sábado, 31 de dezembro de 2011

Nudez...

"A rosa: tua nudez feita graça. 
A fonte: tua nudez feita água. 
A estrela: tua nudez feita alma".
.
.
.
(Juan Ramón Jiménez)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Crenças...

Buscadora de si, pisou na areia com pés firmes, abrindo mão dos falsos atalhos que escolhera. Navegou por toda sua vida de antes, com velas içadas a ser levada pelo sopro de outras vozes, ideias tantas e conselhos muitos. E assim, chegando onde não queria, alcançou lugar nenhum. Hoje era o primeiro dia de um ano inteiro a lhe revelar o novo e, entre todos os que lá estavam a contemplar céu colorido e beber champanhe, esperava ela sua primeira promessa do porvir vinda de dentro. Queria traduzir-se amanhã e depois em muitas versões de si mesma, a desmentir o velho triste e a colher próspero interior a florescer madurez. Cansada de levantar muralhas a cobrir o infinito das bençãos procuradas ou, de querer saber qual lado da moeda se irá mostrar, abandonou seus pedaços, seus cacos e suas crenças: pular sete ondas, acender sete velas, colher sete rosas, dar três pulinhos, notas no sapato, lençóis limpos, comer lentilhas, romã, uvas, folhas de louro; não mais entregaria ao destino a boa sorte. Agora, era ela a boa sorte a não mais esperar o mar lhe trazer conchas bonitas ou pedras opacas; resolveu decorar ela mesma de formas novas e cores outras a sua vida. Remaria contra a maré, mas com o vento a seu favor.



(Guilherme C. Antunes, vulgo "eu", em 05.05.11)

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Pacote completo...

"Talvez meu maior pecado tenha sido achar que o desenrolar da vida estava nas minhas mãos. Monopolizei os fatos, conduzi-os como eu - menina iludida - achei que fosse o certo. Os caminhos já estão trilhados, essa é a verdade. Não adianta querer mudar a ordem do espetáculo. Ainda estou no primeiro ato, com o mesmo figurino, do mesmo jeito. Eu sou apenas um pequeno ser humano. E como um exímio exemplar de minha espécie, ratifico cada vez mais a minha miudeza. A questão é que tudo deu errado. Tudo. Quis ser dona do meu império sem saber que não passava de uma pobre serva. Escrava de mim mesma. E agora estou aqui, carregando uma tonelada de mágoas nas costas. Minhas mãos estão calejadas, meu pés estão inchados, meu olhos perderam o brilho. Ao que tudo indica, dessa vez, não haverá luz do fim do túnel. Haverá apenas restos. Resquícios do amor que não vingou, da felicidade que não cresceu, da confiança que se perdeu. Soluços. Mas não os meus soluços, porque todo o meu estoque já foi gasto. Nem o direito às lágrimas eu tenho, vendi junto aos meus sorrisos. Pacote completo. O pessimismo continua. Cresceu, solidificou, se firmou e por aqui permanecerá. O afeto ainda existe, e é por esse afeto que não me entreguei. Até porque eu sei que o caminho não chegou ao fim. Essa é uma das poucas certezas que me restam. Somente quando eu estiver de frente ao abismo é que vou decidir se pulo ou não".
.
.
.
(Rebeca Amaral)

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Amanhãs...

"Ela parece tão calma, tão concentrada, tão quieta, mas seus olhos continuam fixos no horizonte. Você acha que sabe tudo o que há para saber sobre ela assim que a conhece, mas tudo o que acha que sabe está errado. A paixão flui através dela como um rio de sangue. Ela só desviou o olhar por um momento, e a máscara escorregou, e você caiu. Todos os seus amanhãs começam aqui".
.
.
.
(Neil Gaiman)

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Inconsciente...

"Tinha vantagens não saber do inconsciente, vinha tudo de fora, maus pensamentos, tentações, desejos. Contudo, ficar sabendo foi melhor, estou mais densa, tenho âncora, paro em pé por mais tempo. De vez em quando ainda fico oca, o corpo hostil e Deus bravo. Passa logo. Como um pato sabe nadar sem saber, sei sabendo que, se for preciso, na hora H nado com desenvoltura. Guardo sabedorias no almoxarifado."
.
.
.
(Adélia Prado)

domingo, 25 de dezembro de 2011

Consciência...

"Pode parecer bobagem, mas para quem vive num tempo em que as escolas só ensinam a dar respostas - de múltipla escolha, de preferência -, podemos vir a nos esquecer que, na vida, a questão não é dada, não está pronta, a priori. A vida não elabora as perguntas por nós: é preciso problematizar a realidade, delimitar o problema com precisão, pois isso já é meio caminho andado em direção à resposta mais pertinente".
.
.
.
(Consciência. Robson Pinheiro)

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

O Verbo...

Pai, verso esta oração pois Tu estás nas minhas mãos assim como eu estou nas Tuas. Vives Tu nas minhas palavras assim como em Ti eu também sou verbo. E nos meus olhos, és semente que confessa a cor dos frutos, o nome de um rio que se rende ao mar, o filho pequeno que abraça a mãe. Pela Tua palavra aprendi a respeitar o inverno, esperar pela primavera e aceitar minhas colheitas; aprendi a ser verão e a voar com as andorinhas.  Abençoa-me como abençoas o grão-de-areia, o vento e as estrelas, pela igual oportunidade de habitar a Tua casa. E que o eterno em mim se anuncie, afastando o veneno do meu sangue, os espinhos das minhas flores, o egóismo dos meus amores e as lanças das minhas mãos. Torna-me doçura quando eu souber ser só amargo; torna-me cura quando souber ser só destruição; torna-me descanso para vestir todos os meus sonhos e torna-me Amor, como resposta para cada pergunta da Vida. Conceda-me todas as sombras da floresta para eu caminhar com a minha própria Luz. E se eu cair, ferir, morrer, matar, sofrer, perder, errar; perdoa-me com o recomeçar, com o novo, com a coragem, com a gratidão por tudo aquilo que fui e pelo que ainda serei; e também com a certeza de que o Senhor é meu pastor, e nada me faltará.


"A redução do universo a uma única criatura, a dilatação de um único ser até Deus, eis o Amor." (Victor Hugo)

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O Reino do mar...

E então o Majestoso Dragão Dourado revelou-se aos teus olhos para um convite em silêncio, levar-te ao reino do mar, embaixo da Ilha. Todos conheciam a Ilha, mas não o reino do mar. Não sabiam como atravessar o azul. Era o mesmo segredo do mergulhar no céu. O convite do Majestoso Dragão Dourado era esse, torná-la oceânica. Para todas as palavras em ti caberem, para todo o silêncio em ti viver. Para que você viva à margem de si, e no mais profundo da Alma também.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Bocó...

"Bocó é sempre alguém acrescentado de criança. Bocó é uma exceção de árvore. Bocó é um que gosta de conversar bobagens profundas com águas. Bocó é aquele que fala sempre com um sotaque de suas origens. É sempre alguém obscuro de mosca. É alguém que constrói sua casa com pouco cisco. É um que descobriu que as tardes fazem parte de haver belezas nos pássaros. Bocó é aquele que olhando para o chão enxerga um verme sendo-o. Bocó é uma espécie de sânie com alvoradas".
.
.
.
(Manoel de Barros)

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

O porão...

