sexta-feira, 30 de abril de 2010

O Segredo da felicidade...

Existiu certa vez um jovem de alma bastante inquieta, que queria saber o Segredo da Felicidade. Imbuído do Espírito da Busca, ele afogou-se nas leituras, entediou-se nas conversas com os filósofos, prostrou-se de tanto meditar.

Quando, por pura exaustão, estava prestes a desistir daquela procura infrutífera, alguém lhe contou de um velho sábio eremita que - diziam - sabia qual era o Segredo da Felicidade.

O problema é que este sábio morava em uma caverna no alto de uma enorme montanha. Sem desanimar por isso, lá foi o jovem ao encontro do velho eremita.

Bem, o jovem quase perdeu a vida na escalada dificílima da montanha. Chegou à caverna do sábio meio morto, é verdade, mas depois de receber os cuidados do velho por três dias e três noites, sentiu-se melhor e perguntou ao sábio:

- Mestre, eu vim até aqui para lhe perguntar apenas uma coisa: qual é o Segredo para se obter Felicidade em Abundância?

O velho coçou a barba, olhou bem firme nos olhos do rapaz e falou solenemente:

- Sexo... Muito sexo desvairado com mulheres lindas e bêbadas... Champanhe e morangos no café da manhã... Carros esportivos... Drogas alucinógenas... Filmes do Monty Python... Rock dos anos 60... Cervejas Belgas... Tudo isto propicia Felicidade em Abundância.

O jovem, muito espantado, exclamou:

- Mas, ó Sábio, não compreendo! Tudo isto faz parte do Segredo da Felicidade, entretanto aqui você vive em completo isolamento, sem nenhuma destas coisas!

E o sábio, mais solene ainda, respondeu:

- Mas quem lhe disse que eu sou feliz?

Morais da estória
- Entre saber e fazer, há toda a distância do mundo.
- Às vezes, a Verdade é tão óbvia que não a enxergamos.
- Não leia muito. Você corre o risco de se tornar um tapado.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Desafio...

”Não é o desafio com que nos deparamos que determina quem somos e o que estamos nos tornando, mas a maneira como respondemos ao desafio. Somos combatentes, idealistas, mas plenamente conscientes. Porque o ter consciência não nos obriga a ter teoria sobre as coisas, só nos obriga a sermos conscientes. Problemas para vencer, liberdade para provar. E, enquanto acreditarmos no nosso sonho, nada é por acaso.” (Henfil)

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Perfeição...

"O que me tranqüiliza é que tudo o que existe, existe com uma precisão absoluta. O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete não transborda nem uma fração de milímetro além do tamanho de uma cabeça de alfinete. Tudo o que existe é de uma grande exatidão. Pena é que a maior parte do que existe com essa exatidão nos é tecnicamente invisível. O bom é que a verdade chega a nós como um sentido secreto das coisas. Nós terminamos adivinhando, confusos, a perfeição."
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(Clarice Lispector)

terça-feira, 27 de abril de 2010

A Ilha de um homem só.


Que meu momento presente seja a confirmação de todas as escolhas feitas e desfeitas de outrora. Inclusive as que escolhi não fazer...
Uma ilha reflete a ilusão por estar só na superfície. Ao mergulhar, percebe-se que ela é una com toda a terra.
O homem só, anda acompanhado...
O homem só, é na verdade, muitos...
Como pode se reconhecer, sozinho, quando apenas com o outro ele se expressa?
Quando sozinho, não há medida e não há além?
A semente em si, não cresce só.
Pois.. Gratidão é tema de dois; partilha também.
Comunhão é tema de Um. Amor também. O dois que se torna Um.
Que o ciclo que se recicla, seja mais seu..
Que o nosso caminho, seja de encontros e reencontros, cobertos pelas bençãos por nós merecidas!
Que o novo nos brinde com harmonia, consciência e inevitável crescimento...
O que desejo a mim, desejo a você..
E aquilo a mim desejado, multiplicado seja, colorindo nosso arredor.
.. pois sem a prosperidade e a felicidade do outro, como posso eu ser feliz também?
Por isso quero o mais belo, o mais sonoro, o mais carinhoso e intenso.. em tua vida!
A minha será apenas consequência! E saiba que a Ilha, é continente!

“Toda humanidade é um só volume. Quando alguém morre, seu capítulo não é rasgado, mas traduzido para uma linguagem melhor… nenhum homem é uma ilha, inteiro em si“ (John Donne)

Dentro da vida...

"Fui sempre um homem alegre.
Mas depois que tu partiste,
Perdi de todo a alegria:
Fiquei triste,
triste,
triste.

Nunca dantes me sentira
Tão desinfeliz assim:
É que ando dentro da vida
sem vida dentro de mim."
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(Manoel Bandeira)

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Que bom...

"Que bom que tenho consciência
Do ser que sou, fragmentado
Alguém sempre em construção
Imperfeito, incompleto, inacabado

Que bom que tenho consciência
Que o crescimento é parcelado
E que quanto mais eu aprendo
Nunca estou, por completo, "terminado"

Que bom que a mim é dado
A oportunidade de corrigir, de ser reciclado
De investir no que acho que está certo
E corrigir, tentar mudar o que está errado

Que bom que a mim é dado
A oportunidade de ser renovado!..."
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(Mena Moreira)

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Leite derramado...

— O que aquele terráqueo está fazendo?
— Ele está sofrendo?
— Por que?
— Porque não aceita o que a vida faz.
— E o que a vida faz?
— A vida derruba o copo de leite no chão.
— E adianta chorar o leite derramado?
— Não, não adianta!
— Então, por que continua sofrendo?
— Porque se aceita, a vida ganha.
— Sim, e dai ele vive em paz com a vida!
— Mas os terráqueos não querem viver em paz com a vida.
— Nãããão! O que eles querem, então?
— Querem que a vida viva em paz com eles.
— Impossível! A vida não está sob o controle deles!
— Eu sei! Você sabe! Mas os terráqueos...
— Alguém precisa avisá-los!!!
— É justamente isto que o sofrimento está fazendo.
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(Marcelo Ferrari)

Espera...

"Não, não partas já, espera um pouco ainda, espera que o tempo passe e nos apazigúe a alma nos arrefeça os ímpetos e nos faça voltar à terra, a essa estúpida e reguladora rotina que nos rege os dias e as noites e nos faz sentir que afinal somos pessoas normais, donas da nossa vida e do nosso coração. Espera só um momento, deixa que o silêncio perpetue os nossos momentos de perfeição, a comunhão das nossas almas em noites passadas em claro, em conversas ligadas por um fio invisível, o fio do desejo, daquele desejo duradouro e certo que o tempo não mata, só ajuda a cimentar, que a distância não destrói, só ajuda a alimentar.

