sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Chinesas...

"Eu queria trazer-te uns versos muito lindos colhidos no mais íntimo de mim. Suas palavras seriam as mais simples do mundo, porém não sei que luz as iluminaria que terias de fechar teus olhos para as ouvir. Sim! Uma luz que viria de dentro delas, como essa que acende inesperadas cores nas lanternas chinesas de papel! Trago-te palavras, apenas... e que estão escritas do lado de fora do papel. Não sei, eu nunca soube o que dizer-te e este poema vai morrendo, ardente e puro, ao vento da Poesia... como uma pobre lanterna que incendiou!"
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(Mário Quintana)

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Resposta...

"Enquanto preparavam a cicuta, aprendia Sócrates uma canção na flauta. “Para que te servirás?" lhe perguntaram. “Para sabê-la antes de morrer”. Ouso recordar esta resposta que os manuais banalizaram, pois que ela me parece a única justificação séria da vontade de conhecer, que se dá até mesmo às portas da morte ou em outro momento qualquer".
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(Emil Cioran)

Amor-próprio...

"Pois o que amamos em nosso amor-próprio são os eus apropriados para serem amados. O que amamos é o estado, ou a esperança, de sermos amados. De sermos objetos dignos do amor, sermos reconhecidos como tais e recebermos a prova desse reconhecimento. Em suma: para termos amor-próprio, precisamos ser amados. A recusa do amor - a negação do amor status de objeto digno do amor - alimenta a auto-aversão. O amor-próprio é construído a partir do amor que nos é oferecido por outros. Se na sua construção forem usados substitutos, eles devem parecer cópias, embora fraudulentas, desse amor. Outros devem nos amar primeiro para que comecemos a amar a nós mesmos. E como podemos saber que não fomos desconsiderados ou descartados como um caso sem esperança, que o amor está, pode estar, estará prestes a aparecer, que somos dignos dele, e assim temos o direito de nos entregar ao amour de soi e ter prazer com isso? Nós o sabemos, acreditamos que sabemos e somos tranquilizados de que essa crença não é um equívoco quando falam conosco e somos ouvidos, quando nos ouvem com atenção, com um interesse que sinaliza uma presteza em responder. Então concluímos que somos respeitados. Ou seja, supomos que aquilo que pensamos, fazemos ou pretendemos fazer é levado em consideração. Se os outros me respeitam, então obviamente deve haver "em mim" - ou não deve? - algo que só eu lhes posso oferecer. (...) Eu sou importante e o que penso e digo também é. Não sou uma cifra, facilmente substituída e descartada. Eu "faço diferença" para outros além de mim. (...) O mundo à minha volta seria mais pobre, menos interessante e promissor se eu subitamente deixasse de existir ou fosse para outro lugar. Se é isso que nos torna objetos legítimos e adequados do amor-próprio, então a exortação a "amar o próximo como a si mesmo" (ou seja, ter a expectativa de que o próximo desejará ser amado pelas mesmas razões que estimulam nosso amor-próprio) evoca o desejo do próximo de ter reconhecida, admitida e confirmada a sua dignidade de portar um valor singular, insubstituível e não-descartável. (...) Amar o próximo como amamos a nós mesmos significaria então respeitar a singularidade de cada um - o valor de nossas diferenças, que enriquecem o mundo que habitamos em conjunto e assim o tornam um lugar mais fascinante e agradável, aumentando a cornucópia de suas promessas".
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(Zygmunt Bauman)

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Sobre a semente...

