sexta-feira, 29 de julho de 2011

Silêncio...

Guardei sorrisos a colorir o meu silêncio;
Olhos fechados a confessar encantamento;
Abraço meu que nos teus braços é doce alento; 
O teu encanto que nos meus olhos vê repouso;

E como loucos a sentir amor pulsante;
Distância nossa em que se impõe descabimento;
Na ausência tua o meu sentir se faz doente;
Paixão revolta que no teu cheiro eu me amanso;

Sinto, que somos fogo alimentados pelo vento;
Que teu perfume me embriaga como sempre;
Que te encontrei quando meu passo era descrente;
Que fortaleza é o teu quarto em que descanso;

Sei, que o nosso Amor pode caber num vão momento;
Em que costuro os amanhãs a cada instante;
Ou ser sublime a transcender eterno tempo;
Fazer do encontro de nós dois um só amante;

Teu corpo amado templo meu em que me encontro;
Nas curvas tuas sorvo o doce rio nascente;
Sopro desejos nas palavras em que invento;
Contemplo Amor ser meu e seu no sol distante;
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"O senhor sabe o que o silêncio é?
 É a gente mesmo, demais". (Guimarães Rosa)

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Poeminha do recomeço...

Vim fantasiado de alfabeto pra contar aos teus olhos, palavras que sopro sempre que te vejo atenta aos traços da tristeza: que você vai ficar bem; contente pelas coisas todas que tem. Que você vai florescer; que dor vai deixar logo de ser; e depois de muito morrer, a tristeza vai logo partir. Que esperança de novo irá sorrir; a qualquer momento; pois Vida é questão de viver à tempo, semear sonhos na terra e mais no vento. É questão também de entrega; e de resto, pra nada mais há regra, nem fórmula ou receita. Vive teus dias todos inteiros, vai, aproveita! Que cedo coração se renova e, paisagem nua também se transforma; vestindo certezas sempre mais belas. E com a claridade da tua janela; você encontre muito mais: da fé, do amor, de sorriso e de paz. A te levar sempre adiante; costurando o bonito a cada teu instante, de volta pro (meu) mar; voltando inteira pra cá navegar; içando as velas pra recomeçar.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Philosophie...

Tão distraído entre seus desatinos e adocicados nadas que esqueceu ele de saber o porquê das coisas e de dar valor aos laços tantos que cultivava. Vivia de opções baratas a consumi-lo em tempo e inteireza; colecionando amores opacos como quem coleciona velhas moedas e vicios como suas únicas certezas. E pelas mesas de bar, filosofava sobre o mais profundo da existência quando ele mal arranhava a superfície. Sabia bem que suas palavras eram pobres substitutas das verdades que adiava ir buscar; pois a preguiça-de-si o prendia na vida de sorrisos efêmeros e interesses mundanos. Distraia-se com qualquer coisa para evitar dor que sabia vir ora ou outra como retomada de consciência a lhe puxar orelha e lhe por nos eixos do bom senso e do bem sentir. Enquanto isso, sufocava perguntas calando dúvidas e rasgando respostas com encantos triviais e amenidades muitas que de buscador, tornou-se bon vivant; vivendo pelas folhas do calendário que se repetiam longe da trilha ditada pela Alma a lhe revelar os pequenos milagres do cotidiano, apontando nas entrelinhas verdades pouco-a-pouco colhidas em cada doçura e amargor das experiências do coração. Esquecendo-se que tinha o mesmo direito de suas irmãs estrelas; abriu mão da sua plenitude. E entre noites inteiras e sentimentos pela metade; entre garrafas inteiras e corações pela metade; entre distâncias e meias e razões sem qualquer verdade, esperava o nada chegar com trajes de Vida a lhe dar sentido e direção e o tirar deste carrossel ilusório. Aguardava na repetição infinita dos dias cor de cinza, que Deus pudesse lhe revelar algum propósito secreto em seu caminhar. Preenchendo-se de vazios esperava assim, sua redenção. Rotina era sua gaiola. Pequenos prazeres, sua ração. Deixou suas asas de canto, esqueceu-se de voar.

domingo, 24 de julho de 2011

Convite...