Espera só mais um instante, até que a tua memória quente cristalize os nossos momentos e os preserve como um tesouro secreto por mais ninguém descoberto e cobiçado. Guarda bem estes instantes, num lugar qualquer entre a tua cabeça e o teu coração, que deve ser mais ou menos onde se situa a alma e espera que o tempo te diga se o que sentes vai crescer e dar sentido à tua vida."
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(Margarida R. Pinto)

terça-feira, 20 de abril de 2010

Remar...

"Olha, eu sei que o barco tá furado e sei que você também sabe, mas queria te dizer pra não parar de remar, porque te ver remando me dá vontade de não querer parar também. Tá me entendendo? Eu sei que sim. Eu entro nesse barco, é só me pedir. Nem precisa de jeito certo, só dizer e eu vou. Faz tempo que quero ingressar nessa viagem, mas pra isso preciso saber se você vai também. Porque sozinho, não vou. Não tem como remar sozinho; eu ficaria girando em torno de mim mesmo.

Mas olha, eu só entro nesse barco se você prometer remar também! Eu abandono tudo, história, passado, cicatrizes. Mudo o visual, deixo o cabelo crescer, começo a comer direito, vou todo dia pra academia. Mas você tem que prometer que vai remar também, com vontade! Eu começo a ler sobre política, futebol, ficção científica. Aprendo a pescar, se precisar. Mas você tem que remar também. Eu desisto fácil, você sabe. E talvez essa viagem não dure mais do que alguns minutos, mas eu entro nesse barco, é só me pedir. Perco o medo de dirigir só pra atravessar o mundo pra te ver todo dia. Mas você tem que me prometer que vai remar junto comigo. Mesmo se esse barco estiver furado eu vou, basta me pedir. Mas a gente tem que afundar junto e descobrir que é possível nadar junto.

Eu te ensino a nadar, juro! Mas você tem que me prometer que vai tentar, que vai se esforçar, que vai remar enquanto for preciso, enquanto tiver forças! Você tem que me prometer que essa viagem não vai ser a toa, que vale a pena. Que por você vale a pena. Que por nós vale a pena.



Remar.
Re-amar.
Amar.

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(Caio Fernando Abreu)

domingo, 18 de abril de 2010

Amor-próprio...

"Quando me amei de verdade, comecei a me livrar de tudo que não fosse saudável, pessoas, tarefas, tudo e qualquer coisa que me pusesse para baixo. De início, minha razão chamou essa atitude de egoísmo. Hoje sei que se chama amor-próprio." (Chaplin)

Sobre a massagem...

"A Massagem é uma necessidade porque o amor tem desaparecido do mundo. Houve um tempo em que apenas o toque amoroso era suficiente, era um profundo relaxamento e parte do amor. No entanto, mais e mais temos esquecido onde tocar, como tocar. De fato o toque é uma das mais esquecidas linguagens.

A massagem é necessária no mundo porque o Amor desapareceu. Outrora o próprio toque dos amantes era suficiente. A mãe tocando o filho, brincando com o seu corpo, isto era massagem. O marido brincando com o corpo da mulher, isto era massagem: isto era suficiente, mais do que suficiente. Isto era profundo relaxamento e parte do Amor. Mas isto desapareceu do mundo. Mais e mais nós esquecemos onde tocar, como tocar, o quanto profundo tocar. Na verdade, o toque é uma das linguagens mais esquecidas. Nós nos tornamos quase desconfortáveis no toque, porque a própria palavra foi corrompida pelas assim chamadas pessoas “religiosas”. Elas lhe deram uma conotação sexual.

Massagem é algo que você começa a aprender mas você nunca termina. Ela avança e avança e a experiência se torna continuamente mais profunda e mais alta. A massagem é uma das artes mais sutis – e ela não é somente uma questão de perícia. Ela é mais uma questão de Amor.

Então seja devocional. Quando você toca o corpo de uma pessoa seja devocional – como se o próprio Deus estivesse lá e você está apenas servindo-O. Flua com energia total. E sempre que você ver o corpo fluindo e a energia criando um novo padrão de harmonia, você irá sentir um desfrute que você nunca sentiu antes. Você irá cair em profunda meditação.

Enquanto massageando, apenas massageie. Não pense em outras coisas porque elas são distrações. Esteja em seus dedos e em suas mãos como se todo o seu ser, toda a sua alma estivesse lá. Não deixe que seja apenas um toque do corpo. Toda a sua alma entra no corpo do outro, penetra-o, relaxa os nós mais profundos.

Massagem é entrar em sincronia com a energia do corpo de alguém e sentir onde ela está faltando, sentir onde o corpo está fragmentado e torná-lo completo... É ajudar a energia do corpo de modo que ela não seja mais fragmentada, não mais contraditória. Quando as energias do corpo estão alinhadas e se tornaram uma orquestra, então você tem sucesso.

Se você ama e sente compaixão pela outra pessoa e sente o valor supremo dela; se você não a trata como se fosse um mecanismo para ser colocado em ordem, mais uma energia de tremendo valor; se você está agradecido por ela confiar em você e permitir que você brinque com a sua energia – então mais e mais você irá sentir como se você estivesse tocando um órgão. Todo corpo se torna as teclas do órgão e você pode sentir que uma harmonia é criada dentro do corpo. Não somente a pessoa será ajudada, mas você também.

Assim, tenha muito respeito com um corpo humano. Ele é o verdadeiro santuário de Deus, o templo de Deus. Assim, com profunda reverência, prece, aprenda a sua arte. Esta é uma das grandes coisas para aprender."
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(Osho)

sábado, 17 de abril de 2010

Hoje...

... não tem postagem.

Oremos.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Enganando a si mesmo...

Um lobo caminhava pela floresta, quando se aproximou de um templo dedicado ao Deus Shiva.
"Faz quase um dia inteiro que estou caçando, e não consegui nada. Será que isso é um sinal? Talvez eu deva aproveitar este dia para fazer um jejum em honra de Shiva."
O que o lobo não sabia era que Shiva o estava observando. E, para testar sua sinceridade, transformou-se em ovelha e apareceu diante do templo.
O lobo saiu do transe e arremeteu sobre a presa. Mas, a cada ataque, a ovelha era capaz de reagir com uma agilidade nunca vista. Depois de quase meia hora de esforço, o lobo desistiu e voltou à sua meditação, consolando a si mesmo:
"Sou um animal fiel, não quebrei o jejum em honra de Shiva."

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Neuroses capítulo um...

