quarta-feira, 31 de março de 2010

Ainda não...

"Há dias em que me sinto vazia, como se um cansaço imenso e letárgico se tivesse instalado sem pré-aviso e me tolhasse o coração e o espírito. São dias em que acordar é pior do que ter um pesadelo e levantar-me da cama parece mais difícil do que atravessar o Atlântico a nado. Manhãs submersas em recordações e saudades, a sonhar calada tudo o que quis e nunca tive, mais o que mereço mas ainda não alcancei."
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(Margarida Rebelo)

A borboleta é apenas a borboleta...

"Passa uma borboleta por diante de mim
E pela primeira vez no Universo eu reparo
Que as borboletas não têm cor nem movimento,
Assim como as flores não têm perfume nem cor.
A cor é que tem cor nas asas da borboleta,
No movimento da borboleta o movimento é que se move,
O perfume é que tem perfume no perfume da flor.
A borboleta é apenas a borboleta
E a flor é apenas flor."
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(Alberto Caeiro)

terça-feira, 30 de março de 2010

Ausência dela...

"Chorei porque não era mais uma criança com a fé cega de criança. Chorei porque não podia mais acreditar e adoro acreditar. Chorei porque daqui em diante chorarei menos. Chorei porque perdi a minha dor e ainda não estou acostumada com a ausência dela."
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(Anais Nin)

segunda-feira, 29 de março de 2010

Cérebro masculino x feminino...

Reduzir atividades...

Uma característica de uma pessoa "dármica" -- alguém que pratica meditação e os ensinamentos de Buda -- é evitar muitas atividades; ou você poderia dizer: reduzir as atividades.
 
Segundo a tradição, isso acaba se resumindo a cortar conversas não-funcionais, cortar a mentalidade baby-sitter -- a mentalidade do entretenimento. Você pode se meter em todo tipo de projeto, todo tipo de engajamento. Você pode se tornar "amiguinho" do seu mundo para não precisar manter sua disciplina ou sua presença mental de maneira adequada. [...]

Se não gosta de chá, você pode tomar café. Se não gosta de café, pode mudar para Coca-Cola. Se não gosta de Coca-Cola, pode beber uísque ou vodka. Você se envolve em constante atividade. Às vezes você nem sabe o que está fazendo; você apenas tem a ideia de que precisa estar ocupado com algo, mas não pode sair fazendo qualquer coisa. "Preciso de sexo ou de dinheiro? Ou roupas? O que eu preciso?" [...]

Você pode pensar em qualquer coisa, as possibilidades são infinitas. Ficar muito amiguinho dessa situação envolve muita atividade. Segundo os princípios básicos do Budismo, você precisa cortar isso. Quando se torna muito amiguinho do seu mundo, muito familiar com seu mundo, ele se torna infindável.
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.Chogyam Trungpa (Tibete, 1939 - Canadá, 1987: “Sete características de uma pessoa dármica")



quinta-feira, 25 de março de 2010

Como somos...

"Não vemos as coisas como são: vemos as coisas como somos." (Anais Nin)

terça-feira, 23 de março de 2010

A verdade e os outros...

"Quando olhar os seus companheiros, procure ver a você mesmo", disse o mestre Okakura Kakuso.
"Mas isto não é egoísmo?"
"Nós olhamos a maldade nos outros, porque conhecemos a maldade atravéss de nosso comportamento. Nós nunca perdoamos aqueles que nos ferem, porque achamos que jamais seríamos perdoados. Nós dizemos a verdade dolorosa ao próximo, porque a queremos esconder de nós mesmos. Nos refugiamos no orgulho, para que ninguém possa ver a nossa fragilidade."
"Por isso, sempre que estiver julgando o seu irmão, tenha consciência de que é você quem está no tribunal".
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(Paulo Coelho)

segunda-feira, 22 de março de 2010

Descanso...

"Um homem jamais pode entender o tipo de solidão que uma mulher experimenta. Um homem se deita sobre o útero da mulher apenas para se fortalecer, ele se nutre desta fusão, se ergue e vai ao mundo, a seu trabalho, a sua batalha, sua arte. Ele não é solitário. Ele é ocupado. A memória de nadar no líquido aminótico lhe dá energia, completude. A mulher pode ser ocupada também, mas ela se sente vazia. Sensualidade para ela não é apenas uma onda de prazer em que ela se banhou, uma carga elétrica de prazer no contato com outra. Quando o homem se deita sobre o útero dela, ela é preenchida, cada ato de amor, ter o homem dentro dela, um ato de nascer e renascer, carregar uma criança e carregar um homem. Toda vez que o homem deita em seu útero se renova no desejo de agir, de ser. Mas para uma mulher, o climax não é o nascimento, mas o momento em que o homem descansa dentro dela."
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(Anais Nin)

sábado, 20 de março de 2010

Ousadia...