Semeamos erro e queremos a flor mais bonita. Carregamos cacos e reclamamos doerem as mãos. Enfeitamos a Alma de medos e não entendemos doença. Ao Amor fecho os olhos e cego é o coração. Somos donos da casa mais vistosa de uma rua-sem-saída. Somos parte de um encontro que já espera despedida. Versamos na boca a liberdade mas vivemos mesmo é no porão. Um sufoco com porta que pra parede abre e uma esperança com escada que pro teto leva. Quando soube homem o seu porão ser apenas sonho ruim, gaiola virou ninho, corrente virou caminho, farpas e pedras, flores do jardim. E que por lá moravam três ventos, quatro lágrimas, duas promessas e um só pé-de-sol; que ao florescer de luz inundou riacho que arrastou tristezas, e abriu com força janela da casa espantando sombras que por lá dormiam presas.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Sobre as palavras...

A única certeza que tenho sobre o amanhã, é que vou sentir saudades. O único medo que quero carregar, é o medo de me contentar com metades. A mim parti pela tua partida que o coração não permitiu, negando que toda história e todo enredo possa ter um triste final. Saber você em nós me prendeu entre as memórias que versam hoje a tua falta e gritam agora a tua ausência. A distância ainda não me ensinou a te esquecer nos dias que virão sem as tuas cores. Para que serve ser se não seremos? De que serve o vento se não for pra anunciar sementes? Visto um peito apertado e uma boca que não sabe mais dizer o que sente. Visto um futuro que não sabe o que será pela frente. Então vivo inventando razões pra me convencer de que as palavras podem me fazer companhia e me contar algo desavisado de mim. Uma esperança como a porta de um labirinto que um dia entrei quando te conheci, e que hoje não desejo sair por mais que eu possa. Se o real dever da poesia é salvar os sonhos dos amantes, serei obrigado a me salvar pelo silêncio, ciente de que o Amor em nós dormiu, mas amou inteiro e se enfeitou dos dois quando desperto.


"Por que existe o ser e não antes o nada?" (Schelling)

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

A caixa...

Às vezes pressinto felicidade como se eu pudesse entender de Amor; mas sou semente e não sei cuidar de flor. Às vezes pressinto a felicidade como se eu pudesse saber de mim; mas sou semente e nada sei do jardim. Às vezes pressinto felicidade como se a partida já fosse chegada, e ao partir não houvesse destino, em que os sonhos sejam a caminhada,  como se o homem ainda fosse menino; mas sou semente e nada sei do amanhã. Pressinto a felicidade do mesmo jeito que imagino saber qual presente vem dentro da caixa; porque nem sempre ele é o que eu penso que é, mas é pra mim e pra mim serve. Por isso me cabe o sorriso porque tristeza se distraiu. Por isso me serve a chuva porque hoje me faltaram as lágrimas. Por isso me serve abraço quando nem tudo cabe nas mãos. Eu sou feito de alternâncias e me visto de contrários. Caminho pelos avessos e passeio na contramão. Eu sei dos excessos pela falta e da harmonia pela confusão. Eu sei o que tenho exatamente quando não tenho mais. Só sei da cama por dormir no chão. Assim eu sei o que sou na mesma hora que deixei de ser; quando subtraio de mim todos os meus planos, doces, amargos, certos, errados, direito, entortado, ilusões, retratos e sobra o que de mim resta e que não morre porque ainda não nasceu. Ou seja, sou feito de sementes e amanhãs. Sou o silêncio em que mora a incerteza da vida e a exatidão da morte; o espaço em que vive meu destino e o meu próprio nome. Eu pressinto felicidade como sombra que se escondeu porque me vesti de lua. Eu sei do Amor exatamente porque ele não está. E aprendi a saber de mim do mesmo jeito que semente descobriu ser dona de todas as cores e de todos os nomes de flor; naquele momento quando floresceu.

"A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia". (Clarice Lispector)

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Amnésia...

Saiu batendo a porta e pisando duro; partiu sem saber pra onde ia. Era a bilionésima vez que discutiam e mais uma vez, ele se descontrolou. Gritou com ela. Escondeu seu Amor nos punhos cerrados de raiva; espantou seu carinho com seus gestos brutos de desespero. As lágrimas que corriam não o deixavam ver o tamanho colossal da sua idiotice. Sentia-se tão certo ainda que estivesse tão errado. Recusou dividir culpa que também lhe cabia. Ignorou a cartilha do saber-cuidar que aprendera a duras penas durante toda sua vida, desaprendendo perdão no constante amargo dos seus avessos. E a vida bonita que é lhe deu abrigo imediato em lição amarga de desatino. Atravessando a rua não viu caminhão que passava. Quebrou ossos pra fazer companhia ao coração partido dela. Bateu forte a cabeça e esqueceu-se de tudo. Aprendeu por amnésia, sumariamente a perdoar; mas levou para sempre na memória o carinho da sua menina que ali o encontrou, despindo-se das próprias feridas para cuidar da sua Alma. Levantou-se outro. Tornou-se melhor.

(Guilherme C. Antunes, vulgo "eu" em 25.11.10)

"Quem pede perdão mostra que ainda crê no amor. Quem perdoa mostra que ainda existe amor para quem crê. Mas não importa saber qual das duas coisas é mais importante. É sempre importante saber que: perdoar é o modo mais sublime de crescer, e pedir perdão é o modo mais sublime de se levantar..."

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Ofício...

 Cabia a ela ser íntegra, ainda que por vezes se perdesse.
Cabia a ela ser inteira, ainda que o coração demais sofresse.
Cabia a ela ser una, ainda que seu sorriso todo chorasse.
Cabia a ela ser cura, ainda que por vezes (se) cortasse.
Cabia a ela ser chegada, ainda que todo dia ela partisse.
Sentia ela ser viva, ainda que pra sempre amanhã morresse.
Sabia ela do infinito, ainda que numa cabana ela morasse.
Sabia ela ter o céu, ainda que no chão amanhecesse.
Sabia ela ser escura, ainda que sombria ela não fosse.
Sabia ela bem sobre o Amor, ainda que por hoje esquecida;
Pois tudo isso era ofício da Alma: 
Lembrar que o seu nome também era Vida.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

O motivo...

Após incontáveis desacertos do coração e desencontros da Alma, caiu ele de joelhos à exaustão de suas tristezas, abraçando a descrença do seu destino e da vida que levava. E quando no hoje adormeceu, não soube o que amanhã viria ele a saber: O motivo. Talvez pela desesperança de tudo o que vivia, desistiu de resistir à vida e de esperar por qualquer futuro que lhe pertencesse; então livre das expectativas, sonhos, pré-conceitos e outras cores suas, passou a ver claro e transparente, a alma alheia.  O motivo que nos move o coração, as escolhas, os encontros e os desacertos. O motivo que confessa nossos cantos e esquinas e quem de verdade somos. Além da percepção limitada dos sentidos e da linguagem, pode ele ver sob as superfícies que em nós ocultam os reais impulsos do espírito. Assim, o branco passou a ser branco. As mãos, criadoras. A semente, a cor dos frutos. A vida, palco do infinito. Apreendeu ele nas entrelinhas, o sentido que aponta a verdade das coisas, imersa entre os véus dos interesses, enfeites do ego e do orgulho, pelos receios que apequenam, mas também do Amor que cura e que soma, do perdão que expande e da compaixão que aproxima e se veste de gratidão. motivo que fala sem dizer; age sem fazer, aponta sem mostrar, arde sem doer, morre sem viver, encontra sem perder, pai de todos os porquês. O porquê dos vícios e falsas virtudes, o porquê dos sorrisos em público, lágrimas em casa, florear demais, falar demais, sentir de menos, calar, consentir, farpas, gastrites, excessos, viver vazio, morrer inteiro. Se mudar de significado no dia seguinte é um dos mais deliciosos privilégios da mentira -a maior fortaleza da auto-estima- e a verdade produto raro das prateleiras, o que nos faz escolher, então, a verdade no caminho nosso? Por que costumamos sentir uma coisa, pensar outra e fazer outra bem diferente? Quais são as nossas verdadeiras razões? O sentir, o pensar e o agir são os 3 universos dentro de nós como potências criadoras que tem por origem duas direções em que caminhamos. O Amor ou o medo. O amor e suas nuances, ou o medo e seus desdobramentos. Eis os motivos pelos quais nos movemos.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Relâmpago...

