segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Girar...

(...) eu já me agarrei às ilusões como se pudesse descansar no horizonte; converter mentiras em verdades, ou pesadelos em sonho bom. Fui de me encantar com tantos reflexos e esquecer de mim; ocupando-me com quadros sem querer saber de artista; esquecendo da vida ignorando o tempo. Consumindo a Alma por caminhar sofrendo. E agora, abro mão da lembrança em troca de qualquer novidade, e do mistério no lugar de qualquer segredo que me distraia. Troco o aconchego de um abraço pelo calor do sol; o beijo na boca pelo caminhar no pasto; um elogio pelo cantar dos pássaros. Esqueci do teu perfume ao me embriagar com as flores; esqueci das tuas cores ao me enamorar com a escuridão; esqueci de entender saudades quando me deixei apenas sentir. E qualquer leve sintoma de emoção hoje me comove e me renova e surpreende com as mesmas esquinas e ruas que levam o teu nome. Por isso deixei cidade pra me encontrar no céu, onde confesso estrelas e tempestades, nuvens e barulhos que o vento carrega à espera de saber qualquer silêncio que me abrigue. E então me encanto com qualquer poesia nos olhos, uma atenção dispensada ou um sorriso nos lábios a me convencer buscar-me inteiro, ainda que eu parta, minta e desminta o meu querer. Ainda que acabe todo comigo. Sou tão medroso que me satisfaço com um amor inventado; mas também sou destemido por viver só no amanhã, onde me enfeito com alguma cor que eu goste ou um acaso onde eu possa escolher as falas, mesmo que eu repita o mesmo roteiro e os mesmos erros. Evito sofrimentos no carrossel dos dias que passam sem me levar a lugar nenhum; mesmo que o mundo não pare de girar.

6 comentários:

Poeta da Colina disse...

Nada mudará enquanto não atravessar o sofrimento, há sempre algo além..

Anônimo disse...

Guilherme Antunes é surpreendente em cada texto, em cada frase, em cada palavra que desnuda uma alma tão bonita quanto complexa. No seu "Girar" ele fala muito por nós, mortais comuns e diz o que gostaríamaos de dizer, mas não o fazemos pela mania de reter as palavras em nós por um receio descabido de expor os próprios sentimentos ou pela incapacidade de jogar tão bem com as palavras.
Porém, se existe um Guilherme para escrever, existimos nós outros para ler, sentir e viver as emoções escritas...
Adorei!!!

Tânia F. disse...

Eu preciso dizer o quanto esse texto me encantou? Sinto que te conheço tanto, apenas por me conhecer. Você me lê tão bem. Saber que o que escrevi ajudou a criar algo tão belo emociona, eu realmente me vejo aqui, em cada palavra e em cada vírgula. Obrigada por causar essa sensação, de simplesmente me encontrar em palavras totalmente suas, mais uma vez. E saber que o texto também é "meu" extasia e é, acima de tudo, uma grande honra. Obrigada, publicarei seu texto em meu blog.

Beijo.

Luna Sanchez disse...

Às vezes a ilusão é só o que nos resta de concreto.

Paradoxo? Sim, claro, como quase tudo na vida.

Muito bom o texto, gostei, parabéns!

Um beijo.

Yohana Sanfer disse...

As minúcias que nos salvam...]
...e você, sempre de lindas palavras!
Bjs

Nara Sales disse...

Encantadoramente lindo.