- Eu digo uma minha, você diz uma sua. Ok?
- Fechado, quem começa?
- Começa você, eu sempre tive medo de ser uma cópia barata dos outros.
- Tá bom. Eu odeio que falem comigo depois do cinema.
Quando acende a luz, eu tenho vontade de sair correndo.
- Eu só consigo escovar os dentes de olhos fechados.
- Eu bebo de propósito só para ter um drama na minha vida.
- Eu tenho medo de bexiga. Quando estoura em festinha de criança eu até choro.
- Para fazer cocô eu tenho que ficar pelado.
- Eu não escuto os outros e fico só esperando a minha vez de falar.
Peraí, você o quê? Que história é essa de ficar pelado?
- É, para fazer cocô eu fico pelado, tiro tudo, até a aliança… vem cá, você acabou de me ouvir.
- O quê?
- O que eu acabei de dizer.
- Também, um absurdo desses…ficar pelado, vê se pode…
- Acho que essa sua neurose de não ouvir os outros está curada.
- Você acha?
- Não sei, sempre tive mania de médico.
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(Ana Reber)

quarta-feira, 14 de abril de 2010

O risco...

Nenhum relacionamento pode crescer de verdade se você continuar dando-lhe as costas. Se você permanecer esperto e continuar se guardando e protegendo, apenas as personalidades se conhecem e os centros essenciais permanecem sozinhos.

Então, apenas a sua máscara se relaciona, não você. Sempre que uma coisa dessas acontece, há quatro pessoas no relacionamento, não duas. Duas pessoas falsas continuam se encontrando, e duas pessoas reais continuam em mundos à parte.

Esse risco existe — se você for sincero, ninguém saberá se esse relacionamento será capaz de entender a verdade, a autenticidade; se esse relacionamento será forte o suficiente para resistir à tempestade.

Existe um risco e, por causa dele, as pessoas permanecem muito protegidas. Elas dizem coisas que deveriam ser ditas, fazem coisas que deveriam ser feitas; o amor se torna mais ou menos como um dever.

Mas então a realidade continua faminta e a essência não é alimentada. Assim a essência vai ficando cada vez mais triste. As mentiras da personalidade são um fardo muito pesado para a essência, para a alma.

O risco é real e não existem garantias quanto a ele; mas vou lhe dizer uma coisa: vale a pena correr o risco.

No máximo, o relacionamento acaba — no máximo. Mas é melhor ser separado e verdadeiro do que irreal e junto, porque então você nunca estará satisfeito. A bênção nunca virá com o relacionamento. Você vai continuar faminto e sedento, e continuará se arrastando, só esperando que aconteça um milagre.

Para que o milagre aconteça, você terá de fazer alguma coisa, e isso é: começar a ser sincero. Com o risco de que talvez o relacionamento não seja forte o suficiente e possa não ser capaz de resistir — a verdade pode ser demais, insuportável — mas então esse relacionamento não vale a pena.

Por isso, é preciso passar pelo teste.
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(Osho, em "Intimidade: Como Confiar em Si Mesmo e Nos Outros".)

Cabe tudo lá...

"O que eu mais gosto no amor é que, quando é a sério, cabe tudo lá dentro. A paixão, o desejo, o pulsar das almas e a serenidade dos pensamentos, a vontade de construir outra vez o mundo à imagem e semelhança do que sentimos, a paz dos regressados e a poesia das folhas brancas que cada dia esperam a doçura das palavras e a certeza das ideias.

O amor é mais do que querer, desenhar, sonhar e amar. É partilhar a vida inteira, numa entrega sem limites, como mergulhar no mar sem fundo ou voar a incalculáveis altitudes. O amor é muita coisa junta, não cabe em palavras nem em beijos, porque se leva a sim mesmo por caminhos que nem ele mesmo conhece, por isso quem ama se repete sem se cansar e tudo promete quase sem pensar, porque o amor, quando é a sério, sai-nos por todos os poros, até quando estamos calados ou a dormir."
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(Margarida R. Pinto)

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Relembrando...

... as sutilezas da minha Alma;

O nascer do Sol dentro do peito;
O sorriso como meu reflexo;
O caminhar na areia bonita do tempo;
O vento soprando sempre a favor; A vida moldando a paisagem.
A música da harmonia e as batidas do coração;

O suave gosto das estrelas no céu;
O divertido caminhar ébrio de mim;
O doce sabor das sensações;
O cuidar da Vida no cuidar de mim.
A semente plantada no descansar;
A mudança dos planos, o mudar das velas no navegar...

O contraste como lição; As portas fechadas a serem abertas;
A escuridão como a minha luz; O agora que leva ao porvir.
A tristeza mascarada de alegria; A sorrateira entrelinha da verdade
O abraço despido de planos...
O encontro.

Em busca de mim, encontro..
.. predicados, pretéritos e novos futuros, horizontes, esquinas e salas de bem estar.
Redescobrindo certezas, a colher íntimas venturas.
Em em busca de mim, relembro,
Que a felicidade faz parte do meu nome.
Semear.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Quando o coração quer colo...

"(...) Tem hora em que deixar-se vencer pelo cansaço é que é vitória. Não para ficarmos morando nele, pois quando cansaço passa a parecer casa já virou cilada. Deixar-se vencer pelo cansaço, às vezes, só para a coragem descansar um pouco, tomar ar, beber uma água, estirar as pernas. Outras, para desistirmos de tentar ignorar o pedido de escuta do nosso coração, que está cheio de coisas pra nos dizer, meio doído, meio assustado, meio aperreado, carente do olhar da gente. Querendo tempo. Querendo colo. Querendo abraço com os braços bons da ternura.

Por preguiça afetiva, pra não darmos confiança para alguns sentimentos, pra economizarmos lágrima, por medo de que desminta as mentiras que nos contamos por comodismo, a verdade é que muitas vezes desconversamos quando o nosso coração tenta puxar assunto. E, não é raro, desconversamos com a maior cara-de-pau do mundo. Desconversamos com os recursos mais costumeiros, com outros inéditos, alguns até bizarros. Para esse tipo de escuta, quando é a nossa vida que está na berlinda e não a alheia, bem mais do que coragem, há que se ter também muito amor. (...)"
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(Ana Jácomo)

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Inclemência...

É aqui que me torno dócil, que me resigno, que deixo cicatrizar as feridas ancestrais e profundas, que cravo as esporas na minha própria carne e parto à desfilada pelas margens quadriculadas do que escrevo, do que digo. É na escrita que me apaziguo, mesmo que sofra, mesmo que faça doer. Morrem-me os amigos, sem aviso, e eu vou chorá-los nos lugares endiabrados do combate e da alegria, onde estivemos vivos, onde fizemos a vigília, onde marcámos o tempo com o ferro em brasa da nossa juventude. Vão-me deixando só com as lembranças, com a erva queimada dos lugares onde a peleja fez história. Vou resvalando para a prosa, sem alento, para não esquecer a música que trago na fala. Estou ferido até à explosão das lágrimas pela inclemência que se aninha nas palavras.
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(José Jorge Letria)

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Se...