Quando na escuridão de nós mesmos confundimos pedras velhas com as preciosas que pensamos guardar dentro, enganos com acertos que ousamos saber quais, plenitude com prazer que sentimos ser ambos iguais, basta que o Amor se aproxime tal como o relâmpago; apenas uma fração, um encontro, uma esquina certa, uma entrega, um breve mergulho para alumiar todo o caminho, no tempo de nos apercebermos o que de verdade carregamos nas mãos, e no próprio peito.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Sobre a experiência...

Experiência é saber o sabor do que antes não se sabia; provar do agora com a Alma inteira, acolhendo o amanhã com os sentidos. Experiência são planos e sonhos vividos; imprevistos e acasos sabidos, pelo sujeito que confessa o verbo que sente. Experiência é porta aberta, joelho ralado, livros de cabeceira, voos e mergulhos, pousos e decolagens, sobras e faltas que se vestem com a verdade de muito mais cores do que as próprias palavras que as descrevem, pois faltam em si o pulsar do real. As palavras são apenas as confissões pelo espírito, daquilo que já se sentiu e atravessou, hoje se fazendo sempre na nossa memória. E cada experiência carrega ocultos os símbolos que não veem os olhos, pois apenas o coração os enxerga e deles também se alimenta. São eles as entrelinhas do mistério que costuram os encontros e coincidências, laços e sorrisos em todos os nossos dias. O Amor é a experiência sublime como se dentro soubéssemos romance entre céus e terra em que o horizonte os eleva ao infinito. Eu sou o que sou e o que quero experienciar. Eu sou um mundaréu de escolhas que levam meu nome como ponte a me trazer pra mais perto de mim, do outro e da própria Vida, que aguarda nossos passos e o tempo de florescer nossas cores, deitarmos na rede, secar nossas dores, matarmos a sede, vencer os temores, semear nossas flores, acolhendo com gratidão os erros e acertos da caminhada, por sermos nós as muitas ondas que desenham a imensidão do eterno.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Presença...

Eu não imponho limites pra
perteza, querência, amância,
luzeira, vivência,
nem pra gramática.
Eu verso, ela valsa.
Eu voo, ela via.
Eu soo, ela ria.
Eu sou, ela é...
num amanhã perfumado e um depois sorridente;
uma ponte e um laço,
um beijo e um abraço,
um amor, um amém. 
De mim pra você,
e no espelho também.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Amante...

Amar se ama quando se abraça, quando se escuta, quando se entende, quando se perdoa, quando se espera, quando se alivia, quando se aflige, quando se carece, quando se é amado, e quando não. Amar se ama quando se acolhe, quando se envaidece, quando se admira, quando se elogia, quando se cala, quando se fala, quando se tem, e quando falta, quando se merece, e quando não. Amor é a semente na mãe, o cuidado do pai, o crescer na amizade, viva cor no sexo, perfume na gratidão, fruto na caridade, florescer no amante, comunhão em Deus. E só Ele sabe do meu suor e dos meus avessos que levo no caminho para tornar plena cada uma destas palavras, em verbo vivo na Alma, enfeitando-me nos sorrisos e lágrimas, chegadas e partidas, noites e dias que me contam com a voz de dentro que diz que amar se aprende amando.

domingo, 27 de novembro de 2011

Requintes...

O bom da saudade é que a gente pode aniquilá-la juntos, com requintes de crueldade e beijos deliciosos.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Eternamente...

Eternamente..
.. é ter na mente
o infinito.
Eternamente,
na mente mente o impossível.
Eternamente,
e ternamente
o Amor sabido.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

A dança...

(...) e eu acho tudo isso muito engraçado, do avesso, colorido. Por tantas vezes tentei entender mas não entendi. Por tantas vezes eu queria ficar, mas aí eu parti. Então desisti. Passei somente a sentir. Sentir a vida se fingindo de vento pra soprar doçura no rosto. Sentir a esperança se fantasiando de sol pra tocar minha janela. Sentir o tempo se vestindo de noite pra tornar mais doce o nosso encontro. Sentir o que não entendo, mas celebro. Convidando a vida pra dançar comigo, colada ao meu corpo... e à minha Alma.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Girar...

(...) eu já me agarrei às ilusões como se pudesse descansar no horizonte; converter mentiras em verdades, ou pesadelos em sonho bom. Fui de me encantar com tantos reflexos e esquecer de mim; ocupando-me com quadros sem querer saber de artista; esquecendo da vida ignorando o tempo. Consumindo a Alma por caminhar sofrendo. E agora, abro mão da lembrança em troca de qualquer novidade, e do mistério no lugar de qualquer segredo que me distraia. Troco o aconchego de um abraço pelo calor do sol; o beijo na boca pelo caminhar no pasto; um elogio pelo cantar dos pássaros. Esqueci do teu perfume ao me embriagar com as flores; esqueci das tuas cores ao me enamorar com a escuridão; esqueci de entender saudades quando me deixei apenas sentir. E qualquer leve sintoma de emoção hoje me comove e me renova e surpreende com as mesmas esquinas e ruas que levam o teu nome. Por isso deixei cidade pra me encontrar no céu, onde confesso estrelas e tempestades, nuvens e barulhos que o vento carrega à espera de saber qualquer silêncio que me abrigue. E então me encanto com qualquer poesia nos olhos, uma atenção dispensada ou um sorriso nos lábios a me convencer buscar-me inteiro, ainda que eu parta, minta e desminta o meu querer. Ainda que acabe todo comigo. Sou tão medroso que me satisfaço com um amor inventado; mas também sou destemido por viver só no amanhã, onde me enfeito com alguma cor que eu goste ou um acaso onde eu possa escolher as falas, mesmo que eu repita o mesmo roteiro e os mesmos erros. Evito sofrimentos no carrossel dos dias que passam sem me levar a lugar nenhum; mesmo que o mundo não pare de girar.

sábado, 19 de novembro de 2011

Sem lugar para você...

Você que adora apontar erros nos outros e, quando não os encontra, resolve inventar, despeça-se e não volte mais. Você que não consegue desprender-se da comparação com o outro e inveja tudo aquilo que o vizinho tem e você deseja, dê seu prefixo e saia do ar imediatamente. Você que só sabe ver maldade nos outros porque se nega a enxergar a sua própria, não precisamos mais dos seus serviços. Você que delira achando que o mundo inteiro está contra você e, justamente por isso, não consegue ser amigo de ninguém, siga seu rumo sem olhar para trás. Você que fura a fila da vida achando que pular etapas é uma baita vantagem, vá e não volte. Você que só enxerga o lado de fora e ainda teoriza sobre ele achando que isso faz de você um intelectual, risque-nos da sua listinha. Você que é incapaz de amar alguém e ainda machuca quem lhe oferece afeto, suma sem deixar telefone e endereço. Você que mente até acreditar e não se responsabiliza pela própria mentira quando ela dá errado, vá pregar em outra freguesia. Você que se faz de vítima para manipular quem lhe quer bem, nem perca seu latim. Xô, você que não consegue ser feliz e repudia a felicidade dos outros. Esqueça que existimos. Livre-nos do seu vodu, mau olhado, bad vibe, inveja, má influência. Aqui a coisa é diferente, aqui não alimentamos a doença de gente do seu tipo. Aqui não tem lugar para você.
.
.
.
(Alex)

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Inverno...

