sábado, 29 de setembro de 2012

Interpretatio...

"A poesia se serve da palavra para interpretar os silêncios mais bonitos de nós..."

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Uma crítica que nos cabe...

Não me recordo de quem é a frase: "A hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude". Se há época na qual o homem mais demonstra suas baixezas, esta época é conhecida como "ano eleitoral". Pelos debates e acusações, farpas, evasivas, incoerências e antecedentes, vê-se que não nos sobra muito, pois ou anulamos o voto ou votamos no menos pior. O país, ou melhor, a maioria de nós, ainda não acordou; embriagados pelas distrações cotidianas ou incapazes pela nossa falta de instrução. Aqueles que nos representam são também a nossa permissão e conivência, quando não conveniência, fruto nosso em nosso ventre, a representarem crenças e promessas que não nos servem mais. A crítica aqui não diz respeito a eles, mas a todos nós que seja por erro, insuficiência, preguiça, omissão ou mesmo imoralidade, reforçamos querendo ou sem querer o velho ditado: O Brasil é o país do futuro. (E que sempre será!) Mas quem sabe lá, neste futuro e numa próxima eleição, tomemos um engov e um pouquinho de vergonha na cara.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Parabéns!

Traíste-me com a versão mais bonita de mim mesmo, 
e meu Amor se fez amante. 
Acusaste-me no tempo não te saber desde o sempre, 
e meu Amor se fez imenso.
Por culpa dos teus erros, corrigi os meus.
Por todos os teus amargos, aprendi contrários.
Partiste minha Alma inteira para então juntá-la,
e fazê-la ainda maior que a soma de minhas partes.
Hoje sou palavra a lhe dizer de gratidão,
pois são teus dias que anunciam a minha sorte.
São tuas velas que meu caminho alumiam.
É o teu sopro quem me dá vida e brinda-me as cores.
Quando oculta sob meus maus presságios,
anuncia-me doçuras.
Quando atenta aos meus sintomas de boicote,
ensinas tu sobre o perdão.
Eu te amo porque não houve a mim escolha,
obedeço a todos os teus frutos...
Por ti sou aquele que celebra o nascer e o poente.
E entre tormentas e invernos,
é você a trazer verão pra dentro de nós.
Contenta-me as mãos a lhe desejar muitas sementes.
Sou feliz ao crescer contigo e em ti.
Alegro-me no teu ano novo por renascer em mim também.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

O nada...

"Durante todo este tempo não escrevi nada. Não havia escrito nem estava escrevendo nada. Não havia nada dentro de mim que precisasse ser escrito. Nada precisava de qualquer palavra e não havia palavra alguma dentro de mim que não pudesse ser dita e consequentemente não havia palavra alguma dentro de mim. E eu não estava escrevendo. Comecei a me preocupar com identidade. Eu sempre fora eu porque tinha palavras dentro de mim que precisavam ser escritas e agora qualquer palavra dentro de mim poderia ser dita e não precisava ser escrita. Eu sou eu porque meu cachorrinho me conhece. Mas será que eu era eu quando eu não tinha nenhuma palavra escrita dentro de mim? Isto era muito chato. Algumas vezes pensei em tentar mas tentar é morrer e assim na verdade não tentei. Não estava escrevendo nada".
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(Gertrude Stein)

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Demoras...

"O amor nos condena: demoras mesmo quando chegas antes. Porque não é no tempo que eu te espero. Espero-te antes de haver vida e és tu quem faz nascer os dias. Quando chegas já não sou senão saudade e as flores tombam-me dos braços para dar cor ao chão em que te ergues. Perdido o lugar em que te aguardo, só me resta água no lábio para aplacar a tua sede. Envelhecida a palavra, tomo a lua por minha boca e a noite, já sem voz se vai despindo em ti. O teu vestido tomba e é uma nuvem. O teu corpo se deita no meu, um rio se vai aguando até ser mar"
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(Mia Couto)

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

A Arte de amar...

