terça-feira, 29 de março de 2011

O Jardim das Aflições...

Quando levar o vento todas as minhas vestes, de cores e detalhes a me distrair e adoçar meus sentidos, verei então o preto no branco e o cerne cru das coisas que, pelos seus contrários, escureceram o coração minha vida inteira. Quando vier o tempo a me cobrar semeadura neste jardim de delícias e aflições, trarei à mesa da Justiça o pão que reparti, mas também o vinho que só eu bebi, a me embriagar de exigências desmedidas e a reclamar falsos prestígios. Dos pecados que carreguei e do perdão a quem neguei, sopro aos ouvidos da morte, pedido de recomeço nas vinhas do Pai, a me fazer mais lúcido diante da Vida próxima. Assim, tomarei meu refúgio na luz que mora dentro e que por hoje se esqueceu de ser, revelando o mais além e atemporal, onde calam os símbolos e as palavras a entoar doce canto e magno plano que se realiza em nós e que só a Alma vê: O amor como quintal a me deixar ser criança pela inocência no esquecer; como bom jardineiro quando me cortar no espinho da rosa bonita e também como bom ouvinte, a contemplar tantas versões da Sua história contada pelo Sol, pela Lua e por todos nós que por aqui passeiam.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Sobre meninos e meninas...

"E eu que não sou Deus, que nem sou poeta, tão pouco sou destino ou uma destas coisas sobrenaturais, eu que não vento pra sussurrar palpites e arrepios, eu que só escrevo um menino nestas linhas retas, te digo menino: que nuvem linda e alta esta que tu voa, que menina mais bela esta que tu ama, que nos cantos dos olhos tem lâminas, que te deixam menino, aos pedaços, que menina mais graça esta menino, que tu traz nas pontas dos dedos em carinhos marotos, que eu trago nas pontas dos dedos a cada letrinha que eu cato neste teclado falante. E eu que nem sei de nada, que nem sou vivido nas coisas do amor, eu que nem fogo, paixão eu nem vi, te digo menina: que sonho doce e real é este que tu mora!deste menino sonhador, menina poesia, deste menino criador, menina criatura, o meu menino te ama menina, te ama, e eu que só escrevo e leio e tento frases e penso textos, não sei bem quando te deixei sair dos meus texto pra virar possibilidade. E eu que não sou pretensioso, que nem tenho todos os sorrisos que este menino e esta menina merecem, que não sei nada de profecias, tão pouco de ser incondicional, eu que nem sei ser óbvio, e nem sei ser utópico, eu que nunca andei em círculos, eu, só te digo menina: o impossível não existe pra quem sonha, mesmo pro menino que suspira tentando imaginar o gosto do beijo, mesmo pra mim que suspiro tentado escrever pra vocês dois, um final feliz." (Rafa Feck)

domingo, 27 de março de 2011

Primavera...

"Depois de ter cortado todos os braços que se estendiam para mim; depois de ter entaipado todas as janelas e todas as portas; depois de ter inundado os fossos com água envenenada; depois de ter edificado minha casa num rochedo inacessível aos afagos e ao medo; depois de ter lançado punhados de silêncio e monossílabos de desprezo a meus amores; depois de ter esquecido meu nome e o nome da minha terra natal; depois de me ter condenado a perpétua espera e a solidão perpétua, ouvi contra as pedras de meu calabouço de silogismos a investida húmida, terna, insistente, da Primavera."
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(Octavio Paz)

sexta-feira, 25 de março de 2011

quarta-feira, 23 de março de 2011

Cantinho...

Por onde você esteve que não te vi? Por qual caminho de antes não te alcancei? Há tanto que me fiz cantinho teu; me enfeitando de cores e retalhos, formas e cadinhos de amor, como convite a repousar teus olhos cansados e perfumar tua Alma. Me reinventei de jeitos a te aconchegar no meu carinho; refúgio onde as palavras alcançam a derramar o seu alento. Hoje sou colo, sou amuleto pra te trazer mais perto: a ecoar dentro da alma, a ressoar dentro do peito, a entoar tantas doçuras, com silêncios a costurar ternuras. Aquietando os barulhos do mundo lá fora, decorando o meu jardim de gentilezas. E confesso diante dos teus olhos grandes, a lhe contar quem sou de verdade. Que lhe conta com os lábios a escorrer o doce da vida ao morder pedaço gostoso de ti e que me satisfaz; e a fazer sorriso não caber na boca. Eu sou teus planos, teus encantos; tua promessa de futuro bom. Sou espelho da tua casa interior a refletir gratidão. Eu sou mais do mesmo, como certezas de suspiros e descanso que ainda estão por vir, mas que já tem teu nome.