O Amor que você roubou quando fugiu pra longe sem me avisar, quando você pôs fogo em tudo sem daqui me salvar, transformou Deus no diabo, virtude em pecado, encanto em descaso e meu sossego em rancor. Corri do eterno a me entregar pra dor que restou pela teu partida; e nas veias hoje corre o veneno que me castiga a querer te castigar também e te cobrar pela despedida. Rasgo a pele com doçuras e me sufoco entre os tantos sonhos que colhi no teu abraço. Por ora escolhi coloridas ilusões a enfeitar a vida cinza que me alivia do desgosto; protegendo-me da luz que me aponta pra qualquer amanhã sereno. O céu infinito esmaga o peito com o peso das estrelas no árido deserto que chamo agora de sentir. E no caminhar sem rumo e sem jeito, nas lágrimas mato a minha sede. Teu abandono ainda me fere nas notas mais agudas e os teus erros, ecoam na minha memória nos mais vivos tons. Queria destronar o passado como página amarelada pelo tempo que desmentiu suas palavras, pois você arrancou da minha boca o sabor do sorrir e do meu corpo a leveza dos passos. Você despertou minhas sombras que no chão dormiam enquanto inocente eu confessava minha gratidão. Sou moribundo a ter querido morrer antes mesmo de você me matar; por isso, tornei-me a poesia da morte que sopram os lábios querendo calar tuas lembranças. Desconheces como a ausência tua arrancou meu coração do peito, e minha alma que por aqui restou, amor jamais poderá sentir novamente. Não há mais amargo que possa impedir o meu verão de chegar. Já é inverno.


"Por que o meu sofrimento não pode, pelo menos, ser dotado de alguma dignidade? Quando os outros autores sofrem, é uma coisa épica ou cósmica, ou então avant garde, mas quando eu sofro é palhaçada". (Erica Jong)

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Morada...

É no céu em que nos encontramos quando saudade é sentida e pro alto levamos os olhos. É no céu em que sopramos os nossos mesmos sonhos. É no céu em que nos sabemos além daqui e os passarinhos namoram; em que as estrelas lá moram, a nos ensinar o infinito. É na terra em que meus pés descalços sentem o mesmo chão que o teu. É na terra em que espero tua mão encontrar com a minha. É na terra em que a espera em te encontrar caminha. É no horizonte onde liberdade faz morada. Na morada do Amor, encontro nós dois de laços e a vida de cama macia. Lá mora a minha cor, namoram os olhos que se conversam. Em que dois são um, todo o resto é nenhum porque nada além, só aqui. Fluído é o que forma foi e presente é, somos rio a desaguar no mesmo encontro em um só nome e verbo que confessa: há mar.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Sobre a doação...

A mais importante esfera de dar, entretanto, não é a das coisas materiais, mas está no reino especificamente humano. Que dá uma pessoa a outra? Dá de si mesma, do que tem de mais precioso, dá de sua vida. Isto não quer necessariamente dizer que sacrifique sua vida por outrem, mas que lhe dê daquilo que em si tem de vivo; dê-lhe de sua alegria, de seu interesse, de sua compreensão, de seu conhecimento, de seu humor, de sua tristeza — de todas as expressões e manifestações daquilo que vive em si. Dando assim de sua vida, enriquece a outra pessoa, valoriza-lhe o sentimento de vitalidade ao valorizar o seu próprio sentimento de vitalidade. Não dá a fim de receber; dar é, em si mesmo, requintada alegria. Mas, ao dar, não pode deixar de levar alguma coisa à vida da outra pessoa, e isso que é levado à vida reflete-se de volta no doador; ao dar verdadeiramente, não pode deixar de receber o que lhe é dado de retorno. Dar implica fazer da outra pessoa também um doador e ambos compartilham da alegria de haver trazido algo à vida. No ato de dar, algo nasce, e ambas as pessoas envolvidas são gratas pela vida que para ambas nasceu.
.
.
.
(Erich Fromm)

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Papo de vovó...

Eu sei que muitas vezes vai dar medo, em outras, você vai pensar em desistir. Mas mudanças fazem parte do cotidiano e são elas que nos ajudam a construir nosso alicerce. Experiência não é “papo de vovó”, não. Chega um dia que a vida te cobra e vai querer saber “tin tin por tin tin” o que você fez com os obstáculos que ela colocou.
.
.
.
(Fernanda Gaona)

Todos os dias te descubro...

"Todos os dias descubro
A espantosa realidade das coisas:
Cada coisa é o que é.
Que difícil é dizer isto e dizer
Quanto me alegra e como me basta
Para ser completo existir é suficiente.

Tenho escrito muitos poemas.
Claro, hei de escrever outros mais.
Cada poema meu diz o mesmo,
Cada poema meu é diferente,
Cada coisa é uma maneira distinta de dizer o mesmo.

Às vezes olho uma pedra.
Não penso que ela sente
Não me empenho em chamá-la irmã.
Gosto porque não sente,
Gosto porque não tem parentesco comigo.
Outras vezes ouço passar o vento:
Vale a pena haver nascido
Só por ouvir passar o vento.

Não sei que pensarão os outros ao lerem isto
Creio que há de ser bom porque o penso sem esforço;
O penso sem pensar que outros me ouvem pensar,
O penso sem pensamento,
O digo como o dizem minhas palavras.

Uma vez me chamaram poeta materialista.
E eu me surpreendi: nunca havia pensado
Que pudessem me dar este ou aquele nome.
Nem sequer sou poeta: vejo.
Se vale o que escrevo, não é valor meu.
O valor está aí, em meus versos.
Tudo isto é absolutamente independente de minha vontade".
.
.
(Octavio Paz)

domingo, 13 de novembro de 2011

Ofício...

"Sim, jamais escrevi sobre o que não me doesse, nem sobre o que doesse somente a mim. Com a exceção das mensagens divinas, de que não sou portador eleito, são as dores do mundo, na medida em que participamos delas com a inteireza de nossa alma, que constituem a única matéria digna do ofício de escrever e falar em público".
.
.
.
(Olavo de Carvalho)

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Quinhão...

Amor é a prece que cantam os passarinhos; é decorar sua gaveta de bençãos, sentir a cor e o peso dos laços, saber qual seu reflexo nos milagres, e colecionar sorrisos. Amor é o caminho entre o abismo dos dias, vazios em que reinam sombra e não escapa luz, onde o tempo cala e o silêncio dói. Amor é um lembrar-de-Alma que desmistura avessos e contraria tristezas, quando semente se esqueceu de germinar. O Amor acerta os compassos e desfaz enganos; constrói perdão e amansa o medo, perfuma olhares e colore os jardins. O Amor suaviza certezas amargas em que o amanhã sepultou a esperança. O Amor é também lembrar o caminho de volta pra casa, quando a fé na vida se perdeu; e lembrar é o suficiente pra muita coisa aqui dentro: que serenidade é o correr do riacho e o pulsar do coração; que abrigo é o sol que nos banha e a noite que nos veste; que no número de estrelas cabem todas as nossas virtudes; que travesseiro é testemunha de todos os nossos sonhos; que existem mãos que despertam os olhos, e letras que acordam a Alma. Amor é cirandar com o que é vivente, ardente, poente, amante, nascente, reinante no próprio peito que sente. Amar é amanhecer dentro da gente; celebrando gratidão mesmo quando o dia de ontem trouxer saudades. Amar é saber o seu quinhão no mundo.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Artesão...

