segunda-feira, 30 de maio de 2011

Circo...

Cansei de ser cansaço. Cansei de ser palhaço de circo vazio. Hoje, somente meus sonhos riem de mim; e eu não rio da vida. Rio de lágrimas a desaguar em tristeza de não ser o teu cafuné, nem teu sonho bom. Eu sou espetáculo da aridez, a espantar amores e pagantes, a matar o sagrado nos instantes em que te encontrei. Sou piada pronta, rima tonta, e até com alguma graça. E me encanto rindo em pranto pelos frios na barriga e suspiros que me acham como sopro do teu alento. Jogaria fora o vinho que guardei pra te esperar; ou rasgaria as cartas que escrevi pra te lembrar; abandonaria picadeiro dos olhos teus a me lançar; se eu não traísse a própria morte. Com sorte, da morte de nós dois que nego e que pra longe corro fazendo atalhos; e se faço curva, faço nós. Fujo no silêncio das lembranças minhas pra canto escuro do coração, onde ninguém me encontra, mas donde também não te vejo. Abrigo de lona na ilha de um só homem; porque sou náufrago de fantasias coloridas a te encantar, porque sou errante de rota incerta que errei, no circo bonito que te chamei, pra nos teus braços alcançar, mas que na tua vida não aportei. Por isso, nariz vermelho não é de tinta, é de tanto chorar. Porque com a minha trupe, meus números e poesias, não vou mais voltar. Pois resolvi fazer carreira solo e procurar em você dueto, a perguntar em dúvida a falar: Amor, será que nos reencontramos mesmo antes de vez nos perdermos? Mas ouço poesia de Vinícius da boca tua: "Dorme, meu amor; Como no céu a lua; Tu serás sempre meu; E eu só tua".

sábado, 28 de maio de 2011

Soma...

Você é alma bonita a me fazer palavra; a converter manhãs de incertezas em poesia; ressoando lembranças de nós dois como cordas que vibram juntas, cantam juntas e choram juntas suas saudades; querendo fazer do inevitável, algo a se evitar: senti-las. Pois se o Amor é terra sem caminho, perdi-me por querer te achar. E a cada um passo que dou, me doo, porque volto sempre dois, e nós dois, não voltamos mais. As sílabas do teu nome se confundem com as batidas no peito a repetir lembranças suas que busco, como o orvalho busca a manhã, como a seresta busca as estrelas, como a boca busca o beijo, como eu busco você. E ainda que te encontre em qualquer esquina da minha vida, sei que te vejo de dentro em qualquer direção; coração sempre sabe o que olha. E ver com o coração é encontrar. Mas o que encontrei foi silêncio que não te explica, e que não me aproxima. E aí você se tornou horizonte, utopia, amanhã que não chega pra me enfeitar com teu perfume, celebrar tuas cores e a tua volta. Tornei-me calendário a celebrar os dias santos com teu nome; dias de descanso nos teus braços, com folgas da distância que nos separa.   Assim declaro: sou feito de dias, de vento, sou feito de nada, que sopra quando se assusta ao não te ver aqui; que varre folhas e sonhos pra debaixo dos pés que piso sem me dar conta. Você é alma perfumada, a colorir sorrisos de lábios descrentes, feita de tudo, feita de tanto, de tanto que quero; e também feita de vento, que desenha a pedra ao longo do tempo e o meu sorriso agora. Você é a soma das letras que apontam nossos nomes. Eu sou a soma dos cacos que juntos diz saudades. E ainda que lucidez partiu doída com esperança na mala, por você não pinto ponto final; namoro as nossas reticências...


"A vingança da poesia é essa: ela ser maior que a gente". (Adélia Prado)

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Quem somos...

