sábado, 27 de fevereiro de 2010

Algo sobre o perdão...

"É uma das coisas mais fundamentais para entender. As pessoas geralmente pensam que o perdão é para aqueles que são dignos disso, que o merecem. Mas se alguém o merece, é digno de perdão, isso não é muito um perdão. Você não está fazendo nada de sua parte, ele o merece. Você não está sendo amoroso e compassivo. Seu perdão só será autêntico quando até mesmo aqueles que não merecem, o recebem.

Não se trata de se a pessoa merece ou não. A questão é se seu coração está preparado ou não.

Recordo-me de uma mística das mais significantes, Rabiya al-Adabiya, uma mulher Sufi que era conhecida pelo seu comportamento muito excêntrico. Porém, em todo seu comportamento excêntrico havia um grande insight. Uma vez, outro místico Sufi Hasan esteve com Rabiya. Devido a que ele ia ficar com Rabiya, ele não trouxe seu sagrado Corão, que ele costumava ler toda manhã como parte da disciplina dele. Ele pensou que podia emprestar o sagrado Corão de Rabiya, assim ele não havia trazido sua própria cópia com ele.

Pela manhã ele pediu a Rabiya e ela lhe deu a cópia dela. Ele não podia acreditar no que via. Quando ele abriu o Corão ele viu algo que nenhum Maometano podia acreditar: em muitas partes Rabiya o tinha corrigido. Isso é o maior pecado para os Maometanos, o Corão é a palavra de Deus segundo eles. Como você pode alterá-lo?Como é que você pode até mesmo pensar que pode melhorá-lo? Ela não apenas o mudou, ela simplesmente eliminou algumas palavras, algumas linhas – as removeu.

Hasan disse a ela, “Rabiya, alguém destruiu seu Corão!” Rabiya disse, “Não seja estúpido, ninguém toca em meu Corão. O que você está olhando fui eu que fiz”. Hasan disse, “Mas como é que você pode fazer uma coisa dessas?” Ela disse, “Eu tinha que fazê-lo, não havia outro jeito. Por exemplo, veja aqui: o Corão diz, “Quando você encontrar o diabo, odeie-o”. Desde que me tornei desperta não posso encontrar nenhum ódio dentro de mim. Mesmo se o diabo ficar diante de mim só posso banhá-lo com meu amor, porque não tenho mais nada para dar. Não importa se é Deus ou o diabo que está diante de mim; ambos irão receber o mesmo amor. Tudo que tenho é amor; ódio desapareceu. No momento em que o ódio desapareceu de mim eu tinha que efetuar mudanças no meu livro do sagrado Corão. Se você não o mudou isso simplesmente significa que você ainda não chegou no espaço onde só o amor permanece.

Eu vou lhe dizer, as pessoas que não merecem, as pessoas que não são dignas, não faz nenhuma diferença para o homem que chegou no espaço do perdão. Ele irá perdoar, sem considerar quem o merece. Ele não pode ser tão mesquinho que só os dignos devem recebê-lo. E onde ele irá encontrar a implacabilidade? Essa é uma perspectiva totalmente diferente. Não está relacionado com o outro. Quem é você para julgar se o outro é digno ou indigno? O próprio julgamento é feio e medíocre.

Sei que Rudolph Hess certamente é um dos maiores criminosos. E o crime dele se torna um milhão de vezes maior, porque no julgamento de Nuremburg com os outros companheiros de Adolf Hitler – que matou quase oito milhões de pessoas na segunda guerra mundial – ele disse diante da corte, “Não me arrependo de nada!” Não apenas isso, ele também disse, “E se eu pudesse começar do princípio, eu faria o mesmo novamente”. É muito natural achar que esse homem não merece perdão; esse será o entendimento comum. Todos irão concordar com você.

Mas não posso concordar com você. Não importa o que Rudolph Hess tenha feito, o que ele está dizendo. O que importa é que você é capaz de perdoar até mesmo ele. Isso irá elevar sua consciência as alturas. Se você não puder perdoar Rudolph Hess você irá permanecer apenas um ser humano comum, com todo tipo de julgamento de merecimento, de não merecimento. Mas basicamente você não pode perdoá-lo porque seu perdão não é suficientemente grande.