Semente é verdade que ainda não disse a sua cor. Semente é o futuro que ainda não vingou, a espera generosa pelo porvir; o silêncio próspero que realiza sem fazer. Semente se alimenta de si e alcança o céu. E eu sou vontade faminta que pede saciedade no jardim de ti em que procurei renascer. E não ter sabido me atrair é o que te fez atraente. Pois você é a busca, eu sou o encontro. Eu sou o vento, você é a terra. Mas sou também semente, e nada sei do amanhã. Você quer de mim pista qualquer que te dê segurança quando entregue aos teus desejos; mas desejo, amor e amanhã são feitos de matérias parecidas; porque são nossos, mas são incertos. O que te dou é doçura do encontro a te fazer saber cuidar melhor da semente, saber cuidar melhor da terra, esperar serena pelo florescer, esperar sabida pela colheita e colher o fruto, sabendo o sabor de mim. Você pergunta à semente quais seus planos por querer garantias que te afastem deste medo besta do depois. Quais garantias, de fato, podemos ter na vida? As pessoas vivem se encontrando e se perdendo. As flores vivem colorindo e depois morrendo. Os laços vivem sendo feitos e depois rompendo. A vida assusta os desavisados assim mesmo, quando ela parece desse jeito, sem eira-nem-beira, do avesso, louca, pouca, muita, acolá das razões que nos afastam das alternâncias e que nos cercam na nossa ilusória zona de conforto. E quando passamos a saber que a vida é palco de muitas cores e incertezas que nos trazem o novo e a força, como as sementes que gritam amanhã qualquer da nossa colheita, aí podemos respirar macio e criar o bom e o melhor, trilhar o insuspeito, navegar pelo mistério, iluminar as nossas sombras e escolher qualquer caminho e qualquer sorriso que inevitavelmente acolherá o coração. Eu sou feito de alternâncias e me visto de contrários. Sou primavera a colher todos os meus frutos. Sou também inverno a me acolher nas expectativas.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Avesso...

Viver é mar que não espera por pés que se acostumem com ondas que vem e vão. Também não se entra aos cadinhos, tanto na vida quanto no mar, já que não se avança nem se aproveita passeio com receio de que maré derrube ou que água gelada espante. Porque o mar te pede inteiro e a vida pede mergulho, ainda que não dê pé. Porque o mar te recebe todo e a vida te pede entrega, ainda que corrente te leve pra longe ou belas conchas possam cortar. Lembra-te que existem mais belezas e cores do que perigos no fundo do mar ou no palco da vida; mas que as tolas distrações serão motivo pra deixar que sol bonito queime a tua pele e água salgada lhe amargue a boca. Lembra também que medo não é bóia, é naufrágio. E que horizonte é teu único limite. Aprende-se a nadar no mar do mesmo jeito que se aprende a viver a vida. Não há como saber se você não estiver dentro. Maré nem sempre respeita castelo de areia; construa-o mesmo assim porque, ainda que não dê pé, ainda que falte fôlego, ainda que canse, ainda que morra, ainda que parta, mergulha! Porque toda partida é chegada. E toda morte é nascer. Do avesso, por certo.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Busca de mim...

Antes que eu vá adiante e me esclareça, saiba: eu sou uma farsa! Pois do que adianta eu escrever se não sei apontar verdades? Que me cabe dizer alguma coisa se ao final, não tenho coisa alguma para dizer? Por isso mesmo escrevo: para achar qualquer coisa que me satisfaça. Ao escrever, escrevo para mim; assim me encontro através de outros olhos; invento-me com elogios que me creditam ser abrigo, ainda que eu conte fantasias. Sou daqueles que dizem que a gente sempre tem o quê aprender com todo mundo qualquer um, mas que não crê em si mesmo. Eu confesso vazios e barulhos que o vento carrega; mas você, você vê brisa e aconchego. Minhas ideias são doces que não satisfazem, meus enredos são luz que não ilumina. São entrelinhas vazias que dá você o meu sentido, coroando-me com loucura ou sobriedade. Porque eu falo aquilo que você gostaria de saber; e digo tudo aquilo que você gostaria de ouvir. Eu faço dos versos cores e perfumes como se palavras pudessem te alentar; receita em que digo de amores a te brilhar os olhos e a aliviar tuas angústias. Saiba outra coisa sobre mim: sou esperto. Eu falo verdade inventada; vendo gelo pra esquimó e milagre pra santo; e amor pra quem procura por ele, ainda que eu dê tão-somente falsas promessas. No final das contas, eu te hipnotizo. Ou seja, não conte comigo. Porque se você tentar me possuir, eu fujo. Se você tentar me seguir, eu sumo. Você nunca irá me alcançar, entenda isso. Sou sonho bom com hora certa pra acabar. Sou remédio pra tua azia, insônia, vazios e outros males, mas sou de curta duração. Sou encanto que te faz me querer na tua vida com teu sobrenome enquanto desfaço tuas certezas. Você me quer na tua casa enquanto eu roubo tuas posses e fujo pelo quintal. O fato é que eu não tenho nada a lhe trazer aqui; papel em branco jamais deveria macular-se com minhas palavras. Rasgá-lo ao meio seria meu mais sincero, único e cabível, desabafo. Porque quando escrevo uma palavra me faltam outras dez pra dizer quem eu sou, e ainda que eu as encontrasse e então você me lesse, eu não seria mais quem fui. Sou muitas versões e avessos na terra de ninguém em que prossigo na incansável busca de mim.


