sábado, 31 de dezembro de 2011

Nudez...

"A rosa: tua nudez feita graça. 
A fonte: tua nudez feita água. 
A estrela: tua nudez feita alma".
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(Juan Ramón Jiménez)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Crenças...

Buscadora de si, pisou na areia com pés firmes, abrindo mão dos falsos atalhos que escolhera. Navegou por toda sua vida de antes, com velas içadas a ser levada pelo sopro de outras vozes, ideias tantas e conselhos muitos. E assim, chegando onde não queria, alcançou lugar nenhum. Hoje era o primeiro dia de um ano inteiro a lhe revelar o novo e, entre todos os que lá estavam a contemplar céu colorido e beber champanhe, esperava ela sua primeira promessa do porvir vinda de dentro. Queria traduzir-se amanhã e depois em muitas versões de si mesma, a desmentir o velho triste e a colher próspero interior a florescer madurez. Cansada de levantar muralhas a cobrir o infinito das bençãos procuradas ou, de querer saber qual lado da moeda se irá mostrar, abandonou seus pedaços, seus cacos e suas crenças: pular sete ondas, acender sete velas, colher sete rosas, dar três pulinhos, notas no sapato, lençóis limpos, comer lentilhas, romã, uvas, folhas de louro; não mais entregaria ao destino a boa sorte. Agora, era ela a boa sorte a não mais esperar o mar lhe trazer conchas bonitas ou pedras opacas; resolveu decorar ela mesma de formas novas e cores outras a sua vida. Remaria contra a maré, mas com o vento a seu favor.



(Guilherme C. Antunes, vulgo "eu", em 05.05.11)

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Pacote completo...

"Talvez meu maior pecado tenha sido achar que o desenrolar da vida estava nas minhas mãos. Monopolizei os fatos, conduzi-os como eu - menina iludida - achei que fosse o certo. Os caminhos já estão trilhados, essa é a verdade. Não adianta querer mudar a ordem do espetáculo. Ainda estou no primeiro ato, com o mesmo figurino, do mesmo jeito. Eu sou apenas um pequeno ser humano. E como um exímio exemplar de minha espécie, ratifico cada vez mais a minha miudeza. A questão é que tudo deu errado. Tudo. Quis ser dona do meu império sem saber que não passava de uma pobre serva. Escrava de mim mesma. E agora estou aqui, carregando uma tonelada de mágoas nas costas. Minhas mãos estão calejadas, meu pés estão inchados, meu olhos perderam o brilho. Ao que tudo indica, dessa vez, não haverá luz do fim do túnel. Haverá apenas restos. Resquícios do amor que não vingou, da felicidade que não cresceu, da confiança que se perdeu. Soluços. Mas não os meus soluços, porque todo o meu estoque já foi gasto. Nem o direito às lágrimas eu tenho, vendi junto aos meus sorrisos. Pacote completo. O pessimismo continua. Cresceu, solidificou, se firmou e por aqui permanecerá. O afeto ainda existe, e é por esse afeto que não me entreguei. Até porque eu sei que o caminho não chegou ao fim. Essa é uma das poucas certezas que me restam. Somente quando eu estiver de frente ao abismo é que vou decidir se pulo ou não".
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(Rebeca Amaral)

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Amanhãs...

"Ela parece tão calma, tão concentrada, tão quieta, mas seus olhos continuam fixos no horizonte. Você acha que sabe tudo o que há para saber sobre ela assim que a conhece, mas tudo o que acha que sabe está errado. A paixão flui através dela como um rio de sangue. Ela só desviou o olhar por um momento, e a máscara escorregou, e você caiu. Todos os seus amanhãs começam aqui".
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(Neil Gaiman)

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Inconsciente...

"Tinha vantagens não saber do inconsciente, vinha tudo de fora, maus pensamentos, tentações, desejos. Contudo, ficar sabendo foi melhor, estou mais densa, tenho âncora, paro em pé por mais tempo. De vez em quando ainda fico oca, o corpo hostil e Deus bravo. Passa logo. Como um pato sabe nadar sem saber, sei sabendo que, se for preciso, na hora H nado com desenvoltura. Guardo sabedorias no almoxarifado."
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(Adélia Prado)

domingo, 25 de dezembro de 2011

Consciência...