Ver é uma ousadia. Fazer falar o que se viu ou desmistificar a cegueira alheia é ousadia dupla.
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(Affonso Romano de Sant´Anna)

sexta-feira, 19 de março de 2010

Educação sem violência...

O Dr. Arun Gandhi, neto de Mahatma Gandhi e fundador do MK Institute, contou a seguinte história sobre a vida sem violência, na forma da habilidade de seus pais, em uma palestra proferida em junho de 2002 na Universidade de Porto Rico.

Eu tinha 16 anos e vivia com meus pais, na instituição que meu avô havia fundado, e que ficava a 18 milhas da cidade de Durban, na África do Sul.

Vivíamos no interior, em meio aos canaviais, e não tínhamos vizinhos; por isso minhas irmãs e eu sempre ficávamos entusiasmados com possibilidade de ir até a cidade para visitar os amigos ou ir ao cinema.

Certo dia meu pai me pediu que o levasse até a cidade, onde participaria de uma conferência durante o dia todo. Eu fiquei radiante com esta oportunidade. Como íamos até a cidade, minha mãe me deu uma lista de coisas que precisava do supermercado e, como passaríamos o dia todo, meu pai me pediu que tratasse de alguns assuntos pendentes, como levar o carro à oficina. Quando me despedi de meu pai ele me disse:

"Nós nos encontraremos aqui, às 17 horas, e voltaremos para casa juntos."

Depois de cumprir todas as tarefas, fui até o cinema mais próximo. Distraí-me tanto com o filme (um filme duplo de John Wayne) que esqueci da hora. Quando me dei conta eram 17h30. Corri até a oficina, peguei o carro e apressei-me a buscar meu pai.

Eram quase 18 horas. Ele me perguntou ansioso:

"Por que chegou tão tarde?"

Eu me sentia mal pelo ocorrido, e não tive coragem de dizer que estava vendo um filme de John Wayne. Então, lhe disse que o carro não ficara pronto, e que tivera que esperar. O que eu não sabia era que ele já havia telefonado para a oficina. Ao perceber que eu estava mentindo, me disse:

"Algo não está certo no modo como o tenho criado, porque você não teve a coragem de me dizer a verdade. Vou refletir sobre o que fiz de errado a você. Caminharei as 18 milhas até nossa casa para pensar sobre isso."

Assim, vestido em suas melhores roupas e calçando sapatos elegantes, começou a caminhar para casa pela estrada de terra sem iluminação.

Não pude deixá-lo sozinho... Guiei por 5 horas e meia atrás dele... Vendo meu pai sofrer por causa de uma mentira estúpida que eu havia dito.

Decidi ali mesmo que nunca mais mentiria.

Muitas vezes me lembro deste episódio e penso: "Se ele tivesse me castigado da maneira como nós castigamos nossos filhos, será que teria aprendido a lição?" Não, não creio. Teria sofrido o castigo e continuaria fazendo o mesmo. Mas esta ação não-violenta foi tão forte que ficou impressa na memória como se fosse ontem.

"Este é o poder da vida sem violência."

quinta-feira, 18 de março de 2010

Segredo...

"No meio das trevas, sorrio à vida como se conhecesse a fórmula mágica que transforma o mal e a tristeza em claridade e em felicidade. Então, procuro uma razão para esta alegria, não a acho e não posso deixar de rir de mim mesma. Creio que a própria vida é o único segredo" (Rosa Luxemburgo)

quarta-feira, 17 de março de 2010

A totalidade...


"O demônio conversava com seus amigos, quando notaram um homem caminhando por uma estrada. Acompanharam seu trajeto com os olhos, e viram que ele se abaixou para pegar algo no chão.

“O que ele encontrou?”, perguntou um dos amigos.

“Um pedaço da verdade”, respondeu o demônio.

Os amigos ficaram preocupadíssimos. Afinal de contas, um pedaço da verdade poderia salvar a alma daquele homem – e seria menos um no inferno.
Mas o demônio continuava imperturbável, olhando a paisagem.
 