"O meu olhar tem razões que o coração não frequenta". (Jorge Palma)

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Perfume nas mãos...

Escrevo vontades e letras pra te soprar no coração; querendo ser presença, cheirinho, abraço ou qualquer gentileza que possa acolher você nesta manhã; pra que você sinta sopro leve e macio da gratidão que me namora por ser você parte do meu caminhar, essencial, tal qual é o pé para o chão ou os olhos para escolher direção. Você é nuvem em que me abrigo do calor sufocante da vida que me cobra presença em todo lugar e resposta aos desafios mais absurdos. Você é aquela paz em que repouso os olhos e a Alma enquanto dormes serena. Você é a chave que guarda todos os meus sonhos. Por isso estou aqui pra te lembrar que sou sorriso, porque já me lembrei de ti toda e inteira antes do meu café da manhã. Você é aquele meu perfume gostoso em que uso nos pulsos junto com teus laços bonitos de cores que conversam entre si, pra dizer que seu tom é poesia que decora a minha vida, e que teu cheiro é cafuné que me acolhe no teu ar. Boa sorte a minha então. Visto palavras que trocam de roupa pra embalar minha boca que fala de Amor nas coisas mais simples que te confesso agora. Você é pedido que me convida a ser melhor. Você é convite que me pede pra ficar sempre e fazer cantinho pra nós dois. Porque amanhã o Amor vai nos convidar pra comemorar o nosso encontro de qualquer jeito, ainda que em qualquer esquina, bairro ou distância, mas dentro do mundo que chamo de coração. Como o musgo e a pedra, a lua e o silêncio, o amor e a saudade, goiabada e queijo, esse jeito de dois acho tão nosso. E tua boniteza é de se pousar na vitrine pra eu querer passar a vida inteira querendo ver os teus detalhes e enfeites que sopram também minha vontade de te embrulhar de presente, com laços de felicidade e te levar toda pra mim.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Escuridão...

Antes eu soubesse esperar por promessas e certezas de vida nova para o ano que vem. Não! Quero agora. Amanhã. Daqui a cinco minutos. Porque a vida sabe esperar o fim do inverno e renascer na primavera. Eu desconheço o tempo. Meus porquês, minhas vontades e meus caminhos duram menos do que um ciclo todo; do que um ano inteiro; do que uma esquina dobrada; eles são um pouco mais do que uma rua sem saída; do que um cigarro aceso. Porque eu luto com meus monstros que não esperam minha colheita. Porque eu brigo comigo mesmo quando recuso a paciência. Porque enfrento sombras que se assustam por qualquer sopro ou vela acesa. Sou sopro, sou urgência. Sou confissão que grita querer abraço de quem seja luz a me fazer um pouco menos escuridão.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Os dois vasos...

Ganhou ele dois vasinhos bonitos que a vida lhe deu; para que assim aprendesse a cuidar de si e de cada uma das flores que em cada qual residia. Apaixonou-se pelas diferenças; das cores e da fragrância gostosa que o encantava. Passaram a enfeitar seus dias em distintas formas e tons que ali abrigavam, ainda que alguns de seus frutos, amargos, nutriam-no em promessas de fartura e longa companhia. Noutro, sempre doces, não havia de vingar, por mais que se satisfizesse o paladar ou contemplasse sua beleza. Em um lhe cabia o zelo para evitar seus espinhos e no outro, apenas o perfume de suas flores. E o vaso que a ele parecia mais gasto, seria também o mais forte. E no mais formoso, o que melhor parecia acolher as sementes do porvir. Eram os vasos, suas amantes. Seus frutos, seus prazeres. E em cada qual abrigavam todos os seus amores. Eram indispensáveis. Mesmo assim, uma há de morrer pois, no cantinho de sua alma em que o Sol habita, cabe carinho apenas pra uma delas. Não se sabe qual.


