domingo, 4 de setembro de 2011

Assassinato...


Hoje eu não queria chegar até você e confessar mas, não acredito que eu tenha outra escolha; então eu lhe digo assim mesmo: perdoa mulher, mas eu vou ser obrigado a te matar. E que fique claro; que seja uma morte limpa e rápida, sem qualquer requinte de crueldade. Até porque cruel é o jeito que te mantenho viva em mim; artificialmente com ajuda de aparelhos (o celular quando toca me desatina). Não, eu não quero que você sofra, e nem eu, não mais do que já sofremos quando vivos, quando juntos. Quero sua morte porque você é moribunda que anda me perseguindo e esculhambando meus pensamentos. Em cada novo encontro, lá está você, ao lado dela, falando junto. Enquanto ela me conta histórias, você me tráz as memórias que eu guardei na gaveta. Ela se aproxima de mim e eu sinto o teu perfume. Eu vou pra balada e lá ouço tua música. Eu abro revista e lá leio teu nome. Não dá. Quero te enterrar embaixo de 86 palmos, número esse pra combinar com os meses em que vivemos juntos. Mas por favor, não ressuscite e volte pra cá. Você anda visitando tanto minha cabeça que não paro de pensar em você. Se eu te chamar de boicote, é bem capaz de você atender. Aliás, se eu não te chamar de nada, você aparece de qualquer jeito. A loira do banheiro é bem menos assustadora do que a casa abandonada que se tornou meu coração. Por isso, morra! Morra em mim, por favor. Pra que eu não precise apagar da lembrança, o que de bom ficou. Ou riscar dos meus sonhos, alguns planos e ideias de antes. Hoje eu sorrio e choro na mesma frase, e dissolvo tudo na mesma lágrima. Meu lenço deveria ser tua certidão de óbito. Mas não, molho todas as cartas que não consigo queimar. O que ainda está vivo, preciso matar. De algum jeito: meditação, balada, museu, hipnose, amnésia; dessas de ser resultado de pancada forte na cabeça. Mas quem sabe, vai que eu me acidento e você aparece preocupada comigo; aí eu me derreto. Preciso de alguma droga pesada pra fugir do presente. O álcool não me serve mais. Só se for pra matar você afogada em alguma emboscada. Porque preciso ser arrebatado, pro céu, pro inferno, pro deserto ou pro Alasca, mas longe de você. Com você, não sei continuar. Sem você, não sei recomeçar. Quer saber? Não quero mesmo é te deixar. Então, morro eu.

"Quanto mais vou sabendo de ti, mais gostaria que ainda estivesses viva. Só dois ou três minutos: o suficiente para te matar". (Miguel Esteves Cardoso)

6 comentários:

Camila Lourenço disse...

Esse, eu sei foi escrito com endereço e nome certo para receber e é lindo, ainda assim...

As vezes é preciso morrer, pra saber que nem só os gatos tem mais e uma chance pra tentar de novo...


Bjo

Dani Ricardo disse...

"Sempre é preciso saber quando uma etapa chega ao final. Se insistirmos em permanecer nela mais do que o tempo necessário, perdemos a alegria e o sentido das outras etapas que precisamos viver. Encerrando ciclos, fechando portas, terminando capítulos. Não importa o nome que damos, o que importa é deixar no passado os momentos que já se acabaram. As coisas passam, e o melhor que fazemos é deixar que elas possam ir embora.Deixar ir embora. Soltar. Desprender-se. Ninguém está jogando nesta vida com cartas marcadas, portanto às vezes ganhamos, e às vezes perdemos. Antes de começar um capítulo novo, é preciso terminar o antigo: diga a si mesmo que o que passou, jamais voltará. Lembre-se de que houve uma época em que podia viver sem aquilo - nada é insubstituível, um hábito não é uma necessidade. Encerrando ciclos. Não por causa do orgulho, por incapacidade, ou por soberba, mas porque simplesmente aquilo já não se encaixa mais na sua vida. Feche a porta, mude o disco, limpe a casa, sacuda a poeira.
Deixe de ser quem era, e se transforme em quem é. Torna-te uma pessoa melhor e assegura-te de que sabes bem quem és tu próprio, antes de conheceres alguém e de esperares que ele veja quem tu és...E lembra-te : Tudo o que chega, chega sempre por alguma razão."




Fernando Pessoa

Valéria Sorohan disse...

De dores derramadas e ausentes se fazem seu texto. Um sentimento em estado terminal.

BeijooO*

Mariana GA Origuela disse...

Esse foi o assassinato mais profundo que já presenciei. Senti vontade de matá-la com você, e ao mesmo tempo senti vontade de salvá-la de você. Te acolho e te repudio em cada palavra de amor e ódio. Mas é, no fim é mais fácil se perder do que prejudicar quem se ama de verdade.

Solange disse...

gostei demais disto....

bjs.Sol

Fran Bitencourt. disse...

E eu li, reli e o silêncio decidiu permanecer, juntamente com um suspiro longo e aquela dorzinha no peito.
Lindo de mais Gui, como tudo que encontro por aqui.

Um beijo na alma.