdas e ganhos sejam sementes e jamais prisões; registros a nos dar identidade e pertencimento; ponte entre o hoje e o que de bom permanece em nós. Guardemos o bem nos silêncios ou entreguemos o mal às palavras, somos tudo aquilo e aqueles que nos permitimos continuar amando...

(Guilherme Antunes & Loridane Melchior)

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Sutil diferença...

Às vezes confundimos maus pressentimentos com nossos medos e consequentes pessimismos. No primeiro caso, sentimos por antecipação os resultados de um plano já traçado por nós e pela própria Vida, mas que não buscamos. O tema aqui é sobre os destinos. No segundo caso, o que sentimos determinará as escolhas e antecipará os resultados de um plano que estamos traçando ou que ainda iremos traçar, mas que não precisaríamos se não quiséssemos. O tema aqui é sobre os inevitáveis caminhos que o medo nos apresenta. Sutil é a diferença com que nos tocam, nítidas são as diferenças dos seus frutos...

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Estrada...

Já havíamos nos feito frutos antes de nascermos para os dias. Você é o Amor que já sabia antes de me haver no mundo. Vesti-me de semente para florescer teus olhos; tornei-me riacho para ao mar saber amanhecer. O tempo veio, de longe, e ainda canta para nós. Canção feita para celebrar sentidos. Cuido do Amor para ser teu nome e tema que versam o canto dos pássaros. Depois de ti, o mundo nasceu sentido, e o peito cambaleia, aumenta e dança sobre os presságios. O coração, tonto e arrítmico, desliza. Sem onde, abri estações nas funduras dessa noite. Sem quando, abrigo um futuro decorado na boca, entre as distâncias em que apenas os sonhos estão permitidos atravessar. E é aqui, na fusão de todas as cores, que os dias aprendem a beleza do teu nome. Aqui, na desnecessidade de todas as vozes, que o Amor aprende a ser, em silêncio, um sonho lhe derramando em pensamento. Aqui, onde a poesia nos tingiu de céu e de sol, e onde bebo e como da tua presença. Aqui, sou, porque tu és. Estrada a caminho de mim.

(Guilherme Antunes & Priscila Rôde)

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Aqui nos sabemos...

[...] eu desconfio que os olhos quando se permitem janelas, aprendem a convidar as exatas paisagens que as enfeitam. A Alma busca por palavras que no rio da poesia matem a sua sede. A literatura se faz ponte para os encontros, sejam nas linhas do papel ou dos destinos.

Por isso, aqui nos sabemos.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Bruxa...

Ela previa com a assombrosa exatidão das suas fofocas, os tropeços da vida alheia. Criava intrigas e tramas no serviço com o poder das suas palavras, e puxava tapetes sem precisar sair do lugar. Sabia de olhos fechados se algum objeto da casa estava fora do lugar, fazendo com os filhos um verdadeiro inferno. Jogou todo o encanto do seu casamento pelo ralo, ao gritar por anos a fio por qualquer coisa com o seu marido. Tinha a habilidade de fazer voar as más notícias pelo bairro, intrometendo-se na vida da vizinhança. Com sua afiada maledicência, causava tristezas e invisíveis dores no coração dos seus amigos. Sacrificava o tempo de qualquer um com suas reclamações. Amaldiçoava os meninos que pulavam o muro para roubar manga no seu quintal abandonado. Afastou a tudo e a todos, nem as flores prosperavam. Colecionava apenas sombras e distantes memórias, além de uma vassoura de palha de que tanto gostava. E no dia de hoje, conjurando mil palavrões por ter que acordar cedo com o som da campainha, furiosa abriu a porta e não encontrou ninguém. Viu apenas sobre seu sujo tapete, velas, flores, doces e um cartãozinho de parabéns. Não entendeu nada.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Amante...

Apaixonei-me por ti desde muito cedo, quando nos apresentaram numa ocasião de que não me lembro bem. Confesso que não foi amor à primeira vista, mas para além daquilo que costumo sentir numa primeira impressão, eu bem que me interessei. O tempo passou e a convivência se tornou diária, e eu diria, mais íntima. Passei a me sentir atraída pelos teus detalhes muitos e histórias tantas que contavas. Um dia, numa ocasião de que também não me lembro muito bem, me peguei encantada por você. Já estava um pouco mais crescida e madura, e pude então perceber o que antes não percebi. Eu vi o quanto és charmoso! E o teu cheiro (ah, o teu cheiro), não tem igual no mundo. A nossa relação - é bem verdade - é complicada. Quantas vezes não chorei por tua causa? Quantas vezes não me atrapalhaste toda no trabalho pelas coisas que tinhas a me dizer? Quantas vezes não tiraste meu foco e minha atenção? Quantas não foram as tristezas e alegrias que partilhamos? Mas quero aqui reconhecer as óbvias razões pelas quais me apaixonei por ti. Quanto não aprendi! Trouxeste-me outras crenças, novas ideias e esperanças. Aprendi delícias como, por exemplo, ser promíscua sem pesos na consciência. Aprendi inclusive e é claro, que a vida nem sempre é como a gente quer que seja. Contigo aprendi as mais excelsas verdades e as mais doces mentiras. E aprendi a nunca julgarmos pela capa. Saiba meu amor, contigo eu cresci. E tu és e sempre serás o meu melhor presente. De ti, jamais vou me livrar. Porque és tu, meu livro.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Lampejo...