A vida me convidou ao recolhimento e eu só quis saber de festas. O tempo me solicitou madurez e eu andei pra trás. A vida me pediu reflexão e eu pensei só em mim mesmo. A vida me pediu prontidão e eu acordei atrasado. Ela me aconselhou disciplina e hoje assaltei geladeira. A vida me pediu paciência e eu saí pra dançar; fazendo muita gente dançar comigo. A vida me pediu partilha e eu joguei tudo fora. Ganhei laços e com elas sufoquei belezas; ganhei sementes e envenenei a terra.  A vida me pediu leveza e eu pisei nas flores; ela me cobrou escolha e fiquei entre dois amores. Vida me cobrou fé e eu paguei com dúvidas. Vida me exigiu clareza e eu vesti óculos escuros. Corações pediram alento e comprei velho romance. Sorrisos me pediram carinho e arranhei seus rostos. Quiseram salvação e eu distribui problemas. As mãos pediram doçura e eu virei as costas. A vida requereu presença e fui ao cinema de enredos mentirosos. A vida me pediu verdades e eu abri Igreja. Eu caminhei por dias e luas mas não contemplei paisagem; não descansei os pés no rio de mim. E de tanto caminhar correndo contra a luz, não vi nascer-do-sol dentro do peito; tropeçando nas sombras a cair em lugar nenhum. E por cair, fiquei. E por ficar, parti. Quando amei, doí. Quando brinquei, menti. Quando cortei, senti. Quando matei, morri. E ao morrer, no inferno me encontrei; sem saber ao certo por quais motivos ficarei.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Saldo...

Versava ele sobre verdades esquecidas pelo próprio coração, quando em dias passados inspirou perfumes. Pois queria a salvação do outro quando era ele mesmo quem se perdia. Tocava no rosto alheio a secar lágrimas com palavras, quando era ele quem se afogava. Contou tantas histórias pra si que se perdeu no enredo. Salvou o final de muitos mocinhos; embora se sentisse o torpe bandido. Virou poeta a se enfeitar de ilusões que não mais sabia distinguir seus carnavais de fantasias dos seus dias de branco. Pelos falsos contos e estórias de antes, azedou histórias e magoou com as rimas, passeando agora de mãos dadas com a tristeza, atendendo aos seus caprichos como se sua filha fosse. Chora nas letras, dói-se nas linhas. Seu lápis era veste rasgada a dar de presente trapos de belos detalhes. E em qualquer um encontrava sua vitória e seu lirismo, menos dentro do peito. Culpava o céu, a terra, e os espinhos por seus desencontros. Perdeu seu guia, esqueceu seu mapa. Queimou manual de bem-estar. Renascer era hoje apenas verbete do dicionário. Astronauta solitário a contemplar o medo entre as estrelas, gritava no vácuo do vazio, por resgate. Sorteia nos textos quem vai sorrir, quem vai chorar; e no seu caso, lágrima era seu grifo. Cobrava perdão da vida sem ter saldo pra isso. E não sabendo mais qual era seu valor, esperava apenas não levar o troco.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Comédia...

Ela tem olhos grandes e cabelos longos. Ele, queixo quadrado e quase sem cabelo. Ela é mulher crescida a usar a moda a seu favor ao vestir seu charme. Ele se sente moleque a usar boné colorido de hélice na ponta. Ele se confessa inocente enquanto ela brinca de ser louca e obcecada. Ele gosta das excentricidades culinárias a instigar os sentidos. Ela não gosta de milho; com exceção daquele salgadinho amarelo de isopor. Ela gosta de vinho. Ele prefere suco de maçã. Ela faz de um achocolatado e um cigarro, café colonial. Ele nem café-da-manhã toma, e ao final da noite devora barra de chocolate inteira no desejo distante, mas intenso, de querer mesmo devorá-la toda. Ela gosta de Chico Buarque. Ele prefere muito mais o Chico Bento. Ele adora o jeito que ela dá risada. Ela gosta por demais do jeito que ele fala doçuras. Ela menciona filósofos e pensadores. Ele não cita ninguém. Ela gosta do Woody Allan. Ele queria ter ido a Woodstock. Ele, cidade grande . Ela, vilarejo. Ela é pés no chão. Ele, avoado. Ela chora de felicidade. Ele ri das impossibilidades. E apesar de tudo e tanto, compartilham eles do mesmo gostar, do mesmo sentir e do mesmo querer. Ambos cheirosos. Ambos garbosos. Ambos, amantes. Ambos, amados. Ela, caipira. Ele, caiçara. Ela, saci. Ele, caipora. Ela, impulsiva enquanto ele, compulsivo: por amores, licores, jardins. Por palavras e pontes. Ambos gostam de aventura, mas são comédia; comédia romântica a saltar das linhas no próximo capítulo onde o final será feliz.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Buscadores...