"Se és capaz de manter tua calma, quando,
todo mundo ao redor já a perdeu e te culpa.
De crer em ti quando estão todos duvidando,
e para esses no entanto achar uma desculpa.

Se és capaz de esperar sem te desesperares,
ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
e não parecer bom demais, nem pretensioso.

Se és capaz de pensar - sem que a isso só te atires,
de sonhar - sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se, encontrando a Desgraça e o Triunfo, conseguires,
tratar da mesma forma a esses dois impostores.

Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas,
em armadilhas as verdades que disseste
E as coisas, por que deste a vida estraçalhadas,
e refazê-las com o bem pouco que te reste.

Se és capaz de arriscar numa única parada,
tudo quanto ganhaste em toda a tua vida.
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
resignado, tornar ao ponto de partida.

De forçar coração, nervos, músculos, tudo,
a dar seja o que for que neles ainda existe.
E a persistir assim quando, exausto, contudo,
resta a vontade em ti, que ainda te ordena: Persiste!

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes,
e, entre Reis, não perder a naturalidade.
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
se a todos podes ser de alguma utilidade.

Se és capaz de dar, segundo por segundo,
ao minuto fatal todo valor e brilho.
Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo,
e - o que ainda é muito mais - és um Homem, meu filho!"
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(Rudyard Kipling)

terça-feira, 6 de abril de 2010

Esplendor...

"No centro da cidade, um grito. Nele morrerei, escrevendo o que a vida me deixar e sei que cada palavra escrita é um dardo envenenado. Tem a dimensão de um túmulo e todos os teus gestos são uma sinalização em direcção à morte. Mas hoje, ainda longe daquele grito, sento-me na fímbria do mar. Medito no meu regresso. Possuo para sempre tudo o que perdi, e uma abelha pousa-me no azul do lírio e no cardo que sobreviveu à geada. Bebo, fumo, mantenho-me atento, absorto - aqui sentado, junto à janela fechada. Oiço-te ciciar: amo-te, pela primeira vez, e na ténua luminosidade que se recolhe ao horizonte, acaba o corpo. Recolho o mel, guardo a alegria, e digo-te baixinho: Apaga as estrelas, vem dormir comigo no esplendor da noite do mundo que nos foge."
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(Al Berto)

A natureza da Escuridão e da Luz...

13 de fevereiro de 1975

A Canção continua:

A escuridão de séculos, não pode diminuir o sol nascente
Tampouco os grandes kalpas do samsara
podem ocultar a luz esplendorosa da Mente.

Ainda que palavras sejam pronunciadas para explicar o Vazio
O Vazio é tamanho que não pode ser expressado

Ainda que digamos: A Mente é uma luz brilhante,
Esta transcende as palavras e os símbolos.

Ainda que a Mente seja em essência o Vazio
Esta contém e abraça todas as coisas.

Reflitamos primeiro, um pouco acerca da natureza da escuridão.
É uma das coisas mais misteriosas da existência e a sua vida também está relacionada com ela; você não se pode dar ao luxo de não pensar nela. Você tem que se familiarizar com a natureza da escuridão, já que é a mesma natureza do sono, a mesma da morte e do estado de ignorância.

O primeiro que lhe será revelado se você meditar acerca da escuridão, é que ela não existe; está aí sem nenhuma existência. Ela é mais misteriosa do que a luz, posto que não só não tem existência, como é precisamente a ausência de luz. Não há escuridão em lado algum, é simplesmente uma ausência. Ela não existe por si - não tem existência própria -, apenas significa que a luz não está presente.

Se a luz está, não há escuridão; se não há luz, há escuridão; é que, posto que não é existência, você não pode fazer nada. Se você tratar de vencê-la, será vencido. Como você pode vencer algo que não existe? E se ela te vencer, você pensará que algo muito poderoso te venceu.

Isto é um absurdo! A escuridão não tem poder, quem venceu foi a sua estupidez. E a estupidez foi começar a lutar com algo que não existe. Mas lembre, você tem estado lutando com muitas e muitas coisas que não existem, que são como a escuridão.

Toda moral é uma luta contra a escuridão, por isso a moral é incondicionalmente estúpida.

O ódio não é real, é apenas a ausência de amor.
A ira não é real, é somente a ausência de compaixão.
A ignorância não é real, é apenas a ausência de iluminação, do estado de Buda.

O sexo não é real, e sim a ausência de brahmacharya.
E toda a moral continua lutando contra isso que não existe.
Um moralista não pode triunfar, é impossível, todo seu esforço é insensato.

E esta é a diferença entre moral e religião; a moral trata de lutar contra a escuridão e a religião trata de avivar a luz oculta no seu interior. A ela não importa a escuridão, simplesmente descobre a luz. Enquanto a luz se acende, a escuridão desaparece. Você não precisa fazer nada com a escuridão, ela simplesmente não permanece.

Esta é a segunda coisa: você nada pode fazer com a escuridão, diretamente. Se você quer fazer algo com a escuridão, terá que fazer algo com a luz. Apague a luz e haverá escuridão, mas você não poderá acender nem apagar a escuridão, você não pode pô-la pra fora. Para chegar à escuridão, você precisa passar pela luz, é um caminho indireto.

A mente está tentada a lutar contra aquilo que não existe, e isto é perigoso; não se deixe tentar, assim se pode dissipar sua energia, sua vida e você mesmo. Simplesmente observe se algo tem existência real o se é apenas uma ausência. Se é uma ausência, não lute, busque aquilo de onde vem a ausência e você estará no caminho.

O terceiro ponto acerca da escuridão é que ela está profundamente envolvida em sua existência em milhares de formas.

Sempre que você se irrita, sua luz interior desaparece, se dissipa. De fato, você se irrita porque a luz desapareceu, e a escuridão permaneceu. Somente pode se irritar quando você é inconsciente. Você não pode se irritar de forma consciente. Prove: Perca consciência e você poderá se irritar, ou permaneça consciente e não se irritará.
O que significa o fato de que você não possa, conscientemente, se irritar? Significa que a natureza da consciência é como a luz e a natureza da irritação é como a escuridão, você não pode ter ambos.

A pessoas vem e me perguntam continuamente como deixar de se irritar. Creio ser uma pergunta equivocada, por isso é difícil dar uma resposta correta.
Primeiro corrija sua pergunta; ao invés de perguntar como vencer a escuridão: as preocupações, a angustia, a ansiedade... analise sua mente e investigue porque isso está aí. Está aí porque você não é consciente suficientemente; assim melhor perguntar "Como ser mais e mais consciente?!"

Se você quer simplesmente deixar de se irritar, cairás vítima de um moralista. E se perguntas como ser mais consciente para que a ira não nasça, não se produza, nem a luxúria, nem a cobiça, então você está no caminho e é um buscador espiritual.