Aos que nascem e morrem nas palavras: em que nelas se encontram, mas também se perdem; em que nelas se ferem, mas também se curam; os que nelas abrigam, mas também expulsam. O poeta é o artesão do silêncio que leva vida inteira para provar do próprio fruto. Aquele que escreve escolhe paisagens já vividas ou colore alguma nova de que queira falar. Universo ilimitado de possibilidades que nem sempre nos pertencem, mas que nós as expressamos com nosso singular perfume. Não precisa o poeta acreditar naquilo que escreve, exceto no instante em que escreve, pois o artesão dá a vida a sua escultura, mas não é ele o barro; o jardineiro floresce os jardins, mas não é ele a terra. Criador é reflexo, mas nem sempre a imagem. Ele é sopro, a criação e a própria criatividade que em sua obra habita. Ele conta lágrimas, ainda que por detrás do pano sorria. É vendaval, ainda que tenha amanhecido azul sereno. O poeta ao publicar sua poesia dela se liberta; pois o que a arte exige do artista é a devoção à sua obra ao criá-la, e não fidelidade a ela depois de pronta. Aos que nascem e morrem nas palavras, mas que também as transcendem: o artesão traz ao mundo o sublime e o sagrado quando confessa nas palavras, o infinito; para ir depois tomar sua cerveja, fumar o seu cigarro e beijar sua amante.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Sobre a distância...

Distância é espaço que nos desfaz em dois; é saudade que pode ser medida pelos passos que dou ao fugir dela. Distância é horizonte que não admiro; passeio que não quero; grandeza além do meu sonhar. Distância é sinônimo do tempo em que não sei; mas que multiplica o sentir e o pensar. Pois será que quando um pensa no outro, não se faz ponte? Ponte que nos faz mais próximos ainda que de jeito sutil e sereno? Será que pensamento com jeito e forma de quem se gosta não é abraço que acolhe nossa atenção e porta que recebe nosso carinho? E será que somos tão distantes e separados assim pra porta não ter o outro lado em que nos sabemos inteiros? Não seríamos nós, portas que se conversam e se esperam? Tem os sentimentos língua própria que confessam você em mim e o que dentro de nós habita. Quando dentro e imerso, dissolvem-se os reflexos e os limites que nos separam. São os pensamentos feitos da mesma essência e do mesmo encontro quando o Amor deságua no mesmo mar. E lá navego na tua mesma rota que me serves de farol. Porque distância não é, nem nunca foi assunto da alma; coração desconhece o tempo. Quando me enlaço na tua história, sou promessa cumprida hoje; mas também pedido. Que venha você desfazer os velhos conceitos e as teias de aranha da mesmice ao me ensinar mistério que dissolve ilusão, desmentindo o espaço que nos desfaz em dois, que espera saber o nosso encaixe e dissolver nossos limites. Afinal, quem tem limite é município. Eu sou imensidão que te busca e que distância nenhuma toca, quando vivo em nós.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Combinação...

“Tu tens a sombra e a luz e eu penso que a música é a combinação das duas. Apenas luz não tem sentido para mim. Mas se for apenas sombra é demasiado escuro, não consegues ver nada. Precisas de luz e sombra, precisas do contraste de tristeza e esperança, amor e raiva. É isso que faz com que a minha música seja dramática, bonita. Esse conflito está sempre presente na minha vida. Por muito que queira caminhar para a luz, tenho de passar pela escuridão para chegar à luz.”
.
.
. 
(Lhasa de Sela)

Visões...

"Nego-me a submeter-me ao medo que tira a alegria de minha liberdade, que não me deixa arriscar nada, que me torna pequeno e mesquinho, que me amarra, que não me deixa ser direto e franco, que me persegue, que ocupa negativamente minha imaginação, que sempre pinta visões sombrias".
.
.
.
(Rudolf Steiner)

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Sopro...

(...) após longo combate do Amor para sobreviver, morreram. E então, fez-se um silêncio. Silêncio árido, denso, amargo; daqueles de enlouquecer os feridos. Aquele silêncio de cemitério, de campo de batalha em que viveram suas mágoas e trincheiras. Eles resistiram e se carregaram, até abrirem mão. Não se sabe se sucumbiram ou se renderam a este silêncio. Silêncio de não mais ver os olhos e de não saber da pele.  Cobranças cortaram, lembranças traíram, nas noites se odiaram e na manhã refizeram-se, mas não puderam, não aguentaram. E quando menos esperavam, quando aguardavam o perdão e a renúncia dos erros num amanhã ilusório de paz; tombaram de exaustão, sem fôlego, de solidões partilhadas e interrogações infindáveis. Morreram sem saber viver; viveram sem saber amar. Acreditaram sem poder seguir. Pela gastura dos laços e dos frágeis alicerces da relação, um mero sopro os derrubou. Um tropeçar ingênuo que os atirou ao precipício. Uma farpa qualquer que os rasgou em sangue o peito. Quando mentira foi uma verdade imprevisível, morreram de sopro no coração.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Diálogo...

- O meu coração não bate.. me espanca.
- E você não amaciou ainda? O que mais falta então? Chorar mais quanto? Sofrer mais quanto? A gente não é automóvel que precisa rodar e se desgastar um tanto pra só então fazer a revisão. Revise-se; reviva-se e re-torne para a estrada.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Sobre gravetos e chinelas...

Após laços desbotados e desencontros tantos; por acaso se encontraram. Universos tão diferentes a somar suas diferenças em resultados de bem-querer a olhos vistos, ainda que ela não enxergasse lá muito bem. Apaixonaram-se perdidamente onde ganhavam o pão; ainda que não comessem carne. Trabalho se fez palco de carinhos e confissões que, entre desejos e planos, confessavam também cansaço de capítulos passados e páginas rasgadas a sufocar liberdade dos momentos já escritos. E por amargarem suas tristezas, hoje, faziam dos seus bilhetes, pétalas deixadas na mesa, entre pastas e bombons, memorandos e suspiros, versos e papéis do trabalho que os uniam no expediente do coração. E pela cumplicidade de suas histórias; tendo os dois caminhado entre muitos gravetos a sangrar passos passados, usavam agora as mesmas chinelas, a descansar seus pés e abraços cansados da caminhada torta. Queriam a mesma leveza. Ela era doçura que tocava sua boca; ele poema a tecer sua esperança. Amizade e faíscas na identidade dos sonhos e na intensidade das agendas; buscando assim os mesmos compromissos. Cheirosa de Alma, queria ele perfumar sua vida inteira...

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Vai saber...

Serve o nascer do sol para dissolver o vazio que amanhece do nosso lado na cama. O mesmo vazio que tentamos preencher com a mesma coisa a terminar igual. Igual porque iguais são tantos e tantas que repetem o mesmo ato, a mesma cena, o mesmo drama, a mesma dúvida. É com o nascer do sol de dentro que a coisa toda muda. Vai saber...

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Os olhos...

Os olhos piscavam rápido. Respiração era atropelo. Ansiedade era cúmplice de procura qualquer por alívio que a fizesse encontrar, ou simplesmente esquecer. E entre palavras e enganos, suspiros, desencantos, sonhos e tortos planos, percebeu ela que havia algo além das longas conversas de adocicados nadas, copos meio cheios, intenções todas vazias e convites para festas de fim de semana. A vida acontecia além do amanhã, no aqui, que cobrava sua atenção, e no agora, que gritava intensidade decifrando-a nos encontros e momentos que lhe brindavam olhos fechados; e no silêncio a sussurrar suas verdades e denunciar seus sentimentos. Eram instantes de vontades, mergulhos e desejos que traçavam seus caminhos e seu próprio rosto. Sentiu que aconchego não era questão de quando e nem de sonhos. Desenhou o seu presente se tornando parte dele. Cuidou bem das sementes sem esperar por flor. O desapego das suas respostas calavam suas perguntas e esperas; era então chave da sua liberdade a ecoar pela sua vida inteira.

