sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Jornada...

Morrer talvez seja passar de uma linha para outra; de um nome para outro; de uma a outra estação, como um breve mas profundo silêncio entre as canções. Ando suspeitando que morrer seja pra poucos; porque muitos deixam apenas de funcionar, param, cessam. Poucos podem mesmo morrer. Morrer por inteiro, morrer por entrega, morrer despido do medo, morrer na morte mesma. Muitos de nós morremos em vida e isso não é difícil. É preciso intensidade, uma partida por completo, um mergulho, alquimia, expansão, um mistério que nos acolha, uma jornada em que o dia convide a noite a confessar o outro dia. É preciso atravessar a porta entre o poço e o reino; entre as memórias e o futuro, entre os pecados e os perdões. Tantas são as jornadas e incontáveis são os jeitos de partir, mas também de chegar. Só vive quem pode mesmo morrer; porque só renasce aquele que um dia morreu. E tantas são as mortes e tantas são as vidas depois delas. Dói quem fica, sofre quem resiste. A morte é o bom-senso da eternidade. É o sobrenome da própria Vida.

8 comentários:

Erica Gaião disse...

"Ando suspeitando que morrer seja pra poucos; porque muitos deixam apenas de funcionar, param, cessam. Poucos podem mesmo morrer. Morrer por inteiro, morrer por entrega, morrer despido do medo, morrer na morte mesma"

É, Guilherme, até para morrer é preciso coragem. E amor à vida, também. Porque "só vive quem pode mesmo morrer". E quem pode mesmo morrer, encerra um tempo, para viver outro de uma maneira plena e feliz. E se não der; se não encontrar o que tanto procura, tentar já é um passo. E um passo na direção do melhor-que-eu-quero-para-mim, já é muita coisa.

Perfeito, poeta!

Beijos

Rafaelle Melo. disse...

Lindo texto! Bela reflexão.
Entre chegadas e partidas, que bom que cheguei aqui.

Beijo meu!

Impulsiva disse...

Coincidência ou não, a morte foi um dos temas em que andei pensando nos últimos dias, até arrisquei uns rascunhos... e estranho é que era algo que eu sempre evitei analisar de forma mais profunda (deve ser porque perdi meu pai muito cedo).
Estou impressionada com a sua perspicácia em sintetizar um tema tão complexo.

O final me deixou pensado por vários minutos e eu concordo: "E tantas são as mortes e tantas são as vidas depois delas. Dói quem fica, sofre quem resiste. A morte é o bom-senso da eternidade. É o sobrenome da própria Vida."

Morrer já me pareceu algo cruel, um castigo injusto para qualquer pessoa. Mas embora eu continue achando a vida uma dádiva, a experiência e o passar dos anos me mostrou que a morte também representa descanso deste mundo louco, porque pior mesmo é morrer em vida, e como você bem disse, isso não é difícil!

Parabéns pelo texto.
Um abraço,
Kenia.

Heat disse...

Suas palavras são lindas.

Mas... ainda não gosto da morte. Ainda a julgo uma megera mal amada e invejosa.. que nos roubam nossos grandes amores.

mfc disse...

Não há renascer... morte é morte mesmo!

Noemyr Gonçalves* disse...

E existem tantas formas de morrer, de matar, mas o que é melhor: tem tantas mais de viver ;)

Yohana Sanfer disse...

Nossa que texto forte...e este desfecho legitimando tudo? Muito bom ler tuas palavras, Guilherme!

Brunna disse...

Belo texto, uma boa análise sobre o que é a morte. Muitos morrem em vida, deixado de viver, e na hora da morte, o que viveram? Concordo com sua colocação sobre a morte ser o sobrenome de Vida, afinal, viver e morrer é a lei da natureza.

Muito bom!
Beijo.