"Pode parecer bobagem, mas para quem vive num tempo em que as escolas só ensinam a dar respostas - de múltipla escolha, de preferência -, podemos vir a nos esquecer que, na vida, a questão não é dada, não está pronta, a priori. A vida não elabora as perguntas por nós: é preciso problematizar a realidade, delimitar o problema com precisão, pois isso já é meio caminho andado em direção à resposta mais pertinente".
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(Consciência. Robson Pinheiro)

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

O Verbo...

Pai, verso esta oração pois Tu estás nas minhas mãos assim como eu estou nas Tuas. Vives Tu nas minhas palavras assim como em Ti eu também sou verbo. E nos meus olhos, és semente que confessa a cor dos frutos, o nome de um rio que se rende ao mar, o filho pequeno que abraça a mãe. Pela Tua palavra aprendi a respeitar o inverno, esperar pela primavera e aceitar minhas colheitas; aprendi a ser verão e a voar com as andorinhas.  Abençoa-me como abençoas o grão-de-areia, o vento e as estrelas, pela igual oportunidade de habitar a Tua casa. E que o eterno em mim se anuncie, afastando o veneno do meu sangue, os espinhos das minhas flores, o egóismo dos meus amores e as lanças das minhas mãos. Torna-me doçura quando eu souber ser só amargo; torna-me cura quando souber ser só destruição; torna-me descanso para vestir todos os meus sonhos e torna-me Amor, como resposta para cada pergunta da Vida. Conceda-me todas as sombras da floresta para eu caminhar com a minha própria Luz. E se eu cair, ferir, morrer, matar, sofrer, perder, errar; perdoa-me com o recomeçar, com o novo, com a coragem, com a gratidão por tudo aquilo que fui e pelo que ainda serei; e também com a certeza de que o Senhor é meu pastor, e nada me faltará.


"A redução do universo a uma única criatura, a dilatação de um único ser até Deus, eis o Amor." (Victor Hugo)

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O Reino do mar...

E então o Majestoso Dragão Dourado revelou-se aos teus olhos para um convite em silêncio, levar-te ao reino do mar, embaixo da Ilha. Todos conheciam a Ilha, mas não o reino do mar. Não sabiam como atravessar o azul. Era o mesmo segredo do mergulhar no céu. O convite do Majestoso Dragão Dourado era esse, torná-la oceânica. Para todas as palavras em ti caberem, para todo o silêncio em ti viver. Para que você viva à margem de si, e no mais profundo da Alma também.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Bocó...

"Bocó é sempre alguém acrescentado de criança. Bocó é uma exceção de árvore. Bocó é um que gosta de conversar bobagens profundas com águas. Bocó é aquele que fala sempre com um sotaque de suas origens. É sempre alguém obscuro de mosca. É alguém que constrói sua casa com pouco cisco. É um que descobriu que as tardes fazem parte de haver belezas nos pássaros. Bocó é aquele que olhando para o chão enxerga um verme sendo-o. Bocó é uma espécie de sânie com alvoradas".
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(Manoel de Barros)

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

O porão...

Semeamos erro e queremos a flor mais bonita. Carregamos cacos e reclamamos doerem as mãos. Enfeitamos a Alma de medos e não entendemos doença. Ao Amor fecho os olhos e cego é o coração. Somos donos da casa mais vistosa de uma rua-sem-saída. Somos parte de um encontro que já espera despedida. Versamos na boca a liberdade mas vivemos mesmo é no porão. Um sufoco com porta que pra parede abre e uma esperança com escada que pro teto leva. Quando soube homem o seu porão ser apenas sonho ruim, gaiola virou ninho, corrente virou caminho, farpas e pedras, flores do jardim. E que por lá moravam três ventos, quatro lágrimas, duas promessas e um só pé-de-sol; que ao florescer de luz inundou riacho que arrastou tristezas, e abriu com força janela da casa espantando sombras que por lá dormiam presas.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Sobre as palavras...

A única certeza que tenho sobre o amanhã, é que vou sentir saudades. O único medo que quero carregar, é o medo de me contentar com metades. A mim parti pela tua partida que o coração não permitiu, negando que toda história e todo enredo possa ter um triste final. Saber você em nós me prendeu entre as memórias que versam hoje a tua falta e gritam agora a tua ausência. A distância ainda não me ensinou a te esquecer nos dias que virão sem as tuas cores. Para que serve ser se não seremos? De que serve o vento se não for pra anunciar sementes? Visto um peito apertado e uma boca que não sabe mais dizer o que sente. Visto um futuro que não sabe o que será pela frente. Então vivo inventando razões pra me convencer de que as palavras podem me fazer companhia e me contar algo desavisado de mim. Uma esperança como a porta de um labirinto que um dia entrei quando te conheci, e que hoje não desejo sair por mais que eu possa. Se o real dever da poesia é salvar os sonhos dos amantes, serei obrigado a me salvar pelo silêncio, ciente de que o Amor em nós dormiu, mas amou inteiro e se enfeitou dos dois quando desperto.


