terça-feira, 30 de agosto de 2011

Recuperação...

Tantas são as alternativas e múltiplas escolhas que escondem no enunciado, meias verdades e falsas certezas. História mal contada, que não cabe resposta com macetes. Não há fórmulas no caminho de cada um. Cabe sim, o contínuo estudo de nós mesmos; a correção das imperfeições e a multiplicação dos atributos do Ser. Saber o bem, de cabeça. E o justo, de coração. E se diante de tanto, podemos chamar os universitários? Lógico, e certo de que a grande Universidade põe alunos a nossa volta para compartilhar também. Quanto as provas, sempre poderão ser refeitas. Amar a si mesmo é graduação. Paciência é professor. E lembre-se que a desatenção nos detalhes, mais a falta de carinho em cada uma destas provas nos deixará em recuperação. Mesmo que a nossa progressão seja sempre continuada...

(Guilherme C. Antunes, vulgo "eu", em 23.09.10)

domingo, 28 de agosto de 2011

Sobre o boicote...

Boicote é jeito bobo de afastar o Amor e deixar solidão reinar sozinha. Boicote é se enganar pra dentro; história mal contada, piada de mau gosto do coração distraído; é jogar seus tesouros todos pela janela. Boicote é desviar curso do rio e inundar a própria vida. É naufragar o próprio barco e deitar para dormir. Boicote é capataz do medo, sombra do desconhecido. É pintar com as cores erradas sua janela. É o futuro pedindo pra não ser. É se acostumar com o morno, com o mesmo, com metade; esconder as chaves da porta sem deixar felicidade entrar, ainda que ela chame. Vestir casaco no verão; é castelo de cartas seguido de um espirro. Boicote é lembrete ao avesso da gente mesmo, de pedir pra olhar pra dentro; e com carinho. É como a febre que avisa que algo está errado, só não se sabe o quê. Aviso que aponta os alicerces frágeis que sustentam nossas certezas; gaveta velha em que insistimos em guardar nossas pobres convicções e belezas empoeiradas; boicote é convite sussurrado baixinho pra se revisitar, abandonar o velho e escolher o novo; ficando com o melhor que ecoa na Vida. Boicote é primo pobre da harmonia que espera retornar à sua casa.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Farpas e conchas...

Parece que longe da Ilha, ela é mais feliz. Mas por quê me parece isso se a tempestade que a assusta, não tem culpa o meu canto? Construo bonita cabana e é a farpa que lhe encontra; na areia em que desenho meu amor, é a concha que lhe corta. E remando contra a Ilha, em jangada frágil de boicote, parece querer voltar. É saudade, o mar que a circunda? É solidão as velas içadas? Naufraga dentro de si a ideia de que a Ilha, em verdade é porto seguro? Não se encontram ameaças na plenitude dos mistérios frondosos que a enfeitam. Cuido dos pastos com esperança. Convido-a ao regresso com a luz do farol. Carinho é trilha. Talvez não enxergue com medo de que as cores confudam, ou a promessa de herdar tal terra a sufoque. Ainda que o único desafio seja a semeadura interior de paz diante do reino que lhe entrego, coberto pelo manto estrelado do céu. Não há riscos, nesta Ilha de um homem só...

(Guilherme C. Antunes, vulgo "eu", em 27.09.10)

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

O esperto...

(...) ele se achando o esperto, resolveu pegar atalhos nos caminhos para a felicidade. Traiu, enganou, fugiu, esqueceu, não partilhou, desmereceu e iludiu; tudo para alcançar o seu intento e o seu prazer, saciando seus desejos e despindo os corações de doçura e fé, trajando orgulho a descansar macio em sua própria sombra. Mas quando na falsa trilha caminhava, viu-se sem saída. O Amor o encontrou, a dar-lhe uma surra, uma sova, e uma lição; do jeito que só o Amor poderia dar. O Amor sem lhe tocar, fez ele doer; exatamente por não (mais) se aproximar. O Amor fez ele chorar, com suas próprias mentiras. O Amor fez ele sofrer, e por isso correr; todo assustado, no caminho de volta pra casa. E sem perceber onde tinha se metido, pisou nas farpas e dores, rasgou a pele com doçuras, tropeçou no vento, engasgou com as cores e negou o sol e o céu por três vezes antes da Vida começar a cantar. Vestindo ego pesado, cansou-se desesperado exijindo alcançar o horizonte. Tornou-se cego da Alma e amante do desamparo. Só que, voltou o Amor a encontrá-lo, caído sobre suas lágrimas em abrigo de tristeza; e achando ser o momento, brindou-o com remédio em sopro na Alma, que dizia mais ou menos assim: Como pode reclamar de ingratidão se quando semeias morango, é morango que colhes? Como exigir a boa sorte se é você quem faz por merecer? Como pedir doçuras se és tu quem tortura e entorta? Como orar pra Vida se preenche teu coração com tristezas? Como buscar a Verdade se olhas pro outro lado? Como pedir pela mudança se a luz revela no espelho, a mesma escolha? Como pode reclamar de desamparo se, quando olha pro alto, a Lua inteira te acompanha? E depois de tanto, sorriu por despertar, sabendo do único privilégio ainda concedido ao seu peito: bebeu e comeu do perdão. Salvou-se do naufrágio. Mergulhou no recomeço.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Pela busca...