(Guilherme C. Antunes, vulgo "eu", em 19.11.10)

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Morar...

'Amar
é morar dentro.
Deitar é saber canto,
ficar é sentir tanto;
e sonhar por querer perto.
Encontro de dois, onde um são...
quando dois não são mais'.

Ação...

"Imaginação é ponte que para em porta fechada. E o que a abre é o realizar".

O que vale...

"O que não vale, é escolher o avesso da felicidade.
O que vale, é avesso do que não vale mais dentro da gente".

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Cadinho...

Rendido às promessas do sol, sou do avesso. Faço do cansaço minha sombra e da queda o meu compasso. Rendido às juras da lua, sou loucura. Enfeito caminho com fita onde amarro meus sonhos no pulso; sonhos de todas as cores, pra colorir minha vida e namorar meus amores, pra sarar minhas feridas e curar minhas dores. Caminho entre os trevos e folhas de arruda; a fechar meu corpo todo pra tristeza e abrir Alma toda pro sorriso. Visto-me de cantigas e paisagens; faço da nuvem travesseiro e traço de giz o horizonte que escolho pra mim. Convido a boa-sorte pra ser meu par; e nas tempestades, danço chuva e tomo banho de descarrego. Canto outras línguas, falo outros olhos, dou voo às asas, trago o céu às estrelas e presenteio metade com inteiro. Sou grão, sou chão, a terra, a mãe, besouro, e o centeio. Tenho planos de salvar o vento e a semente, do esquecimento. Pois sou lembrança liberta de passado empoeirado que ensina lição do vir-a-ser. Porque cabe liberdade e canção toda num só passarinho. Porque meu Amor vive no teu nome; e porque minha paz mora no teu abraço. E desajeitado com a coerência das palavras, confesso um mundaréu de esquinas e novidades aqui ocultas, pedindo todas elas por cadinho de sabedoria. Saber que revela. Sabor que me nutre. Amor que me (im)pulsa. A me aceitar ponte entre céu e precipício, sombras e doçuras; costurando uma na outra pra ver qual desenho eu serei amanhã. Sou alegria que se junta nos verbos em que me conto e nos pronomes em que estou pra falar nas entrelinhas minha gratidão por ser, estar, permanecer, ficar, partir, voar.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Metáforas...

Diante do seu riacho fluido de Consciência, sentou ele à margem para observar; silenciosamente, os sutis movimentos da paisagem que o acolhiam. Olhou para as águas, turvas, como sentimentos seus. E percebeu que fora ao longo de sinuoso percurso que riacho se contaminou, mas que sua fonte, secreta sob o céu e as montanhas, continuava doce e pura. Tomou em suas mãos cascalhos e pedras, analisando uma a uma como se pensamentos fossem, separando aquelas que enegreciam suas águas com limo e sujeira, ou a destoar sua elegância, daquelas outras que compunham harmonia, deixando correnteza levar o resto que não servia. Sabia ele que o riacho era na verdade rio profundo, de fundo lodoso e movediço em muitos dos seus trechos. Tinha medo de atravessar e se afogar, afundar, morrer; de enfrentar o fluxo que o convidava a se entregar  e desaguar, em qualquer lugar ou em lugar nenhum. Sabia também que entre lama e limo, escondia o rio tesouros que só ele conhecia, mas que não mais (se) achava. E pela cinza nuvem a fazer chuva como tristeza do céu que o velava, tempestade era seu descontrole a inundar e arrancar as flores, destruir as casas, afastar amores e acabar com as vidas pelo caminho. Entendendo que os seus excessos viriam da mudança do seu curso, removeu entraves. E assim, aprendeu a nadar. Limpou o rio e construiu pontes; ajeitou leito que não era mais de morte e bebeu a vida, daquela mesma água; alimentando pássaros, céus e sementes. E quem mais viesse.

O mundo é meu...