Qual História contamos através de todas as outras histórias da nossa vida? Que impressão deixamos no coração do outro quando lá estamos juntos ou quando cá contamos o que distante vivemos? Quem somos nós? Com quais máscaras e com quais verdades? Qual o valor das palavras que saem da boca pra contar sonhos? Qual o peso das lembranças? Qual a cor do espelho que levo nos olhos em que o outro se encontra em mim? Quem somos? Seríamos mistura dos contrastes de nós mesmos; pitadas de vícios e rasgos de virtudes? Somos o que somos, o que seremos, e o que queremos ser. Somos também o que não somos; o que sobra, o que falta, e o que temos. Somos tanto de fora pra dentro e tão pouco de dentro pra fora. Ou seria o contrário? Pois o que vejo é que o infinito todo nos cabe, embora mal nos damos conta. Somos parte da melodia que muitas vezes não ouvimos. Parte da pintura que deixamos de admirar. Somos o instrumento e a banda toda. E também somos silêncio da noite que aguarda aflita ou serena, mais um raiar do Sol; exímios na arte de alternar dramas e comédias no palco dos dias e das noites. Mas seja lá quem somos, gosto do gosto mesmo que desgostoso me sinta. Gosto das alternâncias dos laços e dos beijos. Porque sou feito disso: de pedaços e laços, lascas de tempos futuros e pretéritos; mais do mesmo, a novidade, a dor que dói, e a dor que cura. Eu sou o precipício e a voz que me engole todo. Na festa de amores pagãos e sagrados da vida que celebro, quero ser o primeiro a chegar, e o último a sair. Pois somos todos feitos de amores, e o coração, de contrastes. Contrastes porque os amores dóem, mas também afagam. Porque os amores colorem, mas também desgastam. Porque os amores rasgam, mas também costuram. E diante de tudo, meu amor, o jeito é a gente se acolher do jeito que se é e ser feliz como puder.


"Só me dói morrer se não for de amor". (Gabriel Garcia Márquez)

quarta-feira, 25 de maio de 2011

O Ilusionista...

Cabe dizer carinhos que vivem nas palavras descabidas no ouvido que as acolhe, ainda que plenas na boca que te procura? Cabe declarar o não declarado do coração que sente saudades? Cabe criar sonhos e ventanias na casa de sorrisos teus? Cabe deixar luz me fazer são, santo, tanto, por te querer? Pois desde que o amor me escolheu, passei a andar sobre as águas; tirar sorriso de mágoas; transformar chumbo em ouro; achar em você doces tesouros. Até multiplico pães a me acompanhar, com vinho que comprei pra lhe chamar. Faço janta, luz de velas, faço canção; pra embalar macio o coração; faço chover; mas não faço você querer me ver. Transformo áridos desertos em jardins. Só não faço você voltar pra mim. Paro o tempo, paro o vento; mas não sei lidar com teu silêncio. Canto, danço, represento. Meu querer em ti não toma tento. Qual feitiço que não soprei nos teus pés pra que corressem ao meu encontro? Tento tudo, tento tanto, em direções que busco, sou um tonto. Que vela não acendi pra desfazer distância? De qual cartola não tirei teu bem-querer? Por ora, romance de truques vazios; qual nuvem escolho pra te deitar macio? Dias de mágica que não funcionam. Sou ilusionista, e é disso que vivo, de que me alimento: de ilusões que não compro e que mal vendo. Deixei de ser pra me vestir poeta. Entre todas, é você: é esta, é esta! Sei que não estou iludido, mas escrevi porque acho tudo bonito. Pra declamar vontade de me achegar. Pra descrever vontade de te querer. Faço rima que te chama; chama viva, chama clara. Poderia ser fulana, beltrana, mas é você...

terça-feira, 24 de maio de 2011

Samambaia...

Às vezes dá vontade mesmo de se sentir samambaia, paralelepípedo, geladeira vazia ou se teletransportar pro Alasca, pro além, pro depois, pro nunca mais... já que não dá pra somente mais respirar e olhar o mundo como se não sentíssemos dor; como se não julgássemos; como se não quiséssemos ou sonhássemos pelo amanhã do jeito que o coração espera e quer que seja. A vida é balada da contramão. Caminho-sem-volta de paisagens que não se veem mais, perfumes que não somem, histórias que se repetem, carinhos que não (se) acabam. Sendo sambambaia ou flor de plástico, espero que me cuidem. Se pinguim, quero desfilar em trajes de gala pra chamar a atenção toda dela. Sendo paralelepípedo, quero topar dedão do meu Amor. Uma vez, e outra vez, e sempre.

domingo, 22 de maio de 2011

Quando digo sim...

O sim é a porta que se abre, é o mistério revelado, é o avião, a cama pequena, o leite com chocolate. O sim é permissão pra que a vida entre em nossa casa e se faça irmã, amiga, amante. O sim é certeza de tantas incertezas, belas possibilidades como varanda de jardim florido, doces olhares e olhos pequenos de cansaço, mas também de descanso. O sim é espaço livre pra benção se acolher de conchinha, de saudades, de bem-querer. É a busca, a entrega, a gratidão e o sorriso. O sim é apenas o começo. É a resposta, e a doação. O sim se faz lei, ao coração que busca. O sim é o som silente nos lábios de Deus e da boca daqueles que se encontram. O sim é a porta que se abre pro Amor voltar e entrar pela janela, habitar o corpo e o sorriso. O não... o não é ilusão.

