segunda-feira, 19 de março de 2012

A Lavadeira...

(Imagem: Vik Muniz)
Quando seu pai a abandonou, menina nova saiu de casa para sustentar o lar e cuidar da mãe, e vice-versa. Aprendeu ser lavadeira na casa de senhora que a ensinou outras coisas mais do que apenas tanques e sabão. Além de secar as roupas ao sol, menina aprendeu a secar as próprias lágrimas, entre as humilhações da patroa que dizia guria fazer tudo errado. Aprendeu matemática mesmo tendo largado tão cedo a escola, quando se dividiu em duas, para dar conta das obrigações da vida e dar atenção à sua mãe doente. Aprendeu que os domingos não eram como o padre lá do bairro dizia, guardado para festas ou um cadinho que fosse de descanso, mas antes mais um dia comum de trabalho. Aprendeu menina a gostar da noite, quando sozinha voltava pelas ruas na madrugada, sem dinheiro pra pagar a condução. Aprendeu que ter doença só serve pra diminuir o seu salário e ouvir mais broncas. Aprendeu também menina, entre os amargos da vida, lavar a Alma com as gentilezas que ao longo do dia se apercebia, passar ao largo da tristeza quando esta chamava seu nome, costurar sorrisos na boca e no coração. Pela varanda sabia do mundo; entre o imundo sabia sua luz. Menina fazia hora-extra para ser feliz.


(Texto originalmente escrito para a revista "Elis". aqui.)

4 comentários:

Poeta da Colina disse...

e de pensar que nem todos guardam tempo para aprender a felicidade.

Aprender nessa vida, é raro.

Izabela Cosenza disse...

cada um tem sua história. suas alegrias e seus revezes. o que importa mesmo é "saber sua luz", não é mesmo, guilherme?
excelente!
=)

mfc disse...

Um texto muito bem construído e de uma verdade que dói... de tão verdade que é!
Um abraço.

ღJhoy Nanynhaღ disse...

seguindo... dar uma olhadinha no meu blog dar uma forcinha lá
http://diariodeumcoracaoencantado.blogspot.com.br