segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O monge que sabia voar...

Você não é nova aqui. Nunca foi. Você é mais do mesmo. Teu signo. Tuas reticências. O jeito que escreve. Você é meu padrão; minha história gasta. É a mesma casa velha de outrora que ouso decorar com teu nome; com tua cor. Mas que canta outras músicas, que prova outros pratos. E já que não consigo te matar, mantenho-te viva, pois você é a lição que ainda não aprendi. O erro que ainda não superei. É o livro de páginas repetidas em que encontro minha feiúra e minha verdade. Em que vomito meu azedume e banco o mocinho; que adoça a vida alheia. E o enredo que é teu, fala de mim. Do outro fruto que colhi, tens o mesmo gosto. Chamo pelo novo e é o velho que ecoa. Reconstruo o passado que se faz presente. E não consigo achar um final para você. Para nós dois. Você é a mesma que inevitavelmente me persegue e me encontra, já que andamos em círculo. Por saber meu endereço. Por saber em que canto de mim guardo meus segredos. E você vem sempre do mesmo jeito, mesmo que de outras formas, pra me lembrar que não estou aqui para reclamar, mas para transcender.


(Guilherme C. Antunes, vulgo "eu", em 02.09.10)

sábado, 28 de janeiro de 2012

Contrários...

O coração só para pra depois voltar a bater;
A gente só morre pra um dia voltar a nascer;
A gente só perde pra saber o valor que é ter;
Enfim, o ciclo e os contrários ensinando a viver.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Pra fazer voar...

Quando dois passarinhos conversavam sobre sonhos, laços e pés-de-sol, afinei o coração pra ouvir canto colorido de cada um; nos versos as flores e nas flores as asas. Amei e tornei-me andorinha. Quando flor bonita tocou minhas mãos, levei ao peito cores e perfumes insuspeitos. Amei e dei liberdade às sementes. Quis vestir o teu Amor como os jardins vestem as folhas no outono, e amanheci poesia. Caminhas de Alma desnuda como se eu fosse um dos teus passos; e como lua ao se reconhecer na lagoa, amar é dar exatidão aos reflexos. Janela para os meus olhos, o Amor como o meu quintal. Um canto imenso sem (in)cômodos em que se descanse tristeza, sem porões ou dias pela metade. Amar é mudar de casa e morar no outro. Afinal, o que é que pode ser poupado nos versos e sabido nos sorrisos? Visto palavras que falam de nós nas coisas mais simples que te confesso agora. Quero saber de Amor como o abraço sabe da pele; como a água sabe da sede; como o fogo sabe do sol. Quando convidei teu coração pra namorar na Ilha, fui palavra, fui ciranda, fui silêncio. Sou a esquina dobrada que te espera. Um sino dobrando que te anuncia. Sou sorriso de quem já recebeu todas as bençãos do mundo quando então, soube o Amor te amar.


"Ah, cansou de escrever sobre o amor? O amor não cansa, o senhor como escritor devia saber disso". (Rubem Fonseca)

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Companhia...

Quando todos partem, são somente as lembranças que nos fazem companhia.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Soma...

Quando assumimos nossa incompletude, é porque sabemos que apenas no outro a entrega pode ser inteira. É quando no encontro de dois no um, em que o um se torna maior que os dois.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Filosofias...

Rasguei os tratados e teses, as filosofias.
Apaguei os romances, histórias e as demais poesias.
Larguei os casos, os encontros, minhas boemias.
Esqueci o terço, o templo e o que o padre dizia.
Rasguei memorandos e ofícios onde eu trabalhava.
Apaguei recados e cartas da minha ex-namorada.
Larguei lembranças e dores que me sufocavam.
Esqueci dos espinhos que no pé direito espetavam.
Deixei minhas crenças e rezas e qualquer simpatia.
Enfrentei os meus vícios e medos que minha sombra queria.
Abandonei gaiola, corrente, prisões que prendiam.
Joguei fora palavras, os livros, limites meus que trazia.
Fechei os meus olhos, 
e aí enxerguei Alma.
Com tudo que ela levava.
Soube que o Amor em mim dormia.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Gentilmente...

Assim que o relógio parou,
Deixou o silêncio de soar,
Pode então ouvir o céu tocar gentilmente sua janela.
Levou seu coração pra tomar sol.
Sem hora pra voltar.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Inveja...

