terça-feira, 30 de novembro de 2010

Inconsciente...

"Tinha vantagens não saber do inconsciente, vinha tudo de fora, maus pensamentos, tentações, desejos. Contudo, ficar sabendo foi melhor, estou mais densa, tenho âncora, paro em pé por mais tempo. De vez em quando ainda fico oca, o corpo hostil e Deus bravo. Passa logo. Como um pato sabe nadar sem saber, sei sabendo que, se for preciso, na hora H nado com desenvoltura. Guardo sabedorias no almoxarifado."
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(Adélia Prado)

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Jeito...

"Nossa vida se encaixa de um jeito tão perfeito. Não que todas as nossas peças sejam complementares, mas a nossa vontade nos faz unir cada pedaço, mesmo os que parecem incompatíveis".

(Fernanda Gaona)

sábado, 27 de novembro de 2010

Pacote completo...

"Talvez meu maior pecado tenha sido achar que o desenrolar da vida estava nas minhas mãos. Monopolizei os fatos, conduzi-os como eu - menina iludida - achei que fosse o certo. Os caminhos já estão trilhados, essa é a verdade. Não adianta querer mudar a ordem do espetáculo. Ainda estou no primeiro ato, com o mesmo figurino, do mesmo jeito. Eu sou apenas um pequeno ser humano. E como um exímio exemplar de minha espécie, ratifico cada vez mais a minha miudeza. A questão é que tudo deu errado. Tudo. Quis ser dona do meu império sem saber que não passava de uma pobre serva. Escrava de mim mesma. E agora estou aqui, carregando uma tonelada de mágoas nas costas. Minhas mãos estão calejadas, meu pés estão inchados, meu olhos perderam o brilho. Ao que tudo indica, dessa vez, não haverá luz do fim do túnel. Haverá apenas restos. Resquícios do amor que não vingou, da felicidade que não cresceu, da confiança que se perdeu. Soluços. Mas não os meus soluços, porque todo o meu estoque já foi gasto. Nem o direito às lágrimas eu tenho, vendi junto aos meus sorrisos. Pacote completo. O pessimismo continua. Cresceu, solidificou, se firmou e por aqui permanecerá. O afeto ainda existe, e é por esse afeto que não me entreguei. Até porque eu sei que o caminho não chegou ao fim. Essa é uma das poucas certezas que me restam. Somente quando eu estiver de frente ao abismo é que vou decidir se pulo ou não".
(Rebeca Amaral)

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Amnésia...

Saiu batendo a porta e pisando duro; partiu sem saber pra onde ia. Era a bilionésima vez que discutiam e mais uma vez, ele se descontrolou. Gritou com ela. Escondeu seu Amor nos punhos cerrados de raiva; espantou seu carinho com seus gestos brutos de desespero. As lágrimas que corriam não o deixavam ver o tamanho colossal da sua idiotice. Sentia-se tão certo ainda que estivesse tão errado. Recusou dividir culpa que também lhe cabia. Ignorou a cartilha do saber-cuidar que aprendera a duras penas durante toda sua vida, desaprendendo perdão no constante amargo dos seus avessos. E a vida bonita que é lhe deu abrigo imediato em lição amarga de desatino. Atravessando a rua não viu caminhão que passava. Quebrou ossos pra fazer companhia ao coração partido dela. Bateu forte a cabeça e esqueceu-se de tudo. Aprendeu por amnésia, sumariamente a perdoar; mas levou para sempre na memória o carinho da sua menina que ali o encontrou, despindo-se das próprias feridas para cuidar da sua Alma. Levantou-se outro. Tornou-se melhor.


"Quem pede perdão mostra que ainda crê no amor. Quem perdoa mostra que ainda existe amor para quem crê. Mas não importa saber qual das duas coisas é mais importante. É sempre importante saber que: perdoar é o modo mais sublime de crescer, e pedir perdão é o modo mais sublime de se levantar..."

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Amor quentinho...

"Que todo mundo tenha um amor quentinho.
Descanso pro complicado do mundo. Surpresa pra rotina dos dias.
A quem esperar. De quem sentir saudades.

Um nome entre todos.