Às vezes basta que sejamos um só momento de atenção para resgatarmos o outro de profundas solidões, ou, às vezes basta que sejamos qualquer palavra para reavivar no outro distantes mas possíveis esperanças. Às vezes basta trazermos um só lampejo para que o outro possa se vestir de luz. Com muitos nomes a Vida nos visita e nos pede atenção justamente quando não esperamos por ela, imaginando uma outra dela que nos mereça mas, não nos acontece. Talvez seja por isso que as nossas alturas, ainda que lá embaixo nos encontremos, nos alcancem. Há insuspeitos pedaços de nós que por tantas vezes ignoramos - ou consideramos migalhas que não nos servem - mas que são do tamanho suficiente para salvar o dia e o amanhã de alguém, ou relembrar a nós mesmos de adormecidas inteirezas. E abandonamos saber desta plenitude pelo olhar acostumado às repetições do dia-a-dia que nos aponta sempre a mesma direção e as mesmas esquinas e envelhecidos sonhos, distraindo-nos dos triviais milagres que sabem as flores e que nos acontecem o tempo todo neste mundo. Anestesiados pelo mais do mesmo e pelos desbotados amores que colecionamos, deixamos nós de colorir, virando as costas às mágicas mas reais dimensões da Vida, onde o destino é bem-querer, o outro é sempre laço, um desencontro sempre semente e a felicidade sempre um convite.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Dissolver-me...

Conta-me Vida, como fazer para não-ser. Dá-me qualquer coisa, desabriga-me desta angústia que me corrói a cada respiração em que sou. Desata-me os laços contigo, Vida. Torna-me qualquer coisa que não eu; uma inesperada benção de inconsciência, vez que sinto as agudas contrações do existir. Cessa-me de pensar, a passar ao largo dos desesperos. Acolha-me por piedade, na tua escuridão para que eu não veja a tristeza que me tornei. Aniquila-me Vida, mas não me deixe assim, diluído nesta metade de mim. Conceda-me a ignorância das pedras, a inocência dos animais, a distância das estrelas ou o desapego dos arcanjos. Deixa-me ser apenas a dor de riacho que se despede a se fazer mar. Oculta-me o mistério do teu viver, já que a minha paz encontra-se do outro lado das tuas paredes. Cala-me Alma com inundação a levar de vez meus desejos e esperanças. Deixa-me Vida, imerso num nada, pois lá é o meu lugar. Meus silêncios choram, os amanhãs são estilhaços. Permita o sol desmaiar nas minhas sombras; coração pulsa apenas por não ter saídas. E num resto habitado de mim em que alimento amor às causas perdidas, quanto mais luto, mais sangro. Agraciado aquele que não (re)conhece mais o Amor. Eu, eu sinto muito. Sou a poesia de uma flor que já morreu...

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Literatura...

A tua voz me amanhece e devolve-me esquecidas raízes; tua boca cala os espinhosos incômodos que carregam as vozes da saudade e, teus contornos avivam-me embrigada lucidez. Deixo-me por isso exposto a este teu tom de sol, e me deito sobre a nua e fina esperança que aguarda comigo tuas chegadas. Cultivo desejos que sabem teu nome, e destinos da tua cor de mármore. Fundamentas a realidade do sagrado, antecedes tu o próprio mundo por esta divina razão; brinda-me o teu Amor com outras existências que aqui me guardam e me florescem. Sabendo eu dos descansos que cumprem as palavras, invento-te para me salvar dos lugares onde não estás. Quero despedir distâncias apoiado nos teus lábios. Atrevo-me na poesia a te amar entre os eternos.

domingo, 6 de outubro de 2013

A verdadeira história...

Era uma vez menina que se enamorou do Sol no inexato instante em que poisou dourado na janela, num dia cinza de dentro e fez menina inteira amanhecer. Desde então guria vestiu poesia e perfume, cabelos negros de fita cor de lume, a lhe esperar chegada no partir das madrugadas. Sua mãe notava estranheza quando devagar voltava tristeza, de menina já posta à mesa bem na hora do jantar. Quem iria imaginar? Os sonhos longe de casa aconteciam, deitada no jardim ao meio-dia, hora em que mais amada se sentia. Aquilo era Amor intenso que de felicidade imensa transbordava! Era agradecida ao celeste namorado por dar frutos no quintal pra sustentar seu pai e sua mãe. Ele de caloroso carinho pra nunca deixá-la sozinha, deu sombra ao seu corpinho e trabalho às andorinhas. Com exceção das noites, pra onde menina se dirigia, ele também se encaminhava. E na hora que a chuva aparecia, menina também não se importava, pois da casa dela saia com bonita capa dourada, como recadinho silencioso e secreto de saudade. Nada disso mudou com a idade! Enquanto menina crescia, paixão cada vez mais aumentava. Com alegria, o nascente a amava se sentindo toda prosa, mas do poente se esquecia ao lembrar no fim do dia que o Sol se despedia e só permanecia a dor chorosa. Menina perdeu sua poesia para as saudades. Passou a ter ciúmes das estrelas. Acreditava que cada uma era antigo namorico do astro-rei e que suas cintilânciazinhas distantes eram apenas triste lembrança da ausência de um Amor que fez tudo em volta anoitecer. Era mesmo de doer! Angustiada, pediu ajuda aos passarinhos. Num descuido do tempo, seria por eles avoada até o alto, a esperar miúda atrás da lua a sua vez, a sua chance. Quando Sol ainda se espreguiçava, sussurrando mansa luz por entre as manhãs, menina se lançou para os vazios. Caiu. Jamais alcançaria por si o seu Sol. Era uma queda funda atravessando os céus azuis. Caia com toda velocidade e sua falta de sorte. Mas não tinha jeito, só cabia Amor demais dentro do peito, nunca nem jamais a própria morte. Amansou-se na gravidade como pétala. Engravidou-se de amarelos. Menina viu-se feliz a renascer, sem precisar nem por um triz ter que morrer. Sua pele a cor do branco giz, cabelos cor do sol. Caiu-se no mundo girassol.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Chances...