Posso perdoar o mundo inteiro pelo simples motivo de que meu perdão é absoluto; não depende de julgamento. Vou lhe contar uma pequena história Tibetana que irá tornar o ponto absolutamente claro para você.

Um antigo grande mestre, adorado por milhões de pessoas, recusou-se a iniciar qualquer um como discípulo. Toda sua vida, consistentemente, reis lhe pediram, pessoas ricas lhe pediram, grandes ascetas lhe pediram, santos, para serem iniciados como seus discípulos, e ele continuou recusando. Ele sempre dizia, “A menos que encontre um homem que o mereça, a menos que encontre um homem digno disso... Não vou iniciar nenhum Tom, Dick, Harry”.

Ele tinha um jovem que costumava cozinhar para ele, lavar suas roupas, comprar vegetais no mercado. O próprio garoto lentamente envelheceu, e por toda sua vida ele escutou o velho homem, que tinha vivido quase cem anos, e sempre com a negação, sem exceção: ninguém é digno! “Eu vou morrer”, ele disse, “sem iniciar ninguém, mas não irei iniciar ninguém que seja indigno”.

As pessoas ficaram cansadas, frustradas. Elas amavam o homem, ele tinha qualidades imensas, mas não podiam entender sua atitude muito teimosa – sem nenhuma ternura, nenhuma compaixão.

Mas uma manhã, o velho acordou seu companheiro, que já tinha envelhecido, e lhe disse, “Corra imediatamente morro abaixo até o mercado e diga a todos que quem quiser ser iniciado deve vir logo, porque nesse entardecer, quando o sol se pôr eu vou morrer”.



Seu companheiro disse, “Mas e quanto ao merecimento? Não sei quem é digno e quem é indigno. A quem devo trazer?”

O velho homem disse, “Não se preocupe com isso. Era apenas uma tática, porque eu mesmo não era digno de iniciar ninguém, mas era contra minha dignidade dizer isso. Então escolhi outro modo. Estava dizendo, ‘A menos que encontre alguém bastante digno, bastante merecedor, eu não irei iniciar’. A verdade é, eu não era digno de ser um mestre. Agora sou, mas o tempo é muito curto. Somente nessa manhã quando o sol estava surgindo, minha própria consciência também chegou ao pico supremo. Agora estou pronto. Agora não importa quem é digno e quem é indigno. O importante agora é que eu sou digno. Vá e traga qualquer um! Vá e avise a toda a vila que esse é o último dia da minha vida e qualquer um que queira ser iniciado deve vir imediatamente. Traga tantos quanto possível”.

O companheiro do velho homem ficou perplexo, mas não havia tempo para argüir. Ele desceu o morro correndo, chegou ao mercado e gritou por toda a vila, “Qualquer um que queira ser um discípulo, o velho homem agora está pronto!”

As pessoas não podiam acreditar nisso. Mas por curiosidade alguns pensaram, “Não há nenhum problema pelo menos para ver o que está acontecendo”. O homem havia recusado por toda sua vida e no último dia da sua vida, uma mudança tão grande de repente. A esposa de alguém tinha falecido e ele estava se sentindo muito só, então ele pensou, “Isso é bom. Se ele vai iniciar todo mundo, sem nenhuma questão de merecimento...”. Alguém havia sido libertado da prisão na noite anterior; ele pensou, “Ninguém vai me dar emprego; isso é uma boa oportunidade de virar um santo”.

Todo tipo de pessoas estranhas foram para a caverna do velho homem, e seu companheiro ficou tão embaraçado pelo tipo de pessoas que ele tinha trazido: Um é criminoso, a esposa de outro havia falecido, é por isso que ele pensa, “Assim é melhor...agora, fazer o que mais? Alguém tinha ido a falência e estava pensando em cometer suicídio; agora pensa que isso é melhor que o suicídio.