O verso mais bonito. A música que não se esquece. O par pra toda dança.
Por quem acordar. Com quem sonhar antes de dormir.
Uma mão pra segurar, um ombro pra deitar, um abraço pra morar.
Um tema pra toda história.
Uma certeza pra toda dúvida.
Janela acesa em noite escura.
Cais onde aportar. Bonança, depois da tempestade.
Uma vida costurada na sua, com o fio comprido do tempo.
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(Briza Mulatinho)

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Aquela que amo...

"Aquele que amo
Disse-me
Que precisa de mim.

Por isso
Cuido de mim
Olho meu caminho
E receio ser morta
Por uma só gota de chuva."

(Bertold Brecht)

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Os dois vasos...

Ganhou ele dois vasinhos bonitos que a vida lhe deu; para que assim aprendesse a cuidar de si e de cada uma das flores que em cada qual residia. Apaixonou-se pelas diferenças; das cores e da fragrância gostosa que o encantava. Passaram a enfeitar seus dias em distintas formas e tons que ali abrigavam, ainda que alguns de seus frutos, amargos, nutriam-no em promessas de fartura e longa companhia. Noutro, sempre doces, não havia de vingar, por mais que se satisfizesse o paladar ou contemplasse sua beleza. Em um lhe cabia o zelo para evitar seus espinhos e no outro, apenas o perfume de suas flores. E o  vaso que a ele parecia mais gasto, seria também o mais forte. E no mais formoso, o que melhor parecia acolher as sementes do porvir. Eram os vasos, suas amantes. Seus frutos, seus prazeres. E em cada qual abrigavam todos os seus amores. Eram indispensáveis. Mesmo assim, uma há de morrer pois, no cantinho de sua alma em que o Sol habita, cabe carinho apenas pra uma delas. Não se sabe qual.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Café da manhã...

"É caso de independência ou morte, não tem mais jeito. Já estava na hora de eu tocar o chão com meus próprios pés. Sei que você sente falta do tempo em que a verdade era tão somente aquilo que me diziam. Mas eu preciso encontrar as minhas próprias verdades, elas aguardam por mim lá fora. Jamais esquecerei que foi você quem segurou minha mão todas as vezes que tive medo. Obrigada por tudo, mas daqui para frente eu decido qual direção seguir. Os laços que nos unem agora são unicamente de amor e não mais de dependência. Tenho um encontro marcado com o meu futuro. Não me espere para o jantar. Nem para o café da manhã".
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(Vanessa A. Uma mocinha não tão indefesa)

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Telha...

(...) A forte chuva que caía cantava o teu nome ao encontrar velhas telhas de sua pequena casa, no dia cinza em que habitava. Inundava a rua de lembranças tuas. O aroma do café torrado que fazia lhe era substituto fraco do cheiro da tua pele. Perfume e sorriso tornaram-se retalhos em sua memória. Costurava, assim, as suas dores. E eram as luzes do semáforo as únicas que agora coloriam sua vida, tornada preto e branco. Contava as horas no relógio a espera de não mais esperar lembrar. Pois era a solidão agora, sua companhia. Parceira de jogo que se ganha só.
Jogo de azar, por certo.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Jeitinho...

"...o que dá trabalho mesmo é viver sempre do mesmo jeitinho. Pois eu quero mais dessa maluquice que me ajuda a reinventar maneiras de estar aqui. Porque para se estar aqui com um pouco que seja de conforto na alma há que se ter riso. Há que se ter fé. Há que se ter a poesia dos afetos. Há que se ter um olhar viçoso. E muita criatividade."
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(Ana Jácomo)

domingo, 14 de novembro de 2010

À toa...

"Descobri que sou inteiramente louca.
Louca de pedra
De pau
De ferro
De aço
De louça
E quebro à toa".
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-Maria Carmem Barbosa-

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Fôlego...

(...) flores não mais a convenciam. Chocolates idem; poderia comprá-los em qualquer supermercado. Convites ao cinema lhe eram indiferentes, pois, queria mesmo era viver estória bonita ali contada. Um romance de livro talvez. Assim, o cortejo perdeu seu viço; os elogios, a graça. Queria, sim, perder o fôlego, e o juízo. Encontrá-lo num desencontro destes por aí, quem sabe. E assim o esperava.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Resto de fé...

