quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Da grandeza e dos mosquitos...

Gente amarga quando cansada do mundo na poesia se adoça. Gente apressada quando na poesia se descansa, ganha o tempo das eternidades. Poesia vive a deixar realidade em apuros; quando vivem os olhos desavisados das paixões e dos mosquitos, atentos apenas às grandezas muitas e quaisquer sombras. Assim, despreocupamo-nos do meio-tempo, no descaso do meio-termo, distraídos do meio-fio. Somos metades abrindo mão de nossos inteiros, ignorando os espaços todos que preenchem as ruas e a nossa vida. Aguardamos por feriados santos, imergimos na água, submergimos no tempo, naufragamos nos sonhos. Aquelas marés de dentro que nos anunciam vendavais, aceitamos sem salvação. Esqueceram-se os homens do carinho de suas sementes; acreditamos no horóscopo. Esqueceu-se o homem da cura dos seus olhares; preferimos os óculos.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Manoelito...

Um dia eu brinquei de ser Manoelito,
e do barro se fez o homem
e do homem a poesia.
Aprendi a ver no azul o canto dos pássaros
e na quina das mesas o encanto das coisas
Destreinei meu verbo letrado
que se encantou e amanheceu semente
passei namorar palavras
dormi de olhos atentos para nos sonhos
não me distrair das cores
Aprendi que infância não entende ponto final.
e desaprendi a amar, só para aprender a amar de novo
descobri que verso, valsa e vento são filhos dos olhos e da lua
Meu lápis é vocabulário de livro da própria vida.
Se o poeta tira da palavra o seu sustento,
faço hora-extra para a poesia.
Um dia pretendo me casar com ela.
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Palavrório tropeçoso metido (a besta) a dedicatória ao menino Manoel de Barros.
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"A voz de um pássaro me recita". (Manoel de Barros)

sábado, 24 de novembro de 2012

Preguiça...

De todas as paixões a que nos é mais incógnita é a preguiça. É a mais ardente e a mais maligna de todas, ainda que a sua violência seja imperceptível e que os seus danos se escondam. Se observarmos com atenção o seu poder, notaremos que ela se torna sempre mestra dos nossos sentimentos, dos nossos interesses e dos nossos desejos. Ela é a demora que tem a força para fazer parar os maiores navios, é uma calmaria mais perigosa para as grandes empresas do eu do que os bancos de areia e do que as maiores tempestades. O repouso dado pela preguiça é uma sedução secreta da alma, que pára de repente as lutas mais inflamadas e as resoluções mais obstinadas. Enfim, para se dar uma verdadeira ideia desta paixão, é preciso dizer que a preguiça é como que um estado de beatitude da alma, consolando-a das suas perdas e ocupando o lugar de todos os bens. 

(La Rochefoucauld)

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Ser-palavra...

Abençoados intensos que nos inspiram.
Labirintos que nos movem.
Becos que nos descrevem.
Excessos que de nós escapam e se derramam no papel.
 As marés-de-dentro ditam o curso de nossas palavras.
Quando nos afogamos nas letras, mergulhamos no mar da vida...

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Pés...

Somamos tantos medos que não mais lembramos 
exatamente 
pelo que tememos.
Assombramo-nos nas ondas de vida-morna 
que não descansa os pés.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Até chegar...

Por vezes, somos o que não gostaríamos ser;
Colhemos o que não deveríamos ter;
Colidimos com o que não queríamos ver.
Sofremos pelo que jamais pensamos um dia sofrer.
Somos soma incompleta.
Coleções de insucessos, incertezas, manias
angústias, faltas e sobras.
Até o Amor em nós chegar...

sábado, 10 de novembro de 2012

Tela em branco...

"Digo tudo isso porque sempre me assusta esse vão, essa impossibilidade. Principalmente entre nós. Havia entre nós, sempre houve, um desencadeamento de conclusões falsas, de mal-entendidos. Eu dizia sempre, mas para você ou era ontem, ou era noite ou era tarde. Então, ao dizer sempre, na verdade eu dizia: a mais profunda noite, o ápice da madrugada, sem saber, sem nunca saber o que eu dizia. Porque a verdade é que a gente nunca sabe, como era possível dizer tudo aquilo sem nunca saber? E era uma sensação constante, isso de poder criar a qualquer momento, algo inimaginável. Como alguém que tem dupla personalidade, ou alguém que, à medida que vai se pronunciando, imediatamente vai esquecendo as palavras e vive sempre na iminência de uma tela em branco. E eu andava apreensiva achando que, a qualquer momento, alguma coisa aconteceria. Alguma coisa sempre acontecia".
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(Carola Saavedra)

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Meu bolso esquerdo...

