quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Crenças...

Buscadora de si, pisou na areia com pés firmes, abrindo mão dos falsos atalhos que escolhera. Navegou por toda sua vida de antes, com velas içadas a ser levada pelo sopro de outras vozes, ideias tantas e conselhos muitos. E assim, chegando onde não queria, alcançou lugar nenhum. Hoje era o primeiro dia de um ano inteiro a lhe revelar o novo e, entre todos os que lá estavam a contemplar céu colorido e beber champanhe, esperava ela sua primeira promessa do porvir vinda de dentro. Queria traduzir-se amanhã e depois em muitas versões de si mesma, a desmentir o velho triste e a colher próspero interior a florescer madurez. Cansada de levantar muralhas a cobrir o infinito das bençãos procuradas ou, de querer saber qual lado da moeda se irá mostrar, abandonou seus pedaços, seus cacos e suas crenças: pular sete ondas, acender sete velas, colher sete rosas, dar três pulinhos, notas no sapato, lençóis limpos, comer lentilhas, romã, uvas, folhas de louro; não mais entregaria ao destino a boa sorte. Agora, era ela a boa sorte a não mais esperar o mar lhe trazer conchas bonitas ou pedras opacas; resolveu decorar ela mesma de formas novas e cores outras a sua vida. Remaria contra a maré, mas com o vento a seu favor.

"Sorte é isto. Merecer e ter". (João Guimarães Rosa)



(Guilherme C. Antunes, vulgo "eu", em 05.01.2011)

sábado, 22 de dezembro de 2012

Feliz Natal...

Pai, verso esta oração pois Tu estás nas minhas mãos assim como eu estou nas Tuas. Vives Tu nas minhas palavras assim como em Ti eu também sou verbo. E nos meus olhos, és semente que confessa a cor dos frutos, o nome de um rio que se rende ao mar, o filho pequeno que abraça a mãe. Pela Tua palavra aprendi a respeitar o inverno, esperar pela primavera e aceitar minhas colheitas; aprendi a ser verão e a voar com as andorinhas. Abençoa-me como abençoas o grão-de-areia, o vento e as estrelas, pela igual oportunidade de habitar a Tua casa. E que o eterno em mim se anuncie, afastando o veneno do meu sangue, os espinhos das minhas flores, o egoísmo dos meus amores e as lanças das minhas mãos. Torna-me doçura quando eu souber ser só amargo; torna-me cura quando souber ser só destruição; torna-me descanso para vestir todos os meus sonhos e torna-me Amor, como resposta para cada pergunta da Vida. Conceda-me todas as sombras da floresta para eu caminhar com a minha própria Luz. E se eu cair, ferir, morrer, matar, sofrer, perder, errar; perdoa-me com o recomeçar, com o novo, com a coragem, com a gratidão por tudo aquilo que fui e pelo que ainda serei; e também com a certeza de que o Senhor é meu pastor, e nada me faltará. 


(Guilherme C. Antunes, vulgo "eu", em 'O Verbo...')

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Calendário...

Tem gente que passa o ano inteiro dormindo e só resolve acordar às vésperas do novo ano; talvez pra voltar a dormir novamente. Tem gente que depende somente da sorte e não das próprias escolhas. Tem gente que irá consultar a previsão do horóscopo, o I Ching, pular 7 ondas, pular num pé só, combinar cores e fazer simpatias como se isso traçasse seus novos caminhos, pois tem gente que vive das sempre mesmas promessas de final de ano. Gente que diz acreditar no amanhã apenas pra empurrar o hoje com a barriga. Tem gente que perdoa o imperdoável para continuar acreditando no amor. Gente que não sabe que a diferença entre crer e saber é a mesma entre muleta e a chave da prisão. Tem gente que se acostuma com adoçante ao invés de doçuras. Que acredita que uma folha a menos no calendário possa ser sua redenção. Ou que pensa que só o amor de alguém possa ser sua redenção. Tem gente que coleciona entulho a vida inteira pensando ser algo de valor. Tem gente que guarda dinheiro e deixa tudo no caixão. Gente que pensa ter a vida inteira e resolve deixar para depois. Tem gente que muito se acha quando na verdade nunca se encontrou. Gente vivendo de sonhos mesmo se alimentando de ilusões. Gente que diz saber do mundo e mal conhece suas solidões. Gente que se acostumou ser gado porque está bom assim. Gente que pensa que pensa e ao final não pensa nada. Somos viciados em tentativas e dependentes de recomeços, que se servem do tempo para nos amansar a pressa e enrugar a pele, partir a Alma e salvar os sonhos, pesar o corpo e libertar o peito, denunciar o Amor e reparar enganos, perder de vista tristezas, perder a conta das lágrimas e não poupar sorrisos, repousar nossas verdades no colo após o cansaço das vidas caminhadas. Ninguém é tanto tempo feliz por mais que queira, nem triste o tempo todo por mais que consiga.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Resoluções...

Aquele frio que lhe cortava a alma, era vento forte de tempo fechado ou desilusão dos sonhos bonitos de ontem? Pois, insensível aos apelos do porvir, andava cego às gentilezas da vida e surdo às do coração. Abrigou da dor, no seu colo, a própria vida. E cansado de ser mau jardineiro a pisotear as flores que o tempo um dia o brindou com sementes muitas, queria agora semear presença a adoçar sorrisos e curar feridas. Queria voltar a ser quem nunca foi e, aprender o que ainda não havia aprendido: saber que no palco da vida, ele é na verdade, seu único e próprio antagonista. Cansado de refletir tristezas; passou a espelhar em si, amor; passando com isso a cultivar o novo e com o novo, o bonito. E enquanto bonito, não permitir ir embora a esperança. Há ainda de reconstruir caminhos antigos por onde a serenidade trilhou; a denunciar pelas suas próprias confissões a sua fé e sua vontade de recolher por lá, amor hibernando a despertar faminto. Queria também trazer você pra perto e fazer do teu colo, confessionário. E dos teus olhos, o seu espelho; da paixão, o seu abrigo; e do céu, o seu telhado. Carregava consigo tantas vontades engarrafadas; a guardar em vidro bonito o teu carinho para aqueles momentos em que o cansaço mais chama o nosso nome. Salvar-se-ia de vez, daqui pra frente. E sem resoluções a fazer, ele só queria se olhar e descobrir quem ele era de verdade.