Antes e para além de quaisquer conquistas, pertençam elas à dimensão do mundo ou do espírito, essencial se faz estender o território do teu ser para o retorno do amor-próprio. Sem ele e sem isso e te encontrarás apenas ao sabor dos erros e das marés, numa jangada frágil de boicote, visto que devemos escrever o destino a partir da nossa força, jamais do medo e da fraqueza. Com dedicada atenção, descubra aquilo que merece ser descoberto, e carregue consigo aquilo que merece ser carregado. Reaprenda o charme daquele que se pertence, seduza novamente os milagres e convide levezas para dormir na tua cama. Deixe que os teus amanhãs sejam mais generosos contigo, e você com eles para, nas eventuais inundações do porvir, encontrar nele suas sementes. Dê chance aos imprevisíveis e lugar aos inesperados. Resgate-se, à força se necessário, das longas mãos dos teus enganos; pregue serenidade à tua própria boca para, reensinar ao coração quem ele realmente é. Ajuste a sintonia entre os teus olhos e a tua própria vida, e reaprende a ver, desde os detalhes que nos salvam, as palavras que nos acolhem até a dimensão mágica e oculta que nos permeia, aquela que dá razão e sentido à dor da semente para saber-se flor e concede às lagartas a vitória em renascer avoada e colorida. Assim, não relute em sentir-se o único responsável pelos ventos a soprarem tuas velas. És jornada de muitos convidados e possíveis. Relembre que o tempo é tecelão habilidoso em revelar caminhos, costurar feridas e dispensar aqueles que conosco já cumpriram sua viagem. A difícil arte das despedidas; a dolorosa temática das saudades. Aceita-te como teu mais bonito e duradouro caso de Amor. Por isso e para isso, antes, aceita-te! Conceda a ti mesmo, o gosto dos amargos, para aprender o doce ou do que nem gosto tem, e não alimentes mais em ti aquilo que deves matar pela fome. Com sabedoria, inevitavelmente dispensarás desnecessários conflitos e descartarás os frutos que não mais enfeitam tuas paisagens. Eduque a coragem para enfrentar os monstros que ganham vozes na solidão e aprenda a reconhecer qual dos teus atos é patrocinado pelo medo, e este, promovido pela falta de fé em ti. Que sejas digno de caminhar sobre teus passos, e perdoe sempre aqueles que desconhecem a direção dos próprios pés. Que os teus cinzas se calem e a tua dor emudeça, diluídos na luz da tua própria existência. Não dê chances ao que te quer metade.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Sua busca...

Você vem até aqui buscar por palavras que te aliviem das inevitáveis e acumuladas tristezas da vida. Você quer palavras que interpretem teus sonhos e revelem os propósitos da tua existência. Você procura por palavras que definam os indefinidos e indefiníveis dentro de ti. Você quer palavras em que identifiques o mapa dos teus interiores labirintos. Você anseia por palavras e previsões do teu próximo Amor ou o segredo e chave das tuas prisões. Palavras que serenem marés, tenham tons de milagre ou inovadoras percepções sobre os teus amanhãs. Você precisa de palavras como distração das ansiedades. Palavras que te salvem e que te curem. Que te confessem sem você precisar dizer nada. Você quer a sabedoria que em si mesma nunca encontrou. Por isso escrevo, para tentar salvarmos a todos nós, dissolvidos nos romances e nas entrelinhas. Você quer uma poesia além das páginas, no contorno dos teus caminhos. Eu também; eu busco o mesmo que você. Quem sabe um dia eu encontre entre tantas linhas, aquelas que saibam o nosso nome.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Convenientes...

Se não reconhecermos as sombras que nos acompanham, por elas poderemos ser carregados. Nos dizemos reféns das explicações que habitualmente contamos, mas que de nada nos libertam, vestindo-as como justificativas dos erros futuros nos quais reincidiremos, tranquilizando-nos dos incômodos acumulados nos cantos da nossa zona de conforto que justificam, isto sim, de forma legítima, nossos comodismos. Costumamos fazer dos amanhãs o bode expiatório da nossa falta de coragem. Adiamos nossa responsabilidade, não nos assumimos no tempo certo e nos atrasamos sempre para ser o que gostaríamos. É muito mais fácil sermos felizes sempre no passado, aquele que não volta mais, consultando tão-somente as interessantes e convenientes lembranças que pretensamente nos melhoram e nos aliviam, e por isso nos convencem. Somos as convenientes vítimas de nós mesmos.

domingo, 8 de setembro de 2013

Férias...

A partir de agora, decreto férias de mim. Talvez estas sejam na verdade as minhas primeiras férias, ou melhor, uma carta de demissão: dos meus medos e cansaços, dos meus labirintos. Decidi ir pra longe dos meus habituais enganos, das minhas falas decoradas, das minhas previsíveis ruas-sem-saída. Vou deixar em minha mesa todos os apegos e irei para o lado contrário das mágoas; ainda que na contramão. Vou para bem distante das minhas já manjadas muletas e reações alérgicas emocionais; da minha (própria) cara de reprovação. Viajarei mesmo pra longe; para o lado de mim que pouco lembrava e que senti por tanto tempo saudades. Vou levar o coração pra tomar sol, abrir janela para arejar certezas, vou arranjar um romance ardente comigo mesmo. Sairei para saber o que deixei pra lá, aceitarei convites e atenderei a convocação dos meus amanhãs. E chegando lá, vou fazer minha programação: acordar bem cedinho para as verdades, alimentando-me de levezas e boa companhia, seja a dos passarinhos ou de mim mesmo. Vou fazer passeios por lugares esquecidos de dentro; só pretendo não passear pelos museus. Vou visitar sonhos novos em folha que esqueci amarrotados entre os dias por me ocupar demais. E dessa vez não vou economizar. Vou me gastar e me desgastar até me ganhar mais uma vez. Não posso mais me poupar de tanto que me poupei, nem represar futuros que me pertencem. Daqui em diante, só vou assumir aquilo que fizer parte do meu show. O que não fizer, deixarei para sempre dentro do almoxarifado. Não posso ficar sentado fazendo hora-extra para as tristezas, aceitando o peso da rotina, engolindo sapos, deixando a preguiça e o desencanto cuidarem do meu expediente. Não vou mais me permitir clausuras que um dia voluntariamente me permiti entrar. Vou reaprender novos e velhos oficios da Alma, redescobrir levezas, gostar de mim, ser sereno num despretensioso hoje. E o que não puder reciclar, reinvento. Porque não mais aceitarei o assédio moral das minhas sombras, das minhas covardias e inseguranças. Vou tomar café quentinho com o meu lado criativo e esperançoso. Vou promover o meu amor-próprio. Vou admitir o meu perdão. E qualquer coisa, podem me ligar, convocar-me de volta por fax, e-mail, cartinha. Somente irei responder às minhas verdades. Só vou atender aos compromissos que me interessam. Fui ser feliz, e quem sabe, não volte mais...