Como os olhos que procuram chave de casa nas manhãs atrasadas de segunda, sou aquela busca apressada do coração por um canto amoroso. Um canto em que se descanse tristeza; em que se acenda esperança e aquela vontade de respirar fundo, sacudir a poeira e seguir adiante, sem previsões de cinzas nuvens daquelas que me fazem correr de jardim bonito e me abrigar assustado em qualquer lugar. Sem previsões de jornais de que hoje não é dia bom pra sair de casa. Sem dedos apontados no rosto da verdade, nem da mentira. Sem vestir o peso das certezas e da sobriedade. Quero canto amoroso que me ensine a nadar; e que o mergulho seja daqueles de bater com o coco no fundo do rio. Procuro por pessoas que também saibam nadar na vida, a não nos deixarmos afundar ou cansar na correnteza. Quero sede ao pote e pés pelas mãos, ou pés na jaca, sem melindres, pisar em ovos, agulhas no palheiro. Não quero mais provar a vida de canudinho (nem nada a ninguém); e engasgar quando me acho desatento. Quero mais sabores, onde os laços sejam de cores, as lágrimas sejam de amores, o encontro seja de dois. Quero convidar o Amor agora, e não depois, pra dançar ciranda e ouvir canção de ninar naquele meu canto, o amoroso. Quero interditar meus porões e dias pela metade. Procuro na vida laços que me ensinem tal inteireza; anunciando no trovão que sou tempestade mas também chuva leve pra deixar terra com cheirinho bom. Ser fogo que consome casa velha e labareda pra me consertar. Fogo pra me aquecer no perdão. Paz pra costurar doçuras. Quero tanto atravessar meus medos e esquinas só pra te saber feliz, ainda que do lado de lá. E me fazer feliz, em qualquer lugar; pois quando me contentar com o que tenho e dispensar as exigências, sei que vou lembrar daquilo que teimo em esquecer: que os barulhos e ruídos da vida lá fora; a música e a bagunça da Alma aqui dentro, são apenas estratégias da própria vida, de realçar o silêncio que revela a verdade das coisas, dentro e fora da gente. Por isso, fecharei os olhos e mergulharei na vida; e vou descobrir que coração sabe por saber e alma sabe por sentir. Diante das sombras, os olhos refletem a luz de dentro. E canto amoroso, é qualquer canto onde construo o meu Amor. 


"Não ando muito urgente ultimamente. Ando no meu tempo". (Vanessa Leonardi)

Férias...

"Estou tirando férias de mim. Férias das dúvidas que me derrubam, das ilusões que me levantam, porque tudo isso é muito temporário. E viver assim de pouquinho, sem nenhuma fixação, às vezes cansa. Esperar cada novo dia, cada novo olhar pra saber se posso ser feliz, não me faz feliz de verdade. Um sorriso e o balanço do dia é positivo, posso dormir à noite. Um cumprimento não correspondido e acho que tudo está errado. Mas se eu fico tão bem quando não dependo de opiniões, ações, gestos, por que insito em deitar nos braços do mundo e me deixar abater?

Não existe ninguém que pode me fazer mais feliz hoje e ter essa consciência muda o humor, muda a disposição, muda as vontades. Sabe o que é? As pessoas não me fazem bem, minha idealização delas me engana por um tempo, mas saio fatalmente mal das relações que eu invento. Então por que não me curtir um pouco - me sentir mais leve, mais bonita, mais interessante, já que o fantasma da obrigação de agradar não está me seguindo? Essa é uma daquelas fases de sorrir e não querer saber o motivo, de férias mesmo. De tudo que eu me cobro todos os outros dias do ano, depois me cobro por não ter tempo de cumprir.