“Você não se preocupa?”, disse um dos seus companheiros. “Ele achou um pedaço da verdade!”
 
“Não me preocupo”, respondeu o demônio. “Sabe o que ele fará com este pedaço? Como sempre, vai criar uma nova religião. E conseguirá afastar mais pessoas da verdade total”."

terça-feira, 16 de março de 2010

Eu...

Eu, que sou dos outros antes de ser inteiro.
Que não sou aquilo que a vida é.
Que não sou momento que se vive nem o amor perdido.
Eu sou aquilo que ninguém vê.
Sou a vista da minha janela e o porão da minha casa.
Coleção de histórias, estórias, falsas verdades e meias mentiras, memórias, dores, delícias, pecados, bondades, tragédias e sucessos.
Sinestésico e músical, toco a vida em melodias várias.
Buscador; contraditório; Sinto crenças que não tenho.
Intenso; Vasto..
Sou um eterno parênteses em aberto. Reticências sem continuação...
Limito-me ao definir o meu próprio contorno. Sinto-me vários, a viver além do outro lado de mim.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Solidão...


"Solidão não é a falta de gente para conversar, namorar, passear ou fazer sexo... isto é carência.
Solidão não é o sentimento que experimentamos pela ausência de entes queridos que não podem mais voltar... isto é saudade.
Solidão não é o retiro voluntário que a gente se impõe às vezes, para realinhar os pensamentos... isto é equilíbrio.
Tampouco é o claustro involuntário que o destino nos impõe compulsoriamente, para que revejamos a nossa vida... isto é um princípio da natureza.
Solidão não é o vazio de pessoas ao nosso lado... isto é circunstância.
Solidão é muito mais que isto.
Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos e procuramos em vão, pela nossa alma."
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(Chico Xavier)

sexta-feira, 12 de março de 2010

Dancin´...

Se não usar seus talentos...

"... você encrenca com a natureza! Quando a insegurança de uma pessoa é muito forte e ela não deveria mais ser assim, pois ela já tem condições de ser melhor, de usar o que já sabe, a natureza não o protege mais e aquilo vai se tornando realidade e chega a criar instabilidade e problemas. Você foi crescendo, e aquilo que era responsabilidade da natureza foi passando a ser sua. Ela não o defende mais, pois nestas coisas você já é adulto e deve se defender por conta própria. Deus não mima ninguém.

Ai de você se não usar o que já sabe, pois vai ficar exposto às conseqüências. Se é sua a responsabilidade de responder pelo que já sabe, então não tem o direito de culpar ninguém, muito menos Deus!

Você já sabe, e a vida o ajudou a aprender e lhe deu a capacidade de se escutar e se cuidar, mas você não quer se escutar, não quer assumir o que é e se abandona no desculpismo, então vai levar uma boa bofetada. Você é diferente e seu caminho é diferente. O que você sabe é diferente do que o outro sabe. O que é melhor para você é diferente do que é para o outro. Mas você gosta de se comparar e achar que também tem o direito e fica a escutar o que os outros falam. Daí, fica aí com medo do mundo. Então, você pode ficar surdo, pois a vida diz:

- Vou tirar a audição, porque essa pessoa não está mesmo se escutando e se dando valor.

Mas você pode começar a ser responsável por si assumindo que você é diferente dos outros e fazendo tudo do seu jeito.

- Só vou me escutar, só vou escutar a minha natureza interior. Vou fazer as coisas do meu jeito. Vou ser como eu sou, vou fazer como eu quero. E não vou ficar escutando esse povo que só tem besteira para dizer. Vou escutar minha voz interior, minha voz espiritual, minhas experiências.

Aí então, minha filha, seus ouvidos vão melhorar. Está vendo como funciona? É porque você usou os talentos que tem, mas se não usar já encrenca com a natureza, já encrenca com a saúde.

Por isso, vocês fiquem atentos. Tudo o que vocês recebem, tem que dar algo em troca. Desconfiem daquilo que parece de graça, porque não é, não.

Não podemos deixar de fazer o nosso melhor. Ás vezes, a gente está bem, está sossegado, naquela vida boa, e os outros começam:

- Você precisa fazer isso, precisa fazer aquilo. As pessoas gostam de arranjar coisas para a gente fazer e criar necessidades que não temos. E ainda acham que estão fazendo um bem. “Você precisa ler este livro”, diz o amigo.

