quinta-feira, 31 de maio de 2012

Pratique a poesia!

A poesia, em suma, existe em duas dimensões e em dois movimentos viventes no poeta. A poesia como sombra da falta e da carência, e a poesia fruto da felicidade e da abundância. Explico-me: pode o poeta com as palavras construir belos reinados sem jamais neles pisar; usando-se o homem da poesia para mascarar suas misérias e disfarçar suas tristezas. Versa então o poeta seu real tamanho, nas futilidades e adocicados nadas que encontra eco no peito vazio do outro com que se identifica, pela destreza com que costura suas linhas. Assim, a poesia se faz como mera projeção dos seus avessos e do que lhe falta. Distrai-se falando sobre as cores na aridez do seu próprio deserto e ocupa-se com meros desejos, tecendo elogios ao que não se é como se fosse, e ao que não se tem como se tivesse. Já a poesia filha da abundância é fiel a linguagem viva na Alma, que se veste das palavras para contar suas memórias. Não mascara o seu autor as suas partes, mas denuncia o seu inteiro aos olhos que lhe visitam. O sol na abundância floresce os jardins. O sol visto das letras é tão-somente amarelo. Uma brinda verdades, a outra enfeita mentiras. Uma é mendigo cheio de si, a outra é o senhor que partilha seu pão. Uma afoga as mágoas, a outra ensina a nadar. O convite da poesia é este: que sejas digno de vestir o seu manto e carregar o seu graal, exercitando suas verdades e marés de dentro. 

Pratique a poesia!


“A pasteurização da poesia contemporânea me assusta. Vozes todas muito parecidas. Fico feliz quando me deparo com vozes dissonantes, que rezam por cartilhas que não as vigentes, que discordam do coro dos contentes”. Hanna H.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Inexistências...

Sou melhor quando não estou. Sou um charmoso espelho sem reflexos, uma divertida festa sem convidados. Pois as inexistências me completam e os acasos me apontam a direção. Sou um bom livro esquecido; uma coleção de memórias a não significar um inteiro, um recorte de ausências, uma história sem identidades. Vai ver o meu passado seja uma gaveta sem utilidade, empoeirada, e mais uma coleção de papéis, erros e decepções que não revelam nada sobre o amanhã. Sou um porém e uma breve esperança, e que não me leva a lugar nenhum. Porque o que me move nesta vida é a angústia de não saber o que fazer parado. A minha busca é também o meu incômodo por não se contentar; pois o que me empurra não é o que me falta, mas sim o que me sobra.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Ao mesmo tempo...

Por que você não pode estar em vários lugares 
ao mesmo tempo 
dentro-de-mim? 
... coração, pensamento, boca, 
palavra, poesia, 
tempo.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Lentes...

Carrego no bolso da Alma, muitos óculos de muitas lentes de muitas cores, em que as troco conforme as conveniências do coração. Quando ele se incomoda, engana, amarga, fere, sofre ou sangra, são as de vidro turvo com que sei das paisagens e dos reflexos de dentro. E quando coração voa, dança, cria, ama e amém, mudam-se as lentes também. Vejo a vida conforme as cores que carrego e as marés de mim. Houve épocas em que me acostumei com os tons de cinza, e em outras só via cor-de-rosa, ainda que nos meus óculos coubessem todas as cores do infinito. Já sofreu minha Alma de miopia séria, ao distorcer os laços, retorcer os fatos, inverter as falas e interpretar o sentido de coisas que nem sentido tem. A miopia engana a distância dos corpos e confunde os sentimentos. Guardo sem querer guardar, lentes que diminuem doçuras e apequenam sutilezas, e outras que aumentam e exageram os problemas, criando monstros e cultivando medos, encontrando agulhas no palheiro, pelo em ovo, transformando garoa em tempestade, ouro em chumbo, dia em noite, trilha em muro de qualquer coisa que vejo.  E com o desgaste das cores que levo, reinam a sombra e a cegueira - em maior ou menor grau - no coração que não mais enxerga o amanhã e não entende as promessas, não busca o inteiro e se contenta com qualquer coisa, renega o Amor e não mais sabe da Vida. Às vezes basta um só raio de sol na janela da Alma pra amanhecer esperança no jardim de amores e fazer do azul do céu, nosso telhado; mas na repetição dos dias de límpidas ilusões e verdades confusas, coração quando cansa a vista, adormece.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

O doce...

"Se eu soubesse escolher qualquer palavra,
e por saber qual das palavras serviria.
 Juro que com elas me arriscava,
e a mais bonita escolheria...
...uma e junto ao meu Amor amarraria,
uma benção toda mansa e delicada.
Uma doçura a te acolher no dia-a-dia.
A levar-te um sorriso bom na boca,
e livrar-te desta vida só e louca.
Com o doce que só eu sei da poesia".

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Merecimento...

'Como falar de esquecimento,
se quem me lembra é a cabeça.
Porque no peito o sentimento,
além de qualquer tormento
abriga quem nele se mereça'.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Reino...

(...) se são as palavras as memórias do Amor, então escrevo para lembrar do Amor em mim. Porque a poesia é um carinho no outro, uma gentileza guardada nos olhos do amante. E se não é o poeta o tradutor de silêncios e a poesia uma coleção de possíveis, quem sou eu? Sou homem a viver em cada uma das minhas linhas, mesmo que nelas jamais me encontrem; e me revelo pelo conjunto das minhas palavras, mesmo que em cada uma delas eu não possa ser revelado; pois vivo num reino que do meu saber se empresta pra confessar aquilo que ele mesmo é, ainda que em mim falte o que nele sobra: o infinito. A poesia vive atrás dos olhos, e que verdadeiramente nos toca quando sabemos ser as letras apenas o seu reflexo.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Sombras...

 "Contei-lhe que até àquele momento não tinha compreendido que aquela era uma história de gente só, de ausências e de perda, e que por essa razão me tinha refugiado nela até a confundir com a minha própria vida, como quem escapa através das páginas de um romance porque aqueles que precisam de amar são apenas sombras que vivem na alma de um estranho". 
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(Carlos Ruiz Zafón)