Eu cansei de não me satisfazer comigo, não me guardar pra mim. De estar sempre escorrendo, vazando pelas beiradas. De precisar de opinião alheia por ser tudo ao mesmo tempo e esperar reconhecimento por isso. É tanta coisa aqui dentro, tanta coisa que eu tento melhorar e aprender todos os dias, que eu conto toda minha vida pra quem eu acabo de conhecer e fico chateada quando não me dão o valor que eu penso merecer. Mas ei, qual o problema? Nem todo mundo acha que ler e escrever (além do sentido banal de ler e escrever), é interessante. Nem todo mundo precisa saber que uma clave de sol não é um S, nem um G, e deduzir que eu gosto de música só de olhar pra mim. Não adianta chegar numa festa cheia de barulho e gente e querer conversar, achando que antes do cara sugar um pouquinho da minha alma, deve saber que eu não sou umas dessas mulheres vazias, sem uma alma para ser sugada. Tem mais que vento dentro de mim, mas isso é meu. Não faz diferença eu agir como uma pessoa superficial e querer explicar pra todo mundo que eu não sou. Sempre me arrependo de sair, ir a lugares que não têm nada a ver comigo. Mas eu tenho essa necessidade fútil de ser vista. Quando eu me escondo em casa, me sinto anulada. Preciso da opinião dos outros, de elogios. Quando alguém mostra que se lembrou de mim, adoro. Se diz que sentiu minha falta, tenho mais motivos pra sorrir. Quem precisa saber? Por que é que eu me importo com quem não me conhece?

E hoje não vou fazer isso. Não vou ceder, não vou me preocupar. Vou entrar em férias de mim, balancear os pneus, checar o óleo. Vou me amar. Pra depois tentar, quem sabe, amar alguém".
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(Verônica Heiss)

domingo, 21 de agosto de 2011

Cicatriz...

"(...) nunca conheci uma única pessoa que não traga no coração uma dor em carne viva, um pranto que ainda escoa em silêncio ou uma cicatriz para sempre falante. O que varia é a maneira que cada um de nós escolhe para lidar com isso a cada instante que o tempo desembrulha. Um jeito é, ainda assim, investir na vida; outro, é investir na morte. Um jeito é, por causa de tudo, alimentar mais o medo; outro, é apesar de tudo, alimentar mais o amor. Nenhum deles é fácil, mas a textura de cada caminho é diferente". (Ana Jácomo)

O Fulano da minha vida...

Ele sabe agradar da maneira certa e da errada também. Guilherme não é tão forte, apenas sente a necessidade de passar essa imagem. E pra isso é capaz de tudo. Mente, não tão bem. Machuca. Engana e maltrata. Atropela todas as suas vontades. Tanto esforço só pra se mostrar indiferente (ainda que esteja se corroendo por dentro). (...) E mesmo não deixando transparecer, é esperto o suficiente pra saber que orgulho não passa de orgulho. Não acrescenta mais nada a ninguém. Dificilmente ele olha nos olhos. Não tem frases decoradas para agradar. É tão normal que qualquer coisa fora do seu padrão, que fuja da mesmice, simplesmente o atraia. E, apesar de exigir (indiretamente) que o passem segurança. Segurança é algo que ele apenas pensa idealizar. Na verdade, o que o prende é a liberdade. Esse rapaz de postura forte e confiante, tende a intimidar tudo em volta. Quase como se desejasse esfregar na cara de todos. Um por um. Que consegue ter presença e ser discreto, mas que bobo ele não é. Resumindo: Guilherme é ridículo, estranho e tosco. O pior lado inverso da hipocrisia (seja lá o que isso queira dizer). Se não soasse tão cruel, diria que a vida dele é composta de vácuos. Nada que lhe acrescentasse algo, além de experiências (vazias) com mulheres, porres e ressacas. Ele pensa tanto em pensar em não sentir, que por fim, ele não pensa.