Sabida...

Você é linda; muito linda. Por dentro. O que me cabe é te lembrar disso. E por fora, bem... por fora você já sabe.

domingo, 30 de outubro de 2011

Refletir...

Quando insegurança pula a janela, a gente acha que vê, mas a gente só vê os reflexos do outro, e não o outro. E não se sabe se o que vemos é mesmo o outro ou o nosso próprio refletir.

sábado, 29 de outubro de 2011

Fé...

A fé será meu suave manto;
Que forte deixará a caminhada;
em que não me alcançará portanto,
o desânimo a me deixar em pranto,
e um amanhã a me brindar com nada.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

As 3 coisas...

Existem 3 coisas que sufocam a nossa Alma. A vergonha, a culpa e o medo. E o curioso é que são as três visitas que nunca aparecem lá em casa quando o Amor se faz de hóspede.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Escritora...

Seus olhos desnudam meus contornos da Alma que eu mesmo não vejo, e os teus passos, decifram caminhos da vida que eu mesmo não sigo. Você nem me conhece e me virou todo do avesso. Você sabe de mim mais do que me conta o espelho. Porque teus erros falam dos meus. Teu sofrer expõe o meu sofrimento. É você quem se corta e quem sangra sou eu. É você quem confessa e sou eu quem grito aquilo que de mim tanto escondo. Saiba: tuas entrelinhas são as verdades escancaradas da minha vida, pois teu perfume lembra o meu sorriso; teu canto lembra a minha voz; tua lágrima, meu pedido de perdão. Intérprete dos meus silêncios, és raridade quando tua vida traduz a minha inteira nas palavras escritas. E você me sabe, como se houvesse me lido, com ênfase nas notas de rodapé, meus rituais e contradições, minhas cores e desacertos. É você quem me põe na parede quando desvendas minhas crenças que ninguém mais percebe, inclusive eu. Quando me diz que sou antagonista de mim mesmo. Quando me diz que coração é nau que carrega todos os meus amores. E você, você é oceano. Em que encontro meus tesouros e meus abismos. E assim você costura meus capítulos, seja eu mocinho, bandido, santo, pecador, galã, feioso, herói sem caráter e todos os outros detalhes que só fazem parte do meu show. Ainda que eu seja o ator das minhas escolhas, parece ser tu autora das minhas falas. Quando me jogas na frente do público de improviso. Quando me convida pra peça que a vida me prega. Eu leio minha Alma com tuas palavras; pois sabes tu meus monstros e cores, todos pelos nomes. E eu nem ao menos sei quem você é. O que sei é teu ofício ser poesia. Tua vida, escritora. É o que faz para (sobre)viver.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Inesperado...

Quando a gente menos espera amadurecer, e cansados desistimos do plano, aí então crescemos. A Vida não faz força para ser, o sol não faz força pra nascer, a grama não faz força pra crescer, o peixe não se esforça pra nadar. E raiz não se esforça em se firmar e permitir que árvore bonita alcance as alturas merecidas. Quando deixamos de olhar pra trás, percebemos o quanto já caminhamos. E no céu chegamos sem esperar subir.

Maçã do amor...

(...) e ele vive por aí, preenchendo-se de vazios com seu charme peculiar. Reúne em sua agenda, telefones, aventuras e romances, bem como lágrimas e solidão sentidas ao final de cada noite; mas elegante que só ele. Alimenta o desejo e o imaginário de cada uma delas com os capítulos mais interessantes de toda uma história que gostaria mesmo é de esconder. E com sua irresistível presença, sentia-se um zé ninguém. E com todo o seu carisma, sentia-se um miserável. E com todo seu encanto, sentia-se amaldiçoado. Desmentia o espelho o seu sofrer antes de cada festa; lembrava-se dele no árido silêncio da sua casa. Altivo e garboso, era ele uma armadilha; a colecionar sorrisos, cinturas, perfumes e nomes em seu coração empoeirado, por dentro. Por fora era a mais bonita maçã do amor.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Lógica...

(...) e na lógica da sedução, enfeitou o corpo de encontro e a pele como linguagem. A língua como convite. Tomou do vinho e do desejo; o gemido a voz da alma; no sexo, o seu diálogo. O lençol era descanso na madrugada que amanheceu silêncio. Amante mercador de promessas; carregou consigo todos os seus amores. Desnudou o corpo mas não se revelou inteiro. Olhos que amam porque fechados; encontros marcados porque carentes. Não soube o coração escolher os seus caminhos; prazer era seu único mapa; álcool era o seu único desapego. Armou o descaso, amava o passado, retribuia vazios, sofria calado, sorria mentindo a semear ilusões por cada porta que cruzava. E na lógica avessa do esquecer, trilhou a ponte entre as saudades e o amanhã; sem jamais chegar. Sabia incensos, velas, seda, perfumes, pegadas, ritmos e cor das cortinas. Só não sabia mais de si.


"Estou nu diante da água imóvel. Deixei minha roupa no silêncio dos últimos ramos. Isto era o destino: chegar à margem e ter medo da quietude da água". (Antonio Gamoneda)

Dispensa...

O Amor é tanto e tudo que dispensa qualquer palavra, mas dá um cadinho de vontade de dizer qualquer coisa, só pra agradecer.

domingo, 23 de outubro de 2011

Ensinamento...

Dizem os místicos que uma árvore só é árvore porque os olhos do homem a veem. Não havendo nenhum homem, nem seus olhos para dar realidade à árvore, ela nada seria. A vida só é vida porque a vivemos. O Amor só é Amor porque o sentimos. Assim, você é porque eu sou. E eu sou porque me sabes; não sabendo de mim, eu também nada seria.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Sobre o poeta...

O poeta é místico e palhaço, que carrega nas cores a própria sombra. Que se faz verbo e se faz vento; amante do saber que na beleza se veste de palavra e a ressalta nas entrelinhas. O poeta é o sábio pecador, que nas paixões se entrega, aos seus excessos e intensos em que nelas busca o seu sagrado; santidade que apenas as palavras conferem. O poeta se faz além dos sentidos para que os olhos possam saber. O poeta é hábil em raios de sol e laços, silêncios e dores. O poeta é terapeuta que a si espera receber alta, mas que nunca se cura. O poeta é o algoz distraído de suas prisões que aos outros convida visitar. O poeta é o pássaro mestre que ao céu leva os outros a conhecer. O poeta é árvore que carrega muitos frutos, e neles suas sementes. O poeta é o mais sincero mentiroso e o mais ardiloso dos videntes; pois ensina com jardins, belas virtudes. Que demonstra com o Amor, suas verdades. Que aponta no infinito, a nossa Alma. Serve-se do poeta a poesia, que nos deságua a saber o que não se sente e de sentir o que se busca. Fala o poeta sobre o possível a se refletir no real, a lua que se espelha no oceano. Não posso tocar a lua no silêncio de suas águas, mas através dela entendo o firmamento. O poeta expressa suas impressões assim como o vento dá jeito e forma aos desertos. O poeta é pai e também o filho de suas obras; e aquele que nelas mergulha, gratidão compartilha. Seu lírico vive todos os amores do mundo e morre por todos eles; e em si renasce porque poesia é verbo caminhante. Poesia germina e floresce. O poeta é gênero; e poesia, o seu princípio.

