quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Lata...

"Talvez um dia eu seja uma pessoa mais equilibrada. Dessas que não se abalam tanto com os problemas. Que sabem administrar com inteligência a maioria das situações. Mas, por enquanto, confesso que não consigo. Basta uma coisa dar errado para estragar todas as outras. Um desequilíbrio literal. Imagino meu humor como uma pilha de latas em um corredor de supermercado. Estão todas lá: umas em cima das outras. Organizadas. Alinhadas. Aí vem uma criança teimosa e tira uma das latas de baixo. A do meio! E, em dois segundos, está tudo no chão. Era impossível que continuassem de pé sem aquela lata".
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(Eduardo Baszczyn)

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Mensaleiros...

Há uma ilusão nossa neste entusiasmo nacional pela punição dos mensaleiros pois, absolutamente nada do que ocorreu no mensalão foi para o proveito pessoal de Dirceu, Genoino ou de quem quer que fosse. Há um esquema dentro de uma estrutura em que forças políticas se aproveitam, muito maior a ser combatido além das acusações criminais de corrupção contra indivíduos. Por isso se faz essencial sabermos qual a função estratégica do mensalão dentro do projeto de poder do Partido dos Trabalhadores. E aí o povo celebra a condenação dos corruptos! Quantas vezes ao longo destes últimos anos nós passamos celebrando? Collor, Maluf, ACM e tutti quanti onde cada vez, dizemos ser um marco histórico para um novo país e uma nova festa da democracia. Quantos marcos históricos! A corrupção na nossa sociedade já é tamanha que nosso padrão de julgamento moral está lá no chão. Ainda que o Min. Joaquim Barbosa tenha cumprido exemplarmente com sua obrigação, queremos fazer dele o Presidente da República. O que deveria ser feito de ofício, tornou-se heroísmo na terra da banana. Precisamos rever muita coisa por aqui...

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Atrasos...

Sinto como se eu fosse tão-somente um rascunho, um vir-a-ser, um amanhã que não se é, e um ontem que nunca mais voltará a ser. Sinto como se vivesse perdendo tempo por ser uma soma de deslizes, planos feitos da soma de meus retalhos. Vivo na angústia de não saber se a escolha que não fiz pudesse ser a melhor, onde o final daquele caminho que não trilhei me aguardasse sempre a felicidade. Sinto como se estar "lá" pudesse ser melhor do que estar "aqui". E me incomodo apenas por não ser outro que não eu, devorando-me numa perda de tempo e numa perda-de-mim. Sinto que a maioria dos meus passos me atrasam e me levam pra longe de qualquer lugar onde eu deveria ir ou estar, e que as escolhas que fiz me prendem e jamais me libertam, pelo medo que cultivo em cativeiro. Sinto, sinto muito. Mas não aceito, enquanto também me resigno com minhas prisões e com meu dia-a-dia de repetições tantas que não se cansam de ser. Guardo poucos sorrisos na agenda. Aguardo a vida nas minhas impaciências. Eu namoro com as minhas frustrações sem ninguém saber.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Seja como...

Antes de se preocupar em fechar janelas 
ou jogar a roupa pra fora do varal, 
veja se você vai estar bem, 
seja como brisa 
ou vendaval.

sábado, 20 de outubro de 2012

Desastre...

"Minha vida é um desastre, mas ninguém percebe porque sou educado. Eu sorrio o tempo todo. Sorrio porque penso que se esconder, minha dor desaparece. E, de certa forma, isso é verdade. Basta ser invisível para que ela não exista, já que vivemos no mundo do material, do visível, do verificável. Minha dor não é física, ela esta bem escondida. Eu sou um negador de mim mesmo".

(Frédéric Beigbeder)

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Sapatilha...

Quando seus pés calçavam as sapatilhas, não sabia mais do seu nome ou de sua plateia. De olhos fechados e ela era a própria dança - e não mais a dançarina - quem se entregava diante da música e também do silêncio dos seus convidados. Quando lua morena despontava no céu, de doce cabana saia chorosa, com os pés descalços em busca do mar. Era jeito dela de andar em paz com sua solidão. Quando o sol lhe convidava a despertar, era de sapato e coração apertados, que saia de casa para conseguir espaço na própria vida e uma folga das suas dívidas. E de volta pra casa com seu salto fino nas mãos, via então o seu tamanho e seu lugar diante do mundo. Ainda que tantas versões de si pudessem escolher as cores, os preços, os modelos e os tamanhos dos seus sapatos, eram as ocasiões - e também os acasos - quem definiam seus passos. Era o seu coração quem de verdade caminhava, até que resolveu parar, cansado da caminhada.

domingo, 14 de outubro de 2012

Infelicíssima...

"Eu conheci razoavelmente bem Clarice Lispector. Ela era infelicíssima, Zézim. A primeira vez que conversamos eu chorei depois a noite inteira, porque ela inteirinha me doía, porque parecia se doer também, de tanta compreensão sangrada de tudo. Te falo nela porque Clarice, pra mim, é o que mais conheço de grandioso, literariamente falando. E morreu sozinha, sacaneada, desamada, incompreendida, com fama de “meio doida”. Porque se entregou completamente ao seu trabalho de criar. Mergulhou na sua própria trip e foi inventando caminhos, na maior solidão. Como Joyce. Como Kafka, louco e só lá em Praga. Como Van Gogh. Como Artraud. Ou Rimbaud. É esse tipo de criador que você quer ser? Então entregue-se e pague o preço do pato. Que, freqüentemente, é muito caro. Ou você quer fazer uma coisa bem-feitinha pra ser lançada com salgadinhos e uísque suspeito numa tarde amena na Cultura, com todo mundo conhecido fazendo a maior festa? Eu acho que não. Eu conheci e conheço muita gente assim. E não dou um tostão por eles todos. A você, eu amo. Raramente me engano." 
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(Caio Fernando Abreu)

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

O teu dia...

Estas palavras são dedicadas a você que sonha; que gosta de dormir bastante e rir com seus amigos. Estas palavras são pra você, que crê em algumas coisas e tem medo de algumas outras. Pra você que já chorou por motivos bobos até. Pra você que já fez cara de bravo e muita careta. Que gosta de misturar cores no que alimentam teus olhos. Que não sabe ao certo qual o limite do horizonte. Estas palavras são pra você, que sabe que egoísmo é coisa feia. Que sabe do valor das singelezas e que acredita no poder do invisível. Pra você que gosta de férias e de abraços. Que canta junto com a música e que gostaria que algumas coisas durassem para sempre! Estas palavras são pra você, que sempre irá escolher as coisas doces, a maciez e as gentilezas na tua vida...

Feliz dia das crianças!

terça-feira, 9 de outubro de 2012

A nossa própria voz...

(...) e nos orgulhamos pela sabedoria de nossos próprios conselhos enquanto lamentamos não ter aprendido a caminhar por entre os vales de nós. Aprendemos a exorcizar os demônios, mas não a amar o próximo. Não atravessamos o luto por festejarmos nossas distrações. Implicamos com o espelho quando desnudos. Tagarelamos para não ouvirmos a nossa própria voz. E nos agarramos à dúvida ao invés de escolhermos certezas ainda maiores. Tudo porque, não temos certeza de nós, não temos certeza de nada.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Sobrenome...

Amo quando não espero e aí sou encontrado;
Quando sou surpreendido pelas minhas próprias palavras,
que nascem dos meus olhos de espanto 
e que manhosas se despertam comigo e em mim
e tomam forma nas minhas mãos
ou ganham cores na minha boca...
...cada uma delas com o sobrenome da poesia.