E nesse papo todo, sobre um sujeito estranho, seria injusto não admitir que, ainda assim, Guilherme é lindo e inteligente. Ninguém sabe o que se esconde por detrás da covinha da sua bochecha. Nem das bagunças do seu pensamento. Nem tampouco explicar esse pavor de olhar nos olhos. Talvez medo de encontrar um par de olhos que lhe digam mais do que deseja saber. Quem sabe, seja medo de encontrar olhos capazes de decifrar num só olhar, tudo aquilo que com tanto esforço ele teima em esconder. Decifrar desde os seus gestos, até seus sinais e desnudar sua alma a ponto de não sobrar um mísero mistériozinho pra contar história. No fundo, ele guarda uma segurança capaz de tranquilizar a mente mais insana existente (a minha, talvez). Ama liberdade, mas sonha em ser preso, no melhor sentido da palavra. Tem o dom de arrancar sorrisos de qualquer pessoa, em qualquer lugar, diante de qualquer situação. O tipo de cara que machuca, maltrata, engana. Mas cuida, se importa e sabe como ninguém o significado de respeito. 

Guilherme é um sonho de amigo (deve ser por tal motivo que disputam tanto sua atenção). Sonho de irmão, de mãe, pai, vó, vô, periquito e papagaio. É o sonho de toda mulher. Mal sabe, tadinho. Só vai descobrir quando se permitir perder esse medo de gente. (...) E então, amanhã ele vai valorizar, tudo aquilo que insiste em reprimir de si hoje. (...) Porque "Guilherme" é medo. É receio do quanto atitudes alheias podem lhe afetar. Eu já fui medo. Já fui... Quem eu quero enganar? Pra ser sincera, já fui "Guilherme". Contraditóriamente, Guilherme ainda está em mim.
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(Ellen Brito) 

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Paixões...

"Não poderia desembaraçar-me de algo que não possuo, que não fiz, nem vivi. Uma liberação real só é possível se fiz o que poderia fazer, se me entreguei totalmente a isso ou se tomei totalmente parte nisso. Se me furtar a essa participação, amputarei de algum modo a parte de minha alma que a isso corresponde. O homem que não atravessa o inferno de suas paixões também não as supera. Elas se mudam para a casa vizinha e poderão atear o fogo que atingirá sua casa sem que ele perceba. Se abandonarmos, deixarmos de lado, e de algum modo esquecermo-nos excessivamente de algo, correremos o risco de vê-lo reaparecer com uma violência redobrada". 

(C.G..Jung)

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Sobre a intuição...

Intuição é saber riacho o encontro no mar; saber a vela seu fogo ser o mesmo do sol. Intuição é relâmpago que revela na fração da claridade, os contornos do caminho. É o amanhã a confessar entre as esquinas do eterno, o que se revela no palco do presente. Intuição é saber a semente o gosto do próprio fruto. É a palavra que confessa seu sentido sem soar. É saber o Amor quando lá fora reina o medo. É gratidão por ganhar sem nada ainda receber. Intuição é o estado sublime do saber antes; que soprará vida no mergulho do tempo e das coisas mundanas, quando afinamos Alma nos acordes mais serenos. Assim, afine o olhar para verdade que se antecipa no sentir. Afine o coração para ouvir direção correta do caminhar. Silencie seus desejos tagarelas para ouvir a quietude que confessa. E pela prática de sintonia interior, cada vez mais o véu estará ausente. Saber ainda que não se saiba é isso. E isso, é intuição...

domingo, 14 de agosto de 2011

A fragilidade do Amor...

Sabe o homem separar sempre o joio do trigo? Ou distinguir medida entre remédio e veneno? Ou a mentira da verdade? Emoção de sentimento? Seria o homem bicho desatento? Pois quando recebe o Amor em sua casa, entra o medo pela porta dos fundos. Pois quando abre os braços ao desapego; ciúmes pula a janela. Em sua própria casa, distrai-se; e quando em qualquer dos cômodos encontra um, o outro nunca se encontra. E nesta alternância de se aperceber, saberia o homem sentir? Se sabe ele apontar para nuvem que o vento sopra e dizer o seu desenho, não saberia o homem também contemplar o céu de dentro em seus movimentos a defini-lo? É o amor sempre Amor? A dor é sempre um mal? Pode o começo ser final? Por que recusa o peito quando amamos, em lidar com as incertezas? É mesmo o Amor quem luta para enterrar sua precariedade e o seu sentir vulnerável, e quando obtém êxito, logo começa a se enfraquecer e definhar? Por que tão logo construímos o belo, queremos sem querer destrui-lo? Por que quando buscamos acolher, acabamos espantando? Quando controlamos, perdemos o controle e deixamos escapar? Por que diante do sublime, nos apequenamos; despindo lucidez pra vestir baixeza? Ou é tão-somente o medo que nos boicota quando aprisiona leveza no porão, ao roubar chave da porta e se tornar dono do nosso jardim, semeando qualquer coisa com nome de boa semente? Há dentro de nós dois espaços e duas pertenças: a do Amor e o da hesitação. Quando hesitamos, Amor adormece, o Amor adoece, o Amor não está. E no hesitar, vem a traça, vem a praga, a fome, o medo, a posse, a ilusão e o ego nos (des)controlar. Assim como escuridão é ausência de luz; medo é ausência do Amor. O Amor sabe; o medo hesita. Talvez quando atentos estivermos a cada uma, uma-a-uma de nossas emoções, sabendo bem quem são as visitas de nossa casa interior, possamos escolher em todas as ocasiões, o Amor como hóspede. E quando coração escolher o Amor sem hesitar; a sua vida será mesmo sua; sua escolha não será multidão de desencontros da Alma. E aí, Amor será abrigo, será verdade e porto-seguro.