Sabe Alma, ontem eu não tive tempo pra nada, já que o meu dia não soube fazer outra coisa além de cobrar minha presença nos seus mais insignificantes detalhes e ocasiões. Foi o tempo de chegar em casa, jantar qualquer coisa que não combinasse com minha preguiça, ler um trecho do meu livro de cabeceira e ir dormir. Ou melhor, adormecer. Eu adormeci lendo, com as luzes acesas um pouco antes das dez. Que delícia Alma, me despedir da noite sem me preparar pra isso. Acordei melhor do que todas as noites anteriores que não terminaram assim (aquelas todas em que ensaiei hora certa pra me desligar do mundo). Acordei mais inteiro, mais meu nome e menos as outras coisas, menos lado de fora. Acordei mais precisado de mim, e mais satisfeito também. Acordei tão descansado por não ter lutado com o sono, por não ter lutado contra o ritmo que eu escolho não ver, ouvir, não sentir, não viver, perdido entre as tantas distrações e estímulos a minha volta. Não ter lutado foi a minha conquista. Hoje eu resolvi acordar mais eu mesmo, sem na verdade resolver ser eu mesmo. Taí a sacada. Acordei resoluto em minha existência. Mas não todo. Eu quero me encontrar comigo mesmo de uma vez por todas mas ainda não combinei horário. Não marquei lugar. E confesso, adio pelo medo de me perder pelo caminho. Tenho medo também de atrasar. De errar a esquina de mim que ainda não decidi encontro. E não sei porque insisto em não esbarrar comigo em qualquer lugar que seja, e aí então me dar um abraço daquele de esquecer do mundo e sermos os dois, um: um inteiro! Teimo ainda em agendar o dia deste encontro comigo mesmo, no meu calendário. "Amanhã" é quando normalmente marco, mas eu sempre adio. Hoje Alma, em que sou o que não era até antes de dormir, quero acreditar que o amanhã seja mesmo amanhã; no qual as coisas possam ser mais minhas. Não que elas realmente sejam, porque descobri a duras penas que nada é. Mas que eu possa ser senhor do meu próprio olhar para elas, e que elas não me arrastem como as paixões arrastam o bom-senso. Que eu tenha, enfim, em minha posse o equilíbrio. Aquele que acredito, estar no bolso esquerdo de mim, no casaco de mim, que uso para me esperar. Naquela esquina e naquele amanhã que lhe disse, só não sei que horas ou lugar.

sábado, 3 de novembro de 2012

Dias zangados são dias de amor...

Raios partam os dias zangados. Nada há que se possa fazer para fugir deles. Esperam por nós, como credores ajudados por juros injustificáveis, para nos cortarem a fatia do nosso coração que lhes cabe.

Não são como os dias tristes, que não conseguem habituar-se a uma realidade qualquer, que se revelou, sem querer, desiludindo-nos de uma ilusão que nós próprios inventámos, para mais facilmente podermos acreditar, falsamente, nela. Mas assemelham-se para mais bem nos poderem magoar. Depois. Quase ao mesmo tempo. Bem.

Quem não tem um dia zangado, em que ninguém ou nada corresponde ao que esperávamos? A felicidade é a excepção e o engano. Resulta mais de um esquecimento do que de uma lembrança.

Pouco há de certo neste mundo. São muitos os pobres, mas não são poucos os ricos. As pessoas do sexo masculino não se entendem nem com as pessoas do sexo masculino, nem com as do sexo feminino. As pessoas, sejam de que sexo e sexualidade forem, compreendem-se mal. Dão-se mal, por muito bem que se dêem. As mais apaixonadas umas pelas outras são as que menos bem aceitam as diferenças, as incompreensões, os dias zangados e as noites zangadas que apenas servem para nos relembrar que todos nós nascemos e morremos sozinhos. E que viver é um enorme entretanto, de que devemos tirar partido, sobretudo quando há a sorte de amar e ser amado ou amada. Os dias zangados são dias de amor. Ninguém se zanga por desamor. O amor sobrevive e continua, como vingança.

(Miguel Esteves Cardoso)