terça-feira, 31 de julho de 2012

Escrever é isto...

“Escrever é isto: comover para desconvocar a angústia e aligeirar o medo, que é sempre experimentado nos povos como uma infusão de laboratório, cada vez mais sofisticada. Eu penso que o escritor com maior sucesso (não de livraria, mas de indignação social profunda) é aquele que protege os homens do medo: por audácia, delírio, fantasia, piedade ou desfiguração. Mas porque a poética precisão de um acto humano não corresponde totalmente à sua evidência. Ama-se a palavra, usa-se a escrita, despertam-se as coisas do silêncio em que foram criadas. Depois de tudo, escrever é um pouco corrigir a fortuna, que é cega, com um júbilo da Natureza, que é precavida.” (Agustina Bessa-Luís)

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Doçura...

Você é tão deliciosa 
quanto uma jujuba vermelha
 toda açucarada e que, 
como por encanto
aparece nas mãos de um menino desesperançado
 em frente a uma vitrine 
de uma loja de doces.

terça-feira, 24 de julho de 2012

O Rei-filósofo...

Houve uma época esquecida na distante noite dos tempos, reino em que a voz escondia o que o rosto mostrava. Um reino em que os cálculos mais perigosos eram as nossas ilusões e, que a lua dizia o que no céu se ensinava. Pois neste reino vivia um sábio. Um jovem sábio que versava sobre o acaso se parecer conosco; que sobre as coincidências dizia ser a lógica de Deus; que no auge do saber aconselhava ouvir as criancinhas; e que negava ao futuro o direito de nos fazer sofrer. E no alvorecer conquistado por sua Alma, tornou-se o Rei-filósofo daquele reino; que decretou sorrir ao invés de se curvar; que aconselhou perdão ao invés de incriminar; que lecionou às pedras a verdade dos castelos e aos porcos o sabor dos banquetes. E quando velho Rei se tornou, sentiu no peito a dor do reino que nunca cumpriu seus mandamentos. O velho Rei ali chorou; e chorou demais a se tornar riacho a desaguar no nunca mais. Mas quando esperança era apenas o amanhecer entre as montanhas, um novo sábio por lá apareceu. Que dizia ser gratidão nossa semente, a caridade mestra da razão, e que o homem nunca possuirá o Amor, mas aquele pelo Amor será sempre possuído. Liberdade era sombra e o cajado do novo sábio que por lá professava. Assim, sentiu-se o Rei ressabiado e dessabido pelo esquecer, quando ignorou que os outros, a Verdade jamais poderiam obedecer. Abriu mão do cetro e da coroa, perdeu-se ao se encontrar. Verdade voltou a namorar, quando suas leis deixou de prescrever. 

"Busquemos como buscam os que ainda não encontraram, e encontremos como encontram os que ainda buscarão”. (Santo Agostinho)

sábado, 21 de julho de 2012

Crônica...

O ato de escrever para seu escritor é um tratamento contínuo para um sofrer crônico: sentir.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Passarinho...

Palavra é passarinho...
que nem sempre sai do ninho,
que nem sempre sai do chão,
que nem sempre alcança o céu.
Palavra é coração...
vez ou outra se revela pro vizinho,
vez ou outra se é silêncio num cantinho,
vez ou outra se derrama no papel.
Palavra é querubim...
...o milagre de fazer semente o seu jardim.
O verso que não dá à poesia um triste fim.
Que diz quando não digo, 
qualquer coisa sobre mim.


"Tenho em mim esse atraso de nascença. Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos". (Manoel de Barros)

segunda-feira, 16 de julho de 2012

O próximo...

Sem então notarmos... 
a falta se dissolve. 
O problema se resolve;
a saudade se consome;
o coração volta com fome;
e o próximo terá nome...
... a completar o teu também.

domingo, 15 de julho de 2012

Multidões...

"E por que esse meu desejo de ser lido por poucos? Porque pretendo falar de algo que não se deve falar para multidões. A delicadeza, a sofisticação da alma, o amor ao detalhe e a vontade de entender não são atributos das multidões, e aqui reside grande parte de toda a miséria moderna, ser um mundo de grandes números, dedicado a muitos idiotas". (Luiz Felipe Pondé)

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Experimentações...

De olhos fechados, onde estarão os limites mas onde estariam os caminhos? De ouvidos tampados, quais seriam os ruídos mas quais seriam as canções? Inconsciente no meu sono profundo, o que saberia eu da luz do dia? O que seria do real sem o efeito e a força das nossas próprias ilusões? Não sobrevivemos tanto ao amor como a aridez dos desertos, seja por nós mesmos ou pelo outro? O medo é um convite que se recusa, olhos que não despertam, braços cruzados, abraços não dados, lembrança não vivida, um alto muro construído, calendários rasgados e também a esperançosa sombra do nosso destemor. Carrega assim o homem a medida dos seus contrários, pois a vida é palco das alternâncias necessárias às experimentações da alma, que através delas se reconhece e inclina-se a escolher versão mais sublime de si, após atravessar suas tensões.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Sobre conhecer...