Você, então, lê o livro, que diz assim: “O ser humano é um bicho atrasado. O ser humano está precisando de mais amor, de mais benevolência, tudo está errado e tudo precisa ser mudado”. Você acredita no que lê e fica se olhando e vendo uma porção de defeitos em você. Aí fica louco para ver se consegue mudar você. Pensa que está trabalhando para melhorar. Sem se dar conta, cria um conflito com o seu jeito natural de ser e ele se torna uma doença, porque saiu do seu melhor.

Que coisa, não, minha gente? Nem sempre querer melhorar melhora. Às vezes, piora. Vê lá como é esse negócio de querer melhorar e acabar no pior. Vê lá se, com isso, você não vai fazer da sua vida um inferno.

Nunca se compare com nada e com ninguém. As pessoas gostam de idealizar, de imaginar e acreditam que isto que imaginaram é o perfeito sem o menor respeito pela natureza. Daí, elas tomam tudo o que é diferente do seu modelo imaginário como algo imperfeito e repugnante, criando assim uma batalha com a natureza. A natureza reage e as doenças aparecem.

A natureza já é perfeita; é o homem que distorce tudo, pois não analisa as coisas com cuidado.

Se a pessoa falar mal de algo, é porque o mal está na cabeça dela. Por isso não lhe dê ouvidos ou vai se arrepender."
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(Calunga)

quinta-feira, 11 de março de 2010

Um romance...

"Minha vida não foi um romance...
Nunca tive até hoje um segredo.
Se me amas, não digas, que morro
De surpresa… de encanto… de medo...
Minha vida não foi um romance...
Minha vida passou por passar.
Se não amas, não finjas, que vivo
Esperando um amor para amar.
Minha vida não foi um romance...
Pobre vida… passou sem enredo...
Glória a ti que me enches a vida
De surpresa, de encanto, de medo!
Minha vida não foi um romance...
Ai de mim… Já se ia acabar!
Pobre vida que toda depende
De um sorriso... de um gesto... um olhar...
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(Mário Quintana)

quarta-feira, 10 de março de 2010

O vulto constante...

Tempos de definição são difíceis. Duros. Exigem de nós energia que por vezes não temos—não é todo dia que queremos lutar contra sentimentos díspares, complicados, que desejamos nos perguntar se realmente o amor acabou, se o que sobrou foi só carinho e preocupação, ou se ainda existe um resquício mínimo que guarda em si a possibilidade do renascimento. Não é todo dia que temos fôlego para questionar o que fizemos de nossa vida até aqui e qual o rumo que realmente queremos dar a ela. Cansa. Exaure.

Tudo muda quando se passa por uma cisão que altera a maneira de ver o mundo: lá se vai a crença de um amor que resiste a tudo e fica um gosto estranho de fracasso, como se as emoções, e as pessoas, pudessem ser avaliadas em termos tão maniqueístas... Separar-se de alguém que se amou demais é, antes de mais nada, triste. Mas tristezas, por mais fundas que sejam, passam. Desde que não as alimentemos.

E a forma mais comum de alimentá-las é insistir em um contato nocivo por nos trazer alento, um tanto duvidoso, mas um alento: a voz conhecida, as palavras um dia tão queridas, o choro que sabemos como estancar, a risada que nos lembra dias mais ensolarados (você já reparou como nos sentimos mais acolhidos com a segurança do passado conhecido, com todos os seus problemas, do que com o vislumbre do futuro?). Alimentá-la é achar que isso pode, em algum nível, fazer bem para algum dos dois. É como manter vivo um paciente com falência cerebral na esperança de que um milagre o faça acordar sorrindo, inteiro. Dói todos os dias em que isso não acontece. E dói mais ainda quando, finalmente, ele morre— mas, então, pelo menos, todos estão livres para seguir a vida.

A verdade é que enquanto não decidimos se acabou ou não, se queremos aquela relação de volta (com todas as idiossincrasias, neuroses e desgastes que nos fizeram partir) ou se ela faz parte do panteão do passado, nada anda.


Ninguém novo pode entrar, arejar os dias. Nem sozinho ficamos bem. Só a vulto constante da tristeza nos acompanha, mesmo nas horas mais alegres—ela sabe que, a qualquer momento, a guarda baixará e ela terá espaço suficiente pra se instalar.
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(Ailin Aleixo)

terça-feira, 9 de março de 2010

Para você...

"Desconhecido! Se tu, ao passar, encontrares-me e desejares falar comigo, por que não falarias comigo?
E por que eu não falaria contigo?"
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(Walt Whitman)

segunda-feira, 8 de março de 2010

Saudade...

