segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

De que resto...

"A vida se retrata no tempo formando um vitral de desenho sempre incompleto, de cores variadas, brilhantes, quando passa o sol. Pedradas ao acaso acontece de partir pedaços ficando buracos irreversíveis. Os cacos se perdem por aí. Às vezes eu encontro cacos de vida que foram meus, que foram vivos. Examino-os atentamente tentando lembrar de que resto faziam parte. Já achei caco pequeno e amarelinho que ressuscitou de mentira um velho amigo. Achei outro pontudo e azul, que trouxe em nuvens um beijo antigo. Houve um caco vermelho que muito me fez chorar, sem que eu lembrasse de onde me pertencera". (Maria Antônia)

sábado, 29 de janeiro de 2011

Promoção...

"Estou cansada dessa promoção de mim. Cansei de me entregar tanto e nunca me entregar por completo, de ser só a promessa, a vertigem e a decepção. E então esse cansaço que não sei se é dos outros ou de mim mesma."

(Verônica Heiss)

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Calada...

"Há dias em que me sinto vazia, como se um cansaço imenso e letárgico se tivesse instalado sem pré-aviso e me tolhasse o coração e o espírito. São dias em que acordar é pior do que ter um pesadelo e levantar-me da cama parece mais difícil do que atravessar o Atlântico a nado. Manhãs submersas em recordações e saudades, a sonhar calada tudo o que quis e nunca tive, mais o que mereço mas ainda não alcancei."
.
.
.
(Margarida Rebelo)

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Identidade...

"No fundo eu sou de mentira, assim como você. E não é uma identidade que nos tornará real. Falta em você algum brilho, alguma individualidade, algo que te faça especial. Em mim esse brilho sobra e eu saio por aí espalhando, como se fosse bonito se perder em todo mundo só porque meu corpo não é suficiente pra me abrigar. E nós seguimos sendo nada, sendo só rosto marcante e nome fictício, enquanto você não descobre que eu leio sua insegurança e me disponho a curá-la e eu tenho preguiça de dizer." (Verônica H.)

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Completo...

Olhar completamente
Toma todo o espaço
e toma todo o tempo do agora.
Sem espaço para o desejo,
o olhar satisfaz.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Bem-me-quer...

“A vida, esta vida que inapelavelmente, pétala a pétala, vai desfolhando o tempo, parece, nestes meus dias, ter parado no bem-me-quer…”

(José Saramago)

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Trevas...

"No meio das trevas, sorrio à vida como se conhecesse a fórmula mágica que transforma o mal e a tristeza em claridade e em felicidade. Então, procuro uma razão para esta alegria, não a acho e não posso deixar de rir de mim mesma. Creio que a própria vida é o único segredo".
.
.
.
(Rosa Luxemburgo)

sábado, 22 de janeiro de 2011

Beber...

"Beber é algo emocional. Faz com que você saia da rotina do dia-a-dia, impede que tudo seja igual. Arranca você pra fora do seu corpo e de sua mente e joga contra a parede. Eu tenho a impressão de que beber é uma forma de suicídio onde você é permitido voltar à vida e começar tudo de novo no dia seguinte. É como se matar e renascer. Acho que eu já vivi cerca de dez ou quinze mil vidas."
.
.
.
(Charles Bukowski)

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Teu gosto...

O gosto que se gosta, é teu gosto!
Gostoso, sem gosto, é teu gosto!
teu gosto dá o tom, dá a cor.
dá a forma a boca, que gosta, cheia de gosto ou mesmo desgostosa..
.. mas sempre, teu gosto!

Toalha...

"É difícil mudar de casa. Sair da casca. Deixar o quentinho do cobertor. Sair do banho e alcançar a toalha. Mudanças são contrastes de estados e, por isso, doloridas. É nascer de novo sair de uma relação para o vazio. Ou para outra. É preciso coragem e ruptura. É preciso acreditar. Comum permanecermos imóveis por mais que o suportável. Sair do banho e agachar enrolado na toalha, pensando na vida. Demorar um tempo até tomar coragem pra mudar de posição. Mudar é um parto, sempre. Mesmo que o novo mundo seja melhor. Diante do universo inteiro que se anuncia novo, o de alguém que chegou de surpresa, muitas vezes nos acovardamos".

