quarta-feira, 13 de junho de 2012

O Amor custa caro...

Às vezes o melhor momento é aquele pelo qual ainda não passamos. Às vezes o melhor caminho é exatamente aquele pelo qual jamais iremos trilhar. E o amor às vezes nos acontece exatamente porque ainda não nos aconteceu; um amor feito da mesma matéria de que são feitos nossos desejos, que nele nos seguramos quando nada temos nas mãos. Somos apaixonados - além do Amor propriamente dito - por horizontes e amanhãs. Afinal, não é disto também de que são feito os nossos sonhos? Pois o amanhã será sempre terra fértil, onde os frutos são todos doces (ou menos amargos) e todas as nossas escolhas, menos equivocadas. E lá, no amanhã, eu poderei ser feliz, lá eu serei inteiro, amado e amante, mesmo que hoje eu celebre minhas metades e me contente com tristezas que não quero. As ilusões e os reflexos nos convencem, levem-nos ao real de nós ou não. Por isso sinto que somos o que ainda seremos. Sou mais real nas férias que aguardo e na viagem que planejo, depois da graduação ou daqui a 15 minutos. Somos feitos de intervalos e expectativas entre o agora onde me encontro e aquela festa na qual fui convidado. Sou uma pausa entre o que sou e minhas ansiedades. Aí então, pleno no meu vir-a-ser, existirei inteiro com o diploma na mão e depois, com o emprego dos meus sonhos e depois, serei feliz durante a festa e depois, quando de mãos dadas com alguém e durante, não antes. Somos reais ao avesso, exatamente pelas nossas projeções. Somos reais em um contínuo estado de espera. Sou o que ainda serei. Sou por consignação. Aí então digo que hoje o Amor em nós custa caro, porque nos consome entre suas doçuras e os conflitos que nos causam; porque devora entre paixões que nos arrebatam e exigências desmedidas. Porque o Amor em nós são as alternâncias, as contradições, o doce que precede o amargo que precede o doce, sombras que se conversam e se curvam rebeldes mas entregues a quem se ama. E nem sempre estamos dispostos a pagar o preço do inevitável; porque estar no agora é assumir o todo e a soma das suas partes. Porque o Amor nos rasga inteiro quando também nos costura; porque o Amor é a tensão - e o tesão - que nos eleva e também nos arrasta. E saiba: a gravidade só existe no presente; ao futuro sempre será permitido as levezas. No amanhã, o Amor é mais fácil porque ainda não o é. Sem cobranças e sem juros, mas também sem rosto.

7 comentários:

Uma mocinha não tão indefesa disse...

Isto me lembra uma frase que eu vivo repetindo e já foi dita inclusive em muitos textos no meu blog:

"Viva o amanhã e todas as incertezas que ele traz, pois quando nada é certo tudo pode acontecer..."

E neste momento o que eu mais desejo é que todas as pessoas do mundo se permitam que o amor floresça em seus corações assim como as lindas palavras florescem em sua cabeça :)

Beijinhos :))

Maria Carolyne disse...

Adorei! Bonito teu blog, textos interessantes! Estou seguindo! Beijos

Guilherme disse...

'Algumas vezes uma amor "não vivido" pode ser o melhor tipo de Amor'.

(Dom Cósimo, personagem do livro, Um Certo Verão na Sicília)

Bruno Batiston disse...

Que prazer em encontrar essas palavras ainda antes de dormir. Só espero que você esteja certo, boto fé! Vou acompanhar aqui, gostei bastante. Abraço

Izabela Cosenza disse...

amo hoje ponto.
lindo texto ritmado, guilherme.

=)

Poeta da Colina disse...

Penso que o custa é essa distância entre o Amor e o aqui.

Priscila disse...

O amor custa caríssimo, meu caro (trocadilho infame)!
A mitificação do amor absoluto cria um modelo insano, de total encaixe como Lego, simbiose, shampoo e condicionador no mesmo frasco, onde se deixa de ver o outro como um indivíduo, com suas particularidades, privacidade, sombras e silêncios; outro que tem suas pontes, mas, também tem seus muros inarredáveis e - como você gosta tanto - tem suas alternâncias e avessos. Cobra-se, invade-se, deseja-se a posse total do outro, dos atos, dos fatos e dos fundamentos... rsss. A simbiose inicial vira predatismo e o amor acaba. Simples assim.
Receita infalível: bom senso... que, infelizmente, não está à venda.
O amor de amanhã pode sim, ser o melhor, já que no amanhã somos sem máculas, idealizados, fantasiados, em estado de latência, de mil possibilidades, inclusive, nenhuma. E, sem cobranças desgastantes (a melhor parte).
Poeta, desculpe-me ter despido de poesia, o seu belíssimo texto, nessa versão "a vida como ela é".

Beijo!