A ação de conhecer envolve duas dimensões no próprio ato do conhecimento: aquele que repousa seus sentidos naquilo que se conhece. O que conhece e o conhecido; o que sabe e o que é sabido. O conhecer é o laço que revela e aproxima; é ponte entre sujeito e objeto, imersos na realidade mesma em que conheço. E ponte só é ponte para unir aquilo que separado se encontra. O amor não é conhecimento, mas uma absorção. É a dissolução dos papéis de sujeito e objeto; pois que é uma expansão que une aquele a este; assim, um é em dois e os dois são em um. O ente amado se faz presente naquele que ama. O sujeito perde a referência e suas razões. O objeto, os seus limites. Um dançarino ao dançar se confunde na própria dança, e a dança só é viva no próprio dançarino. Ao sumir um, o outro inevitavelmente desaparece, e vice-versa. Ambos se fazem presentes no amor. Sendo assim, o amor não é um conhecer, tampouco um conhecimento, mas uma presença. Uma presença que sabe por ser e estar ela mesma, presente no que é amado e no amor mesmo. Por isso a razão de nos perdermos por inteiro quando perdemos quem amamos, ou de nos encontrarmos por inteiro no amado quando o amor nos acontece. A lógica no amor só vai até a página dois de nós. E talvez não viremos nunca a entender o amor, restando-nos apenas vivê-lo. Eu vivo em nós e em nós eu sei aquilo que o amor é. Eu conheço a tua forma, teu cheiro, teus gostos, teu nome e todos os outros detalhes. Mas eu sei você porque te amo. O amor dá-nos a real percepção sobre a vida.



"Quem ama extremamente, deixa de viver em si e vive no que ama". (Platão)

sábado, 7 de julho de 2012

Sublime...

Você que pensou ser maior que o próprio destino e declarou independência das tuas responsabilidades. Que confiou na direção da dúvida e que jamais suspeitou de si mesmo. Você que um dia amou, mas vingou todas as suas dores. Que nunca soube fazer dos teus erros, apenas remédio amargo. Você que celebrou o que não era para ser celebrado. Que esqueceu a glória ser manto feito pelas tuas palavras e atos através da História. Você que um dia modelo sublime de arcanjo e fiel exemplar de demônio nunca soube dos teus olhos, mas hoje desafia o espelho da tua própria consciência. Escuta: ainda é tempo. A verdade é terra sem caminhos em que teus passos são todos bem-vindos. Aceita o inevitável curso do rio ao mar e abençoa a nascente, mesmo que o rio todo se perca na sua foz. Anuncia a vitória da luz sobre a escuridão, e o Amor sobre todas as paixões. Aprenda que a queda não se dá apenas para as folhas no outono; e que é possível cair pelas virtudes e levantar pelos próprios pecados. Cultiva teus laços e desfaz tuas amarras. Busca dissolver teus medos por conquistar o reino e a benção da sabedoria. Caminha firme pelas tempestades, certo de que as nuvens se dissolvem ao sabor do próprio vento, a também moldar a areia e as rochas do planalto. Saiba assim que as mudanças são filhas do tempo. Por isso trabalha a paciência e descobre que o prazer do jardineiro se encontra, na verdade, no perfume das suas flores. E que o véu das formas esconde aquilo que jamais se modifica. Ouça Alma que canta ser o coração a mãe de todas as singelezas, e a vaidade, pai de todas as mentiras. Abandona o sentido de perfeição, posto que ela é horizonte que nunca chega. E pela impermanência dos dias e das fortunas, das tramas e das ruínas, das conquistas e dos teus problemas, saiba que o eterno mora no céu; porque na terra no final das contas, pelo inevitável desfecho da morte, o sublime é aspiração.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Pouco...

 Às vezes é muita Alma pra pouco corpo; 
às vezes é muita dor pra pouca Alma... 
...às vezes é qualquer coisa pra pouco tempo.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Sintomas...

Ainda que sintamos;
mesmo que nos cortemos;
sendo nós traídos
ou tendo nós amado
Ainda que soframos
mesmo que (nos) cuidemos
Ainda que amemos
o outro e nossos planos
tendo nós lutado
ou tendo nós perdido
seja um império
seja um trabalho
tendo nós ganhado
tenha nós partido
ou tenha nós ficado
com um nó desamarrado
ou um laço rompido
Ainda que não seja alívio
e seja apenas um cansaço
mesmo que façamos
do caminho nosso passo
E ainda que evitemos
a dor e o erro crasso
 mesmo que nos curemos
mesmo que nasçamos
enquanto nós vivemos
ou mesmo que morramos 
mesmo não morrendo
mesmo não querendo;
mesmo não querido
é certo que sintamos;
em todos os sentidos;
o mundo ao longo dos anos
a beleza e nossos vícios
Celebremos!
Os sintomas todos de vida 
dentro da gente.