A moral é uma moeda falsa que engana a mente, ela nada tem a ver com religião. A religião não é moral porque nada tem a ver com a escuridão. É um esforço positivo para te despertar. Ela não presta atenção no seu caráter -o que você faça carece de importância- e você não pode mudá-lo.

Você pode decorá-lo, pintá-lo com cores vivas, mas não mudá-lo.

Há somente uma transformação, apenas uma revolução e esta não está relacionada com o seu caráter ou com seus atos, e sim com o seu ser. Ser é um fenômeno positivo. Se você está alerta, desperto, consciênte, a escuridão desaparece imediatamente.

Você é da natureza da luz.

E a quarta coisa antes de penetrar no sutra é que o sono é como a escuridão. Não é acidental que você encontre dificuldades para dormir quando há luz. É natural, a escuridão tem algo parecido com o sono. A escuridão cria a atmosfera apropriada para cair no sono facilmente.

O que acontece no sono? Você perde consciência pouco a pouco. Logo você entra em um período intermediário no qual sonha. Sonho significa consciência pela metade. Metade do caminho até a total inconsciência. No caminho se produzem os sonhos, quando está meio dormindo e meio desperto. Por isso, se você sonha continuamente toda a noite, no dia seguinte estará cansado. E se não te permitem sonhar, também, já que os sonhos existem por uma certa razão.

Nas suas horas de vigília, acordado, você acumula muitas coisas: pensamentos, sentimentos, assuntos incompletos que ocupam a mente. Quando você se depara com uma linda mulher, o desejo te surpreende, mas você como é um homem respeitável, civilizado, deseja isto e aquilo e segue até o seu trabalho, mas então um desejo incompleto lhe persegue e precisa ser completado para que você possa dormir profundamente, se não, o desejo se apoderará de sua atenção e te fará pensar na mulher.
O desejo não lhe deixará dormir, mas a mente cria um sonho: outra vez você se depara com a mulher, mas desta vez está só, sem civilização alguma ao seu redor, não há necessidades de cortesia; você é como um animal, sem moralidade.
Aqui seu mundo é privado e nenhuma polícia ou juiz pode entrar. Você está simplesmente sozinho, sem testemunhas. Pode disfrutar tua luxúria em seu sonho erótico.
Esse sonho completa o desejo frustrado e você poderá então cair em sono profundo. Mas se sonha continuamente, então também estará cansado.

Nos Estados Unidos existem muitas clinicas para investigar o sono e chegaram a descobrir um fenômeno: Que se impedem alguém de sonhar, em três semanas, essa pessoa ficará louca. E é possivel fazer isso porque há sinais visíveis quando alguém sonha. As pálpebras vibram com rapidez. Quando você não sonha, as palpebras continuam quietas, uma vez que os olhos se movem para ver. Desperte-o quando comece a sonhar durante toda a noite e em três semanas se tornará um louco.

Dormir não é tão necessário. Se você desperta uma pessoa que sonha, se sentirá cansada, mas não se tornará louca. O que significa? Que os sonhos são necessários para você ou você é como uma ilusão; toda sua existência é ilusória, o que os hindus chamam maya -ilusão-. Os sonhos são teu alimento, te fortalecem. Os sonhos são o alívio para a loucura, uma vez que esta se alivia, vem o dormir profundo.

Da vigília se passa aos sonhos, e dos sonhos ao sono profundo. Cada noite uma pessoa tem em média oito ciclos de sonhos e só entre um e outro pode dormir profundamente alguns minutos. Em tais momentos toda consciência desaparece, e a escuridão é absoluta.

Mas mesmo assim você continua na beirada, pois qualquer emergência te despertará: a casa em chamas e de imediato você irá acordar. Ou se você é mãe e o nenê chora, o despertar é súbito. Você cai em profunda escuridão, mas permanece ainda na fronteira.

Na morte você cai diretamente no centro. A morte e o sono são similares, a qualidade de ambos é a mesma.
No sono todos os dias você cai na escuridão completa, quero dizer que você está completamente inconsciente e isto é o polo oposto ao estado de Buda. Um Buda está totalmente desperto, conscientem e você cada noite cai na inconsciencia total, na escuridão.

No Guita, Krishna disse a Arjuna que quando todos dormem o yogui está alerta. Isto não significa que ele nunca dorme, sim, ele dorme, mas é apenas seu corpo que descansa. Ele não tem sonhos porque não tem desejos. E dorme não como você, pois ainda em seu descanso profundo, sua consciencia é clara, acendida como uma chama.

Quando dormes, cai em profunda inconsciencia, em estado de coma. Na morte, cai profundamente em coma. Isto é como a escuridão, e por isso as pessoas tem medo do escuro, porque é como a morte. E há gente que teme o sono, também porque o sono se parece com a morte.

Encontrei muita gente que ainda que queira, não pode dormir. Quando trato de entender suas mentes, encontro que o medo neles é o básico. Eles gostariam de dormir, pois se sentem cansados, mas no fundo tem medo de dormir e isso cria o problema. Noventa porcento dos insones tem medo. Se você tem medo da escuridão, terá medo de dormir, e o medo vem da morte.

Quando você compreenda que sua natureza interior é luz, as coisas começarão a mudar, então não haverá sono para você, apenas descanso; não haverá morte para você, apenas uma troca de roupagem, de corpo.
Mas isso só pode acontecer se você encontra sua chama interior, sua natureza, seu ser profundo.

Agora entremos no sutra:

A escuridão de séculos, não pode diminuir o sol nascente
Tampouco os grandes kalpas do samsara
podem ocultar a luz esplendorosa da Mente.

Aqueles que despertaram, se deram conta que “...a escuridão de séculos não pode diminuir o sol nascente”.

Pode ser que você tenha vagado na escuridão por milhões de vidas, mas isto não pode destruir sua luz interior porque a escuridão não é agressiva. Ela não existe. Como pode o que não existe ser agressivo? A escuridão não pode destruir a luz, nem sequer uma pequena chama. Isto é impossível e não pode acontecer.

Mas as pessoas continuam pensando em términos de conflito: A escuridão contra a luz. É um absurdo, a escuridão não pode estar contra a luz. Como uma ausência pode combater algo no qual ela é a ausência disso?
A escuridão não pode estar contra a luz, aí não há luta, apenas impotência.

E você segue pensando: “O que posso fazer? Tive um ataque de ira, um momento de cobiça”. Isso é impossível, a cobiça não pode atacar, pois sua natureza é escuridão e seu ser é luz, isto quer dizer que não há possibilidade. A ira entra, mas isso demonstra que sua chama interior está completamente esquecida e você não sabe que ela está aí. Esse esquecimento pode ocultá-la, e não a escuridão.