Alguns tinham vindo por curiosidade. Eles não tinham nenhum outro trabalho; eles estavam tocando jazz e pensaram, “Podemos tocar jazz amanhã, mas hoje não há nenhum problema, vamos ver o que é essa iniciação. De qualquer maneira, esse homem vai morrer ao entardecer assim estaremos livres para permanecermos discípulos ou não. Podemos tocar jazz amanhã – não há nenhum problema”.

O companheiro do velho homem estava se sentindo muito embaraçado, “Como irei apresentar essa gente estranha quando esse velho homem recusou reis, santos, sábios, que tinham vindo com profunda seriedade para ser iniciados? E agora ele vai iniciar esse bando!” Ele estava até mesmo envergonhado, mas ele entrou e perguntou, “Devo chamar as pessoas? –onze deles estão aí”.

O velho homem disse, “Chame-os rápido, porque já entardeceu. Você demorou muito tempo e só pode trazer onze pessoas?”



Seu companheiro disse, “O que posso fazer? É um dia de trabalho; não é um feriado. Só consegui esses. Todos são absolutamente inúteis; mesmo eu não poderia iniciá-los. Não apenas que eles não sejam dignos – eles são absolutamente indignos. Porém você insistiu em trazer alguém; ninguém mais estava disponível”.

O velho homem disse, “Não há nenhum problema. Traga-os para dentro”. E ele os iniciou a todos. Mesmo eles estavam chocados. E disseram para o velho homem, “Esse é um comportamento estranho. Toda sua vida você insistiu que a gente precisa merecer ser um discípulo. O que aconteceu com o seu principio?”



O velho homem sorriu. Ele disse, “Isso não era um principio, era apenas para esconder minha própria indignidade. Eu ainda não estava preparado para ser um mestre. E não posso trapacear ninguém, não posso enganar ninguém; daí eu ter me ocultado atrás de uma atitude julgadora, que a menos que vocês mereçam, não conseguirão a iniciação”.

Obviamente ninguém é digno.

Todo mundo tem seus próprios defeitos, fraquezas; todos fizeram coisas que nunca quiseram fazer. Todo mundo se desviou. Ninguém pode dizer que é absolutamente puro; todos estão poluídos. Assim quando o velho homem insistiu, “A menos que você seja digno não volte para mim”, ninguém discutiu com ele; ele estava certo. Primeiro eles tinham que ser merecedores!

No último dia, ele disse para aqueles onze discípulos, “Eu os abençoou e inicio vocês. Não importa se vocês são merecedores ou não, mas pela primeira vez sou digno. E se sou realmente digno, basta minha presença para purificar vocês. Meu mérito de ser um mestre irá tornar vocês discípulos dignos. Agora não preciso depender do merecimento de vocês. Meu mérito é suficiente.

“Sou como uma nuvem carregada de chuva; irei banhar todo o lugar – sobre as montanhas, nas ruas, nas casas, nas fazendas, nos jardins. Irei banhar todo lugar, porque estou sobrecarregado demais com minha água de chuva. Não importa se o jardim merece... Não faço qualquer distinção entre o jardim e as pedras. Irei simplesmente chover a partir da minha abundância”.

Se sua Meditação lhe traz para um estado de nuvem de chuva, você irá perdoar sem nenhum julgamento a partir da sua abundância, do seu amor, da sua compaixão.

De fato, gostaria de declarar que o homem que é indigno merece mais do que aquele que é digno. O homem que não merece, merece mais, porque ele é tão pobre; não seja duro com ele. A vida tem sido difícil para com ele. Ele se perdeu; ele tem sofrido por causa de seus atos errados. Agora não seja duro com ele. Ele precisa de mais amor do que aqueles que são merecedores; ele precisa de mais perdão do que aqueles que são dignos. Essa deve ser a única abordagem de um coração religioso.

Essa questão foi trazida perante Gautama Buda, porque ele ia iniciar um assassino no sannyas – e o assassino não era um assassino comum. Rudolph Hess não é nada comparado a ele. Seu nome era Angulimal. Angulimal significa um homem que usa um colar de dedos humanos.

