sexta-feira, 6 de abril de 2012

Compensação...

Ele já tocou campainha e saiu correndo; já apertou todos os botões do elevador e botou pra passear. Ele já roubou doce do seu irmãozinho; colou moeda graúda no meio da calçada; colocou sal no café da sua tia. Ele já fingiu dor de barriga pra faltar na aula; já passou cola errada na hora da prova; jogou aranha falsa no colo da sua prima; já falou bem alto um monte de palavrões. Ele já colecionou revistas de mulher pelada; estilingou passarinhos; roubou manga no quintal do seu vizinho. Ele já botou apelidos feios nos seus amigos de escola. Ele já participou da brincadeira do copo; e brincou também de médico. Torcia sempre pro bandido nos filmes. Ele um dia deu rasteira em saci; matou formiga no grito; olhou por debaixo da saia da menina. Passou trote. Amarrou bombinha no rabo do gato. Dormiu na missa. E guardava dentro de si aquilo que sua vó sempre dizia: menino que não presta vivendo por agradar o coisa ruim, não tem mais salvação. Assim, acreditou no sermão do padre, na bronca da mãe, na surra do pai. Quando cresceu, cresceu torto sem o direito de se endireitar. Era nau naufragada e caminho sem volta, sentia ele. Tornou-se homem aflito, formado doutor para ajudar os outros e reparar seus danos; enganos eternos. E depois de sabedor das crenças que o prendiam, no dia de São Ninguém riu ele baixinho e pensou: tudo por causa desta culpa judaico-cristã tão besta. Tornou-se ateu. Achava o deus dos outros um cara preocupado em manter sua fama de mal. Coisa que ele mesmo resistia em não achar de si. E tal qual aquele rabino bacana, descobriu a verdade, e ela o libertou. Passou a seguir seu coração. A vida tornou-se templo. O Amor, o seu perdão. Sua família, porto-seguro. Passou então a pagar suas contas e a separar seu lixo; de dentro e de fora.


"Eu passava muito bem sem deus e, se utilizava o seu nome, era para designar um vazio que tinha, a meus olhos, o clarão da plenitude". (Simone de Beauvoir)

5 comentários:

Alê disse...

lindo texto Gui,


Essa busca por respostas, só termina quando nos entendemos, ou quando tentamos nos entender

Amei!

Heat disse...

Autobiográfico?

rs

Dayse Sene disse...

Que texto intenso e bom! Reflexivo!
Muitas vezes erramos e pensamos nunca mudar, devido a essas "conversas" que as pessoas não mudam, que "pau que nasce torto morre torto"...mas gente muda. Gente Deus dá chances de mudar e as pessoas que falam por Deus, não sabem que Deus é nosso eu, nosso interior...nosso olhos, nosso querer, nosso ar. É por aí que penso. Abraços. Feliz Páscoa.

Richard disse...

Bem,
Sou ateu, e tenho o nome de deus na boca e, como diz Adélia Prado, o tomo num vão. Mas, efeitos de linguagem, que deus é isso que você diz...

Se autobiográfico ou não, não sei. Seu texto é, em todo caso, lírico e lúdico - descreve a infância de todo menino saudável - inclusive com os pais, os padres e os avós fazendo papel.

(Vez ou outra, já depois de bem crescidinho, me dá umas vontades de aprontar como menino, só pra saber que ele ainda não envelheceu dentro de mim...)

Um abraço,

Luzia Trindade disse...

Ótimo texto!
Que criança não aprontou um dia não é?!

Feliz Páscoa!