quinta-feira, 28 de junho de 2012

Lembrança...

"(...) e quando sem esperar, olhou menina o seu rosto refletido no espelho, levou o coração à boca que então vestiu sorriso. Lembrou-se de respirar macio no seu despertar; lembrou-se de despedir do sol ao entardecer; lembrou-se de elogiar cada uma das suas novas escolhas. Lembrou de não mais sentir saudades de ser feliz. Saiu de casa de vestido colorido e fita verde no cabelo. Ela era o seu próprio presente. E de nada mais precisava para ser o seu futuro também".

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Avesso...

É no avesso de nós mesmos a oportunidade de conhecer esquinas e ruas-sem-saída que dentro habitam; de dialogar com monstros insuspeitos; de entender reflexos e seus contrários, saber do fruto pelas sementes, descobrir nossas cores e suas sombras, saber amargo pela doçura, duvidar da luz que carregamos a fazer verão, versão, amanhã, ponte, poente, nascente e o próprio avesso mesmo da gente. O avesso logo se desavessa; senta às margens do teu dia e veja quais os tons da tua Alma; como cada um dos teus sentimentos vem à tua casa e toma tua cadeira favorita; até ser expulso por outro que virá fazer o mesmo. Em qual espelho você se reconhece? Em qual hóspede você se vê? Eu não sei de mim; o que sei é que a vida em nós se enfeita de amores e de vazios, de sorrisos e de espinhos, buscas e desencontros que dizem sempre um cadinho mais da gente que a gente mesmo não enxergava. Eu aguardo qualquer visita no jardim ou no porão, na cabeça ou coração, no sim e no senão, só pra fazer desculpa de sorriso na boca.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Outono...

Quando caiu a primeira folha do outono, soube a terra desnuda da folha a lhe vestir amarelo. Com sua despedida da árvore à espera do inverno, cumpriu-se a própria Vida, quando nela se revelaram as singelezas que costuram seus ciclos e colorem seus reinos. E quando soube o homem o que vivia nas sementes e também nos frutos, a poesia aconteceu com o despertar do sol. Pois a beleza se confessa nos olhos somente daquele que na Vida também já despertou. A beleza se usa da poesia como alimento, para viver em nós e através de nós se perpetuar. Quando caiu a primeira folha do outono, soube a terra desnuda da folha a lhe vestir amarelo; pensando no vestido de baile; pensando em se parecer com o sol...

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Prece...

Sou Prece em confissão de poesia. Sou domingo cinzento e segundas ensolaradas de recomeço. Sou alguém a perguntar: será que nos encontraremos nos primeiros pensamentos da manhã; nas primeiras palavras do dia? Saberá você amanhã o mesmo que saberei? Será você amanhã o mesmo que eu serei? Queria que sim; saberia que sim; sinto que é; faço perguntas que eu mesmo respondo porque somos equivalentes; somos a mesma busca; e o mesmo encontro. Porque te queria aqui, ou me queria aí, tanto faz. Tanto me fiz teu que até agora tenho colecionado tua boca linda e todos os teus sorrisos no meu olhar de atenção. Eu já acolhi saudades como presença enfeitada de nostalgia. Olhei para as lágrimas como chuva de verão no meu jardim. E já entendi essa estranheza bonita de não reconhecer terreno em que pisamos e que sempre colhemos o mesmo, a colorir metade, a sorrir metade, a faltar inteiro de nós dois. Passamos vidas inteiras nos entregando pela metade, desatando nós, dissolvendo mágoas, buscando aquilo que nunca serviu e deixando rotina ser nosso caminho que, agora, metade é poesia. Metade é inteiro; tempo é espera e distância é certeza. Você é minha outra metade. Metade é como a sombra de Amor em dias de Sol gostoso. Agora vejo que tua falta preenche o meu vazio; são os passos parados do meu caminhar macio. E hoje sopro direção pra você se encontrar dentro; me encontrar junto, e sermos aqui fora, aquilo que já somos. E enquanto me perco nos dias, te encontro nas noites e somos na Lua; não me deixo virar pó nem pedra até te ver de novo. Chegou hora de costurar minha sorte na tua, meu Amor. E como Prece, digo: Amém ao que nos espera. Amém por eu saber que tenho você, mesmo que do outro lado.



(Guilherme C. Antunes, vulgo "eu", em 24.06.11)

segunda-feira, 18 de junho de 2012

O Império do amanhã...

Sabe a Alma entre as folhas mortas do outono que o vento virá, inevitavelmente, mesmo que se demore entre as colinas, soprar sementes deixadas por entre as folhagens pelos passos distraídos ou apressados de nós, ao longo das estações, para além dos nossos pequeninos olhos; além do alcance do nosso tempo. E assim, sem nos avisar, levam-nos à primavera que se encerra em cada uma destas sementes. Porque sabe também a Alma ser o vento o senhor das promessas e as sementes os sonhos do jardim; ainda que se namore com as descrenças. O Tempo - arado da terra e da história que aguardam por nossas mãos - semeiam escolhas que nem sempre vingam ao se perderem entre os destinos, e escolhas que nos tornam continuidade no ser e no estar, vivos no eco das palavras confessadas, na lembrança do outro, no legado deixado a um filho, no beijo roubado, no amassado do lençol, na carta guardada, no cheiro da roupa ou qualquer outra cena de nossas vidas, mas sempre no império do amanhã.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

O Amor custa caro...