(Guilherme C. Antunes, vulgo "eu", em 16.12.10)

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

O dinheiro não compra a felicidade...

O dinheiro não compra a felicidade, mas alivia a infelicidade. O dinheiro não compra a felicidade, mas torna a infelicidade mais pura, livrando-a das distracções desconfortáveis, provocadas pela falta de dinheiro, que concorrem com ela, disputando prioridades. A felicidade está para o dinheiro como o riso para o meio de transporte. Há uma relação - mas estão apenas vagamente relacionados. Dito doutra maneira, é mais fácil estar-se triste quando não se tem dinheiro. A frase propagandística tem de ter alguma verdade para funcionar. Sim, o dinheiro não compra a felicidade - mas isso é uma frouxa máxima para quem tem dinheiro e, por causa disso, pensa que pode ser feliz.
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(Miguel Esteves Cardoso)

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Mais um dia, menos um dia...

Mais um dia e um dia a mais. Um passo a mais e mais um convite aos teus passos. Mais um amanhã que no ontem nascido, no agora cresceu e tornou-se hoje. Graduou-se tempo. Mais um novo horizonte, escolhas e outras possibilidades. Menos um dia e um dia a menos no calendário. Menos das preocupações de ontem. Mais lembranças. Mais promessas. Menos tempo nesta terra para decidir ser feliz. Mais um inteiro de nós, menos um pouco da gente.

Mais um dia, menos um dia.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Da grandeza e dos mosquitos...

Gente amarga quando cansada do mundo na poesia se adoça. Gente apressada quando na poesia se descansa, ganha o tempo das eternidades. Poesia vive a deixar realidade em apuros; quando vivem os olhos desavisados das paixões e dos mosquitos, atentos apenas às grandezas muitas e quaisquer sombras. Assim, despreocupamo-nos do meio-tempo, no descaso do meio-termo, distraídos do meio-fio. Somos metades abrindo mão de nossos inteiros, ignorando os espaços todos que preenchem as ruas e a nossa vida. Aguardamos por feriados santos, imergimos na água, submergimos no tempo, naufragamos nos sonhos. Aquelas marés de dentro que nos anunciam vendavais, aceitamos sem salvação. Esqueceram-se os homens do carinho de suas sementes; acreditamos no horóscopo. Esqueceu-se o homem da cura dos seus olhares; preferimos os óculos.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Manoelito...

Um dia eu brinquei de ser Manoelito,
e do barro se fez o homem
e do homem a poesia.
Aprendi a ver no azul o canto dos pássaros
e na quina das mesas o encanto das coisas
Destreinei meu verbo letrado
que se encantou e amanheceu semente
passei namorar palavras
dormi de olhos atentos para nos sonhos
não me distrair das cores
Aprendi que infância não entende ponto final.
e desaprendi a amar, só para aprender a amar de novo
descobri que verso, valsa e vento são filhos dos olhos e da lua
Meu lápis é vocabulário de livro da própria vida.
Se o poeta tira da palavra o seu sustento,
faço hora-extra para a poesia.
Um dia pretendo me casar com ela.
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Palavrório tropeçoso metido (a besta) a dedicatória ao menino Manoel de Barros.
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"A voz de um pássaro me recita". (Manoel de Barros)

sábado, 24 de novembro de 2012

Preguiça...

De todas as paixões a que nos é mais incógnita é a preguiça. É a mais ardente e a mais maligna de todas, ainda que a sua violência seja imperceptível e que os seus danos se escondam. Se observarmos com atenção o seu poder, notaremos que ela se torna sempre mestra dos nossos sentimentos, dos nossos interesses e dos nossos desejos. Ela é a demora que tem a força para fazer parar os maiores navios, é uma calmaria mais perigosa para as grandes empresas do eu do que os bancos de areia e do que as maiores tempestades. O repouso dado pela preguiça é uma sedução secreta da alma, que pára de repente as lutas mais inflamadas e as resoluções mais obstinadas. Enfim, para se dar uma verdadeira ideia desta paixão, é preciso dizer que a preguiça é como que um estado de beatitude da alma, consolando-a das suas perdas e ocupando o lugar de todos os bens. 

(La Rochefoucauld)

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Ser-palavra...

Abençoados intensos que nos inspiram.
Labirintos que nos movem.
Becos que nos descrevem.
Excessos que de nós escapam e se derramam no papel.
 As marés-de-dentro ditam o curso de nossas palavras.
Quando nos afogamos nas letras, mergulhamos no mar da vida...

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Pés...

Somamos tantos medos que não mais lembramos 
exatamente 
pelo que tememos.
Assombramo-nos nas ondas de vida-morna 
que não descansa os pés.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Até chegar...

Por vezes, somos o que não gostaríamos ser;
Colhemos o que não deveríamos ter;
Colidimos com o que não queríamos ver.
Sofremos pelo que jamais pensamos um dia sofrer.
Somos soma incompleta.
Coleções de insucessos, incertezas, manias
angústias, faltas e sobras.
Até o Amor em nós chegar...

sábado, 10 de novembro de 2012

Tela em branco...

"Digo tudo isso porque sempre me assusta esse vão, essa impossibilidade. Principalmente entre nós. Havia entre nós, sempre houve, um desencadeamento de conclusões falsas, de mal-entendidos. Eu dizia sempre, mas para você ou era ontem, ou era noite ou era tarde. Então, ao dizer sempre, na verdade eu dizia: a mais profunda noite, o ápice da madrugada, sem saber, sem nunca saber o que eu dizia. Porque a verdade é que a gente nunca sabe, como era possível dizer tudo aquilo sem nunca saber? E era uma sensação constante, isso de poder criar a qualquer momento, algo inimaginável. Como alguém que tem dupla personalidade, ou alguém que, à medida que vai se pronunciando, imediatamente vai esquecendo as palavras e vive sempre na iminência de uma tela em branco. E eu andava apreensiva achando que, a qualquer momento, alguma coisa aconteceria. Alguma coisa sempre acontecia".
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(Carola Saavedra)

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Meu bolso esquerdo...