Vez ou outra gosto de acreditar que a vida é um grande ensaio. Se não nos seria dado instruções para o que fazer e para onde ir. E vir-a-saber o que se desconhece é processo inevitável do crescer e do atuar, no palco dos nossos dias. Pois quando atentos para os atalhos e erros, passamos a repousar os olhos no caminho mais acertado; trazendo à luz aquelas paisagens ocultas em nosso interior, a saber quais sementes darão espinhos e quais outras nos trarão perfumes. Atentos também ao ritmo paciente das coisas que confessam a harmonia dos ciclos, revelamos o óbvio ao coração: que grama não faz força para crescer, ela apenas cresce; nem os peixes fazem força para nadar, eles apenas nadam. Sabedoria é estar atento às nuances da verdade; onde paciência é sombra; sua irmã caçula. Torna-se sábio aquele que escuta as lições do vento, cultivando sua luz ao longo das buscas e colheitas nas estações do sentir; aceitando que nem sempre flor resiste à tempestade, e que se permite sempre o coração entregar-se às doçuras. Sábio é aquele que sabe que onda não pode resistir ao mar; é aquele que costura encontro qualquer com gratidão, a perceber que por tantas vezes nos falta habilidade em soltar os laços dos presentes que a vida nos brinda; pois nem sempre estamos preparados para as pedras e trechos tortos no inevitável caminhar da vida, e às vezes, nem para as alegrias mais sublimes. E certeza assim vem da aceitação; de que Existência é jardim de muitas flores, floresta de muitos caminhos. E sabedoria e aceitação são verdades sinônimas. Aceitação é absorver a vida, vestir-se de sereno e escolher o melhor, uma vez e sempre. Semeadores da Alma, somos buscadores de nós mesmos.

sábado, 16 de julho de 2011

Sobre a promessa...

Promessa é vontade que hoje seja amanhã também. Promessa é sonho incerto de acordar sonhando. Promessa é esperar semente nascer em qualquer terra.  Eu não quero que você prometa nada; quero que você seja agora, toda e inteira. Porque hoje eu estou; amanhã eu não sei. Hoje, eu vou; amanhã (quem sabe) não virei. E lhe conto tudo o que sei: que hoje sou, será, seremos. Amanhã, não sabemos. Hoje, ganhamos. Amanhã, outros planos. Por isso te quero agora, toda e inteira. Aqui a gente tem certeza. Acolá, é surpresa. Aqui, colheita das flores. Acolá, carrossel de amores. Por isso peço, fica agora. Porque os planos se fazem e se costuram por eles. Na casa se mora quando construo as paredes. Uma a uma, sem pretensão de mansão. Pintemos a esquina e depois traçamos cidade. Comamos do fruto pra descansar na pastagem. Curtamos entrada pra não querer ver saída. Bebamos agora o inteiro da vida. Porque promessa é parcelar felicidade. E eu a quero toda e inteira. Cuidemos juntos da flor e depois herdaremos jardim. Porque promessa é somente sobremesa, distante degrau. E hoje é se servir pleno do prato principal. E no menu, encontros sem desencontros, perfume, clareza, encantos. Promessa é ponte de papel pela qual quero percorrer. E prometo hoje meu Amor, que pra ti nunca mais vou prometer.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Sobre a entrega...