"Seja qual for a matéria de que as nossas almas são feitas, a minha e a dela são iguais." (Emily Brontë)

Delicadeza...

"Delicadeza é aquilo que nos alcança sem nos tocar. É a melodia que nos embala mesmo em silêncio. É quando a boca empresta um sorriso aos olhos sem que nenhuma cobrança seja feita e os sentidos se misturam sem que ninguém dispute o melhor espaço. Delicadeza é ter pensamentos e atitudes em harmonia. É atingir o outro sem que ninguém saia machucado. É quando você é seduzido por algo que vem de dentro e dividir ajuda a somar!"
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(Fernanda Gaona)

sexta-feira, 18 de março de 2011

Paradoxo...

(...) antes, perdia mais do seu precioso tempo nesta terra tentando consertar as coisas do que chutando o balde. Daí aprendeu que, ao chutar o pau da barraca não lhe doía o pé, tampouco a consciência. Visto por aí como incoerente, deslocado, tresloucado e paradoxal, tecia ele no silêncio reflexo do lento progresso interior, tênue linha a juntar dentro de si, a síntese entre saber, ser e agir. Seus erros e escolhas equivocadas eram parte do inevitável: o caminho como educador a conduzir sua própria Alma à liberdade. Vícios dizia não os ter: somente bebia e fumava ao jogar. Vinha perguntar em tom irônico se ressaca moral dava enjoos ou se havia garrafada que lhe curasse. Hoje, sai pra comemorar sua vida até no dia do índio, do bombeiro e do motorista de trio elético. Deixou de comer toda sorte de porcarias, inclusive pessoas. Saiu, dançou, pecou, salvou, ascendeu e apagou rastros de passado aflitante; tomou, deu, fez, omitiu e confessou, passando o rapa e o rodo, até então a secar as lágrimas das menininhas, com pretexto claro; depois para as suas próprias quando se via preso em sua prisão, ainda que apontasse aos outros a culpa pelo cárcere interior. Assim, após o cansaço da luta, sua verdade o libertou. Pra azia, antiácido. Pra dores de cabeça, foda-se; em alto e bom som a lhe botar novamente nas rédeas da própria vida, como lembrança do que vale realmente a pena despender energia e atenção, e do que não. Escreveu a alforria de seus vãos compromissos, na alma. Passava assim, a comer apenas o recheio do bolo, do mesmo jeito que extraia apenas o doce da vida. Celebrando, então, ambos, ao invés de um só: o sagrado e o profano, ao semear sorrisos e prazeres, incitar ideias nobres e desejos sujos, limpando-os todos, com bastante álcool e boemia. Conseguiu por isto, convite em todas as festas, inclusive pras do inferno, destino certo a lhe esperar, segundo alguns. Não se preocupava, gostava do verão.

Ruínas...

"Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias".
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(Sophia de Mello B. Andresen)

quarta-feira, 16 de março de 2011

Objetivo...

Com aquilo que conquistando, trouxera ao longo de sinuoso traçado de muitas vidas, passou a respirar mais fundo e a resistir diante das muitas batalhas a ele apresentadas. Colecionou pequenas e infindáveis vitórias ao derrotar suas sombras e seus inimigos. Sabia que era caminho sem volta a avançar, entre cenários e lutas, a enfrentar desafios e a desenvolver suas habilidades. Começava, então, a entender a trama que lhe era imposta. E com as mãos cansadas pelo trabalho do tempo dedicado, colhia suas glórias; a não lhe faltar contentamento. Chegara assim, ao chefão. A última sensação do vídeo-game. Sem usar nenhum continue.

terça-feira, 15 de março de 2011

Outra vez...

"É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu…
É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir,
e para traçar caminhos novos ao lado deles.
É preciso recomeçar a viagem.
Sempre."
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José Saramago

sábado, 12 de março de 2011

Prece de Cáritas...