(...) não morra de inveja; pois a inveja sempre afasta aquilo que busca e, busca destruir aquele que é invejado. Pelo contrário, morra de vontade. E faz da busca o teu encontro.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

O Homem de gelo...

Tive que desaprender o seu cheiro; desconhecer teu rosto, teu gosto, teu jeito; rasgar tuas cartas e nossas memórias. Tive que me cegar pra não ver mais você nos meus sonhos. E por precaução, deixei também de adormecer. Tive que dissolver doçura com qualquer amargo esquecido entre uma briga e outra. Tive que inventar qualquer mágoa pra fazer distância entre nós dois; qualquer dor que pudesse me distrair das lembranças; qualquer raiva que pudesse me ocupar; um ruído nos dias a me levar pra longe do teu existir. Sem o nosso Amor, exorcizei a poesia. Um pôr-do-sol tornou-se apenas prenúncio da noite. Uma rosa, espécie do reino vegetal. Sorriso, uma expressão do rosto. Sorvete, apenas uma sobremesa. Sem o teu Amor me rendi a boemia e aos vazios que antes sua presença ocupava. Sem o teu Amor me vendi a qualquer prazer barato. Os teus pés são passos passados e os meus, corridos em resolver minha angústia como se fosse uma equação matemática; meu desespero como se adestra um bicho arredio. Tuas roupas, peças de brechó. Teu carinho, peça de museu. Tua bossa nova e teus discos velhos arranham a alma quando até um sopro arde. E hoje sofro pelos frutos perdidos, pelos filhos não tidos, pelo adeus não superado. Sou descortês com qualquer encanto da Vida que possa cair no meu colo, apenas pela vã ideia de me lembrar do teu nome, do teu perfume, ou do teu sorriso. Estou insensível às dores do mundo; apenas as minhas tem vez. Hoje vivo aquela profecia que eu mesmo tanto anunciava: que serei inevitável descanso, que serei distância, que serei descaso e que serei razão, quando eu queria tanto ser um erro desmentido. E hoje, sou coração de pedra e não há quem me carregue. Hoje, sou homem de gelo e não há quem me derreta. Sou uma desilusão orgulhosa de ser; uma esperança em extinção, e não há ninguém nesse mundo que me salve.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Olhos...

Os olhos diminuem o mundo. O Amor o revela na Alma.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Libertação...

O Amor é a entrega que de nós nos faz inteiros. O Amor é a nascente e sua foz; é o mergulho e o flutuar. É dimensão do mistério que nos toca a inspirar; é o caso do fruto com a semente; o amanhã com o depois. O vício com a virtude; o leve e seu contrário. O Amor é o agir e o contemplar. Amar é acolher o inexato e o certeiro; o impossível e o esperado. É o sereno e o cansaço; é ansiedade e desapego. Amor é corda-bamba em que caminhamos seguros; a sabedoria que nos prende aos laços que também nos deixam livres. É gratidão a se saber no silêncio e no olhar. É o adormecer e tão logo o despertar. O Amor é uma escolha que a si renova e se expande na busca de se manter o mesmo, e ao mesmo tempo, maior. É o espaço não-sabido entre os amantes em que confiar os faz presença. É o espaço entre e dentro de nós que permite o crescer, a criatividade e a comunhão. É semente que busca realizar-se no estrito espaço entre o céu e a terra. O Amor se vê na posse destes dois. É o chocolate, mas também o anti-ácido; o doce e o amargo. É a lucidez e a ressaca. Amor é a mística e a dogmática; a teoria e sua prática. Mestre da paixão e do desejo; mãe dos sonhos e do suspirar. O Amor é o emburrecer da Matemática, em que dois são um; onde se multiplica ao partilhar. O homem no Amor não tem escolha, pois compaixão é sempre a resposta. Sua luz é sua única cor. E quando no eclipse da Alma, o medo chama seu nome. O medo é o Amor que se envergonha; que tomou um susto; é um verão que sente frio. A raiva é sua filha rebelde; o cansaço seu velho manto; a covardia seu árido reino; a sombra sua única cor. Medo é Amor que não se vê no espelho; eis que também nos permite avançar, abandonar gaiolas e crenças que enfeitamos com tantos nomes, mas que nos sufocam. O medo é o pulo pra fora, a dor que rasga mas que cura, a cegueira que nos torna mais hábeis em escutar, é o tropeço que nos atira ao precipício e releva nossas asas; é o sair pela tangente. E o medo ao se lembrar Amor, com novo nome se batiza: Libertação.

