terça-feira, 6 de novembro de 2012

Meu bolso esquerdo...

Sabe Alma, ontem eu não tive tempo pra nada, já que o meu dia não soube fazer outra coisa além de cobrar minha presença nos seus mais insignificantes detalhes e ocasiões. Foi o tempo de chegar em casa, jantar qualquer coisa que não combinasse com minha preguiça, ler um trecho do meu livro de cabeceira e ir dormir. Ou melhor, adormecer. Eu adormeci lendo, com as luzes acesas um pouco antes das dez. Que delícia Alma, me despedir da noite sem me preparar pra isso. Acordei melhor do que todas as noites anteriores que não terminaram assim (aquelas todas em que ensaiei hora certa pra me desligar do mundo). Acordei mais inteiro, mais meu nome e menos as outras coisas, menos lado de fora. Acordei mais precisado de mim, e mais satisfeito também. Acordei tão descansado por não ter lutado com o sono, por não ter lutado contra o ritmo que eu escolho não ver, ouvir, não sentir, não viver, perdido entre as tantas distrações e estímulos a minha volta. Não ter lutado foi a minha conquista. Hoje eu resolvi acordar mais eu mesmo, sem na verdade resolver ser eu mesmo. Taí a sacada. Acordei resoluto em minha existência. Mas não todo. Eu quero me encontrar comigo mesmo de uma vez por todas mas ainda não combinei horário. Não marquei lugar. E confesso, adio pelo medo de me perder pelo caminho. Tenho medo também de atrasar. De errar a esquina de mim que ainda não decidi encontro. E não sei porque insisto em não esbarrar comigo em qualquer lugar que seja, e aí então me dar um abraço daquele de esquecer do mundo e sermos os dois, um: um inteiro! Teimo ainda em agendar o dia deste encontro comigo mesmo, no meu calendário. "Amanhã" é quando normalmente marco, mas eu sempre adio. Hoje Alma, em que sou o que não era até antes de dormir, quero acreditar que o amanhã seja mesmo amanhã; no qual as coisas possam ser mais minhas. Não que elas realmente sejam, porque descobri a duras penas que nada é. Mas que eu possa ser senhor do meu próprio olhar para elas, e que elas não me arrastem como as paixões arrastam o bom-senso. Que eu tenha, enfim, em minha posse o equilíbrio. Aquele que acredito, estar no bolso esquerdo de mim, no casaco de mim, que uso para me esperar. Naquela esquina e naquele amanhã que lhe disse, só não sei que horas ou lugar.

5 comentários:

Izabela Cosenza disse...

"Acordei mais inteiro, mais meu nome e menos as outras coisas(...)"

que bonito, guilherme.

beijo

iza =)

Nina disse...

Eis a Persistência da Memória, de Dalí. Só que em texto.
Abraços.

Poeta da Colina disse...

Da mesma forma que o sonho levou, a vida te leva até lá.

May Almeida disse...

Lindo Guilherme.Até sintonizei :)

Renato Ziggy disse...

Coisa mais linda na vida é se encontrar todos os dias, se descobrir de olhos fechados. O exercício é diário, de um jeito sutil, leve, sem cobranças. De um jeito inteiro... De um jeito que a mente se expande e se abre, de um jeito que o pensamento e o corpo vão juntos, harmonizados, se elevando junto à harmonia de algo que seja talvez além de nós. Não que isso seja igual com todo mundo, mas eu sinto assim... E não tem nada melhor do que esse encontro, esse achado do bolso esquerdo, esse mergulho no autoconhecimento. O primeiro passo é querer, e o segundo é se permitir. Sempre... Beijo!