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Não mais se feriu...

Às vezes passamos muito tempo olhando para uma só direção, para o lado de nós que menos pesa e mais nos agrada. Olhamos muitas vezes para um só lado de nós, apenas por não querermos ver aqueles que de alguma maneira nos incomodam. Há certos convites, como dores, profundas tristezas e agudas felicidades que nos convocam às necessárias coragens de nos sabermos por inteiro. Alguns deles e conseguimos fingir que não são com a gente; outros, realmente irrecusáveis, são visitas aos esconderijos interiores onde moram feiuras e amargos que depositamos ao longo do tempo e que por isso fermentaram, azedando esperanças e singelezas do coração. Pede-nos a Vida, decidida disposição para a tarefa de transformarmos sombras em luz, alumiando os próprios caminhos e laços, e os alheios. Quando rosa soube além da sua cor o seu espinho, soube ser também flor e jardim. Não mais se feriu.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Invernam...

Um dia
eu farei questão de nascer pedra 
enquanto você flor, 
pra te namorar sem doer 
entre os silêncios do jardim e da primavera, 
dessabido da língua das saudades 
que invernam os homens.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

A asa para o abismo...

O Amor quando vier, inevitavelmente nos deixará expostos, desnudos e escancarados para o reflexo que sempre nos traz o olhar do amado, desarmados por nos reconhecermos para além dos nossos interiores segredos. Mover-se no Amor é a nossa própria confissão. O Amor nos convidará para dançar mas, em caso de uma eventual e teimosa recusa, nos arrancará para longe dos nossos habituais confortos. O Amor é a mais incerta das garantias, que nos pedirá verdade em troca das histórias que contamos para nos distrairmos, acomodarmos ou nos satisfazermos com metades, feitas de espinhos ou desbotadas cores. O Amor é a asa para o abismo.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

O fio que tece a Alma...

Depois que ele se separou, passou a levar mais o totó pra passear e aprendeu a separar seu lixo. Quando ela voltou a suspirar pelo Amor, decidiu fazer sonhada viagem e passou a dar mais atenção ao filho pequeno. Após o acidente, ele melhorou a relação com a mãe e cultivou roseiras. Quando ela tudo perdeu, arriscou pedir aumento ao chefe e aprendeu a falar italiano. Assim que a irmã passou no vestibular, decidiu parar de beber e de fumar. Às vezes os diversos fatos na nossa vida, aparentemente desconexos, são as reais razões pelas quais vestimos novos papéis e abandonamos velhas posturas, ao experimentarmos outras e inéditas versões de nós mesmos, sejam elas mais saudáveis ou não, quando uma descontinuidade qualquer nos convida ao recomeço. Há um fio invisível de possibilidades que tece a Alma, bordando nossas histórias, entrelaçando nossos encontros e desenhando assim, os nossos destinos.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Desembrulhar...

Toda criança vê desnuda a poesia das coisas. Quando adultos vestimos razões e conceitos, crenças e lógicas que muito nos pesam e se põem entre nós e as coisas mesmas. Assim crescemos e desaprendemos a ver; com o tempo crescemos e esquecemos de como ver realmente. Daí que enxergamos a Vida através e pelo outro lado das nossas ideias, que desbotam as vivas cores e formatam nosso enxergar para os pragmatismos e para a repetição das trivialidades. O poeta é uma lembrança de que vez ou outra precisamos nos desembrulhar e desempoeirar o olhar, encontrando-nos disponíveis para os milagres e imensidões viventes além da janela do nosso cotidiano. O poeta é um convite para deixarmos de lado o cansaço e as seriedades refletidas nas desgastadas lentes da Alma. O poeta é um rememorar que nos diz que a poesia nasceu com os olhos.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Se ele está...

Se o Amor está, celebro na poesia a sua visita. 
Se o Amor não é, nas linhas verso então suas ausências.
Porque sempre cantaremos suas cores ou lamentaremos a sua sombra...

domingo, 11 de agosto de 2013

Pai...

Pai é esse pedaço de Amor em nós, que vem antes de nós, e que sabe mais.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

O-que-mora-dentro...

Como não sabemos o valor do que mora dentro; como não nos ensinaram a enxergar o que somos e quem realmente somos, através dos olhos dos outros nos reconhecemos. O nosso valor então, deixa de ser intrínseco e se torna fluído numa precária verdade, por aquilo que vestimos, pelo carro que compramos e pelo que demais ostentamos. A nossa medida é dita pelo que temos e não pelo que somos; coisa que ninguém, além de nós mesmos, podemos saber. A riqueza é mero reflexo da superfície; frágil por sinal. Assim, um sopro, um elogio ou uma crítica sempre nos atingirá e nos balançará, sejam elas sinceras ou não. Bem aventurados aqueles que fecharam os olhos e então souberam quem realmente são, para além das coisas do mundo.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Sentido...

De quais verdades nós fugimos? Com quais mentiras nós fingimos? Qual coragem não usamos? Com que prazer nos distraímos? Com qual distração nos esquecemos? De quais virtudes não lembramos? Quais os amores não amamos? Qual parte da Alma nós vendemos? Com que tristeza nós vivemos? Qual alegria ignoramos? De qual passado nós morremos? De que amanhã nos despedimos? Quais das levezas nós sentimos? Qual dos tantos pesos carregamos? Quais apegos namoramos? De qual saudade nós sofremos? Quais os venenos que tomamos? De quais espinhos nos curamos? Quais são as bençãos que escolhemos? Com quais crenças enxergamos? Qual o perdão que exigimos? Qual dos pecados perdoamos? Com o quê, a cabeça esquentamos? Qual das perguntas faz sentido?