Ele fez a promessa de que mataria mil pessoas; de cada pessoa ele retiraria um dedo para que ele pudesse lembrar quantos ele havia matado e ele fará um colar de todos esses dedos. No seu colar de dedos ele já tinha novecentos e noventa e nove dedos – só um estava faltando. E esse um estava faltando devido a que sua estrada estava fechada; ninguém passava por esse caminho. Gautama Buda, porém, entrou naquela estrada fechada. O rei tinha colocado guardas na estrada para impedir as pessoas, particularmente estrangeiros que não sabiam que um homem perigoso vivia por trás dos montes. Os guardas contaram a Gautama Buda, “Essa não é uma estrada para ser usada. Você terá que tomar um caminho mais longo, mas é melhor ir um pouco mais longe do que penetrar na boca da própria morte. Esse é o lugar onde Angulimal vive. Até mesmo o rei não tinha coragem de andar por essa estrada. Esse homem é simplesmente louco.

“A mãe dele costumava chegar até ele. Ela era a única pessoa que podia ir, de vez em quando, vê-lo, mas até mesmo ela deixou de ir. A última vez que ela foi lá ele disse a ela, ‘Agora só está faltando um dedo e apenas porque você é minha mãe... quero lhe avisar que se você vier outra vez você não voltará mais. Preciso desesperadamente de um dedo. Até agora não lhe matei porque outras pessoas estavam disponíveis, mas agora ninguém mais passa por essa estrada exceto você. Então quero que você saiba que da próxima vez, se você vir, será sua responsabilidade, não minha’. Desde àquela hora a mãe dele não veio mais”.

Os guardas disseram a Buda, “Não corra desnecessariamente o risco”. E vocês sabem o que Buda disse a eles? “Se eu não for então quem irá? Só duas coisas são possíveis: Ou eu conseguirei mudá-lo, e não posso perder esse desafio; ou irei provê-lo com mais um dedo para que o desejo dele seja realizado. De qualquer maneira irei morrer algum dia. Dar minha cabeça para Angulimal será pelo menos de alguma utilidade; do contrário um dia irei morrer e vocês me colocarão na pira funerária. Acho que assim é melhor para realizar o desejo de alguém e lhe dar paz mental. Ou ele irá me matar ou irei matá-lo, mas esse encontro irá acontecer; vocês apenas mostrem o caminho”.

As pessoas que seguiam Gautama Buda, seus companheiros íntimos que estavam sempre competindo para estar mais próximo dele, começaram a se afastar. Logo havia milhas de distância entre Gautama Buda e seus discípulos. Todos eles queriam ver o que acontecia, mas não queriam estar muito perto.

Angulimal estava sentado sobre sua rocha observando. Ele não podia acreditar em seus olhos. Um homem muito bonito de um carisma tão imenso estava vindo em sua direção. Quem seria este homem? Ele nunca tinha ouvido falar de Gautama Buda, Mas mesmo esse coração duro de Angulimal começou a sentir uma certa ternura para com esse homem. Ele parecia tão belo, vindo na direção dele. Era manhã cedo... Uma brisa fresca, e o sol estava surgindo... E os pássaros estavam cantando e as flores se abriam; e Buda estava chegando cada vez mais perto.

Finalmente Angulimal, com sua espada desembainhada em suas mãos, gritou, “Pare!” Gautama Buda estava a alguns metros de distância, e Angulimal disse, “Não dê outro passo porque então a responsabilidade não será minha. Talvez você não saiba quem sou!”.

Buda disse, “Você sabe quem você é?”.

Angulimal disse, “Isso não tem importância. Esse não é o lugar nem a hora para discutir tais coisas. Sua vida está em perigo!”.

Buda disse, “Penso de outra maneira – sua vida é que está em perigo”.

Esse homem disse, “Eu costumava pensar que era louco – você é simplesmente louco. E você continua chegando mais perto. Assim não diga que matei um homem inocente. Você parece tão inocente e tão bonito que quero que você volte. Encontrarei outra pessoa. Posso esperar; não há nenhuma pressa. Se já consegui novecentos e noventa e nove... é somente mais um, mas não me force a matá-lo”.