"O poeta é uma mentira que sempre diz a verdade". (Jean Cocteau)

Insegurança...

Insegurança é o convite pra cabeça se fazer presente quando a gente está feliz; lá na festa do boicote. Porque é na felicidade que a gente precisa menos da mente e mais do coração e, quando cabe mais sentir do que pensar, a insegurança aparece como uma bela desculpa pra nem tudo sair como queremos, por nossa própria conta.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Hóspede...

Amor é hóspede que nos faz jogar a chave de casa fora pra nos trancarmos dentro juntos, esquecidos do mundo.

Respostas...

As perguntas, muitas vezes, levam-nos ao final do arco-íris como às ruas sem saída. As respostas também.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Costume...

A gente costuma se preocupar por coisas que na maioria das vezes não acontecerão, e chorar por coisas que já não existem mais.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Ironias...

Ao longo do tempo deixamos em brasa na pele os nossos apegos e sombras, contradições e mágoas; marcas profundas do nosso tamanho que dóem com sopro qualquer que nos balance. Pois são os contornos das nossas dores que nos devoram e nos derrubam, porque ainda sangram. E só Deus sabe quando alma cicatrizará as chagas, e o passado. E só Deus sabe quando cicatriz não vai mais doer, e o amargo sairá da boca, sairá da pele e do coração; sairá da memória. Deus nunca nos disse que a vida seria justa, e nem que seria fácil. Acreditar nisso é apenas mais uma ilusão marcada na pele; muleta de frágeis esperanças; um falso descanso entre as perturbações. Atente ao fato de que a vida é feita de alternâncias. Que nos convida ao céu azul e logo depois ao precipício. Que nos pede por semente e nos deixa chorar flor esmagada. Que nos ensina e nos reprova nos velhos novos amores que buscamos. Que nos distrai das dores com outras maiores ainda. Que nos mata a sede com inundações. Que nos rasga inteiro quando também nos costura. E entre as ironias e doçuras que nos cortam e nos acolhem, que ardem mas também nos fortalecem, as cicatrizes passam a contar aquilo pelo qual não se deve mais sofrer; quando dor educa quando deixou de doer; quando levantar depois da queda nos faz escolher outros caminhos. Cicatriz é a renúncia da ferida; e o acerto só aparece quando erro já saiu da festa, depois de tanto aproveitar. Não sofre aquele que já morreu de tanto sofrer e hoje renasce no céu de dentro.

“Tomarei contra minha alma o partido da desesperança e me tornarei o inimigo de mim mesmo”. (Emil Cioran)

sábado, 15 de outubro de 2011

Futuro do pretérito...

Eu queria saber o que escrever enquanto você se ocupa com a vida que pede tua presença e nem desconfia das minhas vontades. Eu queria saber o que dizer a você que transbordasse carinho e gratidão; saber dizer alguma coisa e qualquer coisa que pudesse te acolher e te embalar, e que esse querer pudesse olhar nos teus olhos com sorriso de fazer o céu mais azul. Eu queria saber você, saber mais perto, pra poder me fazer todo presença, com tudo o que sou, fazer poesia com a boca, fazer silêncio com os olhos e com as mãos dizer qualquer coisa de cafuné. Saber você sorrindo, tomando café-da-manhã comigo, conversando sobre qualquer coisa que seja bom pra nós. Eu queria ser promessa, ser canção, paixão, mel, biscoito, tinta, papel. Ser todo entregue à tua vida seria o único jeito em que poderia agradecer. Queria ser qualquer palavra que se ache no dicionário de bom e bonito que pudesse combinar com teu nome. Apesar dos pesares e da distância, das saudades, tristezas e do desânimo que às vezes se assomam e nos assombram como se pudessem ser hóspedes da nossa casa, queria dizer que você pode descansar em mim e se acolher; e se derramar; que serei ouvido, olhos, colo, paisagem, cheirinho, massagem e que também quero envolver você em bolinhas azuis de tranquilidade. Eu queria saber confessar minha história, minhas doçuras e amargos, enlaçar você pra mais perto e não te fazer correr nem se assustar com espinhos de flor que só querem perfumar. Porque eu quero te fazer mais leve, mais suave, mais plena; levar teu coração pra passear, segurar tuas mãos, fazer graça e sonhar acordado, fazendo você respirar macio. Eu queria ser mais do que sou, porque contigo ser menos não dá. E você me merece por inteiro. Porque nós merecemos o inteiro. Eu queria poder contar aquilo que sua Alma bem conhece mas que por hoje esqueceu; contar aquilo que não cabe no poema mas que se lê nas conchas do mar, nas cestas de flores, na cadeira de balanço, no perdão e no abraço. Qualquer coisa que te fizesse entender o meu Amor.

"Levai tudo: o brilho fácil das pratas, o acre toque das sedas. Deixai só a incomensurável memória das labaredas". (A.M. Pires Cabral)

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Reprovação...

Se o Amor é aprendizagem, eu sou o verbo. Se o Amor é lição, sou eu os olhos. Porque amar me cabe, se és tu quem me ensina. Do meu sofrer eu não reprovo mais.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Sonhadora...

Dizia ela amar aquela menina sonhadora que por vezes encontrava no espelho do seu quarto. Amor era verbo vivo no reflexo e hoje preso no passado; porque menina odiava não mais conseguir sonhar. Ignorava que não mais sonhava por amor se encontrar dormindo. Havia ela se esquecido como seria novamente não precisar dormir para se sonhar. Sonhar sem medo. Porque o que lhe restava era pesadelo como enfeite no quarto que tanto a assustava e a deixava presa na cama, impedindo-a de caminhar serena no jardim de si. Acostumou-se com monstros e frustrações que a convenceram a ficar por ali, sem sal, sem gosto, sem vida, sem novos capítulos e voos mais altos. Mas quando faminta se alimentou de surpresas e novidades que colheu, lembrou que arriscar era mais vantajoso e prudente do que se encolher. E aí, menina voltou a sonhar.

Salvos...

Se os pensamentos combinassem sempre com os sentimentos e estes, com aqueles sempre se correspondessem, as pessoas estariam completamente perdidas, ou definitivamente salvas.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Sobre a poesia...

Poesia é caso de amor entre o espírito e as palavras; jeito do coração dizer ao outro a sua prece. Poesia é declaração nua da beleza que dela nem todos entendem. Pois são as pessoas, desavisadas dos olhos; não entendem por não se afinarem com as entrelinhas. Eu falo por elas e por elas me faço. As palavras são todas emprestadas do silêncio, que uso a confessar meus sopros vestidos de ideias, minhas alegrias e tempestades. E ainda que poesia não fale de mim, nela deixo meu perfume em cada verso; nela traço um mundo meu em cada letra. Poesia é tecelã habilidosa em costurar o sentido da doçura e da sutileza na vida nossa. Gosto de pensar que sou seu aprendiz. Poesia tem um papel de ponte, levando os olhos à Alma, as cores pra dentro e a vida pra fora. Poesia é igualmente o barro do artesão, a tela do pintor, o rasgar da semente, o parto de toda mãe, o prazer da criação, o êxtase do amor. Oficio sagrado este de traduzir a verdade e seu avesso que se escondem nas sílabas, a loucura e o saber que habitam as criaturas, o céu e a terra que se conversam em cada horizonte, a vida e a morte que se permeiam em cada um de nós. Abençoado ofício; nobre e inevitável destino. Afinal, existem os sãos, existem os vãos, os loucos e os normais. E existem os poetas.