"Hoje acordei com uma incontrolável saudade. Uma inevitável saudade de um tempo que não passa, de uma história sem enredo, de um filme sem final feliz, de alguma coisa que parece nunca chegar. Sinto saudades de uma parte boa da minha vida interrompida por um acaso, sem nunca ter acabado ao certo, porque talvez nunca tenha exatamente começado. Daí a saudade de alguma coisa que poderia ter sido e nunca foi e nem nunca será. Saudade a gente não vê, não pega, mas sente e sabe que ela está ali. Saudade é uma ferida que nunca sara. É como se alguém apertasse seu coração e seu pescoço, quase um estrangulamento. É uma dor sem evidência física. Mas ainda assim é uma dor consistente e tem dias, como hoje, que parecem ser feitos para doer de saudades. Saudades de sonhos, de cheiros, de gostos, de olhares, sorriso discretos, do que seria e acabou sem explicação. Saudades de poucas palavras, de um aperto de mãos, do olhar carinhoso e recatado, de planos loucos traçados à beira da impulsividade. Sinto saudades do que nunca existiu mesmo – embora desejo até que tivesse existido. Não aconteceu. Não houve. Um dia para doer. Eu sinto saudades."
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(Luís Augusto Z. Cardoso)

quinta-feira, 4 de março de 2010

Sem ele...

"Sem ele não há céu.

Não importa quanto se insista baseado na racionalização—sem ele, só restam justificativas.
Sem ele, o que poderia ser bom torna-se azedo.

Nada resiste.

Duas pessoas são capazes de passar por muito juntas: brigas, mortes, decepções, falta ou excesso de dinheiro, mas sem o beijo, o que era um casal torna-se dois seres. Que podem, porventura, viver juntos e dizer que se amam, mas não tocam seus lábios, o que dirá de suas almas."
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(Ailin Aleixo)

Sabedor...

"Eu que, pretenso sabedor de tudo-em-mim,
Eu que, olhava o Sol como meu próprio reflexo, cego fiquei pelo contraste, ao visitar o canto escuro do meu ser. E tal visita tornou-se permanente morada,
Hoje, fujo das minhas próprias sombras. Quanto mais longe vou, mais elas me acompanham.
E cansado das mesmas novidades que guardei.. me exauro. Em mim, ganho novos contornos firmes enquanto o suave se mascara; me debato diante da inquietude movediça que me paralisa.
Provei da tua árvore do conhecimento e me tornei sabedor dos pecados. Tornei-me eu, impuro. E o paraíso tornou-se, também e além do mais, ansiedade. Não fui expulso. Não quis, nem precisei.
A toca do coelho me enoja em repulsa. Pretério imperfeito.
Vendava meus olhos, vendia. Reescreveria minhas falas, calava.
Na queda dos anjos, o um tornou-se dois, talvez para buscar o Um novamente.
Qual o círculo que ainda não dei volta? Qual senda não percorri?
Cansaço e descanso se encontram na mesma paisagem.
Sabedor do que não sabia, sei que o vir-a-ser é exigência.
E diante de tudo que soube, também não me esqueci que, a liberdade está apenas em um movimento. A chave da prisão, sou eu quem carrego."

quarta-feira, 3 de março de 2010

Longamente...

Quando uma pessoa é a doçura e a perturbação, a diversão e a gravidade, a novidade e a memória, a viagem e a morada, quando, vindo de muito longe, uma onda sobe em você, sobrevoada por pássaros mudos, quando o fragmento da menor parte de sua pele se lê como um canto aberto em cima de um piano, quando seus olhos se franzem, não ousando sorrir inteiramente, quando seus cabelos num único movimento varrem os dias e dias passados em espera, quando, nos lados do pescoço quatro jugulares marcam um compasso desenfreado, quando a noite e o tédio e o frio caem imediatamente sobre o resto da terra, quando no ouvido já ressoa a palavrinha futura da felicidade, "venha", que ser humano digno desse nome recusa esse milagre e escolhe fugir lembrando o desconforto de amar?
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(Erik Orsenna)

segunda-feira, 1 de março de 2010

Abismos...

“O que me interessa é a diferença.
Interessa-me a voz das margens,
a poesia dos rebeldes,
dos bêbados,
dos discriminados,
tipos que não encontram quem os ouça e que têm a verdadeira experiência dos abismos”
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(Inês Pedrosa)