quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Crenças...

Buscadora de si, pisou na areia com pés firmes, abrindo mão dos falsos atalhos que escolhera. Navegou por toda sua vida de antes, com velas içadas a ser levada pelo sopro de outras vozes, ideias tantas e conselhos muitos. E assim, chegando onde não queria, alcançou lugar nenhum. Hoje era o primeiro dia de um ano inteiro a lhe revelar o novo e, entre todos os que lá estavam a contemplar céu colorido e beber champanhe, esperava ela sua primeira promessa do porvir vinda de dentro. Queria traduzir-se amanhã e depois em muitas versões de si mesma, a desmentir o velho triste e a colher próspero interior a florescer madurez. Cansada de levantar muralhas a cobrir o infinito das bençãos procuradas ou, de querer saber qual lado da moeda se irá mostrar, abandonou seus pedaços, seus cacos e suas crenças: pular sete ondas, acender sete velas, colher sete rosas, dar três pulinhos, notas no sapato, lençóis limpos, comer lentilhas, romã, uvas, folhas de louro; não mais entregaria ao destino a boa sorte. Agora, era ela a boa sorte a não mais esperar o mar lhe trazer conchas bonitas ou pedras opacas; resolveu decorar ela mesma de formas novas e cores outras a sua vida. Remaria contra a maré, mas com o vento a seu favor.

"Sorte é isto. Merecer e ter". (João Guimarães Rosa)



(Guilherme C. Antunes, vulgo "eu", em 05.01.2011)

sábado, 22 de dezembro de 2012

Feliz Natal...

Pai, verso esta oração pois Tu estás nas minhas mãos assim como eu estou nas Tuas. Vives Tu nas minhas palavras assim como em Ti eu também sou verbo. E nos meus olhos, és semente que confessa a cor dos frutos, o nome de um rio que se rende ao mar, o filho pequeno que abraça a mãe. Pela Tua palavra aprendi a respeitar o inverno, esperar pela primavera e aceitar minhas colheitas; aprendi a ser verão e a voar com as andorinhas. Abençoa-me como abençoas o grão-de-areia, o vento e as estrelas, pela igual oportunidade de habitar a Tua casa. E que o eterno em mim se anuncie, afastando o veneno do meu sangue, os espinhos das minhas flores, o egoísmo dos meus amores e as lanças das minhas mãos. Torna-me doçura quando eu souber ser só amargo; torna-me cura quando souber ser só destruição; torna-me descanso para vestir todos os meus sonhos e torna-me Amor, como resposta para cada pergunta da Vida. Conceda-me todas as sombras da floresta para eu caminhar com a minha própria Luz. E se eu cair, ferir, morrer, matar, sofrer, perder, errar; perdoa-me com o recomeçar, com o novo, com a coragem, com a gratidão por tudo aquilo que fui e pelo que ainda serei; e também com a certeza de que o Senhor é meu pastor, e nada me faltará. 


(Guilherme C. Antunes, vulgo "eu", em 'O Verbo...')

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Calendário...