Sabe Alma, ontem eu não tive tempo pra nada, já que o meu dia não soube fazer outra coisa além de cobrar minha presença nos seus mais insignificantes detalhes e ocasiões. Foi o tempo de chegar em casa, jantar qualquer coisa que não combinasse com minha preguiça, ler um trecho do meu livro de cabeceira e ir dormir. Ou melhor, adormecer. Eu adormeci lendo, com as luzes acesas um pouco antes das dez. Que delícia Alma, me despedir da noite sem me preparar pra isso. Acordei melhor do que todas as noites anteriores que não terminaram assim (aquelas todas em que ensaiei hora certa pra me desligar do mundo). Acordei mais inteiro, mais meu nome e menos as outras coisas, menos lado de fora. Acordei mais precisado de mim, e mais satisfeito também. Acordei tão descansado por não ter lutado com o sono, por não ter lutado contra o ritmo que eu escolho não ver, ouvir, não sentir, não viver, perdido entre as tantas distrações e estímulos a minha volta. Não ter lutado foi a minha conquista. Hoje eu resolvi acordar mais eu mesmo, sem na verdade resolver ser eu mesmo. Taí a sacada. Acordei resoluto em minha existência. Mas não todo. Eu quero me encontrar comigo mesmo de uma vez por todas mas ainda não combinei horário. Não marquei lugar. E confesso, adio pelo medo de me perder pelo caminho. Tenho medo também de atrasar. De errar a esquina de mim que ainda não decidi encontro. E não sei porque insisto em não esbarrar comigo em qualquer lugar que seja, e aí então me dar um abraço daquele de esquecer do mundo e sermos os dois, um: um inteiro! Teimo ainda em agendar o dia deste encontro comigo mesmo, no meu calendário. "Amanhã" é quando normalmente marco, mas eu sempre adio. Hoje Alma, em que sou o que não era até antes de dormir, quero acreditar que o amanhã seja mesmo amanhã; no qual as coisas possam ser mais minhas. Não que elas realmente sejam, porque descobri a duras penas que nada é. Mas que eu possa ser senhor do meu próprio olhar para elas, e que elas não me arrastem como as paixões arrastam o bom-senso. Que eu tenha, enfim, em minha posse o equilíbrio. Aquele que acredito, estar no bolso esquerdo de mim, no casaco de mim, que uso para me esperar. Naquela esquina e naquele amanhã que lhe disse, só não sei que horas ou lugar.

sábado, 3 de novembro de 2012

Dias zangados são dias de amor...

Raios partam os dias zangados. Nada há que se possa fazer para fugir deles. Esperam por nós, como credores ajudados por juros injustificáveis, para nos cortarem a fatia do nosso coração que lhes cabe.

Não são como os dias tristes, que não conseguem habituar-se a uma realidade qualquer, que se revelou, sem querer, desiludindo-nos de uma ilusão que nós próprios inventámos, para mais facilmente podermos acreditar, falsamente, nela. Mas assemelham-se para mais bem nos poderem magoar. Depois. Quase ao mesmo tempo. Bem.

Quem não tem um dia zangado, em que ninguém ou nada corresponde ao que esperávamos? A felicidade é a excepção e o engano. Resulta mais de um esquecimento do que de uma lembrança.

Pouco há de certo neste mundo. São muitos os pobres, mas não são poucos os ricos. As pessoas do sexo masculino não se entendem nem com as pessoas do sexo masculino, nem com as do sexo feminino. As pessoas, sejam de que sexo e sexualidade forem, compreendem-se mal. Dão-se mal, por muito bem que se dêem. As mais apaixonadas umas pelas outras são as que menos bem aceitam as diferenças, as incompreensões, os dias zangados e as noites zangadas que apenas servem para nos relembrar que todos nós nascemos e morremos sozinhos. E que viver é um enorme entretanto, de que devemos tirar partido, sobretudo quando há a sorte de amar e ser amado ou amada. Os dias zangados são dias de amor. Ninguém se zanga por desamor. O amor sobrevive e continua, como vingança.

(Miguel Esteves Cardoso)

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Lata...

"Talvez um dia eu seja uma pessoa mais equilibrada. Dessas que não se abalam tanto com os problemas. Que sabem administrar com inteligência a maioria das situações. Mas, por enquanto, confesso que não consigo. Basta uma coisa dar errado para estragar todas as outras. Um desequilíbrio literal. Imagino meu humor como uma pilha de latas em um corredor de supermercado. Estão todas lá: umas em cima das outras. Organizadas. Alinhadas. Aí vem uma criança teimosa e tira uma das latas de baixo. A do meio! E, em dois segundos, está tudo no chão. Era impossível que continuassem de pé sem aquela lata".
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(Eduardo Baszczyn)

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Mensaleiros...

Há uma ilusão nossa neste entusiasmo nacional pela punição dos mensaleiros pois, absolutamente nada do que ocorreu no mensalão foi para o proveito pessoal de Dirceu, Genoino ou de quem quer que fosse. Há um esquema dentro de uma estrutura em que forças políticas se aproveitam, muito maior a ser combatido além das acusações criminais de corrupção contra indivíduos. Por isso se faz essencial sabermos qual a função estratégica do mensalão dentro do projeto de poder do Partido dos Trabalhadores. E aí o povo celebra a condenação dos corruptos! Quantas vezes ao longo destes últimos anos nós passamos celebrando? Collor, Maluf, ACM e tutti quanti onde cada vez, dizemos ser um marco histórico para um novo país e uma nova festa da democracia. Quantos marcos históricos! A corrupção na nossa sociedade já é tamanha que nosso padrão de julgamento moral está lá no chão. Ainda que o Min. Joaquim Barbosa tenha cumprido exemplarmente com sua obrigação, queremos fazer dele o Presidente da República. O que deveria ser feito de ofício, tornou-se heroísmo na terra da banana. Precisamos rever muita coisa por aqui...

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Atrasos...

Sinto como se eu fosse tão-somente um rascunho, um vir-a-ser, um amanhã que não se é, e um ontem que nunca mais voltará a ser. Sinto como se vivesse perdendo tempo por ser uma soma de deslizes, planos feitos da soma de meus retalhos. Vivo na angústia de não saber se a escolha que não fiz pudesse ser a melhor, onde o final daquele caminho que não trilhei me aguardasse sempre a felicidade. Sinto como se estar "lá" pudesse ser melhor do que estar "aqui". E me incomodo apenas por não ser outro que não eu, devorando-me numa perda de tempo e numa perda-de-mim. Sinto que a maioria dos meus passos me atrasam e me levam pra longe de qualquer lugar onde eu deveria ir ou estar, e que as escolhas que fiz me prendem e jamais me libertam, pelo medo que cultivo em cativeiro. Sinto, sinto muito. Mas não aceito, enquanto também me resigno com minhas prisões e com meu dia-a-dia de repetições tantas que não se cansam de ser. Guardo poucos sorrisos na agenda. Aguardo a vida nas minhas impaciências. Eu namoro com as minhas frustrações sem ninguém saber.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Seja como...

