segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

A caixa...

Às vezes pressinto felicidade como se eu pudesse entender de Amor; mas sou semente e não sei cuidar de flor. Às vezes pressinto a felicidade como se eu pudesse saber de mim; mas sou semente e nada sei do jardim. Às vezes pressinto felicidade como se a partida já fosse chegada, e ao partir não houvesse destino, em que os sonhos sejam a caminhada,  como se o homem ainda fosse menino; mas sou semente e nada sei do amanhã. Pressinto a felicidade do mesmo jeito que imagino saber qual presente vem dentro da caixa; porque nem sempre ele é o que eu penso que é, mas é pra mim e pra mim serve. Por isso me cabe o sorriso porque tristeza se distraiu. Por isso me serve a chuva porque hoje me faltaram as lágrimas. Por isso me serve abraço quando nem tudo cabe nas mãos. Eu sou feito de alternâncias e me visto de contrários. Caminho pelos avessos e passeio na contramão. Eu sei dos excessos pela falta e da harmonia pela confusão. Eu sei o que tenho exatamente quando não tenho mais. Só sei da cama por dormir no chão. Assim eu sei o que sou na mesma hora que deixei de ser; quando subtraio de mim todos os meus planos, doces, amargos, certos, errados, direito, entortado, ilusões, retratos e sobra o que de mim resta e que não morre porque ainda não nasceu. Ou seja, sou feito de sementes e amanhãs. Sou o silêncio em que mora a incerteza da vida e a exatidão da morte; o espaço em que vive meu destino e o meu próprio nome. Eu pressinto felicidade como sombra que se escondeu porque me vesti de lua. Eu sei do Amor exatamente porque ele não está. E aprendi a saber de mim do mesmo jeito que semente descobriu ser dona de todas as cores e de todos os nomes de flor; naquele momento quando floresceu.

"A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia". (Clarice Lispector)

Um comentário:

Ellen Brito disse...

Me escreveu do começo ao fim!!! rs