Assim, a escuridão verdadeira é o seu esquecimento, e seu esquecimento é que poderá atrair a ira, a cobiça, a luxúria, o ódio, o ciúmes; eles não atacam. Lembre-se que você é que convida a todos, eles aparecem na qualidade de convidados.
Você pode esquecer que os convidou, uma vez que você esqueceu de você mesmo, qualquer coisa então é possível esquecer.

O esquecimento é a verdadeira escuridão. E no esquecimento tudo acontece: você é como um bêbado que se esqueceu completamente de si mesmo, de quem é, e para onde vai. Toda direção se perdeu junto com o sentido de orientação: um bêbado.
Por isso o ensinamento básico de todas as religiões é a consciência de si mesmo. O esquecimento é a enfermidade, o antídoto é a consciência de si mesmo.

Trate de se lembrar. Mas você dirá: “Me conheço e me lembro”.
Então lhe desafio a uma prova: Ponha um relógio na sua frente, e se fixe no ponteiro dos minutos e lembre-se apenas disso: “Estou olhando esse ponteiro”, você não poderá lembrar continuamente disso por três segundos, seguidos, sem se distrair.

Você esquecerá, muitas coisas entrarão na sua mente. Por exemplo, você marcou um compromisso e ao olhar o relógio, a associação se produzirá: “Tenho que encontrar um amigo às 5”. De repente, entra um pensamento e você esquece que apenas está olhando.
Pode ser que você comece a pensar na Suíça, posto que é um produto suíço. Apenas ao olhar o relógio pode ser que você comece a pensar: “Que tonto sou, o que estou fazendo aqui, perdendo tempo?” Mas você não será capaz de lembrar nem por três segundos consecutivos que está apenas olhando o ponteiro se mover.

Se você alcançar um minuto se lembrando de você mesmo, prometo fazer de você um Buda. Um minuto –60 segundos- e isto bastará. Pode ser que você pense, “tão fácil?”, mas não é. Você não faz idéia de quão fundo foi o seu esquecimento. Não será capaz de lembrar por um minuto sem que algum pensamento entre e perturbe a lembrança de você mesmo.

Esta é a verdadeira escuridão.
Se se lembra, te converterás em Luz.
Se se esquece, te converterás em escuridão.

E claro, na escuridão, toda classe de ladrões entram e atacam. Toda a classe de infortúnios se sucede.
A lembrança de si mesmo é a chave. Trate de lembrar mais e mais, porque assim você se centrará em você mesmo, estará em você mesmo. De outro modo, você sempre estará em algum outro lugar: a mente continuamente está criando novos desejos, e você as persegue em todas as direções ao mesmo tempo. Por isso estás dividido, você não é um, e sua chama interior continua se mexendo como galho à mercê do poderoso vento.

Quando a chama interior se aquieta, no ato uma transformação se produz em você, um novo ser nasce, um ser da natureza da luz.
Agora você é da natureza da escuridão, você é simplesmente a ausência de algo que é possível.

De fato, você ainda não existe, ainda não nasceu. Você até agora viveu muitos nascimentos e mortes mas não nasceu verdadeiramente. Seu verdadeiro nascimento acontecerá quando você transformar sua natureza interior, do esquecimento, a lembrança completa de você mesmo.

Não lhe dou uma disciplina. Não lhe digo: “Faça isto ou aquilo”. Minha disciplina é fácil: faça o que quiser, mas lembrando-se de você mesmo. Seja consciente do que está fazendo.

Você não necessita verbalizar, pois isto em si se tornará uma distração. Se você repete interiormente: “Eu estou caminhando, eu estou caminhando...” isto lhe fará esquecer. Simplesmente lembre-se. Eu tenho que expressar em palavras porque estou falando contigo, mas você simplesmente se lembre do fenômeno.

Cada passo deve ser dado com plena consciência.
Ao comer, coma. Não lhe digo o que você deve ou não comer. Coma o que quiser, mas se lembrando que está comendo. Logo você verá que assim se torna impossível fazer muitas coisas.

Lembrando-se de você mesmo será impossível comer carne. É impossível ser tão violento se você é consciente. É impossível prejudicar alguém, uma vez que ao se lembrar de si mesmo, você sabe que a mesma luz, a mesma chama arde aonde for, dentro de cada corpo, cada unidade. E quanto mais você conhece sua natureza interior, mais você penetra no outro.

Como assim matar para comer? Isto se torna impossível. Não o que você pratique, pois a prática é falsa. Se você pratica como não ser um ladrão, isto será falso; você sempre encontrará a forma de ser um ladrão.
Se você pratica a não violência, haverá aí uma violência escondida.

Não, religião não pode ser uma prática. A moral pode ser praticada, por isso a moral cria hipocrisia, máscaras. Religião cria o ser autêntico, e isto não pode ser praticado. Você não pode praticar ser, simplesmente se torna mais e mais consciente e as coisas começam a mudar. Simplesmente começará a ser mais da natureza da luz e a escuridão desaparece.

A escuridão de séculos não pode diminuir o sol nascente...

Por milhões de vidas, de eras, você permaneceu na escuridão; mas não se sinta deprimido nem desesperançado, pois ainda assim, neste minuto, você pode alcançar a Luz.

Imagine: Uma casa permaneceu fechada por 100 anos; escura. E você entra com uma luz. A escuridão poderia dizer: Eu tenho 100 anos e esta luz é recém-nascida, não vou desaparecer a menos que ela permaneça acesa por outros 100 anos? Não, inclusive uma chama bebê é suficiente para dispersar a mais antiga escuridão.
A escuridão não pode se enraizar porque ela não existe, simplesmente permanece aí, na espera da luz, e quando esta entra naquela, não é possível resistir porque a escuridão não tem existência positiva.

As pessoas me perguntam: “Você ensina que é possível alcançar a Iluminação instantaneamente, então, o que acontece com nossos karmas passados?”

Nada! Eles são da natureza da escuridão.

Pode ser que você tenha roubado, assassinado; pode ter sido um Hitler, um Gengis Khan ou algo pior, mas isso não importa. Uma vez que você tenha lembrado de você mesmo, a luz entra e todo o passado desaparece de imediato, nem por um minuto permanece. Se você um dia assassinou, o que você fez, foi feito porque você não era consciente de você mesmo, do que estava fazendo.

Jesus disse na cruz: “Pai, perdoe-os porque não sabem o que fazem”. Ele simplesmente dizia: “Esta gente não é da natureza da luz, não se lembram deles mesmos, atuam em completo esquecimento, na escuridão se movem e tropeçam. Perdoe-os, não são responsáveis do que estão fazendo. Como uma pessoa que não tem a lembrança de si mesmo pode ser responsável?

Se um bêbado cometer homicídio, os tribunais podem absolve-lo se provar que atuou em plena inconsciência. Por que? Porque.. como ele pode ser responsável? Podem responsabiliza-lo por beber, mas não por matar. Se um louco mata, precisa ser absolvido ou tratado, porque ele não é responsável.