Assim como o girassol se entrega ao sol que o cuida com seus laços amarelos, nutrindo-o; assim como os lábios se rendem ao beijo tocando céu da boca e do coração; ou como carta que se destina aos olhos esperados, o barco se rende ao oceano, deixando se levar ao sabor do vento entre as marés. Palavras não ditas que encontram rota e caminho pra se confessar, pra dizer que amanhã é risco certo de investimento na doçura do encontro, na acolhida dos planos, na conta de somar. Entrega é isto: os sinos que tocam, borboletas no estômago, cara de paisagem, visita à terra do nunca. Toda e cada entrega, necessário se faz dois e um. Dois que se mergulham; dois que se encontram. Um que se enamora, outro que se encanta. E amanhã é certeza de resposta. Pois é preciso se entregar à pergunta como quem já sabe além, aquém, acolá. É preciso entregar à terra a semente que despontará flor qualquer a enfeitar nosso sorriso. Porque entrega é isto: chorar sem reservas a virar riacho e alimentar sementes. Não-resistência do que se tem e do que se é a saber o que se é, quem se é, quem se são. Entrega é estar dos dois lados da ponte, ainda que do outro lado saibamos com outros perfumes e vestes. Reverência; abraço sem receio, toque sem melindres, olhares que fazem do outro seu tempo e sua morada. Jogar-se do alto no meu colo-aconchego. É também festa onde medo só entra de bicão. Doação. E dar o que se tem, pode ser doar-se inteiro. Pode ser o suficiente. Porque toda entrega é inteira. Toda entrega é poesia. O sol se entrega ao céu por inteiro, ainda que as nuvens o encubram. E o cinza há de passar.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Sobre a leveza...

Leveza se faz quando coração nem pensamento pesam mais. Irmã caçula de inocência; leveza é sustentação. É dar a volta ao mundo num balão, começo de férias, cheirinho de bebê, nosso cafuné. É também passagem de ida da amargura; lágrima que se evaporou em nuvem a nos abrigar nos tempos áridos. Leveza é certidão de amor sereno que guardo no bolso; é o presente que se despreocupa dos irmãos futuro e passado que já caminham por eles mesmos. Leite com chocolate, algodão doce, cheiro de flor quando ri, livro infantil, nosso rodapé. Receita de sucesso da dieta da Alma que já foi pesada; é aquilo que você passa a sentir por não sentir mais, e que preenche. Manto protetor com jeitinho de lençol, leveza é gratidão para os dias de lua, as noites de sol e também para as tardes chuvosas e cinzentas. Leveza se reflete no olhar macio a ler poesia como lição, no sorriso como ponte e na tristeza como semente.

sábado, 9 de julho de 2011

Salvação...

(...) buscava ele romance de livro que saltasse da linha e lhe tomasse todo o tempo, roubasse todas suas palavras, dissolvesse toda sua história e escrevesse próximo capítulo em traços de bem-querer. Deixou de fazer convites porque sabia ser encontrado, pela própria vida. Deixou também de cantar; porque era cantado em cada esquina, pelos pássaros coloridos a enfeitar amendoeiras. Elogios, todos sinceros; guardados como marca-páginas nas folhas escritas de solitude, a salvar o mocinho de vez em quando. Despiu-se das letras e despediu-se das lágrimas; desarmou-se de armadura de descrenças; fugiu da fortaleza dos desencontros; soltou-se das amarras de solidão para se sintonizar com ela: sua amada. Que, ainda que não a visse, sabia onde. E ainda que não soubesse, sabia quem. Sabia ele, ela. Sabia-se nela o seu romance, e a sua salvação. Escrevia carta sem remetente; capítulo sem nome. Escrevia seu amanhã. Sentia saudades do que ainda estava por vir...

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Sabor...

 
Alcançaste aqui o velho céu; sabendo bem qual teu papel. Ser nuvem alva a colorir de branco o azul em que macio navego. E se fosse você nuvem, cinza nuvem, a ti pediria: chove em mim; chove em ti; deságua em nós, a logo virar riacho; matando sede dos meus olhos a te buscar; sentindo terra do teu corpo a explorar. Ciúmes do vento que te encontra a te levar, assim, alcançando logo o oceano; sabendo bem qual é teu plano. Ser sol a girar nos ciclos; girassol a enfeitar sorrisos. E se viesse você água, qualquer lágrima, a ti pediria: evapora amarra; evapora tristeza; cultiva jardim; semeia abraços; dissolve teu medo; desenha teus laços; de manhã lá bem cedo, ao acordar dentro de mim. E aí desfaz os nós; refaz em nós, o teu sabor; adoçando alma, com novo Amor.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Faxina...