Buda disse, “Você está absolutamente cego. Você não pode ver uma simples coisa: Eu não estou me movendo na sua direção, você está se movendo na minha direção”.

Angulimal disse, “Isso é pura maluquice! Qualquer um pode ver que você está vindo e eu estou parado sobre minha rocha. Não me movi nem uma polegada”.

Buda disse, “Bobagem! A verdade é, desde o dia que me tornei iluminado não me movi mais nem uma simples polegada. Estou centrado, totalmente centrado, nenhum movimento. E sua mente está continuamente se movendo em círculos... e você tem a coragem de me mandar parar. Pare você! Eu já parei muito tempo atrás”.

Angulimal disse, “Parece que você é impossível, você é incurável. Você está fadado a ser morto. Irei sentir muito, mas que posso fazer? Nunca tinha visto um homem tão doido”.

Buda chegou muito perto, e as mãos de Angulimal estavam tremendo. O homem era tão belo, tão inocente, tão infantil. Ele já estava apaixonado. Ele matou tanta gente... Ele nunca tinha sentido essa fraqueza; ele nunca tinha conhecido o que é amor. Pela primeira vez ele estava cheio de amor. Assim havia uma contradição: a mão estava segurando uma espada para matar a pessoa, e seu coração estava dizendo, “Ponha a espada de volta na bainha”.

Buda disse, “Estou pronto, mas porque suas mãos estão tremendo? – você é um grande guerreiro, até mesmo os reis temem você, e sou apenas um pobre mendigo. Exceto a tigela de esmolas, não tenho mais nada. Você pode me matar, e me sentirei imensamente satisfeito de que pelo menos minha morte realiza o desejo de alguém; minha vida tem sido útil, minha morte também tem sido útil. Mas antes que você corte minha cabeça tenho um pequeno desejo, e acho que você me concederá um pequeno desejo antes de me matar”.

Diante da morte até mesmo o maior inimigo tem boa vontade de realizar qualquer desejo.

Angulimal disse, “O que você deseja?”

Buda disse, “Quero que você apenas corte da árvore um galho que esteja cheio de flores. Nunca mais verei essas flores novamente; quero ver essas flores bem de perto, sentir a fragrância delas e sua beleza nessa manhã ensolarada, a glória delas”.

Então Angulimal cortou com sua espada todo um galho cheio de flores. E antes que ele pudesse dá-lo a Buda, Buda disse, “Isso era somente metade do desejo; a outra metade é, por favor, ponha o galho de volta na árvore”.

Angulimal disse, “Eu achava desde o começo que você era maluco. Agora este é o desejo mais louco. Como é que posso colocar esse galho de volta?”

Buda disse, “Se você não pode criar, você não tem o direito de destruir. Se você não pode dar vida você não tem o direito de dar morte para nenhuma coisa viva”.

Um momento de silêncio e um momento de transformação... A espada caiu de suas mãos. Angulimal jogou-se aos pés de Gautama Buda e disse, “Não sei quem você é, mas quem quer que seja, leve-me para o mesmo espaço onde você se encontra, me inicie”.

Nesse momento os seguidores de Gautama Buda chegaram cada vez mais perto. Vendo que agora Buda estava de pé na frente de Angulimal, não havia nenhum problema, nenhum receio, embora ele precisasse só de um dedo. Eles ficaram ao redor e quando ele caiu aos pés de Buda eles imediatamente se aproximaram. Alguém levantou a questão, “Não inicie esse homem, ele é um assassino. E ele não é um assassino qualquer; ele assassinou novecentos e noventa e nove pessoas, todos inocentes, todos estrangeiros. Eles não fizeram nada de errado a ele. Ele nunca os tinha visto antes!”