Tem gente que passa o ano inteiro dormindo e só resolve acordar às vésperas do novo ano; talvez pra voltar a dormir novamente. Tem gente que depende somente da sorte e não das próprias escolhas. Tem gente que irá consultar a previsão do horóscopo, o I Ching, pular 7 ondas, pular num pé só, combinar cores e fazer simpatias como se isso traçasse seus novos caminhos, pois tem gente que vive das sempre mesmas promessas de final de ano. Gente que diz acreditar no amanhã apenas pra empurrar o hoje com a barriga. Tem gente que perdoa o imperdoável para continuar acreditando no amor. Gente que não sabe que a diferença entre crer e saber é a mesma entre muleta e a chave da prisão. Tem gente que se acostuma com adoçante ao invés de doçuras. Que acredita que uma folha a menos no calendário possa ser sua redenção. Ou que pensa que só o amor de alguém possa ser sua redenção. Tem gente que coleciona entulho a vida inteira pensando ser algo de valor. Tem gente que guarda dinheiro e deixa tudo no caixão. Gente que pensa ter a vida inteira e resolve deixar para depois. Tem gente que muito se acha quando na verdade nunca se encontrou. Gente vivendo de sonhos mesmo se alimentando de ilusões. Gente que diz saber do mundo e mal conhece suas solidões. Gente que se acostumou ser gado porque está bom assim. Gente que pensa que pensa e ao final não pensa nada. Somos viciados em tentativas e dependentes de recomeços, que se servem do tempo para nos amansar a pressa e enrugar a pele, partir a Alma e salvar os sonhos, pesar o corpo e libertar o peito, denunciar o Amor e reparar enganos, perder de vista tristezas, perder a conta das lágrimas e não poupar sorrisos, repousar nossas verdades no colo após o cansaço das vidas caminhadas. Ninguém é tanto tempo feliz por mais que queira, nem triste o tempo todo por mais que consiga.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Resoluções...

Aquele frio que lhe cortava a alma, era vento forte de tempo fechado ou desilusão dos sonhos bonitos de ontem? Pois, insensível aos apelos do porvir, andava cego às gentilezas da vida e surdo às do coração. Abrigou da dor, no seu colo, a própria vida. E cansado de ser mau jardineiro a pisotear as flores que o tempo um dia o brindou com sementes muitas, queria agora semear presença a adoçar sorrisos e curar feridas. Queria voltar a ser quem nunca foi e, aprender o que ainda não havia aprendido: saber que no palco da vida, ele é na verdade, seu único e próprio antagonista. Cansado de refletir tristezas; passou a espelhar em si, amor; passando com isso a cultivar o novo e com o novo, o bonito. E enquanto bonito, não permitir ir embora a esperança. Há ainda de reconstruir caminhos antigos por onde a serenidade trilhou; a denunciar pelas suas próprias confissões a sua fé e sua vontade de recolher por lá, amor hibernando a despertar faminto. Queria também trazer você pra perto e fazer do teu colo, confessionário. E dos teus olhos, o seu espelho; da paixão, o seu abrigo; e do céu, o seu telhado. Carregava consigo tantas vontades engarrafadas; a guardar em vidro bonito o teu carinho para aqueles momentos em que o cansaço mais chama o nosso nome. Salvar-se-ia de vez, daqui pra frente. E sem resoluções a fazer, ele só queria se olhar e descobrir quem ele era de verdade.

(Guilherme C. Antunes, vulgo "eu", em 16.12.10)

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

O dinheiro não compra a felicidade...

O dinheiro não compra a felicidade, mas alivia a infelicidade. O dinheiro não compra a felicidade, mas torna a infelicidade mais pura, livrando-a das distracções desconfortáveis, provocadas pela falta de dinheiro, que concorrem com ela, disputando prioridades. A felicidade está para o dinheiro como o riso para o meio de transporte. Há uma relação - mas estão apenas vagamente relacionados. Dito doutra maneira, é mais fácil estar-se triste quando não se tem dinheiro. A frase propagandística tem de ter alguma verdade para funcionar. Sim, o dinheiro não compra a felicidade - mas isso é uma frouxa máxima para quem tem dinheiro e, por causa disso, pensa que pode ser feliz.
.
.
.
(Miguel Esteves Cardoso)

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Mais um dia, menos um dia...

Mais um dia e um dia a mais. Um passo a mais e mais um convite aos teus passos. Mais um amanhã que no ontem nascido, no agora cresceu e tornou-se hoje. Graduou-se tempo. Mais um novo horizonte, escolhas e outras possibilidades. Menos um dia e um dia a menos no calendário. Menos das preocupações de ontem. Mais lembranças. Mais promessas. Menos tempo nesta terra para decidir ser feliz. Mais um inteiro de nós, menos um pouco da gente.

Mais um dia, menos um dia.