(Cris Guerra)

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Amantes...

"O amante bateu à porta da bem-amada, e uma voz lá de dentro perguntou:
- Quem está aí?
E ele respondeu:
- Sou eu.
A voz então disse:
- Esta casa não conterá nós dois.
E a porta continuou fechada. Então o amante foi para o deserto, e na solidão jejuou e orou. Retornou depois de um ano e bateu novamente à porta. E de novo a voz perguntou:
- Quem é?
E o amante respondeu:
- És tu mesma!
E a porta lhe foi aberta."

(Jalaluddin Rumi)

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Eu sou...

"Eu sou - te como tu me és.
Cala o fluxo sensacional do teu corpo
e econtrarás em mim, intactos,
os teus medos e as tuas penas".

(Anais Nin)

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Labaredas...

"Coragem de andar
sobre os precipícios
sem desfalecer
entre labaredas
mas não se queimar
com os violentos
e os indiferentes
no mundo inimigo
sem deixar de amar".

(Helena Kolody)

domingo, 16 de janeiro de 2011

Impermanência...

"Se você sofre, não é porque as coisas são impermanentes. É porque você crê que as coisas são permanentes. Quando uma flor morre, não sofremos muito, porque entendemos que as flores são impermanentes. Mas você não pode aceitar a impermanência de uma pessoa amada, e sofre profundamente quando ela morre. Se você olhar a impermanência em profundidade, fará o melhor que puder para fazer essa pessoa feliz agora. Consciente da impermanência, você se torna positivo, amoroso e sábio. Impermanência é boa notícia. Sem impermanência nada seria possível. Com impermanência toda porta é aberta para a mudança. Em lugar de lastimar, deveríamos dizer: Longa vida para a impermanência. Impermanência é um instrumento para nossa liberação".
.
.
.
(Thich Nhat Hanh. Cultivando a Mente de Amor")

sábado, 15 de janeiro de 2011

Relembrando...

... as sutilezas da minha Alma;

O nascer do Sol dentro do peito;
O sorriso como meu reflexo;
O caminhar na areia bonita do tempo;
O vento soprando sempre a favor; A vida moldando a paisagem.
A música da harmonia e as batidas do coração;

O suave gosto das estrelas no céu;
O divertido caminhar ébrio de mim;
O doce sabor das sensações;
O cuidar da Vida no cuidar de mim.
A semente plantada no descansar;
A mudança dos planos, o mudar das velas no navegar...

O contraste como lição; As portas fechadas a serem abertas;
A escuridão como a minha luz; O agora que leva ao porvir.
A tristeza mascarada de alegria; A sorrateira entrelinha da verdade
O abraço despido de planos...
O encontro.

Em busca de mim, encontro..
.. predicados, pretéritos e novos futuros, horizontes, esquinas e salas de bem estar.
Redescobrindo certezas, a colher íntimas venturas.
Em em busca de mim, relembro,
Que a felicidade faz parte do meu nome.
Semear.

(Guilherme C. Antunes)

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Impressão...