"Deus, nosso Pai, que sois todo poder e bondade, dai forca àquele que passa pela provação; dai luz àquele que procura a verdade, pondo no coração do homem a compaixão e a caridade. Deus, dai ao viajor a estrela guia; ao aflito a consolação; ao doente o repouso. Pai, dai ao culpado o arrependimento, ao espírito a verdade, a criança o guia, ao órfão o pai. Senhor, que a vossa bondade se estenda sobre tudo que criastes. Piedade Senhor, para aqueles que não vos conhecem, esperança para aqueles que sofrem. Que a Vossa bondade permita aos espíritos consoladores derramarem por toda parte a paz, a esperança e a fé. Deus, um raio, uma faísca do Vosso amor pode abrasar a terra. Deixa-nos beber nas fontes dessa bondade fecunda e infinita e todas as lágrimas secarão, todas as dores acalmar-se-ão. Um só coração, um só pensamento subirá até Vós como um grito de reconhecimento e amor. Como Moisés sobre a montanha, nos Vós esperamos com os braços abertos, oh! Poder... oh! Bondade... oh! Beleza... oh! Perfeição, e queremos de alguma sorte alcançar a Vossa misericórdia. Deus, dai-nos a força de ajudar o progresso a fim de subirmos até Vós. Dai-nos a caridade pura; dai-nos a fé e a razão; dai-nos a simplicidade que fará de nossas almas, o espelho onde deve refletir a Vossa Santa e Misericordiosa imagem".

(Mme. W. Krill., ditado pelo espírito Cáritas)

quinta-feira, 10 de março de 2011

Sereno...

Ainda que corresse contra o tempo, não mais se preocupava, pois, aprendera a se acalmar diante do inevitável e, também, a sentir a dor do outro ao invés, antes, da sua própria aflição. Através dos erros alheios, aprendeu assim a ser prudente, tornando-se sereno de ofício diante das tragédias e dos pequenos milagres do cotidiano revelados frente aos seus olhos. Por não haver tempo a se lamentar, abriu caminhos ao cultivar o bem. E sempre chamado diante das intempéries, não se julgava importante, embora entre incontáveis manhãs de chuva e noites de luar cor de prata, trouxera a vida, como também levara a morte. Era motorista de ambulância. Ganhava pouco.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Proximidade dentro...

"Que haja entre os casais mais reticências que pontos finais. Pela intimidade, pela cumplicidade os diálogos sejam curtos, abreviados pela fala de concordância do outro. Que ele faça parte da vida dela, não apenas seja uma parte separada da vida. Mas que sejam sujeitos complementares do verbo amar. Que haja comunicação, risos, bilhetes, emails, sms´s. Que haja acima de tudo, proximidade dentro".
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(Luana Gabriela)

terça-feira, 8 de março de 2011

Livrai-me...

"Meu Senhor, livrai-me do ciúme! É um monstro de olhos verdes, que escarnece do próprio pasto que o alimenta. Felizardo é o enganado que cônscio, não ama a sua infiel! Mas que torturas infernais padece o homem que, amando, duvida, e, suspeitando, adora".
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(Shakespeare)

domingo, 6 de março de 2011

Incertas...

"Nunca amamos ninguém. Amamos, tão-somente, a idéia que fazemos de alguém. É a um conceito nosso - em suma, é a nós mesmos - que amamos. Isso é verdade em toda a escala do amor. No amor sexual buscamos um prazer nosso dado por intermédio de um corpo estranho. No amor diferente do sexual, buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma idéia nossa. (...) As relações entre uma alma e outra, através de coisas tão incertas e divergentes como as palavras comuns e os gestos que se empreendem, são matéria de estranha complexidade. No próprio ato em que nos conhecemos, nos desconhecemos. Dizem os dois 'amo-te' ou pensam-no e sentem-no por troca, e cada uma quer dizer uma idéia diferente, uma vida diferente, até, porventura, uma cor ou um aroma diferente, na soma abstracta de impressões que constiui a atividade da alma. (...)"
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-Fernando Pessoa-

sexta-feira, 4 de março de 2011

I Ching...