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Receitas...

Logo eu que dizia saber, não sei mais onde quero chegar; e não me peça pra diminuir o passo, o ritmo, a angústia. Tenho pressas para fugir de mim, mas fujo sem entender. E enquanto não sei, finjo, engano e me diluo no que sou, porque eu sou, eu mesmo, o meu melhor disfarce. As minhas verdades se demonstram no que não faço. Eu me visto e me apresento de tudo que é avesso, e faço de conta que quero ser o meu melhor, quando passo o tempo tentando juntar os meus pedaços, manter a lucidez, a coerência e não me afundar no abismo de um fracasso ressentido, mas resignado. Divido minha atenção para mendigar a sua mais tarde. Eu sou um varal de conveniências que escolho conforme a ocasião de minhas fraquezas ou interesses. Exagero os fatos que me convém, ignoro aqueles que me trarão dor. Eu me dissolvo em histórias paralelas que eu mesmo conto para me distrair e não me encontrar com a dor; para que a culpa não saiba meu endereço. Assim, não assumo meus compromissos, minhas promessas, meus sentimentos, meus laços. Não honro nem sustento, rescindo, conforme o peso ou calo no meu pé ou um incômodo qualquer. Eu exageradamente me doo para não doer. Carrego receitas para todos os males, menos os meus, e vendo-os sob o pretexto do carisma. Eu sou um inconsequente levando tudo às últimas consequências. Eu sou ótimo na mesma medida em que sou péssimo. Eu quero que você seja feliz contanto que não seja mais do que eu. Ainda mais se você habitar o meu passado, tenha a fineza de estar um degrau abaixo de mim. Se você não tem mais lugar para continuar no meu coração, então tenha a decência de não se encontrar mais em nenhum. A felicidade alheia evidencia a minha miséria. O seu suspiro confessa a minha desinteressante vida. Por isso sou feito de remendos, viciado em pequenos prazeres que coleciono apenas porque são novidades. Eu sofro dos tédios da conquista, sintoma de Alma desbotada que não se encaixa nos planos do dia-a-dia. Sinto um prazer oculto em me afundar neste mar. Sou habitante de adiados sonhos, e sou uma precariedade; um adiamento constante para ser melhor. Sofro para me despedir até do que não me serve mais, mantendo minha quota de liberdade viva com a ajuda de ilusões. Renunciei a esperança de ser inteiro. Eu queria um Amor que nunca mais soube sentir. Queria qualquer coragem que me livrasse de ser esta metade que me anestesia e me consome inteiro. Eu só tenho morrido exatamente por não viver. Passei a achar normal não ser feliz.

[...] no vão entre as palavras habitam nossas verdades. As palavras são, muitas vezes, pretextos para silêncios que nos confessam. 

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Morar aqui...

Vivemos incessantemente percorrendo lembranças e expectativas, diariamente habitando o que era e o que poderá, cansando-nos com o que foi e com o que deveria ser. Entre desejos e nostalgias, planos e recordações, somos. Somos preservadas memórias e cultivadas esperanças. Somos pêndulo alternando sem parar entre o passado e os nossos amanhãs. Entre os possíveis e o inevitável, nos perdemos. O que nos sobra para ser no agora? Quando ansiedade é sintoma? Quando insatisfação é constante? Nós quase nunca moramos aqui...

terça-feira, 2 de julho de 2013

Milagre...

Quem sabe eu aprenda a cultivar cuidado e olhar com mais atenção meus laços e meus caminhos. Há um intervalo entre aquilo que em mim é e aquilo que deveria ser. O que faço e escolho vivem a uma distância considerável do que eu quero e desejo. Mas com aquilo que tenho e com o que sou, teço meus trapos com ideia de manto para quando ventania, sonhar em ser apenas sussurro a te serenar. Costuro remendos com ideia de rede a me descansar dos descasos do tempo e junto te embalar. Sou atrapalhado mágico com planos de milagre. Sou um desensaio dos tons de cinza. Sou alguém que não sabe o que fazer direito com o Amor mas que busca por um de qualquer jeito. Quem sabe um dia eu descubra, e aí serei um nome querendo ser prece, a viver nos teus lábios quando o meu Amor te visitar.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Se a palavra...

Se palavra for a semente que em nós floresce, o descanso que em nós se sente, um abraço que ao outro serve, o carinho que em nós nos veste, o aconchego que o outro pede, uma cura que a dor despede, o convite que em nós nos leva, uma prece que a alma eleva, ou um silêncio que dissolve os nós, seja lá o que for que tenhamos dito, teremos realizado o nobre e encantatório ofício da palavra em ser Poesia.

sábado, 22 de junho de 2013

Hora marcada...

Eu vivo imerso dentro de mim, sendo engolido pela minha própria Vida, pela falta de tempo e de agenda, pelos meus laços, nos meus amores, nas minhas escolhas e nos meus desencontros. Às vezes não me permito mais para que dissolvido no que me atrai, eu seja menos. Às vezes não permito que entrem, porque a qualquer minuto eu saio, e sem qualquer aviso. Às vezes você vem e eu não estou. Você se distrai e então eu abro a porta. Sou uma divertida ausência, sem as seriedades e protocolos que pedem os outros. Sou uma sincera inexplicação, com certos vazios de que gosto e alguns preenchimentos desnecessários. E sou feito das essencialidades que busco e que também me completam. Para estas, eu já tenho o endereço e hora marcada.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Revoluções...