Qualquer coisa que você tenha feito, eu lhe asseguro, não se preocupe. As coisas tem acontecido assim porque você não está consciente. Acenda sua chama interior, encontre-a, está aí; e de repente todo o seu passado desaparecerá como se houvesse acontecido em um sonho enquanto você não era consciente.

Todos os karmas aconteceram em sonhos e são da mesma substância deles.

Você não precisa esperar que seus karmas se extingam, posto que se assim fosse, teria que esperar pela eternidade, e ainda assim não te liberartarias da roda, uma vez que não poderias apenas esperar o transcorrer do tempo, já que você estaria fazendo muitas coisas nesse tempo e o circulo vicioso nunca poderia estar completo.

Seguirias atuando e fazendo coisas e se comprometendo para o futuro, sem fim.

Não, não há necessidade, simplesmente tome consciência e todos os karmas desaparecem no ato. Em um só momento de intenso estado de alerta, o passado inteiro se torna besteira.

Esta é uma das coisas fundamentais que o Oriente descobriu. Os cristãos não podem compreender e seguem pensando no Juízo Final, quando todos serão julgados de acordo com seus atos; então Cristo deve ter se equivocado ao dizer: “Perdoe-os porque não sabem o que fazem”. Os judeus também não podem entender, nem os maometanos.

Os hindus penetraram no mais fundo, na raiz do problema. O problema não é a ação, e sim o ser. Quando você descobrir seu ser interior e sua luz, você não será mais desse mundo; o que tenha acontecido no passado pertence aos sonhos. Por isso os hindus dizem que este mundo é um sonho, somente aquele que sonha não faz parte do sonho, todo o demais sim.

Contempla a beleza desta verdade: Apenas o que sonha não é um sonho, porque se fosse, o sonho não poderia existir. Pelo menos, o sujeito do sonho tem que ser real.

Durante o dia, você faz muitas coisas enquanto está desperto: vai ao mercado, ao trabalho, milhares de outras coisas. À noite, enquanto dorme, você se esquece de tudo isso e um novo mundo aparece: o mundo dos sonhos. Agora os cientistas dizem que se deve dar ao sono, o mesmo numero de horas que a vigília.

Assim, em sessenta anos, se vinte foram dedicados ao trabalho, vinte deveriam ter sidos dedicados ao sono, exatamente o mesmo tempo; assim que os sonhos não são menos reais, tem a mesma qualidade.

À noite sonhas, você se esquece do mundo que te rodeia quando está desperto. No sono profundo você se esquece de ambos, o mundo de quando está desperto ou sonhando. Pela manhã, outra vez este mundo volta a existência e você se esquece que tenha dormido e sonhado. Mas uma coisa sempre permenece. Você.

Quem é que lembra dos sonhos? Quem é que diz: Tive um sonho ontem” ou “Tive uma noite prazerosa sem sonhos”, quem? Deve existir uma testemunha que permanece à margem, sempre olhando. Se desperta, se dorme, se sonha... e segue olhando. Apenas isto é real, pois em qualquer estado, é o único permanente em você.

Tome mais e mais consciência desta testemunha. Seja mais alerta. Ao invés de ser um ator, seja um espectador no mundo. Todo o demais é um sonho, somente aquele que sonha é verdadeiro. Ele é o básico, as ilusões se produzem apenas se ele está aí.

E enquanto você vai se lembrando, você começa a rir. Que tipo de vida existe sem essa lembrança? Era como um bêbado me movendo através destes estados de consciência sem saber por quê, sem direção.

Mas:

A escuridão de séculos, não pode diminuir o sol nascente
Tampouco os grandes kalpas do samsara
podem ocultar a luz esplendorosa da Mente.

Kalpas, muitas e muitas eras, milênios deste mundo, e seu ser permanece aí, sempre.

Algo é necessário entender. Há três aproximações da realidade: Uma é a empírica, a da mente científica que experimenta com o mundo objetivo e a menos que possa ser provado, não o aceita.

A outra é a da mente lógica, a qual não experimenta, simplesmente pensa, argumenta, encontra os prós e os contras e apenas através de um esforço mental, raciocina e conclui.
E uma terceira aproximação, a metafórica, a da poesia e da religião.
Estas 3 aproximações existem, 3 dimensões por meio das quais você pode se dirigir até a realidade.

A ciência não pode ir mais além do objeto, posto que este é a sua limitação. Não pode ir mais além do externo, uma vez que a experimentação é possível apenas com o externo.
A filosofia e a lógica não podem ir mais além do subjetivo, posto que este é um esforço da mente, funciona em sua mente, não pode dissolve-la e transcende-la.
A ciência é objetiva e a filosofia e a lógica são subjetivas. A religião vai mais além, a poesia também. É uma ponte de ouro que une o objeto ao sujeito. Mas então tudo se torna um caos, claramente muito criativo, ainda que de fato não haja criatividade nem caos, e sim que tudo se mistura, as divisões desaparecem.

Gostaria de dizer desse jeito: A ciência é uma busca em pleno dia, enquanto tudo é claro, sem fronteiras e é possível distinguir tudo bem. A lógica é a busca noturna; tropeçando na escuridão com apenas a mente, sem suporte experimental, pensando. A poesia e a religião são buscas crepusculares, justamente no meio.

O dia não está mais
o esplendor do meio-dia se foi,
as coisas não são claras, definidas,
a noite ainda não apareceu,
a escuridão ainda não invadiu a tudo.
A noite e o dia se encontram,
há uma suave luz prateada
-nem branca, nem negra-
os limites se encontram e se confundem,
tudo é indeterminado,
uma e outra coisa se entrelaça

Esta é a aproximação metafórica. Por isso a poesia fala em metáforas. E a religião é a poesia absoluta. Lembre-se, essas metáforas não são para serem tomadas literalmente, de tentar se perde todo o sentido. Quando eu digo “luz interior” não pense em términos reais, é uma metáfora. Algo está indicado aí, mas não definido, demarcado; há algo da natureza da luz aí.

E isto se torna um problema porque a religião fala em metáforas e não pode fazer de outra maneira porque não há como. Se eu visitei outro mundo e vi flores que não existem na Terra e tenho que falar destas flores, o que lhes darei? Tenho que usar metáforas ou semelhanças. Te direi: “como as rosas”, mas não são realmente rosas, senão, diria rosas.

“Como” significa que estou tratando re relacionar meu conhecimento do outro mundo com o seu conhecimento deste.

Você conhece as rosas, não conhece as flores do outro mundo, e eu que vi trato de comunicar-lhe algo, por isso digo “como as rosas”. Não se aborreça quando ao chegar no outro mundo, não encontre as rosas, não me julgue, porque eu nunca expressei literalmente.