Antes de se preocupar em fechar janelas 
ou jogar a roupa pra fora do varal, 
veja se você vai estar bem, 
seja como brisa 
ou vendaval.

sábado, 20 de outubro de 2012

Desastre...

"Minha vida é um desastre, mas ninguém percebe porque sou educado. Eu sorrio o tempo todo. Sorrio porque penso que se esconder, minha dor desaparece. E, de certa forma, isso é verdade. Basta ser invisível para que ela não exista, já que vivemos no mundo do material, do visível, do verificável. Minha dor não é física, ela esta bem escondida. Eu sou um negador de mim mesmo".

(Frédéric Beigbeder)

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Sapatilha...

Quando seus pés calçavam as sapatilhas, não sabia mais do seu nome ou de sua plateia. De olhos fechados e ela era a própria dança - e não mais a dançarina - quem se entregava diante da música e também do silêncio dos seus convidados. Quando lua morena despontava no céu, de doce cabana saia chorosa, com os pés descalços em busca do mar. Era jeito dela de andar em paz com sua solidão. Quando o sol lhe convidava a despertar, era de sapato e coração apertados, que saia de casa para conseguir espaço na própria vida e uma folga das suas dívidas. E de volta pra casa com seu salto fino nas mãos, via então o seu tamanho e seu lugar diante do mundo. Ainda que tantas versões de si pudessem escolher as cores, os preços, os modelos e os tamanhos dos seus sapatos, eram as ocasiões - e também os acasos - quem definiam seus passos. Era o seu coração quem de verdade caminhava, até que resolveu parar, cansado da caminhada.

domingo, 14 de outubro de 2012

Infelicíssima...

"Eu conheci razoavelmente bem Clarice Lispector. Ela era infelicíssima, Zézim. A primeira vez que conversamos eu chorei depois a noite inteira, porque ela inteirinha me doía, porque parecia se doer também, de tanta compreensão sangrada de tudo. Te falo nela porque Clarice, pra mim, é o que mais conheço de grandioso, literariamente falando. E morreu sozinha, sacaneada, desamada, incompreendida, com fama de “meio doida”. Porque se entregou completamente ao seu trabalho de criar. Mergulhou na sua própria trip e foi inventando caminhos, na maior solidão. Como Joyce. Como Kafka, louco e só lá em Praga. Como Van Gogh. Como Artraud. Ou Rimbaud. É esse tipo de criador que você quer ser? Então entregue-se e pague o preço do pato. Que, freqüentemente, é muito caro. Ou você quer fazer uma coisa bem-feitinha pra ser lançada com salgadinhos e uísque suspeito numa tarde amena na Cultura, com todo mundo conhecido fazendo a maior festa? Eu acho que não. Eu conheci e conheço muita gente assim. E não dou um tostão por eles todos. A você, eu amo. Raramente me engano." 
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(Caio Fernando Abreu)

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

O teu dia...

Estas palavras são dedicadas a você que sonha; que gosta de dormir bastante e rir com seus amigos. Estas palavras são pra você, que crê em algumas coisas e tem medo de algumas outras. Pra você que já chorou por motivos bobos até. Pra você que já fez cara de bravo e muita careta. Que gosta de misturar cores no que alimentam teus olhos. Que não sabe ao certo qual o limite do horizonte. Estas palavras são pra você, que sabe que egoísmo é coisa feia. Que sabe do valor das singelezas e que acredita no poder do invisível. Pra você que gosta de férias e de abraços. Que canta junto com a música e que gostaria que algumas coisas durassem para sempre! Estas palavras são pra você, que sempre irá escolher as coisas doces, a maciez e as gentilezas na tua vida...

Feliz dia das crianças!

terça-feira, 9 de outubro de 2012

A nossa própria voz...

(...) e nos orgulhamos pela sabedoria de nossos próprios conselhos enquanto lamentamos não ter aprendido a caminhar por entre os vales de nós. Aprendemos a exorcizar os demônios, mas não a amar o próximo. Não atravessamos o luto por festejarmos nossas distrações. Implicamos com o espelho quando desnudos. Tagarelamos para não ouvirmos a nossa própria voz. E nos agarramos à dúvida ao invés de escolhermos certezas ainda maiores. Tudo porque, não temos certeza de nós, não temos certeza de nada.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Sobrenome...

Amo quando não espero e aí sou encontrado;
Quando sou surpreendido pelas minhas próprias palavras,
que nascem dos meus olhos de espanto 
e que manhosas se despertam comigo e em mim
e tomam forma nas minhas mãos
ou ganham cores na minha boca...
...cada uma delas com o sobrenome da poesia.

sábado, 29 de setembro de 2012

Interpretatio...

"A poesia se serve da palavra para interpretar os silêncios mais bonitos de nós..."

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Uma crítica que nos cabe...

Não me recordo de quem é a frase: "A hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude". Se há época na qual o homem mais demonstra suas baixezas, esta época é conhecida como "ano eleitoral". Pelos debates e acusações, farpas, evasivas, incoerências e antecedentes, vê-se que não nos sobra muito, pois ou anulamos o voto ou votamos no menos pior. O país, ou melhor, a maioria de nós, ainda não acordou; embriagados pelas distrações cotidianas ou incapazes pela nossa falta de instrução. Aqueles que nos representam são também a nossa permissão e conivência, quando não conveniência, fruto nosso em nosso ventre, a representarem crenças e promessas que não nos servem mais. A crítica aqui não diz respeito a eles, mas a todos nós que seja por erro, insuficiência, preguiça, omissão ou mesmo imoralidade, reforçamos querendo ou sem querer o velho ditado: O Brasil é o país do futuro. (E que sempre será!) Mas quem sabe lá, neste futuro e numa próxima eleição, tomemos um engov e um pouquinho de vergonha na cara.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Parabéns!