"Ria e o mundo ri com você; chore e você chora sozinho". (Provérbio-qualquer-um-por-aí.)



quarta-feira, 18 de maio de 2011

A gente dá poesia...

Guardei palavras que do Amor colhi para contar o que a alma canta em doçura tua. Hoje de manhã ao acordar, percebi que você também havia acordado comigo. E ainda que eu não te procure nas minhas horas, de vez em sempre, pelo teu perfume que emprestas às flores do meu jardim; pelas cores do amanhecer que combinam com tuas roupas bonitas; pelo teu sorriso que encontro na minha própria boca; pela minha pele que toco querendo ser a tua, vem você chamar minha atenção. Passarinho cantando vem me trazer o seu nome. Aconchego da almofada me lembra colo teu. Crio mundos e encontro jeitos pra te ver em todo o meu dia. Caso de amor entre o sol e a lua; na doçura da luz dela que serve à noite para que a vida repouse; na força do querer dele para que a vida se faça iluminada. Somos letras combinadas que versam soneto de carinho. Somos palavras e notas a dar o tom da nossa espera, da nossa procura e do nosso descanso. Entre todas elas, estas e aquelas, quero você. Qualquer versão me serve, me sorve, me encanta. Entre todas aquelas, só você serve. Seja com qual sorriso, com qual humor, em qual momento ausência tua se desfaça e você me busque, eu espero. E escrevo sentido secreto das coisas que se revela quando você se faz mais perto; quando você se faz em mim. Pois esta é carta hermética de Amor que só tu compreendes. Você é labirinto que entrei e que hoje não ouso sair por mais que eu queira. Por ti sou atento no olhar aos teus detalhes que me encantam; que me fazem ser mais teu; mais a gente mesmo; essa vontade de ter mais vontade de querer você do que qualquer outra promessa, outra vontade, outro sonho. E o que se quer, quando em dois, se é, se são, se somos. Somos encontro de amor literário; caso de amor pelas palavras que fazemos juntos. Poeta e poetisa. E este é um poema de amor; oferenda aos teus momentos de luta e de brisa e de céu, de vida e desejos tão teus, e confissões tão minhas. Sabe de uma coisa, meu Amor? A gente dá poesia.

"O melhor amor é sempre dentro e perto. Chega inesperado, vem forte, vem doce, acalma e desatina". (Lya Luft)

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Perfume...

Se nos agarrarmos às certezas que fragilmente construímos ao longo da caminhada, provavelmente congelaremos a vida tal qual promessa que não pode ser cumprida. Há um começo, um meio e um fim para tudo aquilo que um dia nasceu por nós e em nós. Ao mundo chegamos sozinhos e dele partimos também. O Amor que pode ter ido, que um dia pode ter sido, deixa sempre beleza dentro da gente e, esta beleza sim, ecoa eterna em todos os nossos atos e sentimentos, como algo que não parte nem se parte da gente, ainda que partido hoje, estejam os laços que o teceram. E natural que, dia ou outro, nem lembremos mais que tal beleza que nos eleva à terra dos sonhos e a maturidade que nos enraíza no solo da sabedoria, vieram dele. Ainda que a flor, com o tempo tenha morrido, continuamos a lembrar e a sentir o seu perfume.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Amada...