"Viver é ter que tirar coelhinhos da cartola todo santo dia. Claro que isso é uma impressão pessoal. Tenho, inclusive, a impressão que realmente não é assim pra todo mundo. Deve ter a ver com grandeza interior, ou pureza de espírito, ou tendência à alegria, ou uma vantagem genética, preciosidades que não possuo. Sou pequena, não consigo ter pensamentos leves, principalmente no que diz respeito às pessoas e a minha alegria é tirada à forceps todo dia. Não tive a vantagem genética de descender de uma linhagem positivista, até justo pelo contrário. Somos do time do contra, somos os inconformados, somos os que acham que tudo teria que ser diferente, e isso, basicamente, nos inclui por primeiro. Tenho a impressão que estamos fritos nessa nossa ciranda de insatisfações. Imagino que na hora do juízo final o Grande Juiz nos perguntará: _ Vocês estão achando que são o quê?... Deus?! E todos nós, um a um devemos arregalar nossos olhos que tudo vêem e responder: _ Como assim, Senhor? O Senhor tá achando que é moleza. Não fomos dotados da faculdade do 'não perceber'. A gente percebeu. A gente percebe todo dia. É dureza atingir expectativas, manter a pose, ser especial, formidável, genial, fora de série, suprasumo, amáveis. Sabe o que é? A gente não consegue. Somos comuns, e é bastante difícil pras pessoas comuns ver o desfile diário de super heróis. É... porquê é assim que é, um desfile de super heróis, de gente que define que você tem que ser i n c r í v e l para justificar sua existência aqui na terra. Se você não consegue, Senhor, ou se tudo o que você quer é falar umas besteiras, rir de coisas triviais, comer espetinho com farofa e se regalar, ser simplório assim, pura e simplesmente, acaba sendo o que eu escrevo aqui ,nessas muito mal traçadas linhas: Viver é ter que tirar todo santo dia muitos coelhinhos da cartola. Mas claro que isso é só uma impressão de uma pessoa comum". (Be Lins)

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Colecionar...

"Estás enganado. Há certas coisas que não se podem guardar. Por exemplo, não podes guardar a luz do luar, ou a brisa perfumada de um pomar de macieiras. Não podes guardar as estrelas dentro de uma caixa. No entanto podes colecionar estrelas. Escolhe uma quando a noite chegar. Será tua. Mas deixa-a guardada na noite. É ali o lugar dela."

(José Eduardo Agualusa)

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Separação...

"Dizem que a separação nunca é um núcleo, uma urgência. Dizem que ela começa em seu avesso. E que é justamente no momento mais suave, o primeiro encontro, o primeiro olhar, que a separação começa a existir. Eu prefiro acreditar que a separação nunca termina, e que o último dia, a última noite, é um instante que se repete, a cada espera, a cada volta, cada vez que sinto a tua falta, cada vez que pronuncio teu nome. Eu acredito que, ao te chamar, uma estratégia, um encanto, eu seja capaz de fazer com que você se vire e olhe, e, sem perceber, estenda entre nós um atalho, uma ponte". (Carola Saavedra)

domingo, 9 de janeiro de 2011

sábado, 8 de janeiro de 2011

Pressa...

"Somos ultrapassados por nossa pressa. Só percebemos o amor a tempo de lembrá-lo, só descobrimos que era a última chance depois de perdê-la, só aprendemos depois que os erros foram cometidos, que as oportunidades passaram, que os anos foram estampando nosso rosto. Beijaríamos mais doce se soubéssemos que aquele seria o último beijo, gravaríamos a expressão do riso, o som do riso, a leveza do riso, o porque do riso. Amaríamos mais quem nos importa do que nosso egoísmo. Amaríamos mais e apenas isto nos salvaria de uma vida comum." (Cáh Morandi)

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

E se...

E se eu te amasse um dia, pequeno e calmo, minúsculo e leve, no vento que desaprendeu o caminho, que vaga nos becos, que se perde nas curvas, que se espalha no rio, será que teus dedos descobririam meus cabelos, tuas mãos achariam minhas pernas debaixo do vestido, tua voz resistiria ao barulho das árvores? E se eu te amasse um dia, alto e amplo, grande e maior, junto ao céu, numa asa, contra o sol, solto e livre num vôo silencioso de pássaro, será que teus olhos se juntariam aos meus num horizonte improvável, teu riso seria alto outra vez menino, teu peito se encheria de felicidade inédita? E se esse dia não chegasse, será que um dia tu perceberias que tens de mim o vento, o caminho, os becos, as curvas, o rio, o céu, a asa, o sol, o vôo, o pássaro, o horizonte improvável, o riso, o menino, a felicidade esperando para ser? (Patrícia Antoniete)

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Crenças...