Traíste-me com a versão mais bonita de mim mesmo, 
e meu Amor se fez amante. 
Acusaste-me no tempo não te saber desde o sempre, 
e meu Amor se fez imenso.
Por culpa dos teus erros, corrigi os meus.
Por todos os teus amargos, aprendi contrários.
Partiste minha Alma inteira para então juntá-la,
e fazê-la ainda maior que a soma de minhas partes.
Hoje sou palavra a lhe dizer de gratidão,
pois são teus dias que anunciam a minha sorte.
São tuas velas que meu caminho alumiam.
É o teu sopro quem me dá vida e brinda-me as cores.
Quando oculta sob meus maus presságios,
anuncia-me doçuras.
Quando atenta aos meus sintomas de boicote,
ensinas tu sobre o perdão.
Eu te amo porque não houve a mim escolha,
obedeço a todos os teus frutos...
Por ti sou aquele que celebra o nascer e o poente.
E entre tormentas e invernos,
é você a trazer verão pra dentro de nós.
Contenta-me as mãos a lhe desejar muitas sementes.
Sou feliz ao crescer contigo e em ti.
Alegro-me no teu ano novo por renascer em mim também.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

O nada...

"Durante todo este tempo não escrevi nada. Não havia escrito nem estava escrevendo nada. Não havia nada dentro de mim que precisasse ser escrito. Nada precisava de qualquer palavra e não havia palavra alguma dentro de mim que não pudesse ser dita e consequentemente não havia palavra alguma dentro de mim. E eu não estava escrevendo. Comecei a me preocupar com identidade. Eu sempre fora eu porque tinha palavras dentro de mim que precisavam ser escritas e agora qualquer palavra dentro de mim poderia ser dita e não precisava ser escrita. Eu sou eu porque meu cachorrinho me conhece. Mas será que eu era eu quando eu não tinha nenhuma palavra escrita dentro de mim? Isto era muito chato. Algumas vezes pensei em tentar mas tentar é morrer e assim na verdade não tentei. Não estava escrevendo nada".
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(Gertrude Stein)

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Demoras...

"O amor nos condena: demoras mesmo quando chegas antes. Porque não é no tempo que eu te espero. Espero-te antes de haver vida e és tu quem faz nascer os dias. Quando chegas já não sou senão saudade e as flores tombam-me dos braços para dar cor ao chão em que te ergues. Perdido o lugar em que te aguardo, só me resta água no lábio para aplacar a tua sede. Envelhecida a palavra, tomo a lua por minha boca e a noite, já sem voz se vai despindo em ti. O teu vestido tomba e é uma nuvem. O teu corpo se deita no meu, um rio se vai aguando até ser mar"
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(Mia Couto)

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

A Arte de amar...

"O capitalismo moderno necessita de homens que cooperem sem atrito e em amplo número; que queiram consumir cada vez mais; e cujos gostos sejam padronizados e possam ser facilmente influenciados e previstos. Necessita de homens que se sintam livres e independentes, não submissos a qualquer autoridade, ou princípio, ou consciência — e contudo desejosos de ser mandados, de fazer o que se espera deles, de adequar-se em fricção à máquina social; que possam ser guiados sem força, dirigidos sem líderes, impulsionados sem alvos — exceto o de produzir bem, estar em movimento, funcionar, ir adiante. Qual é o resultado? O homem moderno é alienado de si mesmo, de seus semelhantes e da natureza. Transformou-se num artigo, experimenta suas forças de vida como um investimento que lhe deva produzir o máximo lucro alcançável sob as condições de mercado existentes. As relações humanas são essencialmente as de autômatos alienados, cada qual baseando sua segurança na posição mais próxima do rebanho e em não ser diferente por pensamentos, sentimentos ou ações. Ao mesmo tempo que todos tentam estar tão próximos quanto é possível dos demais, todos se sentem extremamente sós, invadidos pelo profundo sentimento de insegurança, ansiedade e culpa que sempre ocorre quando a separação humana não pode ser superada. Nossa civilização oferece muitos paliativos que ajudam as pessoas a se tornarem conscientemente inconscientes dessa solidão: antes de tudo, a estrita rotina do trabalho mecânico, burocratizado, que as auxilia a permanecerem sem conhecimento  de seus desejos humanos mais fundamentais, da aspiração de transcendência e unidade. Como a rotina, por si só, não o consegue, o homem supera seu desespero inconsciente através da rotina da diversão, do consumo passivo de sons e visões oferecidos pela indústria do divertimento; e, além disso, pela satisfação de comprar sempre coisas novas e de logo trocá-las por outras. E divertir-se consiste na satisfação de consumir e “obter” artigos, panoramas, alimentos, bebidas, cigarros, gente, conferências, livros, filmes — tudo é consumido, engolido. O mundo é um grande objeto de nosso apetite, uma grande maçã, uma grande garrafa, um grande seio; somos os sugadores, os eternamente em expectativa, os esperançosos — e os eternamente decepcionados. Nosso caráter é engrenado para trocar e receber, para transacionar e consumir tudo, os objetos espirituais como os materiais, torna-se objeto de troca e de consumo".
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(Erich Fromm. A Arte de amar.)

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Imenso...

Quem sou eu quando fecho os olhos? Quais vestes trago eu aos encontros? Quais os sonhos de infância são os frutos de hoje? Quais máscaras uso quando não é mais carnaval? O que sou quando me sobram apenas palavras? Quem sou eu quando me entrego? Quando não estou? Porque ando me sabendo pelas ausências, e também pelos silêncios. Na minha coleção de avessos, qualquer coisa que eu diga abriga o incerto, o contrário, o relativo, o inverossímil; e o meu não-dizer é absoluto, certo, inconteste, inapelável. Quando não digo, concedo aos meus pés o direito às possibilidades. Por isso, quando algo me perguntam respondo apenas como reação. Eu só falo por rebeldia, como uma força que me empurra e me arrasta quando não quero tomar postura nem posição. Falo por necessidade quando nada quero dizer. Falar me limita, encolhe e prende, e eu sou imenso, gigante e vasto. Sou fruto de todo o meu passado que não consigo demonstrar, todo meu sentir que me é impossível traduzir, todo um infinito que me é descabido explicar. Com as palavras que tenho, do oceano só a gota posso apontar. Melhor então viver nos bastidores das entrelinhas, nas sutilezas dos detalhes, nas cores do invisível, na intensidade do simples, na importância do sereno, numa entressafra de possíveis amores e sementes. Sou plural, coerência e loucura na mesma cura, cegueira e altura num mesmo par de olhos que sabe ser a vida incógnita, quando não tumulto e multidão. E confuso, vivo sentindo torções na Alma, ansiedade de parto, angústia da morte e do renascer; sintomas de quem não sabe cuidar do próprio jardim e cabe ao tempo cobrar meu florescer. Tornei-me hábil com as letras, quando queria era ser honesto ao dizer que a gente mais ensina aquilo que precisa aprender. Mas é o silêncio quem (me) diz e eu só digo por não saber, por querer me distrair e cobrir meus enganos, os meus vazios todos com palavras. Queria era ser prático com o coração, sabendo melhor minhas cirandas e encantos, milagres, carinhos, paixão ou caminhos que possam me desnudar no espelho da Alma.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Companheira...