"(...) às vezes quando nos chega a sabedoria, já não serve mais para nada". (Gabriel G. Márquez)

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Epitáfio...

Saiu para buscar sua paz e nunca mais voltou; não porque a encontrou, e sim porque ainda não a viu, nem sentiu, nem sorriu. Só chorou. E depois de tanto matar, de tanto chorar e de tanto sofrer, decidiu ele morrer. Morrer sem paz. Morrer aflito, sem saber como morrer. Sem saber como salvar; sem saber como nascer. Culpou semente que não vingou; sol que não nasceu; coração que não bateu; má sorte que escolheu; palavra sua que amargou. Não soube ele viver; logo, não soube também morrer. Sem saber como amar, sem saber como nascer. Só soube ele doer, não soube ele doar. Saiu para buscar seu Amor e nunca mais voltou; não porque (não) o encontrou, mas porque correu, partiu, sentiu, mordeu, espantou. Só chorou. E depois de tanto somar, de tanto apanhar, de tanto bater e de tanto sofrer, decidiu diminuir. Seu brilho, seus dons, o seu perdão. Escolhas todas em vão. Escolheu sem paz. Escolheu aflito. Escolheu aflição, medos, feiúra, frustração. Não soube amar; logo, não soube ele viver. Conseguiu um pouquinho agradecer. Pelas pontes, pelos laços, carinho, entrega, ternura, abraços. E por não saber como renascer, escreveu seu epitáfio. Porque ele parte, porque ele foge; porque ele morre e você continua; a florescer, a encontrar o que ele ainda não encontrou. Por isso escreve ele todo o dia seu epitáfio; todos os dias uma nova morte, por planejar ainda renascer, amar, viver. Passou a escrever para fugir, e para se encontrar. Para sofrer, e para se curar. Para Amar, e também morrer. E depois de demais sofrer, um dia quiçá, em paz poder descansar. Saber viver, saber amar; e florescer, ao semear. Reinventar, o amanhecer. E no Amor, ressuscitar.

domingo, 7 de agosto de 2011

O que você nunca vai saber...

"Não pretendo te contar sobre minhas lutas mentais. Você terá nas mãos minha simplicidade e minha leveza, que podem não ser totalmente verdadeiras, mas foram criadas com muito carinho pra não assustar pessoas como você. Não vou ficar falando sobre a complexidade dos meus pensamentos, minha dualidade ou minhas dúvidas sobre qualquer sentimento do mundo. Vou te deixar com a melhor parte, porque eu sei que você merece. Guardo pra mim as crises de identidade e a vontade de sumir. Não vou dissertar sobre minhas fragilidades e minhas inseguranças. Talvez eu te diga algumas vezes sobre minha tristeza, mas só pra ganhar um pouquinho mais de carinho. Ofereço meu bom humor e minha paciência e você deve saber que esta não é uma oferta muito comum.

Se você tivesse chegado antes, eu não teria notado. Se demorasse um pouco mais, eu não teria esperado. Você anda acertando muita coisa, mesmo sem perceber. Você tem me ganhado nos detalhes e aposto que nem desconfia. Mas já que você chegou no momento certo, vou te pedir que fique. Mesmo que o futuro seja de incertezas, mesmo que não haja nada duradouro prescrito pra gente. Esse é um pedido egoísta, porque na verdade eu sei que se nada der realmente certo, vou ficar sem chão. Mas por outro lado, posso te fazer feliz também. É um risco. Eu pulo, se você me der a mão.

