sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Busca de mim...

Antes que eu vá adiante e me esclareça, saiba: eu sou uma farsa! Pois do que adianta eu escrever se não sei apontar verdades? Que me cabe dizer alguma coisa se ao final, não tenho coisa alguma para dizer? Por isso mesmo escrevo: para achar qualquer coisa que me satisfaça. Ao escrever, escrevo para mim; assim me encontro através de outros olhos; invento-me com elogios que me creditam ser abrigo, ainda que eu conte fantasias. Sou daqueles que dizem que a gente sempre tem o quê aprender com todo mundo qualquer um, mas que não crê em si mesmo. Eu confesso vazios e barulhos que o vento carrega; mas você, você vê brisa e aconchego. Minhas ideias são doces que não satisfazem, meus enredos são luz que não ilumina. São entrelinhas vazias que dá você o meu sentido, coroando-me com loucura ou sobriedade. Porque eu falo aquilo que você gostaria de saber; e digo tudo aquilo que você gostaria de ouvir. Eu faço dos versos cores e perfumes como se palavras pudessem te alentar; receita em que digo de amores a te brilhar os olhos e a aliviar tuas angústias. Saiba outra coisa sobre mim: sou esperto. Eu falo verdade inventada; vendo gelo pra esquimó e milagre pra santo; e amor pra quem procura por ele, ainda que eu dê tão-somente falsas promessas. No final das contas, eu te hipnotizo. Ou seja, não conte comigo. Porque se você tentar me possuir, eu fujo. Se você tentar me seguir, eu sumo. Você nunca irá me alcançar, entenda isso. Sou sonho bom com hora certa pra acabar. Sou remédio pra tua azia, insônia, vazios e outros males, mas sou de curta duração. Sou encanto que te faz me querer na tua vida com teu sobrenome enquanto desfaço tuas certezas. Você me quer na tua casa enquanto eu roubo tuas posses e fujo pelo quintal. O fato é que eu não tenho nada a lhe trazer aqui; papel em branco jamais deveria macular-se com minhas palavras. Rasgá-lo ao meio seria meu mais sincero, único e cabível, desabafo. Porque quando escrevo uma palavra me faltam outras dez pra dizer quem eu sou, e ainda que eu as encontrasse e então você me lesse, eu não seria mais quem fui. Sou muitas versões e avessos na terra de ninguém em que prossigo na incansável busca de mim.


"O meu olhar tem razões que o coração não frequenta". (Jorge Palma)

2 comentários:

*Simone Poesias* disse...

Que bonito Guilherme!!
Viajei em cada frase, e dito me identifiquei muito.
"Porque se você tentar me possuir, eu fujo. Se você tentar me seguir, eu sumo. Você nunca irá me alcançar, entenda isso. Sou sonho bom com hora certa pra acabar." Maravilhoso!!!

Bjoss XD

poemasavulsos disse...

Nossa, que profundo! Misturastes, de forma toda peculiar, a metalinguagem com um forte desafo amoroso! Parabéns, escritor! Tens talento!