Amada, escuta teu próprio coração contente que canta e lhe diz assim: "A dor é sempre ponte entre duas alegrias". Ele voltou batendo forte, após viagem longa, trazendo mimos, amores e segredos insuspeitos há tanto pelo teu olhar torto e triste, cultivado pela tua falta de fé. Sabe aquelas milhares de coisas boas que tu vivestes; delícias, encantos, milagres e sonhos colecionados ao longo da tua vida sem você se aperceber? É hora de colher tuas qualidades e bençãos sob o disfarce de sorte que caíram do céu e vieram do nada, pois tudo isto deu em frutos. Colheitas de serenidade e imensidão em poder ver com as lentes limpas da alma e ouvir, sem mais aquela intromissão tagarela e rebelde da parte sabotadora de nós mesmos. Ver é revelar o que é bonito. Ouvir é aceitar com gratidão. E saiba: só vê beleza quem tem beleza dentro, pra reconhecer o que ela é, afinal, como irias saber se não soubesse? Assim, a gente só pode dar o que tem. Passamos tempo demais carregando ilusões a meio-sorriso e a meio-encanto, nos convencendo de que não somos, de que não temos, de que não é bem-vindo; de que sempre falta, de quem sabe um dia? Que as coisas são assim e ponto final. Amada, diante de tudo aquilo que você entendeu como desamparo e silêncio, foi apenas um esquecer-se de si mesma; nuvem cinza em dia ruim que passou revelando céu azul por detrás dela. E agora que o coração escuta bem, sabe quão pueris são as crenças que nos prendem e quão sedutoras se fazem as partes que não são inteiras. Às vezes levamos um chacoalho da vida e o Amor corre assustado. Busque-o de volta e lembre-se que é pela dor que o amor se fortalece. Por isso meu Amor, que a fé não se apague nem se assuste pelo escuro que sopra. A razão pode se fazer velha e adulta, mas o coração permanece sempre inocente e entregue. Aproveita pra quando a cabeça se distrair com todas as suas perguntas, deixar a resposta ser silêncio a preencher tua Alma; pois, é com este silêncio enfeitando o coração que este lhe conta mais uma coisa: Às vezes o amor pode se afastar, pra voltar ainda mais bonito.


"Quem só acredita no visível tem um mundo muito pequeno." (Caio Fernando Abreu)

quarta-feira, 11 de maio de 2011

A Ilha...

"Ilha não é só um pedaço de terra cercado de água por tudo quanto é lado. Ilha é qualquer coisa que se desprendeu de qualquer continente. Por exemplo: um garoto tímido abandonado pelos amigos no recreio, é uma ilha. Um velho que esperou a visita dos netos no Natal e não apareceu ninguém, é uma ilha. Até um cara assoviando leve, bem humorado, numa rua cheia de trânsito e stress, é uma ilha. Tudo na gente que não morreu, cercado por tudo o que mataram, é uma ilha. Toda ilha é verde. Uma folha caindo é ilha cercada de vento por tudo quanto é lado. Até a lágrima é ilha, deslizando no oceano da cara."

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(Oswaldo Montenegro)

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Ironia...

A vida é o que acontece entre dois nadas; entre cortinas que revelam as máscaras, os personagens e fantasias quando fora do palco. A vida é o que escorre entre seus dedos enquanto você se prepara e se planeja; e o que escapa das suas mãos enquanto você se pergunta o que ela é. Alternância de ruídos e silêncios que a permeiam e enfeitam, a vida tem isso de papel em branco, de livro não acabado, sempre com pitadas e rasgos de ironia; ela é história que a gente conta e inventa, através das ilusões e mentiras, verdades e mergulhos. E, seja quão ficcional ou real ela for, a história dependerá sempre da nossa dor, dos sorrisos e laços feitos e desfeitos, do nosso fôlego ou da falta dele. Enfim, a vida é aquilo que sejamos que ela seja. E o propósito; o seu desiderato, somos nós mesmos que compomos e desenhamos, através de quem somos e do que escolhemos, de dentro pra fora, sempre. A ironia são as escolhas e os personagens que ecoam no palco de todos nós.


"A vida é a infância da imortalidade." (Goethe)

domingo, 8 de maio de 2011

Eis o Amor...

Aprendemos ao ensinar; multiplicamos ao dividir; doamos ao conquistar; brindamos sem ninguém pedir. Eis o Amor. O Universo inteiro que se aconchega no coração; na Alma daquele que chega ao Pai na gratidão; os limites do visível que se desfazem na oração. Eis o Amor. Aos amantes que se perdem ao se entregar; àqueles que nunca o encontram por procurar; aos que não sabem que o sagrado se encontra em todo o lugar. Eis o Amor...

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Sonolência...

Quando no mais escuro mergulho a vida se encontra imersa; quando no silêncio ela se faz ouvir pelos quatro cantos de direções confusas, é o antevir do dia que (se) esclarece, e o início do despertar dos que ainda dormem. A vida nos conta pelos ciclos, os símbolos e ciclos nossos, de uma verdade que nos abarca e somente se revela, aos límpidos olhos do espírito. As nuvens que, assim escondem o sol nascente, são como os pensamentos que encobrem o lume da Alma que sente. As estações que enfeitam a natureza de contrastes, tal qual é o homem que vive seu luto, seu descanso, seu florescer e o seu trabalho. O homem é reflexo do que o transcende. 
Afinal, assim como é em cima, também é embaixo.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Processo...