"É possível que a morte em si não seja uma necessidade biológica. Talvez morramos porque desejamos morrer. Assim como amor e ódio por uma pessoa habitam em nosso peito ao mesmo tempo, assim também toda a vida conjuga o desejo de manter-se e o desejo da própria destruição. Do mesmo modo como um pequeno elástico esticado tende a assumir a forma original, assim também toda a matéria viva, consciente ou inconscientemente, busca readquirir a completa, a absoluta inércia da existência inorgânica. O impulso de vida e os impulsos de morte habitam lado a lado dentro de nós. A morte é a companheira do Amor. Juntos eles regem o mundo".
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(Sigmund Freud)

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Vidas e Mortes...

"Projetos, os contingentes.
Prazeres, os transparentes.
Amigos, os loucos.
Inimigos, os poucos.
Cores, o rubro.
Meses, outubro.
Elementos, os fogos.
Divindades, o Logos.
Vidas, as nossas.
Mortes, as deles"
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(Bertolt Brecht)

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Idioma...

"E, no meio de tantas mudanças, muitas rupturas. Algumas coisas foram encaminhadas pro novo destino, outras se perderam irremediavelmente. O que sobrou posso contar nos dedos, antes eu mal conseguia fechar as gavetas tão abarrotadas de coisas, pessoas, lembranças. Mas o que houve afinal, além de um processo íntimo, pessoal, intransferível? Uma mudança externa também, porque há sempre um desconforto em quem se acostuma com o nosso comportamento mais antigo. E além de lidar com o luto da morte do que éramos, ainda o estranhamento dos que não aceitam o que nos tornamos. Porque mudam os gostos, a disposição e os planos. E alguns reagem como se você os tivesse abandonado no meio de uma viagem a dois por outro continente, quando só você sabia falar a língua local mesmo que os impedisse de aprender o idioma..."
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(Marla de Queiroz)

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Que...

"Que os meus instantes de egoísmo se desmanchem cada vez mais rápido. Que as minhas expectativas não sejam maiores do que a intenção de que o outro esteja tranquilo. Que a paz que ele possa experimentar seja sempre um perfume que acenda a minha alegria. Que o seu conforto seja também um motivo que continue inspirando os meus gestos mais doces e amigos. Que nenhum gesto meu aperte o seu coração, intimide o seu riso, acorde o seu medo, machuque a sua espontaneidade. Que as minhas vontades pequenas sejam dissipadas pela lembrança do quanto a sua felicidade me importa. 

Que ele saiba que, invariavelmente, pode contar comigo, nos tempos de celebração e na travessia das longas noites escuras. É dele também a minha mão. É dele também o meu abraço. É dele também a minha escuta. É dele também o meu olhar amoroso. É dele também os meus melhores sorrisos. Que ele entenda que eu não me desapontarei com a sua humanidade, com as suas dificuldades, com os seus territórios feridos, como, com o mesmo acolhimento, não me desaponto com os meus. Que tenha certeza de que eu quero muito que seja livre, saudável, contente; que seja. Que tudo aquilo que o preocupa, o desassossega, o faz sofrer, por Deus, seja logo transformado, assim como tudo o que o torna feliz seja mais e mais abençoado. Que alcance toda expansão que busca, todo voo que vislumbra, e possa sempre se lembrar de que é capaz de vencer os mais assustadores e impermanentes limites.

Que quando todo dia acordar e deitar pra dormir, ele ouça eu dizer o seu nome baixinho nas minhas preces, e sorria por isso daquele jeito bonito. Que, não importa o tamanho da distância, nunca esqueça que o fato de existir mudou pra sempre a minha vida e que o mundo me pareceu muito mais bacana depois que descobri que existia. Que se saiba amado muito além do de vez em quando, do por causa de, do se. Que se sinta amado como é, não interessa com que cara a circunstância esteja. Que se sinta amado simplesmente porque é. Que tenha paz. Que tenha paz. Que tenha paz. Ah, é claro, que tenha paz e e acesso à alegria mais sincera também. Amém".
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(Ana Jácomo)

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Brilhante...

"Eu sei. Quem não é uma pessoa comum? É horrivelmente pretensioso querer ser qualquer outra coisa. Mas tenho de dizer para você. Eu fui tratado como uma coisa especial durante tanto tempo e tentei o máximo possível ser uma coisa especial, só que não sou, não sou excepcional, sou inteligente, sim, mas não sou brilhante e não sou espiritual, nem assim tão focado. Acho que consigo aguentar isso, mas não tenho certeza se as pessoas à minha volta conseguem".
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(Michael Cunninghan)

terça-feira, 4 de setembro de 2012

A casa...

"O lugar do homem, a "casa do homem", é a ausência. Seu hóspede constante, esse estranho familiar: a Angústia. Estamos sempre a meio caminho de lugar nenhum. A meio caminho entre a coisa e a palavra. Entre o gozo e o desejo. A realidade e a fantasia. Entre a morte e a vida. Sempre pelas passagens, atravessando abismos, encruzilhadas, sem porto seguro. Não sabemos de onde viemos, tampouco para onde iremos. O percurso, essa tragédia/trajetória, uma incógnita. (...). Somos, de fato, como aponta Lacan, uma ponte "...uma constituição criada e criadora de vazios".
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(Olga Sá)

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Refém...

(...) dizia ele ser livre; queria ela ser também.
mas se prenderam ao Amor: falta de ar que lhes convém,
a liberdade envolta em laços;
um cativeiro sem refém...
era na manhã ter seu abraço,
e à tarde o Amor dizendo amém.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Sobre a política...

