terça-feira, 27 de setembro de 2011

Sobre a semente...

Semente é verdade que ainda não disse a sua cor. Semente é o futuro que ainda não vingou, a espera generosa pelo porvir; o silêncio próspero que realiza sem fazer. Semente se alimenta de si e alcança o céu. E eu sou vontade faminta que pede saciedade no jardim de ti em que procurei renascer. E não ter sabido me atrair é o que te fez atraente. Pois você é a busca, eu sou o encontro. Eu sou o vento, você é a terra. Mas sou também semente, e nada sei do amanhã. Você quer de mim pista qualquer que te dê segurança quando entregue aos teus desejos; mas desejo, amor e amanhã são feitos de matérias parecidas; porque são nossos, mas são incertos. O que te dou é doçura do encontro a te fazer saber cuidar melhor da semente, saber cuidar melhor da terra, esperar serena pelo florescer, esperar sabida pela colheita e colher o fruto, sabendo o sabor de mim. Você pergunta à semente quais seus planos por querer garantias que te afastem deste medo besta do depois. Quais garantias, de fato, podemos ter na vida? As pessoas vivem se encontrando e se perdendo. As flores vivem colorindo e depois morrendo. Os laços vivem sendo feitos e depois rompendo. A vida assusta os desavisados assim mesmo, quando ela parece desse jeito, sem eira-nem-beira, do avesso, louca, pouca, muita, acolá das razões que nos afastam das alternâncias e que nos cercam na nossa ilusória zona de conforto. E quando passamos a saber que a vida é palco de muitas cores e incertezas que nos trazem o novo e a força, como as sementes que gritam amanhã qualquer da nossa colheita, aí podemos respirar macio e criar o bom e o melhor, trilhar o insuspeito, navegar pelo mistério, iluminar as nossas sombras e escolher qualquer caminho e qualquer sorriso que inevitavelmente acolherá o coração. Eu sou feito de alternâncias e me visto de contrários. Sou primavera a colher todos os meus frutos. Sou também inverno a me acolher nas expectativas.

2 comentários:

poemasavulsos disse...

"A vida assusta os desavisados assim mesmo, quando ela parece desse jeito, sem eira-nem-beira, do avesso, louca, pouca, muita, acolá das razões que nos afastam das alternâncias e que nos cercam na nossa ilusória zona de conforto."
Muito bom, escritor! Escreves muito bem.
Um texto que nos leva a uma profunda reflexão. Lembrou-me do Menestrel, de Shakespeare.

Abraços do @poemasavulos.

Andréya disse...

Laços se rompem e renascem constantemente...

E me conheci melhor quando
revirei me do avesso...

Belo texto, semente que brota e floresce ..

Meu beijo..