"Eu? Eu não sou somente boa. Sou uma pessoa muito bonita. Generosa e linda – e quem aguentar, aguentou. Como prêmio, terá meu amor. Saberá da minha verdade. Dará boas gargalhadas. Mas terá que suportar uma boa dose daquilo que sinto. Pois, apesar de tudo ser diversão, nada é simples. Nada é pouco quando o mundo é meu."
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(Fernanda Young)

Desmascarada...

“Chegava em casa e quase não falava, esgueirava-se, imperceptível, a qualquer instante, como se temesse ser desmascarada. Fechada em seu quarto no final do corredor, como se esperasse que lá, em algum momento, alguma coisa aconteceria. Camilla parecia estar constantemente esperando alguma coisa, um aceno, uma carta, um sinal, alguém que chamasse o seu nome, Camilla”.
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(Carola Saavedra)

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Confissão...

Sou intérprete do coração que pede às mãos pra confessarem Alma, nela em que cabem todos os meus vazios e também o meu Amor. Assim confesso nas letras o que ela me sopra: saudades, contrastes, avessos, doçuras, sonhos, amargos, verdades, devaneios, eu e você. Sou papel em branco a ser traduzido em jardins bonitos e campos de batalha. Costuro meu silêncio com palavras, pontos e prantos, à espera de não mais escrever; à espera de conseguir desenhar na minha própria vida o sol de dentro. Escrevo levezas pra poder esconder minhas sombras todas debaixo do tapete. As bonitezas me servem pra disfarçar cansaço. As doçuras pra calar amargo. E o desapego das dores serve pra fingir o meu tamanho. Distraio-me das mentiras que acredito, com verdades que não vivo. A direção a que aponto, nem sempre a sigo. Que bom você poder beber e se enfeitar das minhas palavras que guardam nas entrelinhas, vento bom. Porque eu também sou vendaval. Sou muitas perguntas e também sou muitas respostas; mas que não me servem, que não uso, que não me cabem. Talvez elas sirvam pra você se libertar, enquanto eu me afogo agarrado em cada uma delas. Talvez elas sirvam pra você se conhecer, enquanto eu nego a autoria dos meus pecados. O fato é que todas elas apontam direção a se levantar as velas e navegar por mares mais calmos, mais lúcidos, mais claros. Pena eu ser tão escuro e sombrio, a perder o caminho do farol. E não quero perder se não for pra ganhar. Não quero morrer se não for pra amar. O que quero mesmo é que você vença os monstros que eu mesmo não conseguiria vencer no seu lugar, e afaste tristeza já que a minha fez morada aqui no peito. E hoje além de mero intérprete, sou pai dos erros que declamo com propriedade, ciente de que não posso ser apenas palavras a se repousar os olhos se meu coração vive aflito por encontrar descanso.

"A palavra é a amante e o amigo do poeta, seu pai e sua mãe, seu deus e seu diabo, seu martelo e sua almofada. Também é seu inimigo: seu espelho". (Octavio Paz)

Sossega...

"Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.

Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperença a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!

Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme".

(Fernando Pessoa)

terça-feira, 6 de setembro de 2011

O Arco e a Lira...

"A poesia é metamorfose, mudança, operação alquímica, e por isso confina com a magia, a religião e outras tentativas para transformar o homem e fazer 'deste' ou 'daquele' esse 'outro' que é ele mesmo. O universo deixa de ser um vasto armazém de coisas heterogêneas. Astros, sapatos, lágrimas, locomotivas, salgueiros, mulheres, dicionários, tudo é uma imensa família, tudo se comunica e se transforma sem cessar, um mesmo sangue corre por todas as formas e o homem pode ser, por fim, o seu desejo: ele mesmo."
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(Octavio Paz)

domingo, 4 de setembro de 2011

Assassinato...