"Por que existe o ser e não antes o nada?" (Schelling)

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

A caixa...

Às vezes pressinto felicidade como se eu pudesse entender de Amor; mas sou semente e não sei cuidar de flor. Às vezes pressinto a felicidade como se eu pudesse saber de mim; mas sou semente e nada sei do jardim. Às vezes pressinto felicidade como se a partida já fosse chegada, e ao partir não houvesse destino, em que os sonhos sejam a caminhada,  como se o homem ainda fosse menino; mas sou semente e nada sei do amanhã. Pressinto a felicidade do mesmo jeito que imagino saber qual presente vem dentro da caixa; porque nem sempre ele é o que eu penso que é, mas é pra mim e pra mim serve. Por isso me cabe o sorriso porque tristeza se distraiu. Por isso me serve a chuva porque hoje me faltaram as lágrimas. Por isso me serve abraço quando nem tudo cabe nas mãos. Eu sou feito de alternâncias e me visto de contrários. Caminho pelos avessos e passeio na contramão. Eu sei dos excessos pela falta e da harmonia pela confusão. Eu sei o que tenho exatamente quando não tenho mais. Só sei da cama por dormir no chão. Assim eu sei o que sou na mesma hora que deixei de ser; quando subtraio de mim todos os meus planos, doces, amargos, certos, errados, direito, entortado, ilusões, retratos e sobra o que de mim resta e que não morre porque ainda não nasceu. Ou seja, sou feito de sementes e amanhãs. Sou o silêncio em que mora a incerteza da vida e a exatidão da morte; o espaço em que vive meu destino e o meu próprio nome. Eu pressinto felicidade como sombra que se escondeu porque me vesti de lua. Eu sei do Amor exatamente porque ele não está. E aprendi a saber de mim do mesmo jeito que semente descobriu ser dona de todas as cores e de todos os nomes de flor; naquele momento quando floresceu.

"A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia". (Clarice Lispector)

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Amnésia...

Saiu batendo a porta e pisando duro; partiu sem saber pra onde ia. Era a bilionésima vez que discutiam e mais uma vez, ele se descontrolou. Gritou com ela. Escondeu seu Amor nos punhos cerrados de raiva; espantou seu carinho com seus gestos brutos de desespero. As lágrimas que corriam não o deixavam ver o tamanho colossal da sua idiotice. Sentia-se tão certo ainda que estivesse tão errado. Recusou dividir culpa que também lhe cabia. Ignorou a cartilha do saber-cuidar que aprendera a duras penas durante toda sua vida, desaprendendo perdão no constante amargo dos seus avessos. E a vida bonita que é lhe deu abrigo imediato em lição amarga de desatino. Atravessando a rua não viu caminhão que passava. Quebrou ossos pra fazer companhia ao coração partido dela. Bateu forte a cabeça e esqueceu-se de tudo. Aprendeu por amnésia, sumariamente a perdoar; mas levou para sempre na memória o carinho da sua menina que ali o encontrou, despindo-se das próprias feridas para cuidar da sua Alma. Levantou-se outro. Tornou-se melhor.

(Guilherme C. Antunes, vulgo "eu" em 25.11.10)

"Quem pede perdão mostra que ainda crê no amor. Quem perdoa mostra que ainda existe amor para quem crê. Mas não importa saber qual das duas coisas é mais importante. É sempre importante saber que: perdoar é o modo mais sublime de crescer, e pedir perdão é o modo mais sublime de se levantar..."

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Ofício...

 Cabia a ela ser íntegra, ainda que por vezes se perdesse.
Cabia a ela ser inteira, ainda que o coração demais sofresse.
Cabia a ela ser una, ainda que seu sorriso todo chorasse.
Cabia a ela ser cura, ainda que por vezes (se) cortasse.
Cabia a ela ser chegada, ainda que todo dia ela partisse.
Sentia ela ser viva, ainda que pra sempre amanhã morresse.
Sabia ela do infinito, ainda que numa cabana ela morasse.
Sabia ela ter o céu, ainda que no chão amanhecesse.
Sabia ela ser escura, ainda que sombria ela não fosse.
Sabia ela bem sobre o Amor, ainda que por hoje esquecida;
Pois tudo isso era ofício da Alma: 
Lembrar que o seu nome também era Vida.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

O motivo...