"O capitalismo moderno necessita de homens que cooperem sem atrito e em amplo número; que queiram consumir cada vez mais; e cujos gostos sejam padronizados e possam ser facilmente influenciados e previstos. Necessita de homens que se sintam livres e independentes, não submissos a qualquer autoridade, ou princípio, ou consciência — e contudo desejosos de ser mandados, de fazer o que se espera deles, de adequar-se em fricção à máquina social; que possam ser guiados sem força, dirigidos sem líderes, impulsionados sem alvos — exceto o de produzir bem, estar em movimento, funcionar, ir adiante. Qual é o resultado? O homem moderno é alienado de si mesmo, de seus semelhantes e da natureza. Transformou-se num artigo, experimenta suas forças de vida como um investimento que lhe deva produzir o máximo lucro alcançável sob as condições de mercado existentes. As relações humanas são essencialmente as de autômatos alienados, cada qual baseando sua segurança na posição mais próxima do rebanho e em não ser diferente por pensamentos, sentimentos ou ações. Ao mesmo tempo que todos tentam estar tão próximos quanto é possível dos demais, todos se sentem extremamente sós, invadidos pelo profundo sentimento de insegurança, ansiedade e culpa que sempre ocorre quando a separação humana não pode ser superada. Nossa civilização oferece muitos paliativos que ajudam as pessoas a se tornarem conscientemente inconscientes dessa solidão: antes de tudo, a estrita rotina do trabalho mecânico, burocratizado, que as auxilia a permanecerem sem conhecimento  de seus desejos humanos mais fundamentais, da aspiração de transcendência e unidade. Como a rotina, por si só, não o consegue, o homem supera seu desespero inconsciente através da rotina da diversão, do consumo passivo de sons e visões oferecidos pela indústria do divertimento; e, além disso, pela satisfação de comprar sempre coisas novas e de logo trocá-las por outras. E divertir-se consiste na satisfação de consumir e “obter” artigos, panoramas, alimentos, bebidas, cigarros, gente, conferências, livros, filmes — tudo é consumido, engolido. O mundo é um grande objeto de nosso apetite, uma grande maçã, uma grande garrafa, um grande seio; somos os sugadores, os eternamente em expectativa, os esperançosos — e os eternamente decepcionados. Nosso caráter é engrenado para trocar e receber, para transacionar e consumir tudo, os objetos espirituais como os materiais, torna-se objeto de troca e de consumo".
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(Erich Fromm. A Arte de amar.)

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Imenso...

Quem sou eu quando fecho os olhos? Quais vestes trago eu aos encontros? Quais os sonhos de infância são os frutos de hoje? Quais máscaras uso quando não é mais carnaval? O que sou quando me sobram apenas palavras? Quem sou eu quando me entrego? Quando não estou? Porque ando me sabendo pelas ausências, e também pelos silêncios. Na minha coleção de avessos, qualquer coisa que eu diga abriga o incerto, o contrário, o relativo, o inverossímil; e o meu não-dizer é absoluto, certo, inconteste, inapelável. Quando não digo, concedo aos meus pés o direito às possibilidades. Por isso, quando algo me perguntam respondo apenas como reação. Eu só falo por rebeldia, como uma força que me empurra e me arrasta quando não quero tomar postura nem posição. Falo por necessidade quando nada quero dizer. Falar me limita, encolhe e prende, e eu sou imenso, gigante e vasto. Sou fruto de todo o meu passado que não consigo demonstrar, todo meu sentir que me é impossível traduzir, todo um infinito que me é descabido explicar. Com as palavras que tenho, do oceano só a gota posso apontar. Melhor então viver nos bastidores das entrelinhas, nas sutilezas dos detalhes, nas cores do invisível, na intensidade do simples, na importância do sereno, numa entressafra de possíveis amores e sementes. Sou plural, coerência e loucura na mesma cura, cegueira e altura num mesmo par de olhos que sabe ser a vida incógnita, quando não tumulto e multidão. E confuso, vivo sentindo torções na Alma, ansiedade de parto, angústia da morte e do renascer; sintomas de quem não sabe cuidar do próprio jardim e cabe ao tempo cobrar meu florescer. Tornei-me hábil com as letras, quando queria era ser honesto ao dizer que a gente mais ensina aquilo que precisa aprender. Mas é o silêncio quem (me) diz e eu só digo por não saber, por querer me distrair e cobrir meus enganos, os meus vazios todos com palavras. Queria era ser prático com o coração, sabendo melhor minhas cirandas e encantos, milagres, carinhos, paixão ou caminhos que possam me desnudar no espelho da Alma.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Companheira...

"É possível que a morte em si não seja uma necessidade biológica. Talvez morramos porque desejamos morrer. Assim como amor e ódio por uma pessoa habitam em nosso peito ao mesmo tempo, assim também toda a vida conjuga o desejo de manter-se e o desejo da própria destruição. Do mesmo modo como um pequeno elástico esticado tende a assumir a forma original, assim também toda a matéria viva, consciente ou inconscientemente, busca readquirir a completa, a absoluta inércia da existência inorgânica. O impulso de vida e os impulsos de morte habitam lado a lado dentro de nós. A morte é a companheira do Amor. Juntos eles regem o mundo".
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(Sigmund Freud)

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Vidas e Mortes...