Às vezes o melhor momento é aquele pelo qual ainda não passamos. Às vezes o melhor caminho é exatamente aquele pelo qual jamais iremos trilhar. E o amor às vezes nos acontece exatamente porque ainda não nos aconteceu; um amor feito da mesma matéria de que são feitos nossos desejos, que nele nos seguramos quando nada temos nas mãos. Somos apaixonados - além do Amor propriamente dito - por horizontes e amanhãs. Afinal, não é disto também de que são feito os nossos sonhos? Pois o amanhã será sempre terra fértil, onde os frutos são todos doces (ou menos amargos) e todas as nossas escolhas, menos equivocadas. E lá, no amanhã, eu poderei ser feliz, lá eu serei inteiro, amado e amante, mesmo que hoje eu celebre minhas metades e me contente com tristezas que não quero. As ilusões e os reflexos nos convencem, levem-nos ao real de nós ou não. Por isso sinto que somos o que ainda seremos. Sou mais real nas férias que aguardo e na viagem que planejo, depois da graduação ou daqui a 15 minutos. Somos feitos de intervalos e expectativas entre o agora onde me encontro e aquela festa na qual fui convidado. Sou uma pausa entre o que sou e minhas ansiedades. Aí então, pleno no meu vir-a-ser, existirei inteiro com o diploma na mão e depois, com o emprego dos meus sonhos e depois, serei feliz durante a festa e depois, quando de mãos dadas com alguém e durante, não antes. Somos reais ao avesso, exatamente pelas nossas projeções. Somos reais em um contínuo estado de espera. Sou o que ainda serei. Sou por consignação. Aí então digo que hoje o Amor em nós custa caro, porque nos consome entre suas doçuras e os conflitos que nos causam; porque devora entre paixões que nos arrebatam e exigências desmedidas. Porque o Amor em nós são as alternâncias, as contradições, o doce que precede o amargo que precede o doce, sombras que se conversam e se curvam rebeldes mas entregues a quem se ama. E nem sempre estamos dispostos a pagar o preço do inevitável; porque estar no agora é assumir o todo e a soma das suas partes. Porque o Amor nos rasga inteiro quando também nos costura; porque o Amor é a tensão - e o tesão - que nos eleva e também nos arrasta. E saiba: a gravidade só existe no presente; ao futuro sempre será permitido as levezas. No amanhã, o Amor é mais fácil porque ainda não o é. Sem cobranças e sem juros, mas também sem rosto.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Nunca nós...

Sem amor...
 sobra um,
 faltam dois...
nunca nós.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Perfume...

Se nos agarrarmos às certezas que fragilmente construímos ao longo da caminhada, provavelmente congelaremos a vida tal qual promessa que não pode ser cumprida. Há um começo, um meio e um fim para tudo aquilo que um dia nasceu por nós e em nós. Ao mundo chegamos sozinhos e dele partimos também. O Amor que pode ter ido, que um dia pode ter sido, deixa sempre beleza dentro da gente e, esta beleza sim, ecoa eterna em todos os nossos atos e sentimentos, como algo que não parte nem se parte da gente, ainda que partido hoje, estejam os laços que o teceram. E natural que, dia ou outro, nem lembremos mais que tal beleza que nos eleva à terra dos sonhos e a maturidade que nos enraíza no solo da sabedoria, vieram dele. Ainda que a flor, com o tempo tenha morrido, continuamos a lembrar e a sentir o seu perfume.



(Guilherme C. Antunes, vulgo "eu", em 16.05.2011)

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Decreto...

Tomei esta última noite de sono como despertar, ao ouvir o canto da luz escondido nas lágrimas pesadas que me contaram conquistas esquecidas da Alma. Lembranças de quando seguia minhas próprias pregações. Ouvia o coração em era distante. Seus conselhos eram verdade. Sua história, real. Era, quando em mim, me bastava até na falta. O pouco era muito. O suspiro, sorriso. Quando a dúvida apenas instigava o adiante. O olhar era inocente. Quando de tanto colher, podia doar; mão e manto tocando a todos. Altura era casa. Quais belos laços escolhi para tecer pontes e me prender em meus espelhos outros? Quais contratos assinei vendendo minha paz em troca de maus entendidos? Me distrai nos seus nós. Fitei demais as entrelinhas. Hoje, decreto a busca de mim! Vou-me embora pra mais perto, pra mais dentro. Cansei do meu personagem de mendigo, da minha fantasia de pedra. Declamo com urgência versos esquecidos de solitude. Declaro de volta, meu reinado esquecido! Assumo toda a responsabilidade de me contar do gosto amargo; de descansar longe do sol a pino. De mudar as velas. De remar, ou até abandonar o barco. Inteireza no caminho, firmeza nas pegadas. Abandono os papéis por mim escritos e máscaras por mim aceitas. Desabafo a alma abafada pelas distrações. Restauro o destemor. E me permitirei mudar porque já mudei...

... e ainda vou mudar.



(Guilherme C. Antunes, vulgo "eu", em 09.06.2010)