(...) é essencial que as pessoas estejam a par dos assuntos políticos, além daquele interesse superficial por escândalos e outras notícias correlatas de banca de jornal, para que exerçam plenamente o conceito de cidadão no qual cada um está investido. O exercício da cidadania se dá no homem que consciente de ser engrenagem ímpar na dinâmica social, muito além de ter aprendido a dar opiniões sobre qualquer tema que lhe pergunte ou a revoltar-se sem vistas a qualquer providência responsável, saiba assim se determinar diante da própria realidade. Para isso é necessária educação e disciplina que não se limitam ou se findam nos bancos escolares. A educação é também e principalmente, movimento individual; e mais do que aparente direito do cidadão, é também obrigação sua, para consigo mesmo e para com os outros. Não há ato ou propósito que inseridos no contexto social não afete o seu próximo. Desta forma, apropriado do senso das proporções adquirido pelo conhecimento e pela reflexão, poderá então o cidadão defender ideias através dos instrumentos que lhe cabem, seja para expô-las num debate a vingar bons frutos ou desarticular ideias que se denunciem injustas e parciais, ou ainda, para promover outras ideias mais, com vistas a se concretizar na pessoa pública de um candidato que verdadeiramente nos represente.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Intensos e histórias...

Às vezes essa história de ser inteiro me deixa pela metade. De ser intenso, um desgaste só. A dor sendo sombra e o prazer fruto; qual a escolha daquele que evita o morno da vida, se não sentir?

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Horizonte...

Se corro ao seu encontro, ele corre da minha chegada. Por lá moram sonhos impossíveis e amanhãs improváveis; mas também as mais belas certezas. Talvez horizonte seja a indecisão de Deus não saber se vive embaixo ou em cima, por isso, todas as promessas do mundo se realizam naquele cadinho de milagre onde se termina a terra e se começa o céu. Eu não sei, talvez essa seja uma das únicas jornadas que valha a pena trilhar: o dissolver da ilusão. O horizonte só existe porque existem olhos que dele se saiba. Sem qualquer olhar, não haveria o horizonte. De olhos fechados, o homem é livre e verdadeiramente infinito.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Desilusão...

Serei o teu ombro, mas não teu amante.
Serei tua noite, mas não teu sereno.
Serei tua terra, mas não teu caminho.
Serei teu descanso, mas não o amanhã.
Serei tua fuga, mas não teu encontro.
Serei o teu mestre, como sou ao discípulo.
Serei a palavra, como sou para o ouvido.
Serei um descaso, por não querer mais ferir.
Seria qualquer coisa, se alguma coisa eu fosse.
Seria Amor, se Amor eu soubesse.
Serei tua fome, mas não alimento.
Por isso eu parto, pelo caminho contrário.
Por isso eu parto, o teu coração.
Ainda que eu seja, a cura e a benção.
Sou dono e o rei de um reino em vão.
Estarei de passagem mas não serei porta.
Serei tua leveza, mas carrego grilhão.
Serei uma promessa, que amanhã não se lembra.
Serei o teu sim que se resume em não.
Seria tua força, se eu não fosse fraqueza.
Seria teu pleno, se não fosse tristeza.
Serei tua verdade, mesmo sendo mentira.
Serei na distância, a tua alegria.
Porque a mim não me cabe o belo e o puro.
Em mim não encontro espaço pro Amor.
Em mim só existe espaço pro escuro.
Em mim só partilho um cadinho de dor.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Conosco...

O Amor muitas vezes parte
não porque deixamos de saber o que fazer com ele
mas porque não sabemos mais o que fazer conosco mesmo.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

O Sol...

As palavras quando se revelam pelo significado e o significado quando revelado pelas palavras é experiência das mais nobres apreendidas pela Alma. O conhecido, o conhecimento e o conhecer são qualidades do espírito em que a ordem, a estética, a métrica e o ritmo se apresentam como suas sombras e seus frutos; uma brisa que nos acolhe enquanto atrás dos pensamentos, no pano de fundo do nosso silêncio interior, contemplamos o Sol.

domingo, 12 de agosto de 2012

A pedra do reino...

"O mundo é um livro imenso que Deus desdobra aos olhos do poeta! Pela criação visível, fala o Divino invisível sua linguagem simbólica. A poesia, além de ser vocação, é a segunda das sete artes e é tão sublime quanto suas irmãs gêmeas, a música e a pintura! Vem da divindade a sua essência musical. Mas, meus senhores, ninguém queira tomar como poesia qualquer estrofe, pois há muitas poesias sem estrofes e muitíssimas estrofes sem poesia. Ser poeta não é somente escrever estrofes! Ser poeta, é ser um 'geníaco', ser 'filho assinalado das musas', um homem capaz de se alçar à umbela de ouro do sol, de onde Deus fala ao poeta! Deus fala através das pedras, sim, das pedras que revestem de concreto o trajo particular da idéia! Mas a divindade só fala ao poeta que sabe alçar seus pensamentos, primando pela grandeza, pela bondade, pela glória do eterno, pelo respeito, pela moral, e pelos bons costumes, na sociedade e na família!"
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(Ariano Suassuna. "A pedra do reino".)

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Bons dias...

 Que o amanhã seja palco para ser o que se busca.
Que leveza seja a promessa do vento.
Que a paz seja o próximo passo.
Que o outro seja sempre um convite.
Que o sorriso seja a chave correta.
Que tua memória guarde apenas doçuras.
Que o real toque os teus olhos com ternura,
e que a tua janela seja grande para o Sol.
Que tuas escolhas sejam a versão mais bonita de si mesma 
e que o teu caminhar seja -sempre- mais macio.
Que aprendamos a aprender com as tempestades.
Que os olhos enxerguem todos aqueles pedacinhos de nós que deixamos de ver, 
seja por comodidade ou distração da Alma.
Pois é tempo de abandonar receios e prisões...
...as nossas antigas desculpas.
Você não precisa carregar aquilo que não mais cabe no peito.
Não mais cabe medir palavras e medos, mas sim saber o tamanho das próprias asas.
E que assim seja o teu destino, abençoado.
Um brinde às possibilidades da próxima página dentro da gente!
Bons dias...

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Metade...

Às vezes não dizer é a melhor resposta. 
Às vezes não fazer pode ser a escolha mais acertada. 
Porque somos feitos de avessos e vazios tantos que quando 
somados, nos fazem inteiros. 
Ainda que metades nós sempre sejamos...