"(...) mas eu não estou interessado em nenhuma teoria; em nenhuma fantasia; nem no algo mais. Amar e mudar as coisas me interessam mais". (Belchior)

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Jornada...

Morrer talvez seja passar de uma linha para outra; de um nome para outro; de uma a outra estação, como um breve mas profundo silêncio entre as canções. Ando suspeitando que morrer seja pra poucos; porque muitos deixam apenas de funcionar, param, cessam. Poucos podem mesmo morrer. Morrer por inteiro, morrer por entrega, morrer despido do medo, morrer na morte mesma. Muitos de nós morremos em vida e isso não é difícil. É preciso intensidade, uma partida por completo, um mergulho, alquimia, expansão, um mistério que nos acolha, uma jornada em que o dia convide a noite a confessar o outro dia. É preciso atravessar a porta entre o poço e o reino; entre as memórias e o futuro, entre os pecados e os perdões. Tantas são as jornadas e incontáveis são os jeitos de partir, mas também de chegar. Só vive quem pode mesmo morrer; porque só renasce aquele que um dia morreu. E tantas são as mortes e tantas são as vidas depois delas. Dói quem fica, sofre quem resiste. A morte é o bom-senso da eternidade. É o sobrenome da própria Vida.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Respirar...

(...) e a gente esquece que para viver é preciso também respirar. E quando nos vemos por inteiro no reflexo da vida que nos acontece entre suas sombras e sóis, respirar fundo pode ser sopro suficiente para virar mais uma página da nossa história. Somos versões daquilo que não somos mais; mas também do que viremos a ser.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Caminhar...

Que o velho morra para dar lugar ao novo...
Pois toda morte é um renascimento;
Que eu possa ir fundo, dentro de mim, para poder tocar o céu...
Que eu possa alcançar o horizonte...
Que eu possa ter tempo para tudo aquilo que deixei de realizar, e que poderia fazer a qualquer momento...
Que as horas passem devagar quando precisem... os dias menos depressa...
E que eu possa conquistar o atemporal. Não pelo que eu faço, mas por quem eu sou.
Além do sucesso, minha integridade. Além dos objetivos, minha inteireza.
Que eu possa perceber que sou eu quem carrego a chave das próprias prisões que crio..
E que eu me liberte, livre do medo, da angústia, da aflição...
E neste vôo, possa lançar as sementes do Amor.
Amor que todos devemos cultivar.
Além da bela silhueta, além dos preciosos amigos, além de qualquer explicação ou teoria lógica e lapidada.
Além de belos títulos de livros ou filmes. De boas marcas. De comentados lugares.
Eu possa me encontrar. Em tudo aquilo e mais um pouco. Ou menos.
E que eu possa refletir, como um espelho, todos a minha volta. 
Que o porvir possa acalmar a ansiedade do dever-ser e do vir-a-ser
Porque eu ainda não sou, nada além, do que eu já sou. 
E em mim, tudo basta. Mesmo quando me sinto vazio..
E que, diante do vazio, eu não me preencha com mais dele.
Mas possa decorar minha mente e minha alma de boas conversas, de poesia, de paisagens, de comida frugal e música.. daquelas que tocam o ser.
Que eu aprenda a perdoar, primeiro a mim, por não saber perdoar. 
Que eu lembre do melhor e esqueça o necessário..
..O desnecessário para crescer. Pois crescer é inevitável.
E que o inevitável venha. E assim, eu aprenda a aceitar.
Que eu possa criar. Que eu volte a ser quem eu nunca fui, e quem um dia eu deixei de ser.
Sorrisos e lágrimas. Criador e criatura. Céu e terra.
Que os monstros se tornem disciplina e Compaixão.
Tenho equilíbrio. Procuro por mais. 
Equilibrei-me por desequilibrar-me.
Além das palavras, o agradecimento contido em cada uma delas.
Pois é a experiência que me brinda com a realidade que me envolve.
Escada de degraus infinitos.
Um recomeço de um caminhar eterno.
Abençoado, próspero, tranquilo. Para mim e para você.
Só para você.
Só para mim.
2012. (Guilherme Antunes)


"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para adiante vai ser diferente".  (Carlos Drummond de Andrade)