Um dia desses, peguei meus medos e histórias; minhas culpas e memórias, espalhadas todas no velho chão de minha casa. Um dia, descolei hipocrisias e invejas, raivas e egoísmos, perdas e ocas vitórias, todas presas nos cantos e frestas do meu coração enferrujado. Poli máscaras que colecionei ao longo dos anos para doar ao antiquário. E aquelas rachadas que descobriam parte do meu rosto, valeram mais ao novo dono do que outras inteiras e não entendi razão. Um dia juntei minhas intrigas e novelas, meus desdéns e desatinos e joguei todos na fogueira que fiz no quintal-de-mim. Um dia, recolhi minhas vergonhas e receios, crises e aflições, ciúmes e tristezas, todas elas amarrotadas atrás dos meus (in)cômodos antigos. Quebrei minhas correntes como quem desamarra laços de um presente esquecido. Um dia separei joio do trigo, vícios de virtudes e me livrei das traças de emoções baratas a corroer minha sanidade e devorar minhas doçuras. Troquei meus falsos tesouros, gaiolas vazias e velhas crenças por espaços livres entre os suspiros. Arranquei pela raiz minhas mágoas e ressentimentos no jardim de aflições que a contragosto cultivei. Lavei meus sonhos e planos com bastante água e sabão. Passei um pano nas lembranças a me dar gastura e a me prender no passado doído. Doei carapuça que me servia pra brechó do nunca. Esvaziei os porões da consciência de tralhas e traumas, desculpas e truques. Troquei as velhas fechaduras da solidão e abri as janelas para a leveza irradiada. E assim, mudei a folha do calendário do meu ano velho; a decorar quarto de hóspedes para o Amor descansar sereno. Um dia, fiz faxina aqui dentro e tudo ficou mais bonito lá fora. 


"Ambiente limpo não é o que mais se limpa e sim o que menos se suja". (Chico Xavier)

terça-feira, 5 de julho de 2011

E o mar...

A última gota no copo, é onda. 
E o mar.. .. 
o mar é encontro!

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Sobre a sintonia...

Sintonia acontece quando a gente põe coração um na frente do outro fantasiados de espelho. Quando primavera e outono se apaixonam. Quando impressão é certeza. Quando se sabe dois; ou quando se sabe o mesmo. Sincronia, sorte, dois patinhos na lagoa. Insight, dejà vu, andorinhas que juntas fazem verão. Acontece nos olhos que falam o mesmo silêncio, nos sorrisos que confessam os mesmos desejos, nas vidas que costuram o mesmo momento. Sintonia é mergulho e vôo que se abraçam. Verdade em par daqueles que se arrepiam juntos, sentem o mesmo e bebem do mesmo poço. Sudito e rei como amantes; reino e nobreza como amados; ressoando amores em qualquer direção, e que se encontram em qualquer lugar. Sintonia é também doer junto, amar junto, ser inteiros, ser um: são. Comunhão. Sintonia é canção que canto mas que só teu coração escuta. Identidade dos suspiros, harmonia das almas, afinidade dos passos. É o jeito manso que a vida dá para aproximar bocas que se aguardam. Sintonia é Amor confesso nas entrelinhas do óbvio. E o óbvio se torna bem mais claro quando olhos e coração afinados se sintonizam.

domingo, 3 de julho de 2011

Além das palavras...

"Dentro deste mundo há um outro mundo impermeável às palavras. Nele, nem a vida teme a morte, nem a primavera dá lugar ao outono. Histórias e lendas surgem dos tetos e paredes, até mesmo as rochas e árvores exalam poesia. Aqui, a coruja transforma-se em pavão; o lobo, em belo pastor. Para mudar a paisagem, basta mudar o que sentes; E se queres passear por esses lugares, basta expressar o desejo. Fixa o olhar no deserto de espinhos. - Já é agora um jardim florido! Vês aquele bloco de pedra no chão? - Já se move e dele surge a mina de rubis! Lava tuas mãos e teu rosto nas águas deste lugar, que aqui te preparam um fausto banquete. Aqui, todo ser gera um anjo; e quando me vêem subindo aos céus, os cadáveres retornam à vida. Decerto viste as árvores crescendo da terra, mas quem há de ter visto o nascimento do Paraíso? Viste também as águas dos mares e rios, mas quem há de ter visto nascer de uma única gota d'água uma centúria de guerreiros? Quem haveria de imaginar essa morada, esse céu, esse jardim do paraíso? Tu, que lês este poema, traduze-o. Diz a todos o que aprendeste sobre este lugar".
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(Jalal-ud-Din Rumi)