Que o amanhã seja palco para as nossas revoluções, sejam elas sociais ou interiores. Que o descontentamento seja a semente, e a esperança, promessa do vento. Que aprendamos a aprender com as tempestades e, que de uma vez por todas nos desabituemos a nos habituarmos. Sempre é tempo para se fazer gigante, nunca é tarde para acordar. Um brinde às possibilidades da próxima página dentro e fora da gente!

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Além...

Não, você não irá mais longe. Você até pode ter mais, muito mais do que já tem, mas isso não significa que você alcançará mais. Você poderá conquistar, desejar, ambicionar, acumular, por anos a fio daqui pra frente, mas ainda assim você não se contentará. Não será colecionando eletrônicos, carros, viagens, números na conta corrente, amantes, admiradores que satisfarão você, e sim se desfazendo do que não lhe serve mais. Não será dando boas vindas às novidades e externos confortos, e sim se despedindo do que aparentemente não pesa na vida que te fará confortável e leve sobre os teus próprios pés. Você reuniu o que precisava para se enraizar na terra e se sustentar, precisará agora saber as tuas asas. Você subiu todos os degraus, agora é a hora de saber das alturas. Você já experimentou todos os caminhos deste labirinto, deste mais do mesmo, e sabe o que irá encontrar. As tuas necessidades são outras; não com acúmulos, mas com desapegos; não mais com números, mas com o teu interior. A quantidade nos preenche; a qualidade nos alimenta. Não, você não irá mais longe, porque na verdade você não precisa ir mais longe. Você irá para dentro.

domingo, 9 de junho de 2013

Das intimidades...

A palavra nunca é impessoal, distante, independente. Elas acontecem em nós em seus efeitos, como uma continuidade de nós que se dedica a existir para os nossos inteiros olhos. A literatura guarda nossos sonhos, ilumina a razão, explica nosso espírito, salva nossas memórias. As palavras ganham seus contornos pelo olhar de quem as reconhece. Devemos ter intimidades com as letras.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Imenso...

Hoje é dia
a chover-me as bençãos
que me inunda inteiro
e me faz riacho
a saber sereno
imenso de mar

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Me Abismo...

Ando namorando a quietude dos abismos em que nos silêncios me descanso. Ando florescendo a quietude dos silêncios em que nos abismos me aguardo. Ando aprendendo a quietude dos descansos em que nos silêncios me abismo. Sem namorar os velhos padrões-de-mim, sou a novidade de um Amor que por inteiro se entrega, sem volta e em busca no outro de si mesmo.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Temporárias...

Bem-aventurado aquele que livre se sente para quando necessário, descartar rígidas e confortáveis certezas por certezas flexíveis e temporárias, aceitando suas inexatidões e respeitando a sabedoria dos amanhãs, conforme se revelam às conveniências do seu próprio amadurecimento. E do alheio.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Entre um e outro...

Às vezes é tanta dor e tanto intenso
que palavra nasce doendo,
que o verbo nasce gritando,
e o verso envasa o imenso
em que o Amor encontra-se lendo
entre um porém e um entretanto.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Gratidão...

Agradeçamos à Vida que nos apresenta o outro
como instrumento para nos lembrarmos
de quem realmente somos, 
pela feliz possibilidade
de expressarmos a versão
mais nobre de nós mesmos 
nos determinarmos de acordo
com nossas escolhas.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Aquele que também sou...

Visto meus nomes conforme a ocasião; versões que me completam e se despedem de mim; pois há egoísmos muitos que me visitam e lembranças tantas que me prendem. Há medos ainda que eu ensine sobre a coragem. Aprendi a fugir sem ter partido, amar sem ter amado e a ferir sem me doer. Confesso sempre meus primeiros degraus e deixo o mais profundo para depois. Se poucos são os corações que sabem pelos silêncios o que os colorem, eu nada mais escuto. Guardo promessas fora da validade numa Alma fora de moda. Sinto uma pretensa sorte por escolher aqueles finais felizes em que não estou. Por isso faço asas nas palavras enquanto eu de verdade me arrasto. Afinal, quantas são as formas de não se amar? Quantos não são os enganos de ser amor? Faço da vida inteira uma licença poética para ser livre, apesar das grades da prisão que enfeito e diariamente escolho. Sou prosador de incompletas verdades sobre mim, fazendo das mesas de bar meus mais bonitos palanques. Sou a flor que não se incomoda com seu espinho. Sou Igreja que permitiu morar o demônio. Se toda luz também sabe seu contrário; sou janela aberta ao reino do infinito, mas sem ninguém do outro lado. Vivo apenas no real dos teus olhos; sou aquele que desconhece a poesia. Sou uma distância entre o espírito e a verdade, e que pelos outros passa apressado e desapercebe o Amor que me cabe. Escrevo como alívio, pois eu sou a traição do real; faço juras em meu nome mas que nunca cumprirei. Sou um estrangeiro na própria casa; aceito elogios e olhares sem merecer. Gosto de ser aquilo que não sou o tempo inteiro. Sou a bipolaridade dos meus avessos. Sou a natural contradição de mim mesmo. Prazer, eu sou o Ego.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Platônica...

Sou meus cigarros à sua espera; sou meu café e mais dezenas de canais sem nada demais e que não me distraem. O que me resta hoje é uma madrugada infinita, insone e triste; em que vou preenchendo meus vazios e cultivando minha desmedida aflição, sem tuas palavras a me falar sobre a vida, sem tuas cores a brilhar os meus olhos, sem tua música para os meus ouvidos. Pois era você quem tanto se fazia presente aqui dentro a me distrair da vida lá fora. Tantos anos contigo e desde o começo você me encantou. Não te namorei porque isso era impossível, você bem sabe. O tempo passou e incontáveis foram os meus sorrisos, minha inteira entrega e fiel devoção. Os muitos problemas que tivemos nunca diminuíram minha admiração ou minha atração por você. És sedutora como jamais pensei que pudesses ser. E entre altos e baixos, agora era demais. O teu silêncio tornou minha casa insuportável. Tua ausência denunciou que eu não sei mais o que fazer longe de ti. Se você não retornar até amanhã, não saberei dizer o que será de mim, ou dos meus dias seguintes. Vou ligar para quem deva ouvir meu desespero. Gritar minhas ruínas. Exigir o tempo que não volta mais. A minha internet sem conexão. O atendimento ao cliente é péssimo.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Livro: A Ilha de um homem só.