O Amor é o único elemento que se multiplica quando o dividimos. Quanto mais damos, mais temos. E engano o nosso achar que não podemos. O amor é parte da gente; é palco, é pano de fundo; é sol que a todos alcança e acolhe, àqueles quem sob o céu se entregam. Quanto mais damos, mais somos. A vida é esse constante processo de nos lembrarmos disso; através do outro, através da gente, através da vida mesma. E (re)lembrar da nossa essência, faz toda a diferença.

terça-feira, 3 de maio de 2011

O Milagre...

Talvez eu comece a deixar de uma vez por todas, tentar entender o mundo. Vejo ser o mundo pano de fundo ilimitado de sensações e contrastes, reflexos e combinações, presenças e histórias, estímulos e caminhos onde me cabe perceber sempre um só graveto, um só cantar, apenas um raio de sol, quando não a chuva e a tempestade que só em mim desaba. Acho eu que essa minha insistência em olhar pra Vida como um campo de batalha só me faça ver soldados cinzentos, ou pregos, caso eu carregue um martelo. Talvez minha desistência seja, pelo contrário, uma entrega e um permitir disfarçados, uma renúncia ao azar, à ingratidão e ao mofo da Alma; vindo daí uma aceitação tímida, de que a vida é bem-vinda no meu quintal, na minha festa, seja lá com qual roupa ela venha. E ao invés de correr para as montanhas e viver escondido e intimidado pela plenitude que me convida a um agora próspero e bonito, eu possa me expor à chuva e também ao sol, às perdas como também aos ganhos e, por isso, eu me permita levantar os véus da ilusão e ver a Vida um campo infinito de possíveis realidades onde escolhemos a que nos cabe e nos ressoa, onde (re)criamos e multiplicamos as oportunidades; de nos expressarmos na Verdade que habita em nós e que atua através de cada um. Somos nós quem permitimos o milagre e a graça. Melhor mesmo deixar viver e contemplar o mistério das coisas ao tomar meu chá antes de dormir...


"Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento". (Clarice Lispector)

domingo, 1 de maio de 2011

Amor-frescobol...

Tem gente na vida da gente que nos consegue convencer o coração sizudo e desinteressado pra passear e tomar sol; gente que nos tráz óculos de lentes bonitas a desfazer o preto-e-branco dos dias vazios que se repetem. Tem gente com cheirinho de aconchego que dá vontade de guardar no bolso e levar sempre pra qualquer lugar. Há algumas luas que te encontrei assim, tão pedaço meu, lugar de carinho bom, delicadeza a preencher meu mundo para, desde então, costurarmos no silêncio o encontro de nós dois, cercando aos poucos o coração de doçuras, a trazer alento e encanto, bordando gentilezas na estrada nossa. Culpa sua que paixão e fantasia me deixaram eloquente, pelas mãos que confessam desejos e vontades a te querer mais perto, pelos beijos roubados a te fazer entregue sob os lençóis da nossa casa e a árvore do nosso quintal. E entre os carinhos que se fazem com o corpo e os carinhos que se fazem com as palavras, colho as mais bonitas delas a enfeitar ponte que nos levará até o outro onde a comunhão se dê, a cantar na janela da tua alma, serenata de suspiros e sensações gostosas em poesia que te gosta; a compor carta de amor que escrevo nas entrelinhas da minha vida, mas que explicam o seu nome e o seu sorriso. O que faz bem deve ser dito, sussurrado e semeado: pra nos lembrarmos daquelas verdades das coisas que só o Amor declara; e é nele onde guardamos os sonhos e desejos que dão fundo e cor ao coração; e é através dele onde te vejo aqui, ainda que tão longe. Onde te sinto em mim, mesmo que não-aqui. E é por tudo isso, isto e aquilo onde me faço inteiro e te amo. Sabe amor-frescobol? Aquele que não se encerra no prazer como sombra dos sentidos e das satisfações imediatas? Aquele que se delicia com longas conversas que se revezam em silêncios bonitos? Aquele que preserva as mútuas escolhas e os sonhos de cada um? Onde a parceria não deixará nunca que o outro caia ou se machuque? Me sinto no começo de um jogo contigo, onde jamais nenhum de nós (se) perderá.


"Não escreva o que sentiria se acordasse comigo. Acorde comigo. Não imagine meu cheiro. Me cheire. Não fantasie meus gemidos. Me faça gemer. O amor só existe enquanto amar. Ação. Calor. Verbo. Presença. Milímetros. Hálito'. (Gabito Nunes)