"Meu cão de guarda rosna baixo
para a presença que ele só ouve
e que eu só sinto
ambos não veem
o visitante que se acomoda
sem ser convidado
Sua presença exala tanta solidão
que o deixo ficar
Não imagino quem seja, se:
espectro, imaginação ou resto de fé
mas poucos cruzariam minhas portas trancadas
e após engolidas todas as chaves
quem se atreveria a bater?
A espécie de alma pressente minha angústia
e atravessa paredes
senta-se sem cerimônias no chão
Meu cão, confuso
observa o ar que se movimenta
olha para mim enciumado
como se interrogasse
o que seria mais aquela companhia
c(o)alada no meu rastro".
(Laramaral)

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Uma coisa...

- Agora que sentamos, antes que peçamos o jantar, queria lhe dizer uma coisa. - disse ele, ansioso.
- O que foi?
- Eu cheguei a pensar que algo tão bonito, como o que eu sentia por você, pudesse nos afastar. Por isso, tardei tanto em tentar me aproximar com outros olhares e vontades. Tentar e conseguir, no caso. Fui medroso. Mas encarei todos os meus monstros pra não perder você. Só que perdi sim, pelo tempo em que você foi morar fora e voltou menina feita. Achei que fosse pra sempre, sabe? Doeu demais. Agora, tenho meu mundo aqui, sentada à minha frente. E não vou deixar você nunca mais partir. Vou com você a me dedicar e ser teu fiel servo neste Amor bonito que cultivei em silêncio e agora conto ao teu coração o que canta a minha Alma. Casa comigo?!?!?
- O quê?
- O que o quê?!? Você não aceita?!?!
- Aceitar o quê amor? Pode repetir? Eu estava olhando o cardápio.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O Evangelho...

A cólera

O orgulho voz induz a julgar-vos mais do que sois; a não suportardes uma comparação que vos possa rebaixar; a vos considerardes, ao contrário, tão acima dos vossos irmãos, quer em espírito, quer em posição social, quer mesmo em vantagens pessoais, que o menor paralelo vos irrita e aborrece. Que sucede então? - Entregai-vos à cólera.

Pesquisai a origem desses acessos de demência passageira que vos assemelham ao bruto, fazendo-vos perder o sangue-frio e a razão; pesquisai e, quase sempre, deparareis com o orgulho ferido. Que é o que vos faz repelir, coléricos, os mais ponderados conselhos, senão o orgulho ferido por uma contradição? Até mesmo as impaciências, que se originam de contrariedades muitas vezes pueris, decorrem da importância que cada um liga à sua personalidade, diante da qual entende que todos se devem dobrar. (...)

Ah! se nesses momentos pudesse ele observar-se a sangue frio, ou teria medo de si próprio, ou bem ridículo se acharia! (...) Se ponderasse que a cólera a nada remedeia, que lhe altera a saúde e compromete até a vida, reconheceria ser ele próprio a sua primeira vítima. Mas, outra consideração, sobretudo, devera contê-lo, a de que torna infelizes todos os que o cercam. Se tem coração, não lhe será motivo de remorso fazer que sofram os entes a quem mais ama? (...)

Em suma, a cólera não exclui certas qualidades do coração, mas impede se faça muito bem e pode levar à prática de muito mal. Isto deve bastar para induzir o homem a esforçar-se pela dominar. O espírita, ao demais, é concitado a isso por outro motivo: o de que a cólera é contrária à caridade e à humildade cristãs.

(Um espírito protetor. O evangelho segundo o espiritismo.)

sábado, 6 de novembro de 2010

Amor-impróprio...

"Me perdi dentro do que ainda sou. Sem vírgulas que me pausassem nem verbos fracos. Foi intenso. Sempre solvi o presente até quando houvesse, até quando o frio na barriga continuasse e as borboletas permanecessem ali batendo asas sem voar para longe. Só dentro de mim. Sou um poço de contradições quando estou no seu mar de emoções previsíveis. Arrumo as malas enfileirando minhas ânsias, guardo a saudade num bolso qualquer e salto do trem sem me preocupar com o caminho a ser percorrido, nem o tamanho da queda. O que pode ser pior do que essa minha leveza que lhe move o coração? O que pode ser melhor do que me dá as mãos, retribuir o meu amor impróprio e seguir com os dois pés ainda que um terceiro fique perdido? Sou fácil de sentir, de envolver. Aceitei a fé indispensável, o tempo que se prolonga quando acorda – se cedo e até decorei meu coração para um novo amor próspero e desesperado. Só não aprendi a seguir a mesma linha e escrever o mesmo verso. Tenho um sonho que não dorme e sou tão flexível que abraço qualquer bom defeito modificando a última página. Talvez não seja sábio trocar o certo pelo incerto e ser feliz pela metade. O bom da vida sobrevive ai dentro. Quando se vive todos os tempos, conjuga – se todos os verbos do doce - amargo presente e não esquece o passado como se nunca o tivesse vivido. Transfiro - o para um futuro distante".