Apenas uma qualidade está indicada, é o indicador apontando a Lua. Mas não se fixe no dedo, este não importa, olhe a Lua e esqueça do indicador. Isto é o que significa uma metáfora, não se apegue as metáforas.

A ciência é uma metade, a filosofia é outra. Como fazer para te dar o sentimento da Totalidade? Se você penetrar profundamente na filosofia chegará a conclusão a que Shankara chegou. Ele disse: “O mundo é ilusório, não existe, só a consciência existe”. E eu sei que ambos tem razão e ambos estão equivocados: estão dizendo a metade da verdade e negando a outra metade. Mas se tenho que falar da totalidade, como fazer? A poesia é o único meio, a metáfora. Lembre-se disso:

“Ainda que palavras sejam pronunciadas para explicar o Vazio,
o Vazio é tal que não pode ser expressado”.

Por isso os sábios insistem: “O que estamos querendo dizer não podemos dizer; é inexpressável, mas estamos tratando de expressar”. Sempre eles mencionam o fato, porque há a possibilidade de que o tomes literalmente.

O Vazio é vazio no sentido de que nada de você ficará ali; mas não é vazio em outro sentido, já que o Todo entrará em você. O Vazio constituirá o fenômeno mais perfeito e completo. Mas o problema está em que ao dizer “Vazio” a mente pensa que aí não há nada, assim para que se ocupar com ele; e al dizer que não é tal vazio e sim o mais perfeito estado do ser, a mente se empenha com ambição para chegar a ser o mais perfeito, e nisto o ego aparece.

Para descartar o ego, a palavra “Vazio” tem sido enfatizada; mas esteja alerta ao fato que Vazio não é realmente um vazio, pois também se diz que se está preenchido com o Todo.

Quando você não se interpõe, a existência entra em você. Quando a gota desaparece, você se converte no oceano.

Ainda que digamos: “A Mente é uma luz brilhante”,
esta transcende as palavras e os símbolos.

Não se deixe enganar pelas metáforas, não comece a imaginar uma luz dentro de você. Isto é fácil –imaginazione-. Você pode fechar os olhos e começar a imaginar a luz. Você é tal sonhador que pode sonhar muitas coisas.

A mente tem a faculdade de criar qualquer coisa que queira, um pouco de persistência se requer. Se você pode criar tão bonitas mulheres em sua mente, por que não a luz? As mulheres que crias na mente podem ser mais bonitas que qualquer uma na vida real. Você pode criar um mundo inteiro de experiências no seu interior, cada sentido tem seu próprio centro imaginativo dentro de si.

Na hipnose, acontece que a imaginação trabalha em plena capacidade e a razão se margina completamente. A hipnose não é mais que a consciência dormida –que é aquela quem duvida-, assim que a imaginação funciona perfeitamente. Então não há freio, só acelerador, e se pode continuar assim sem nada que a detenha.

No estado de hipnose qualquer coisa se pode imaginar. Se lhe dou uma cebola e lhe digo que é uma maçã, você comerá com gosto; logo, se lhe dou uma maçã e lhe digo que é uma cebola, seus olhos começarão a chorar e você dirá que está muito forte o sabor. O que acontece? Aquele que duvida não está presente, a hipnose o fez dormir. Agora a imaginação funciona sem censura. Este é o problema com a religião.

A religião necessita confiança. Confiança significa que a faculdade dubitativa da mente está dormida, como na hipnose. Assim que quando as pessoas dizem: “Este homem, Osho, te hipnotizou”, de certo modo eles tem razão, pois se você confia em mim, será como uma hipnose: completamente desperto descartou a razão; agora a imaginação funciona a toda capacidade e estás em situação perigosa.

Se você permite a imaginação, pode imaginar toda classe de coisas: kundalini, chakras, tudo, e tudo isso te acontecerá. E tudo é bonito, mas não é o certo. Assim que quando confie em uma pessoa, seja consciente da imaginação. Confie, mas não caia vitima da imaginação. Qualquer coisa que se diga aqui é metafórico. E lembre-se sempre que todas as experiências sem exceção, são imaginadas, somente o sujeito da experiência existe na verdade.

Por isso não se fixe em suas experiências, não lhes dê importância. Lembre-se que todo o experimentado é ilusório e só o experimentador é verdadeiro. Ponha atenção na testemunha, não na experiência, por mais bonita que seja, pois é como um sonho que precisa ser abandonado.

Portanto, a religião, é poética. O discípulo tem que estar alerta pois o estado de confiança em que se encontra pode faze-lo vítima da imaginação. Confie, mas lembre-se que são metáforas. Se algo te acontece, lembre-se que tudo é imaginação, menos você. E você tem que chegar a um ponto aonde só o experimentador permaneça no silêncio, sem objetos, sem luz, nada.

Lin Chin estava sentado em seu pequeno monastério em cima de um morro, quando alguém chegou e lhe perguntou: “O que acontece quando alguém obtém a iluminação?”

E Lin Chin respondeu: “Me sento aqui, só, as nuvens passam e eu observo; as estações mudam e eu observo, os visitantes chegam e eu observo...”

Ao final, apenas o observador –consciencia- permanece, observando tudo. Todas as experiências desaparecem e apenas o próprio fundo fundo delas permance: você permanece, todo o demais se perde. Tenha cuidado com a enfermidade chamada imaginazione.

Ainda que digamos: “A Mente é uma luz brilhante,
esta transcende as palavras e os símbolos.
Ainda que a Mente seja em essência o vazio,
esta contêm e abraça todas as coisas.

Estas afirmações parecem contraditórias. Se diz que a mente é vazia e em seguida que contêm tudo. Por que esta contradição? Esta é a natureza de toda experiência religiosa. As metáforas são necessárias.

Quando estiver completamente vazio
somente então estarás completo
Quando não existas mais,
então pela primeira vez viverás

Jesus disse:

“Se quiser se perder, se ganhará
Se morrer, renascerá
Se puder apagar completamente, se tornará eterno.
Será um com a eternidade.

Todas estas são metáforas, mas se você confia, se ama, se me abrir seu coração, então poderá compreender, com esse entendimento que transcende a todo entendimento, que não é intelectual e sim de coração a coração. É uma energia que salta de um coração até o outro.

Eu estou aqui e trato de lhe falar, mas isso é secundário.

O básico é que se você está aberto, eu posso entrar em ti. Se minha conversa lhe ajuda a se abrir mais e mais, ela cumpre sua função. Não estou tratando realmente de lhe dizer algo, e sim de lhe fazer ser mais e mais aberto. Então posso me derramar dentro de você, e até que você prove isso, não poderá entender o que estou dizendo.
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(Osho. Tantra: La Suprema Sabidúria.)