Você não precisa saber que eu choro porque me sinto pequena num mundo gigante. Nem que eu faço coisas estúpidas quando estou carente. Você nunca vai saber da minha mania de me expor em palavras, que eu escrevo o tempo todo, em qualquer lugar. Muito menos que eu estou escrevendo sobre você neste exato momento. E não pense que é falta de consideração eu dividir tanto de mim com tanta gente e excluir você dessa minha segunda vida, porque há duas maneiras de saber o que eu não digo sobre mim: lendo nas entrelinhas dos meus textos e olhando nos meus olhos. E a segunda opção ninguém mais tem".
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(Verônica Heiss)

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Bichinho verde...

Ela tem bichinho verde de estimação que encontrou em alguma fruta podre ao longo de suas andanças. Na verdade, não se sabe se tal bichinho verde é fruto do medo e da mágoa colhido em riachos passados ou, se é fruto de árvore da mentira e do mal-querer alheio. O problema é que o dito cujo a fez desconfiar do gosto sem ter ela nada provado; desistindo das cores sem ter novo fruto (es)colhido; fugindo de qualquer jardineiro ou brisa mansa que se achegue. Em suma: bichinho verde a fez desgostar do doce por senti-lo amargo em sua boca; sofrendo guria o medo de buscar entre novas promessas, doçuras a saciar coração faminto. Ou escolher entre jardins, caminho certo e não precipício; sem descansar inteira na sombra frondosa do Amor recém-chegado; receosa por sofrer ataque do vento, do tempo, ou de branca nuvem. E quando pelo cansaço baixa sua guarda, reina o ser que de si mesmo alimenta e a ela inteira o devora, a lhe causar gastura, tristeza, e inseguranças nascidas nela mesma. Monstro feio que antes era zeloso bichinho, comia pela beirada sua sanidade, ao trocar seu amor por desespero, sua alma por gaiola e leveza por descrença. O mal da naftalina é a vitória da traça, versava ele. Ciúmes era seu nome; apodrecer, o seu intento.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Costura...

Costura meu "eu" em "você" e enlaça-nos no presente querido. Soma vida tua na minha porque saudade é soma incompleta. Caminha doçura na ponte das palavras trocadas, das confissões veladas, dos suspiros sentidos e das coincidências que enfeitam caminhar nosso na direção dos planos que guardamos. Sirva-se da poesia pra te acolher no meu céu e vestir-se de sol quando tristeza se achegar de mansinho. Sente perfume na roupa a me saber todo teu; traça sorriso na boca a repousar coração aflito por descanso. Caminha e professa encanto; mas não tema o desencontro, porque medo é apenas Amor que levou um susto. E se o medo roga praga, eu rogo prece: que carinho e beijo encontre sempre a caminhada nossa. Porque sou Amor nos teus braços e neles não mais preciso dormir para aqui sonhar. Costura teus fragmentos com linha perfumada dos dias que se apresentam. Junta com tua fé, tua esperança e tua vontade os pedacinhos de luz que refletem seus próprios passos. E espera. O bordado dará pano de fundo às bençãos que aguardam nos carretéis da Vida, as suas cores. E continua você a ser quem é; ainda que cresça, ainda que perca, ainda que mude, floresça, ganhe, nasça, morra, falte ou sobre. Costura teus passos nos meus, porque és sempre bem vinda; girassol ou semente. Cinza nuvem ou sol nascente. E porque te amo.


‎"A felicidade não entra em portas trancadas". (Emmanuel)

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Palco...

Dizem as bocas que me veem bonito, de que sou moderno.
Talvez eu seja mesmo, mas acho que isso é coisa da cabeça.
Porque não há alma mais ranzinza e nostálgica do que a minha.
E coração mais pueril do que o meu.
Coração de admirar palácios, de contar histórias, de brincar de maduro. 
Que se apaixona fácil e tanto, de mergulhar e bater o coco no fundo do rio.
Já a cabeça não sabe muito não. 
Parece negociante desconfiada. Se envaidece dos feitos e conquistas. 
Política, sabe?
Ela finge sério, não brinca. Se enfeita com todas as cores da moda, com todas as notícias do dia. Posuda com seu próprio design.
Gosta do papel de sabichona. Misto de sábia e malandra.
Minha alma tá tentando dar só uns minutinhos pra ela no palco-de-cada-dia.
Pra se aquietar.
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(Guilherme C. Antunes, vulgo "eu", em 12.06.10)