"Projetos, os contingentes.
Prazeres, os transparentes.
Amigos, os loucos.
Inimigos, os poucos.
Cores, o rubro.
Meses, outubro.
Elementos, os fogos.
Divindades, o Logos.
Vidas, as nossas.
Mortes, as deles"
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(Bertolt Brecht)

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Idioma...

"E, no meio de tantas mudanças, muitas rupturas. Algumas coisas foram encaminhadas pro novo destino, outras se perderam irremediavelmente. O que sobrou posso contar nos dedos, antes eu mal conseguia fechar as gavetas tão abarrotadas de coisas, pessoas, lembranças. Mas o que houve afinal, além de um processo íntimo, pessoal, intransferível? Uma mudança externa também, porque há sempre um desconforto em quem se acostuma com o nosso comportamento mais antigo. E além de lidar com o luto da morte do que éramos, ainda o estranhamento dos que não aceitam o que nos tornamos. Porque mudam os gostos, a disposição e os planos. E alguns reagem como se você os tivesse abandonado no meio de uma viagem a dois por outro continente, quando só você sabia falar a língua local mesmo que os impedisse de aprender o idioma..."
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(Marla de Queiroz)

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Que...

"Que os meus instantes de egoísmo se desmanchem cada vez mais rápido. Que as minhas expectativas não sejam maiores do que a intenção de que o outro esteja tranquilo. Que a paz que ele possa experimentar seja sempre um perfume que acenda a minha alegria. Que o seu conforto seja também um motivo que continue inspirando os meus gestos mais doces e amigos. Que nenhum gesto meu aperte o seu coração, intimide o seu riso, acorde o seu medo, machuque a sua espontaneidade. Que as minhas vontades pequenas sejam dissipadas pela lembrança do quanto a sua felicidade me importa. 

Que ele saiba que, invariavelmente, pode contar comigo, nos tempos de celebração e na travessia das longas noites escuras. É dele também a minha mão. É dele também o meu abraço. É dele também a minha escuta. É dele também o meu olhar amoroso. É dele também os meus melhores sorrisos. Que ele entenda que eu não me desapontarei com a sua humanidade, com as suas dificuldades, com os seus territórios feridos, como, com o mesmo acolhimento, não me desaponto com os meus. Que tenha certeza de que eu quero muito que seja livre, saudável, contente; que seja. Que tudo aquilo que o preocupa, o desassossega, o faz sofrer, por Deus, seja logo transformado, assim como tudo o que o torna feliz seja mais e mais abençoado. Que alcance toda expansão que busca, todo voo que vislumbra, e possa sempre se lembrar de que é capaz de vencer os mais assustadores e impermanentes limites.

Que quando todo dia acordar e deitar pra dormir, ele ouça eu dizer o seu nome baixinho nas minhas preces, e sorria por isso daquele jeito bonito. Que, não importa o tamanho da distância, nunca esqueça que o fato de existir mudou pra sempre a minha vida e que o mundo me pareceu muito mais bacana depois que descobri que existia. Que se saiba amado muito além do de vez em quando, do por causa de, do se. Que se sinta amado como é, não interessa com que cara a circunstância esteja. Que se sinta amado simplesmente porque é. Que tenha paz. Que tenha paz. Que tenha paz. Ah, é claro, que tenha paz e e acesso à alegria mais sincera também. Amém".
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(Ana Jácomo)

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Brilhante...

"Eu sei. Quem não é uma pessoa comum? É horrivelmente pretensioso querer ser qualquer outra coisa. Mas tenho de dizer para você. Eu fui tratado como uma coisa especial durante tanto tempo e tentei o máximo possível ser uma coisa especial, só que não sou, não sou excepcional, sou inteligente, sim, mas não sou brilhante e não sou espiritual, nem assim tão focado. Acho que consigo aguentar isso, mas não tenho certeza se as pessoas à minha volta conseguem".
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(Michael Cunninghan)

terça-feira, 4 de setembro de 2012

A casa...

"O lugar do homem, a "casa do homem", é a ausência. Seu hóspede constante, esse estranho familiar: a Angústia. Estamos sempre a meio caminho de lugar nenhum. A meio caminho entre a coisa e a palavra. Entre o gozo e o desejo. A realidade e a fantasia. Entre a morte e a vida. Sempre pelas passagens, atravessando abismos, encruzilhadas, sem porto seguro. Não sabemos de onde viemos, tampouco para onde iremos. O percurso, essa tragédia/trajetória, uma incógnita. (...). Somos, de fato, como aponta Lacan, uma ponte "...uma constituição criada e criadora de vazios".
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(Olga Sá)

segunda-feira, 3 de setembro de 2012