Manual de desmantelamento dos desamores;
Um receituário de singelezas;
Um guia prático de amanhecimentos;
Breve tratado sobre as entrelinhas dos porquês do coração;
Compilação de iluminâncias contra as tristezas;
Um convite ao outro lado dos olhos em que mora Alma;
Uma vaga lembrança de carinho de vó;
Um vade mecum do encantatório;
Silencioso aconchego de praça;
Uma gostosa preguiça de férias;
Uma teoria geral sobre os sonhos;
Coleção de atrevidas coloridices para os eventuais cinzas dos dias;

Possível aos teus olhos, tua estante e às tuas mãos.
A Ilha pode ser sua!
O preço: R$ 30,00 + 6,00 (frete fixo) ou, troca-se por feijões mágicos.
A quem interessar possa, mande-me um e-mail.
Contato: guglicardoso@gmail.com
facebook.com/guglicardoso

terça-feira, 7 de maio de 2013

O teu engano...

Eu leio você. Talvez eu não saiba os detalhes do teu quarto ou o nome da tua irmã mais velha ou qual o teu livro favorito, mas eu sei de você. Você se desnuda no preciso instante em que me visto com as palavras. Você se entrega toda e inteira quando sou eu próprio a confessar. Eu leio você no momento exato em que você me lê. E trago uma trégua ao caos na ordem das linhas; dos sentimentos que te espremem e imprimem na Alma tua, marés em que sou versado leitor. Eu leio você como testemunha ocular dos teus próprios sonhos. Sou narrador dos capítulos que guardas na lembranças, sejam daqueles que carregas leve dentro do peito ou daqueles que gostarias mesmo de esquecer. Eu vejo aquilo que você mesma enxerga, mas não te julgo nem te condeno; no coletivo das palavras com que te identificas, você em verdade se liberta. Você gosta quando explico tuas dúvidas e vontades pelas exatidões confessas da poesia; quando declamo tuas duras certezas nas mansas linhas do papel; e lhe devolvo assim as levezas esquecidas no interior de ti; ou quando despeço tuas desesperanças como se soubesse cada uma pela cor e relembro você de amanhecer. Você busca nova página depois do Amor que não te visitou ou da felicidade que não vingou. Você busca alento e alívio no aconchego do poeta. Mas entenda meu amor, eu te verso e te encanto, mas não te canto, com as doçuras que te cercam acerca das palavras que careces, mas que me sobram. A questão aqui é que você se engana e se confunde ao pensar que sou destino, e não a ponte. Ao sentir que sou o príncipe, e não a trama. Por ler você, eu corro o risco. Por você me ler, te enganas. Porque são minhas palavras quem se dedicam ao público no palco das letras, e então você vê em mim o que nas palavras desejas, mas não sou eu minhas palavras. Eu me despeço delas em cada ponto final, mas você me leva junto pra dentro de ti pela porta que tua carência deixou aberta quando entrou. Você se apaixona pela imagem mas desconhece o espelho. Você se distrai e se enamora pelo personagem projetado na tela da sua vida. E eu sei das aflições que te consomem ou qual a nota do perfume do Amor que te alimenta, mas não te conheço. Tudo porque nossas ilusões e milagres apenas mudam de endereço, mas são feitos da mesma matéria de onde nasce a nossa Alma. Por isso, quando eu falo a mim, é você quem ouve. Quando digo nomes, você escuta o teu. Mas eu não sei quem você é e talvez eu nunca venha a saber. Eu te decifro, mas é bom que saibas: não tenho a mínima pretensão em te devorar. Ou ser devorado.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Pecados e parabéns...


"Quem gosta de abismos, tem que ter asas". 
(Friedrich Nietzsche)


"O que eu fiz com a minha vida?", foi pergunta que hoje calou meu sono. E eis a conclusão de inevitável e doída resposta: eu não sei! Até então fui uma coleção infinda de atalhos e planos "B", em que os meus sucessos até aqui foram quase todos de improviso. Aliás, eu sou por inteiro um improviso! Quantas mentiras não criei e não mantive vivas com a ajuda de outras tantas, a preservar precárias e moribundas felicidades? Sou uma deliciosa ilusão mas que não convence, uma promessa mal cumprida, rascunho genial que nunca saiu de um papel. Só eu sei o que reservei em mim para prosperar jardins e nobrezas, quando pouco me dediquei às sementes. Hoje, sou um descontente inverno que já soube ser primavera. Além das teorias de liberdade e práticos pecados, a mim me bastam as angústias todas por não-ser, pois tudo me pesa e me condena sem precisar sair do lugar. E não ter saído do lugar talvez seja mesmo a questão. Dispensei milagres para me satisfazer com cotidianos prazeres. Preguiças, cigarros, amores sem altitude, repetições de um mais do mesmo e zonas de conforto. Os excessos do corpo, vaidades e fugas da Alma. Eu sou a afirmação do que não acredito, um displicente estado de espera, visto que moro no intervalo entre o que fui e o que busco ser. E até agora, o que eu fiz? Apenas me enfeitei de inconclusões. Meus sonhos se resumem a uma colcha de retalhos do que me sobrou das vontades e ideias de menino. Sou um casulo de esperanças, mas sem data para estrear. Eu sou um péssimo ator de minhas verdades. Cara e coroa sem decisão, uma sorte em queda livre. Aguardo inerte e quieto que a Vida me arranque deste eterno sono em que caí, e me enfie goela abaixo alguma rua-sem-saída, uma profunda decepção que me destrua e me arrebate desta espera angustiada que não põe fim a si mesma e então, envergonhado, não consiga manter-me igual, correndo o risco de renascer. Enquanto isso, sou uma adiada vitória das minhas alturas, navegante orgulhoso de acasos, anestesiada Alma por qualquer distração. Hoje, peço à Vida ser abençoado e necessário abandono, para que o que restar de mim daqui pra frente seja a minha redenção, para que os amanhãs me acolham e me recebam outro, inteiro. Para que a próxima página esteja em branco e o coração, preenchido. Para que entre os meus erros, esteja também o meu próprio perdão. Entre os meus apertos, um horizonte em que lá eu honre os meus possíveis. Por isso escrevo, como prece, para acender luz, como pedido de absolvição da minha própria consciência; como pedido de renúncia dos medos que não me traduzem. Agora é o momento de reaver as asas. Por isso escrevo, como se aqui eu pudesse me confessar e me lembrar do que posso ser quando me sinto livre e amo; e do que posso ser ao me libertar naquilo que escrevo.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Transcendências...