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Desejo...

Que o desejo pelo beijo seja a vontade nossa de beijar, 
nunca a tristeza por ainda não ter sido o beijo mesmo. 
Que o desejo nunca nos corte.
Que as ausências jamais nos sangrem. 
Que o calendário não nos condene 
Que a esperança não nos sufoque. 
Caminhemos de mãos abertas.
Quem sabe um dia, então nos encontremos em nossos desencontros...

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Corda-bamba...

Viver é estar na corda-bamba.
Mas é nela, e não de outro jeito que a gente aprende a se equilibrar.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Singeleza...

Pai, que diante dos amargos da vida os meus olhos não percam a poesia.

Janela...

"Há cento e trinta anos, depois de visitar o país das maravilhas, Alice entrou num espelho para descobrir o mundo ao avesso. Se Alice renascesse em nossos dias, não precisaria atravessar nenhum espelho: bastaria que chegasse à janela".
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(Eduardo Galeano)

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Dos idiotas...

"Pensar é o inferno de qualquer ser humano. Seríamos mais felizes se simplesmente não pensássemos. A vida não nos machucaria tanto se marchássemos para ela de mãos e cabeças vazias. A ignorância nos absolveria. Ganharíamos a paz dos idiotas e dos despojados de consciência". (Júlio Emílio Braz)

terça-feira, 31 de julho de 2012

Escrever é isto...

“Escrever é isto: comover para desconvocar a angústia e aligeirar o medo, que é sempre experimentado nos povos como uma infusão de laboratório, cada vez mais sofisticada. Eu penso que o escritor com maior sucesso (não de livraria, mas de indignação social profunda) é aquele que protege os homens do medo: por audácia, delírio, fantasia, piedade ou desfiguração. Mas porque a poética precisão de um acto humano não corresponde totalmente à sua evidência. Ama-se a palavra, usa-se a escrita, despertam-se as coisas do silêncio em que foram criadas. Depois de tudo, escrever é um pouco corrigir a fortuna, que é cega, com um júbilo da Natureza, que é precavida.” (Agustina Bessa-Luís)

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Doçura...

Você é tão deliciosa 
quanto uma jujuba vermelha
 toda açucarada e que, 
como por encanto
aparece nas mãos de um menino desesperançado
 em frente a uma vitrine 
de uma loja de doces.

terça-feira, 24 de julho de 2012

O Rei-filósofo...

Houve uma época esquecida na distante noite dos tempos, reino em que a voz escondia o que o rosto mostrava. Um reino em que os cálculos mais perigosos eram as nossas ilusões e, que a lua dizia o que no céu se ensinava. Pois neste reino vivia um sábio. Um jovem sábio que versava sobre o acaso se parecer conosco; que sobre as coincidências dizia ser a lógica de Deus; que no auge do saber aconselhava ouvir as criancinhas; e que negava ao futuro o direito de nos fazer sofrer. E no alvorecer conquistado por sua Alma, tornou-se o Rei-filósofo daquele reino; que decretou sorrir ao invés de se curvar; que aconselhou perdão ao invés de incriminar; que lecionou às pedras a verdade dos castelos e aos porcos o sabor dos banquetes. E quando velho Rei se tornou, sentiu no peito a dor do reino que nunca cumpriu seus mandamentos. O velho Rei ali chorou; e chorou demais a se tornar riacho a desaguar no nunca mais. Mas quando esperança era apenas o amanhecer entre as montanhas, um novo sábio por lá apareceu. Que dizia ser gratidão nossa semente, a caridade mestra da razão, e que o homem nunca possuirá o Amor, mas aquele pelo Amor será sempre possuído. Liberdade era sombra e o cajado do novo sábio que por lá professava. Assim, sentiu-se o Rei ressabiado e dessabido pelo esquecer, quando ignorou que os outros, a Verdade jamais poderiam obedecer. Abriu mão do cetro e da coroa, perdeu-se ao se encontrar. Verdade voltou a namorar, quando suas leis deixou de prescrever. 

"Busquemos como buscam os que ainda não encontraram, e encontremos como encontram os que ainda buscarão”. (Santo Agostinho)

sábado, 21 de julho de 2012

Crônica...

O ato de escrever para seu escritor é um tratamento contínuo para um sofrer crônico: sentir.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Passarinho...

Palavra é passarinho...
que nem sempre sai do ninho,
que nem sempre sai do chão,
que nem sempre alcança o céu.
Palavra é coração...
vez ou outra se revela pro vizinho,
vez ou outra se é silêncio num cantinho,
vez ou outra se derrama no papel.
Palavra é querubim...
...o milagre de fazer semente o seu jardim.
O verso que não dá à poesia um triste fim.
Que diz quando não digo, 
qualquer coisa sobre mim.


"Tenho em mim esse atraso de nascença. Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos". (Manoel de Barros)

segunda-feira, 16 de julho de 2012

O próximo...

Sem então notarmos... 
a falta se dissolve. 
O problema se resolve;
a saudade se consome;
o coração volta com fome;
e o próximo terá nome...
... a completar o teu também.

domingo, 15 de julho de 2012

Multidões...

"E por que esse meu desejo de ser lido por poucos? Porque pretendo falar de algo que não se deve falar para multidões. A delicadeza, a sofisticação da alma, o amor ao detalhe e a vontade de entender não são atributos das multidões, e aqui reside grande parte de toda a miséria moderna, ser um mundo de grandes números, dedicado a muitos idiotas". (Luiz Felipe Pondé)

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Experimentações...

De olhos fechados, onde estarão os limites mas onde estariam os caminhos? De ouvidos tampados, quais seriam os ruídos mas quais seriam as canções? Inconsciente no meu sono profundo, o que saberia eu da luz do dia? O que seria do real sem o efeito e a força das nossas próprias ilusões? Não sobrevivemos tanto ao amor como a aridez dos desertos, seja por nós mesmos ou pelo outro? O medo é um convite que se recusa, olhos que não despertam, braços cruzados, abraços não dados, lembrança não vivida, um alto muro construído, calendários rasgados e também a esperançosa sombra do nosso destemor. Carrega assim o homem a medida dos seus contrários, pois a vida é palco das alternâncias necessárias às experimentações da alma, que através delas se reconhece e inclina-se a escolher versão mais sublime de si, após atravessar suas tensões.