Buscadora de si, pisou na areia com pés firmes, abrindo mão dos falsos atalhos que escolhera. Navegou por toda sua vida de antes, com velas içadas a ser levada pelo sopro de outras vozes, ideias tantas e conselhos muitos. E assim, chegando onde não queria, alcançou lugar nenhum. Hoje era o primeiro dia de um ano inteiro a lhe revelar o novo e, entre todos os que lá estavam a contemplar céu colorido e beber champanhe, esperava ela sua primeira promessa do porvir vinda de dentro. Queria traduzir-se amanhã e depois em muitas versões de si mesma, a desmentir o velho triste e a colher próspero interior a florescer madurez. Cansada de levantar muralhas a cobrir o infinito das bençãos procuradas ou, de querer saber qual lado da moeda se irá mostrar, abandonou seus pedaços, seus cacos e suas crenças: pular sete ondas, acender sete velas, colher sete rosas, dar três pulinhos, notas no sapato, lençóis limpos, comer lentilhas, romã, uvas, folhas de louro; não mais entregaria ao destino a boa sorte. Agora, era ela a boa sorte a não mais esperar o mar lhe trazer conchas bonitas ou pedras opacas; resolveu decorar ela mesma de formas novas e cores outras a sua vida. Remaria contra a maré, mas com o vento a seu favor.

"Sorte é isto. Merecer e ter". (João Guimarães Rosa)

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Entrelaços...

"A gente se arrisca porque gosta de chorar de vez em quando. E se arrisca mais forte ainda porque gosta de sorrir também, digo eu, que não gosto (nem um pouco) do verbo prender. Prender o riso. Prender o choro. Prender o grito. Prender o verbo. Faz a gente deixar de ser, a gente. Prefiro dar. Entregar. Partilhar. Entrelaçar."
.
.
.
(Vanessa Leonardi)

domingo, 2 de janeiro de 2011

Caminhar...

Que o velho morra para dar lugar ao novo...
Pois toda morte é um renascimento;
Que eu possa ir fundo, dentro de mim, para poder tocar o céu...
Que eu possa alcançar o horizonte...
Que eu possa ter tempo para tudo aquilo que deixei de realizar, e que poderia fazer a qualquer momento...
Que as horas passem devagar quando precisem... os dias menos depressa...
E que eu possa conquistar o atemporal. Não pelo que eu faço, mas por quem eu sou.
Além do sucesso, minha integridade. Além dos objetivos, minha inteireza.
Que eu possa perceber que sou eu quem carrego a chave das próprias prisões que crio..
E que eu me liberte, livre do medo, da angústia, da aflição...
E neste vôo, possa lançar as sementes do Amor.
Amor que todos devemos cultivar.
Além da bela silhueta, além dos preciosos amigos, além de qualquer explicação ou teoria lógica e lapidada.
Além de belos títulos de livros ou filmes. De boas marcas. De comentados lugares.
Eu possa me encontrar. Em tudo aquilo e mais um pouco. Ou menos.
E que eu possa refletir, como um espelho, todos a minha volta. 
Que o porvir possa acalmar a ansiedade do dever-ser e do vir-a-ser
Porque eu ainda não sou, nada além, do que eu já sou. 
E em mim, tudo basta. Mesmo quando me sinto vazio..
E que, diante do vazio, eu não me preencha com mais dele.
Mas possa decorar minha mente e minha alma de boas conversas, de poesia, de paisagens, de comida frugal e música.. daquelas que tocam o ser.
Que eu aprenda a perdoar, primeiro a mim, por não saber perdoar. 
Que eu lembre do melhor e esqueça o necessário..
..O desnecessário para crescer. Pois crescer é inevitável.
E que o inevitável venha. E assim, eu aprenda a aceitar.
Que eu possa criar. Que eu volte a ser quem eu nunca fui, e quem um dia eu deixei de ser.
Sorrisos e lágrimas. Criador e criatura. Céu e terra.
Que os monstros se tornem disciplina e Compaixão.
Tenho equilíbrio. Procuro por mais. 
Equilibrei-me por desequilibrar-me.
Além das palavras, o agradecimento contido em cada uma delas.
Pois é a experiência que me brinda com a realidade que me envolve.
Escada de degraus infinitos.
Um recomeço de um caminhar eterno.
Abençoado, próspero, tranquilo. Para mim e para você.
Só para você.
Só para mim.
2011. (Guilherme)


"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para adiante vai ser diferente". (Carlos Drummond de Andrade)