"Eu fui poesia, antes de tudo". (Priscila Rôde)

Possibilidade...

As pessoas só podem dar aquilo que elas tem, e dão de acordo com o que compreendem.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Samsara...

O monge perguntou ao Mestre:
Como posso sair do Samsara?.”
O Mestre respondeu:
Quem te colocou nele?
.
.
.
(Conto Zen)

Broncos...

"Caí em meu patético período de desligamento. Muitas vezes, diante de seres humanos bons e maus igualmente, meus sentidos simplesmente se desligam, se cansam, eu desisto. Sou educado. Balanço a cabeça. Finjo entender, porque não quero magoar ninguém. Este é o único ponto fraco que tem me levado à maioria das encrencas. Tentando ser bom com os outros, muitas vezes tenho a alma reduzida a uma espécie de pasta espiritual. Deixa pra lá. Meu cérebro se tranca. Eu escuto. Eu respondo. E eles são broncos demais para perceber que não estou mais ali".
.
.
.
(Charles Bukowski)

sábado, 8 de outubro de 2011

Uvas...

"Quem nada conhece, nada ama.
Quem, nada pode fazer, nada compreende.
Quem nada compreende, nada vale.
Mas quem compreende também ama, observa, vê...
Quanto mais conhecimento houver inerente numa coisa
tanto maior o amor...
Aquele que imagina que todos os frutos
amadurecem ao mesmo tempo, como as cerejas,
nada sabe a respeito das uvas".
.
.
.
(Paracelso)

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Murar o medo...

"O medo foi um dos meus primeiros mestres. Antes de ganhar confiança em celestiais criaturas, aprendi a temer monstros, fantasmas e demônios. Os anjos, quando chegaram, já era para me guardarem, servindo como agentes da segurança privada das almas. Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferença entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando me ensinavam a recear os desconhecidos. Na realidade, a maior parte da violência contra as crianças sempre foi praticada não por estranhos, mas por parentes e conhecidos. Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam esse velho engano de que estamos mais seguros em ambientes que reconhecemos. Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura, do meu território. O medo foi, afinal, o mestre que mais me fez desaprender. Quando deixei a minha casa natal, uma invisível mão roubava-me a coragem de viver e a audácia de ser eu mesmo. No horizonte vislumbravam-se mais muros do que estradas. Nessa altura, algo me sugeria o seguinte: que há neste mundo mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas".
.
.
.
(Mia Couto)

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Um pouquinho...

Quando brisa mansa se fez vento forte, arrastando promessas e sonhos a tornar árido meu reino da esperança e deserto o jardim das minhas cores, vem você semear sorrisos e reconstruir horizontes. Quando tristeza é tom e cansaço é o som dos meus passos, sob o vendaval que me arrasta pra longe do templo do amanhã, aparece você adormecendo as aflições e me ensinando serenidade. Quando verso é tema incerto das minhas crenças, e amor o saldo devedor pelas fichas perdidas e ruas tortas, você se aproxima a me acolher no teu abraço-abrigo. Quando o desengano são as únicas portas abertas com as quais me deparo, chega você bordando luz; trazendo resposta pra qualquer uma das minhas aflições, e doçuras pra qualquer um dos meus amargos. Quando bebo da miséria da solidão em que silêncio é qualquer vazio a engolir minha direção, ainda que as estrelas me apontem a caminhada, vem você prenunciar meu ano novo e a importância do desapego. Quando verdade pra nada serve mais e recolho então as velas da minha jangada, ouço tua voz falar do perdão que conforta e da necessidade da coragem. Quando não quero mais e me satisfaço com metade, chega você apontando o inevitável mergulho na vida, a saciedade da entrega e os milagres da rendição. Quando sou grosso, vestes tu a singeleza. Quando sou demasiado, sussurras tu as entrelinhas. Quando sou seco, choves tu no meu quintal. É tua presença, teu carinho, tuas palavras, teu silêncio, tuas cores, teu bem-querer, nossos laços, amassos, filosofias, desejos, encontros, sonhos e vontades que alimentam minha alma e me fazem bem, ainda que flor queira morrer um pouquinho por não acreditar hoje e só hoje, no florescer.

"A neve e as tempestades matam as flores, mas nada podem contra as sementes". (Khalil Gibran)

domingo, 2 de outubro de 2011

Dedicatória...

Estas palavras são pra você, que acorda vez ou outra se sentindo deslocado, distante e fora de si; sem saber o que pensar, sem saber o que fazer, aonde ir, o que sentir; onde as únicas coisas que falam de você é a sua identidade na carteira, seu mais do mesmo, sua desesperança. As memórias distantes do que você foi e viveu falam mais sobre você do que quem você é hoje. Estas palavras são pra você, que afirma sua existência pelas negações e ausências, pelas condicionais e meras possibilidades. Que se sente um rascunho; uma ideia genial que se esquece numa distração; um projeto interessante deixado envelhecendo na gaveta. Pra você que vive quando os dias são pesados, os tons são de cinza, em que falar se torna esforço e estar sozinho é a melhor e única escolha, mas também a pior. Quando não saber é a única coisa que se sabe. Pois são tuas roupas repetidas, teu corte de cabelo, as piadas prontas e as séries de tv que mais sabem de você, porque você nem se reconhece mais no teu espelho. Pra você que nas entrelinhas dos desencontros decorou poesia triste e bonita como bordão. Estas palavras são pra você, que procura o Amor e nele busca se encontrar, mas nunca o encontrou por nunca ter sabido e reconhecido o que ele é. Pra você que entre tantos caminhos novos se acostumou com esquinas. Que se sente merecedor de lugar nos banquetes de luz e se satisfez com mesas de bar. Pra você que preferiu entre suspiros, cigarro forte. Que se sente miserável e todo final de noite dorme em cima dos tesouros ocultos do coração. Estas palavras são pra você, que conta as horas porque se incomoda com o eterno. Que não reza por ser você quem verdadeiramente nunca escutou ninguém. Você que reprime os desejos e desiste dos sonhos por se guardarem na estante mais alta. Você que expulsa demônios e sombras todo santo dia. Estas palavras são pra você, que aceita os desacertos como inevitáveis e o destino como ironia. Que acha que dificuldade faz sempre parte do jogo. Que não arrisca por ter apego de estimação. Que só não desiste porque não dá pra desistir. Estas palavras são pra você, que é metade apenas por não saber ser inteiro.

sábado, 1 de outubro de 2011

Valor...

"As mesmas palavras podem ser lugares comuns ou extraordinárias, de acordo com a maneira por que sejam faladas. E essa maneira depende da profundidade da região de um ser humano de que procedam, sem que a vontade seja capaz de fazer qualquer coisa. E, por um maravilhoso concerto, elas alcançam a mesma região em quem as ouve. Assim, o ouvinte pode discernir, se tiver algum poder de discernimento, qual é o valor das palavras". 
.
.
.
(Simone Weil)

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Chinesas...

"Eu queria trazer-te uns versos muito lindos colhidos no mais íntimo de mim. Suas palavras seriam as mais simples do mundo, porém não sei que luz as iluminaria que terias de fechar teus olhos para as ouvir. Sim! Uma luz que viria de dentro delas, como essa que acende inesperadas cores nas lanternas chinesas de papel! Trago-te palavras, apenas... e que estão escritas do lado de fora do papel. Não sei, eu nunca soube o que dizer-te e este poema vai morrendo, ardente e puro, ao vento da Poesia... como uma pobre lanterna que incendiou!"
.
.
.
(Mário Quintana)