(Priscila Rôde)

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sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Lições...

(...) atração magnética ia muito além das aulas do colégio. A presença dela o paralisava. E ele queria desenhar todo seu futuro, juntos, a partir dali. Mediu as possibilidades; calculou os erros; considerou o horóscopo, cor da roupa, pernas cruzadas, olhar de soslaio, direção do vento e calou insegurança. "Se tal silêncio nos afasta, qual palavra nos aproxima?" - pensou ele; e decidiu arriscar um "oi!".

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Infusões...

“A compreensão humana não é um exame desinteressado, mas recebe infusões da vontade e dos afetos; disso se originam ciências que podem ser chamadas “ciências conforme a nossa vontade”. Pois um homem acredita mais facilmente no que gostaria que fosse verdade. Assim, ele rejeita coisas difíceis pela impaciência de pesquisar; coisas sensatas, porque diminuem a esperança; as coisas mais profundas da natureza, por superstição; a luz da experiência, por arrogância e orgulho; coisas que não são comumente aceitas, por deferência opinião do vulgo. Em suma, inúmeras são as maneiras, e às vezes imperceptíveis, pelas quais os afetos colorem e contaminam o entendimento.”
(Francis Bacon. Novum organon.)

Cheiro...

"Ah, fumarás demais, beberás em excesso, aborrecerás todos os amigos com tuas histórias desesperadas, noites e noites a fio permanecerás insone, a fantasia desenfreada e o sexo em brasa, dormirás dias adentro, noites afora, faltarás ao trabalho, escreverás cartas que não serão nunca enviadas, consultarás búzios, números, cartas e astros, pensarás em fulgas e suicídios em cada minuto de cada novo dia, chorarás desamparado atravessando madrugadas em tua cama vazia, não conseguirás sorrir nem caminhar alheio pelas ruas sem descobrires e algum jeito exato dele, em algum cheiro estranho o cheiro preciso dele..."
(Caio F. Abreu)

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Persona...

Depus a máscara e vi-me ao espelho.
Era a criança de há quantos anos.
Não tinha mudado nada...
É essa a vantagem de saber tirar a máscara.
É-se sempre a criança,
O passado que foi
A criança.
Depus a máscara, e tornei-a a pô-la.
Assim é melhor,
Assim sem a máscara.
E volto à personalidade como a um términus de linha.
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(Álvaro de Campos)

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Bandeira...

"Eu gosto de dinheiro. Você também.
Até aí, não há novidades.

Mas nem tudo é dinheiro. Sério.

Este blog é o exemplo mais acabado disto. Me toma tempo, mas é minha terrapia, brodagem.

Mas falo também de outras coisas, num sentido mais amplo.

Tem até aquela história clássica da Madre Teresa de Calcutá que, recebendo um embaixador americano numa obra social lá dela – que era desenvolvida de maneira absolutamente caridosa e sem nenhum proveito financeiro (é assim que diz a lenda) -, ouviu:

- Madre, eu não faria isso que a senhora faz nem por 10 mil dólares por mês.
- Acredite: nem eu faria isso por dez mil dólares.

Eu tenho umas 550 páginas de reclamações e umas duas monografias de doutorado de discordâncias a respeito da famosíssima Madre Teresa de Calcutá. Nem sei se a história é verdadeira. Mas o cerne da questão levantada pela historinha, independente de sua veracidade, é ainda legítimo.

É só grana mesmo?
Por que você acorda todo dia de manhã e sai de casa correndo fingindo apressado?
O que te faz achar que vale a pena dispender tempo e energia num relacionamento de qualquer espécie (amoroso, de amizade, de companheirismo) com uma pessoa e não com outra?

O que você espera deixar de legado?

O que você espera encontrar do ladelá?
Qual a sua bandeira?
No que você acredita?
Quais expectativas você aceita que sejam subvertidas e quais vão te causar uma puta desilusão?

O que te move?

Se você faz as perguntas certas, você já tá no campo de batalha".
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(Jojó da Babá. daqui.)