Hoje eu não queria chegar até você e confessar mas, não acredito que eu tenha outra escolha; então eu lhe digo assim mesmo: perdoa mulher, mas eu vou ser obrigado a te matar. E que fique claro; que seja uma morte limpa e rápida, sem qualquer requinte de crueldade. Até porque cruel é o jeito que te mantenho viva em mim; artificialmente com ajuda de aparelhos (o celular quando toca me desatina). Não, eu não quero que você sofra, e nem eu, não mais do que já sofremos quando vivos, quando juntos. Quero sua morte porque você é moribunda que anda me perseguindo e esculhambando meus pensamentos. Em cada novo encontro, lá está você, ao lado dela, falando junto. Enquanto ela me conta histórias, você me tráz as memórias que eu guardei na gaveta. Ela se aproxima de mim e eu sinto o teu perfume. Eu vou pra balada e lá ouço tua música. Eu abro revista e lá leio teu nome. Não dá. Quero te enterrar embaixo de 86 palmos, número esse pra combinar com os meses em que vivemos juntos. Mas por favor, não ressuscite e volte pra cá. Você anda visitando tanto minha cabeça que não paro de pensar em você. Se eu te chamar de boicote, é bem capaz de você atender. Aliás, se eu não te chamar de nada, você aparece de qualquer jeito. A loira do banheiro é bem menos assustadora do que a casa abandonada que se tornou meu coração. Por isso, morra! Morra em mim, por favor. Pra que eu não precise apagar da lembrança, o que de bom ficou. Ou riscar dos meus sonhos, alguns planos e ideias de antes. Hoje eu sorrio e choro na mesma frase, e dissolvo tudo na mesma lágrima. Meu lenço deveria ser tua certidão de óbito. Mas não, molho todas as cartas que não consigo queimar. O que ainda está vivo, preciso matar. De algum jeito: meditação, balada, museu, hipnose, amnésia; dessas de ser resultado de pancada forte na cabeça. Mas quem sabe, vai que eu me acidento e você aparece preocupada comigo; aí eu me derreto. Preciso de alguma droga pesada pra fugir do presente. O álcool não me serve mais. Só se for pra matar você afogada em alguma emboscada. Porque preciso ser arrebatado, pro céu, pro inferno, pro deserto ou pro Alasca, mas longe de você. Com você, não sei continuar. Sem você, não sei recomeçar. Quer saber? Não quero mesmo é te deixar. Então, morro eu.

"Quanto mais vou sabendo de ti, mais gostaria que ainda estivesses viva. Só dois ou três minutos: o suficiente para te matar". (Miguel Esteves Cardoso)

sábado, 3 de setembro de 2011

Zodíaco...

"Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem de minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado da alma e sim um signo do Zodíaco".
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(Gabriel García Marquez)

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Menino...

(...) e o menino, que vivia com a cabeça nas nuvens, ainda tinha medo de tirar os pés do chão. Distraído, acompanhava as estrelas sem perceber que nas flores ele pisava. Saberia ele decidir onde ficar? Pois se perdia ao tentar se encontrar. Até que soube dos passarinhos que no ar viviam e na terra também se aninhavam. Viu cometa que rasgava o céu sem nele dor trazer. Viu semente que morria pra contar suas cores e se tornar novamente aquilo que um dia ela foi. Viu a vida acontecer acima e abaixo do horizonte que trilhava. E depois de tanto adoecer os olhos com tristezas, tratou de cuidá-los com poesia, na terra macia em que depositava sua fé e o seu Amor. Amor este que lhe lembrou das verdades esquecidas pela cabeça, mas sabidas desde sempre pelo coração: Que vida é feita de esquinas de muitas cores. Que caminhar é escada de degraus infinitos. Que o que não mata nos fortalece. Que culpa e medo são apenas prisões. Que quando se dá um passo em direção à Existência, ela dá mil na nossa direção. Que às vezes a gente ensina aquilo que mais precisa aprender. E que amanhecer, tecer, buscar e encontrar são atributos do espírito. Semeando seu coração no jardim que esqueceu, soprou alto tudo aquilo que viveu. E sentiu, que podia ele andar leve no verde e beber do azul. Era ele filho da Vida. Os caminhos todos lhe eram seus. As bençãos todas lhe eram suas. Com as asas que se machucaram, sabia ele cicatrizarem mais plenas no amanhã. O céu lhe pertencia. Arriscou entrega. Voou.

"Quem quer que haja construído um novo céu, só no seu próprio inferno encontrou energia para fazê-lo". (Nietszche)