Após incontáveis desacertos do coração e desencontros da Alma, caiu ele de joelhos à exaustão de suas tristezas, abraçando a descrença do seu destino e da vida que levava. E quando no hoje adormeceu, não soube o que amanhã viria ele a saber: O motivo. Talvez pela desesperança de tudo o que vivia, desistiu de resistir à vida e de esperar por qualquer futuro que lhe pertencesse; então livre das expectativas, sonhos, pré-conceitos e outras cores suas, passou a ver claro e transparente, a alma alheia.  O motivo que nos move o coração, as escolhas, os encontros e os desacertos. O motivo que confessa nossos cantos e esquinas e quem de verdade somos. Além da percepção limitada dos sentidos e da linguagem, pode ele ver sob as superfícies que em nós ocultam os reais impulsos do espírito. Assim, o branco passou a ser branco. As mãos, criadoras. A semente, a cor dos frutos. A vida, palco do infinito. Apreendeu ele nas entrelinhas, o sentido que aponta a verdade das coisas, imersa entre os véus dos interesses, enfeites do ego e do orgulho, pelos receios que apequenam, mas também do Amor que cura e que soma, do perdão que expande e da compaixão que aproxima e se veste de gratidão. motivo que fala sem dizer; age sem fazer, aponta sem mostrar, arde sem doer, morre sem viver, encontra sem perder, pai de todos os porquês. O porquê dos vícios e falsas virtudes, o porquê dos sorrisos em público, lágrimas em casa, florear demais, falar demais, sentir de menos, calar, consentir, farpas, gastrites, excessos, viver vazio, morrer inteiro. Se mudar de significado no dia seguinte é um dos mais deliciosos privilégios da mentira -a maior fortaleza da auto-estima- e a verdade produto raro das prateleiras, o que nos faz escolher, então, a verdade no caminho nosso? Por que costumamos sentir uma coisa, pensar outra e fazer outra bem diferente? Quais são as nossas verdadeiras razões? O sentir, o pensar e o agir são os 3 universos dentro de nós como potências criadoras que tem por origem duas direções em que caminhamos. O Amor ou o medo. O amor e suas nuances, ou o medo e seus desdobramentos. Eis os motivos pelos quais nos movemos.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Relâmpago...

Quando na escuridão de nós mesmos confundimos pedras velhas com as preciosas que pensamos guardar dentro, enganos com acertos que ousamos saber quais, plenitude com prazer que sentimos ser ambos iguais, basta que o Amor se aproxime tal como o relâmpago; apenas uma fração, um encontro, uma esquina certa, uma entrega, um breve mergulho para alumiar todo o caminho, no tempo de nos apercebermos o que de verdade carregamos nas mãos, e no próprio peito.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Sobre a experiência...

Experiência é saber o sabor do que antes não se sabia; provar do agora com a Alma inteira, acolhendo o amanhã com os sentidos. Experiência são planos e sonhos vividos; imprevistos e acasos sabidos, pelo sujeito que confessa o verbo que sente. Experiência é porta aberta, joelho ralado, livros de cabeceira, voos e mergulhos, pousos e decolagens, sobras e faltas que se vestem com a verdade de muito mais cores do que as próprias palavras que as descrevem, pois faltam em si o pulsar do real. As palavras são apenas as confissões pelo espírito, daquilo que já se sentiu e atravessou, hoje se fazendo sempre na nossa memória. E cada experiência carrega ocultos os símbolos que não veem os olhos, pois apenas o coração os enxerga e deles também se alimenta. São eles as entrelinhas do mistério que costuram os encontros e coincidências, laços e sorrisos em todos os nossos dias. O Amor é a experiência sublime como se dentro soubéssemos romance entre céus e terra em que o horizonte os eleva ao infinito. Eu sou o que sou e o que quero experienciar. Eu sou um mundaréu de escolhas que levam meu nome como ponte a me trazer pra mais perto de mim, do outro e da própria Vida, que aguarda nossos passos e o tempo de florescer nossas cores, deitarmos na rede, secar nossas dores, matarmos a sede, vencer os temores, semear nossas flores, acolhendo com gratidão os erros e acertos da caminhada, por sermos nós as muitas ondas que desenham a imensidão do eterno.