domingo, 14 de outubro de 2012

Infelicíssima...

"Eu conheci razoavelmente bem Clarice Lispector. Ela era infelicíssima, Zézim. A primeira vez que conversamos eu chorei depois a noite inteira, porque ela inteirinha me doía, porque parecia se doer também, de tanta compreensão sangrada de tudo. Te falo nela porque Clarice, pra mim, é o que mais conheço de grandioso, literariamente falando. E morreu sozinha, sacaneada, desamada, incompreendida, com fama de “meio doida”. Porque se entregou completamente ao seu trabalho de criar. Mergulhou na sua própria trip e foi inventando caminhos, na maior solidão. Como Joyce. Como Kafka, louco e só lá em Praga. Como Van Gogh. Como Artraud. Ou Rimbaud. É esse tipo de criador que você quer ser? Então entregue-se e pague o preço do pato. Que, freqüentemente, é muito caro. Ou você quer fazer uma coisa bem-feitinha pra ser lançada com salgadinhos e uísque suspeito numa tarde amena na Cultura, com todo mundo conhecido fazendo a maior festa? Eu acho que não. Eu conheci e conheço muita gente assim. E não dou um tostão por eles todos. A você, eu amo. Raramente me engano." 
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(Caio Fernando Abreu)

3 comentários:

Nina disse...

Não me identifico com a Clarice. Não porque "virou modinha". Simplesmente não me toca, não me atinge. Uma pena.
Abraços.

Priscila disse...

Caio faz uma descrição emocionada de Clarice, como é todo encontro entre ídolo e fã. Ele a descreve em outros textos, outras cartas, sempre com muita emoção. Eu adoraria ter tido esse privilégio, estar com os dois, porque ambos me comovem e me encantam sempre.

Lucélia disse...

Os livros do Caio são lindos *-* adoro essa carta que ele mandou para o amigo dele.