"Aquele que conhece a sua alma está imune ao temor e ao medo causado pelas coisas exteriores. Ele sabe que tudo é ilusório e por isto não se abala com a manifestação de força do mundo em sua volta, firme como uma rocha, seguro de seu poder, ele se mantém no caminho correto, pois não teme por sua segurança."

(I Ching - O Livro das transmutações)

Vivem dentro...

"Pegou a minha mão quando eu já não mais sentia. Segurou os pensamentos, o burbulhar das lágrimas ardendo no coração. Aquela ânsia esquisita, ele acalmou. Apalpava meu sonhos, me trazia o ar, trouxe o chão de volta para os meus pés. O dono daquele dia vazio, daquela noite tristonha, me fez crer que as coisas que vivem dentro de nós, não são ilusão. Apenas moram em outro lugar. Obrigada por me amar. Repetia o tempo todo, só pra acarinhar aquele amor paciente que me aceitou de roupas cinzas e sorriso sem brilho algum. Não é só gratidão o que tenho. É respeito e o amor mais puro e benigno. Teu sorriso devolve o colorido dos dias. Ainda que cansada eu fique de tanto acreditar em coisas que não chegam nem perto, tua presença em meu peito insiste em me dizer o contrário. Que não importa o tamanho da distância entre os braços, não importa a solidão dos nossos olhos, tenho a certeza que estaremos sempre juntos".
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(Camila Heloise)

quinta-feira, 3 de março de 2011

Ato falho...

Por vê-la todos os dias passando frente à sua mesa, apaixonou-se. Assim, o trabalho se tornou prazer; suas metas, seus sorrisos; e seus projetos, sonhos a dois. Correspondido, todos os carinhos a ligá-los: por debaixo dos panos, longe das vistas de sua superior. "Onde se ganha o pão, não se come a carne", versava ela. Sabiam que os laços iam além dos sentidos. Sorriam de soslaio, olhavam-se em silêncio a cruzar recados, suspiros e vontades, desviando atenção. Ao final do expediente, à presença de todos, deixou ele de lhe contar o que contava o óbvio e, por mensagem de celular, confessou seus pecados e ternuras após a despedida. À noite, campainha a sobressaltar o coração e a lhe faltar o ar. Era resposta às suas investidas. De sua chefe, correspondendo. Errara o nome na agenda.

quarta-feira, 2 de março de 2011

A casa dos infernos...

"A casa dos infernos tem espada de São Jorge num pote de margarina em cima da geladeira, uma planta comigo-ninguém-pode torta na sala e uma samambaia adornando a varanda. Lá fora, vemos duas garrafas pet cheias d’água no contador de luz. E um muro coberto de cacos de vidro. Na sala, uma foto de Jesus emoldurada que te segue com o olhar. Miçangas barulhentas penduradas dividem um cômodo do outro. No banheiro, a Playboy amarelada da Vera Fischer e outra grudada da Cristina Mortágua, denunciando outros tempos em que quem batia era o adolescente. Não o contrário. Na garagem temos um Chevette com o adesivo “A inveja é uma merda”. Num canto um pogobol. Relógio de parede da Ótica Diniz. Uma plaquinha na porta avisa: “Aqui mora uma família feliz”. Camisas de candidatos são usadas de pano de chão. Papel de presente forra as gavetas. Copo de requeijão? Muitos. O filho já plantou feijão no algodão. Na estante livros da Seicho-no-ie, uma Bíblia empoeirada onde a mãe católica esconde dinheiro e um elefante com a bunda virada pra porta. Jarra de plástico em formato de abacaxi, centenas de ímãs de geladeira temáticos e calendário de farmácia, açougue ou padaria. Um cachorro barulhento desconhece banho. Tem chinelo Rider e bolas de plástico presas no telhado. Quadros de copo-de-leite, pôster da Madonna e fitas da formatura do colegial em vários cantos da residência. Uma enciclopédia é escoro de porta. Tem uma tia velha que dá a previsão do tempo conforme seu reumatismo se pronuncia. Joelho doendo é chuva; Braço formigando é geada; E dor de barriga é tormenta mesmo. No quarto dos pais tem um cofre. E dentro do cofre, claro, a escritura". (Dino Cantelli.)

terça-feira, 1 de março de 2011

Saudades...

"(...) A saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais (...)
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- Chico Buarque -