Eu até então não havia parado para pensar na verdade oculta em frase de sabedoria popular que por vezes repetimos mas, plantar uma árvore, ter um filho ou escrever um livro são estilos de transcendência e jeitos de eternidade. Cada um destes três atos e atitudes são caminhos que nos revelam as distintas dimensões da nossa existência ante a Existência. Cada um deles busca nos significar nas dimensões da natureza, do Amor e das humanidades que nos constituem, dando-nos ainda que com um breve lampejo de consciência, o sentido e a razão da nossa própria vida diante do tempo, além da coerência e da harmonia latentes sob o estado de coisas aparentemente caóticas que, falsamente se apresentam como acasos, inconexas escolhas ou provisórios e menores objetivos da nossa história pessoal. Cada um destes verbos revela um sentido criador, que se confessa quando deixamos nosso habitual estado de criatura para nos revestirmos deste temporário e sagrado poder e, imersos no atemporal e no transcendente, trazermos à linha dos destinos, um significado que nos continue. Diante do inevitável fluxo do tempo e das coisas, o criador no ato de sua criatividade, a si mesmo se basta e ali se eterniza, dignificando a ação e sacralizando o estado em que se "é" enquanto se cria, mesmo que sua caminhada individual seja uma coleção de acidentes e permanentes e mundanos equívocos. Plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro são, entre alguns outros, degraus para a nossa completude, e permissão para um encantado estado de conceber e transmitir, em que nos tornamos um perene eco diante do infinito e do vasto, independentemente do fruto realizado.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Doces e cruas...

Caminhamos em círculos, pegamos atalhos, pulamos degraus, corremos contra o tempo, ficamos em cima do muro. Preparamos resposta, ensaiamos sorrisos, combinamos roupas e intenções, encaixamos nossos sonhos em planos e os planos na nossa falta de tempo, ou de dinheiro. Vendemos as horas do dia para comprar as horas da noite. Envenenamos o corpo e queremos libertar a Alma. Por hábito, cultivamos medos e mornos tons de cinza. Nos apegamos aos detalhes e perdemos o principal. De inúmeros jeitos nos poupamos e nos desperdiçamos, conforme doces ilusões ou as cruas verdades que carregamos. Até o amor em nós chegar...

terça-feira, 16 de abril de 2013

O Amor requer...

Levo o teu café na cama, para que não queimes tua mão lá na cozinha. Deixo-te em paz sozinha, para saudade tão logo aumentar. Levo você a caminhar, para que não te percas do caminho de volta. Escrevo-lhe verso e prosa, como razão para namorar. Vou ao cinema contigo, só pra te ajudar a entender a trama. Vou com você pra cama, a espantar seu medo bobo do escuro. Digo, canto, bordo e juro, se assim você me pedir. Repito: "eu jamais vou desistir", depois dos teus desvarios de humor. Elogio e aprovo com louvor, qualquer tentativa de receita sua. Quero você inteira nua, para me servir de cobertor. Beijo intenso a boca tua, para que discutir você não possa. Lavo, passo e cozinho, pra que a casa minha seja também a nossa. Usamos dos pretextos mais requintados aos mais descabidos, para se estar com quem tanto gostamos. O Amor requer, feliz, destes cuidados.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Bem-aventurados...

Bem-aventurados aqueles que namoram a clareza real das coisas, e que sabem no que verdadeiramente se descansa o coração: o sentir sereno nas marés de nós. Quando desaprendem os olhos a ver os confusos reflexos da vida, aí então passamos a enxergar mais além do nosso próprio tamanho. Assim, as 'verdades-de-nós' namoram com as maturidades que nos ensina o tempo, em que adormecer desnecessários medos e escolher melhor nossas batalhas serão inevitáveis escolhas apenas e quando a alma colecionar suficientes cicatrizes. Não alcança o céu a bela árvore sem antes doer sua semente. Cumpre ao amor em nós como fruto, afinar o nosso olhar, despreocupando-nos com o que somos fora para amanhecermos por inteiro dentro.

Os olhos diminuem o mundo. O amor o revela na alma.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Zodíaco...

Regido pela soma das minhas escolhas e não pelos signos do Zodíaco, lanço-me à exclusiva dedicação ao agora, este apertado espaço em que sozinha, saudade não arranja tempo para crescer, ou que sonhos recém-nascidos não alcançam velocidades para voar. O agora é lugar em que as dúvidas não se servem das paixões para nos amadurecer, e onde jamais saberemos nome de qualquer fruto ou das nossas razões para existir. Por isso, aqui, impeço dores com ausências, faltas com vazios e corro das saudades por não cultivar memórias. Evito rugas na Alma por não me permitir entre os sorrisos, chorar também. Assim, eu sou minhas estéreis e mudas certezas, pois nas inexatidões do amanhã que não habito, não sofro, porque não sinto. Talvez quando souber verdade de água, que se entrega aos contornos do tempo a se dessaber rio e se desaguar mar, eu venha a ter a sorte daquele que morre de Amor e arrisca ser feliz.