Buda disse novamente, “Se eu não iniciá-lo, quem irá fazê-lo? E amo esse homem, amo sua coragem. E posso ver tremendas possibilidades nele: um simples homem lutando contra o mundo inteiro. Quero esse tipo de pessoa, que pode enfrentar o mundo inteiro com uma espada; agora ele irá enfrentar o mundo com uma consciência que é muito mais afiada do que qualquer espada. Eu lhes disse que um assassinato estava para acontecer, mas não tinha certeza de quem iria ser assassinado – Ou eu iria ser assassinado, ou Angulimal. Agora vocês podem ver que Angulimal foi morto. E quem sou eu para julgar?”

Ele iniciou Angulimal.

A questão não é se alguém merece ou não. A questão é se você possui a consciência, a abundância de amor – assim o perdão irá surgir dele espontaneamente. Isso não é um cálculo, isso não é aritmética.

Vida é amor, e viver uma vida de amor é a única vida religiosa, a única vida de oração, paz, a única vida de gratidão, grandeza, esplendor."
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(Osho. The Great Pilgrimage: From Here to Here, chapter 24 )

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Oração...

"Ensina-me, Sem Nome, a não querer como se perdesse, quando perdesse, se perdesse. Obriga-me a desaprender a só querer à beira do precipício, sempre num começo que não se faz, sempre com o gosto do fim na boca, sempre com o travo da imposibilidade na língua. Faz de mim, Sem Nome, a regeneração do que brota e não morre antes que a vida ascenda da terra, antes que do sol conheça o calor, ou que assim que o conheça volte ao útero da espera na escuridão. Dá-me, Sem Nome, o querer compossível, o não fugidio e efêmero, o que se perfaz além do instante, além do que a vista possa conceber como agora. Permita-me, Sem Nome, que eu queira o que anoiteça e amanheça, que eu saiba fazer a minha espera com mais que um vazio nos braços e um olhar no que não alcanço, que eu não me perca na memória do gesto que fica e reverbera, mais do que no toque que se personifica, nem no triste fio frágil do que não tece além do que foi. Alcança-me, Sem Nome, vira-me pelo avesso de mim, traz-me à terra, fere-me as asas, planta-me os pés, dá-me olhos para o mundo, esse que não quero, esse que não vejo com minha alma de fogo e cinzas."

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(Patricia Antoniete)

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Inconsciente...

"Tinha vantagens não saber do inconsciente, vinha tudo de fora, maus pensamentos, tentações, desejos. Contudo, ficar sabendo foi melhor, estou mais densa, tenho âncora, paro em pé por mais tempo. De vez em quando ainda fico oca, o corpo hostil e Deus bravo. Passa logo. Como um pato sabe nadar sem saber, sei sabendo que, se for preciso, na hora H nado com desenvoltura. Guardo sabedorias no almoxarifado."
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(Adélia Prado)

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Minto...

“Crer é errar. Não crer de nada serve.”
- Fernando Pessoa

"Isto que já começo a dizer é emprestado, estou mentindo. A cara, a boca, a mão, não são as minhas. E não é demais avisar que já começo a falar com o orgulho disfarçado de quem acredita saber algo a mais. Mas importa pouco. Essa coisa a que temos por hábito chamar de verdade, não a conhecemos ou vemos, tão menos nos pertence. Apenas ocorre que estamos acostumados a elas como ao rosto de nossas mães. A vergonha que eu quase sinto por fingir, desconfio que ela seja falsa – a ética, tal verdade, é repetidamente inventada. Invenções, elas são previsíveis e quase sempre adiáveis, elas mesmas, por si, tão pouco importantes. Mas a mentira é isso que já temos desde o começo – ela nos poupa de um esforço a mais e o velho hábito é condescendente.

Digo-o apenas para explicar que aceito de bom grado, então, o que me for diverso do acerto. É preciso notar que, de fato, eu desejaria alguma outra coisa que não o engano, mas na falta disto outro, o erro está bem.

Sei também, desde agora, a mentira que já vais me contar em resposta, e sei que ela será anunciada com o mesmo orgulho que tento velar. Vejamos: enganadores, nós não estamos sós. (Já disse que minto)."
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(Fábio Rodrigues)

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Felicidade...

"Sou feliz só por preguiça.
 A infelicidade dá uma trabalheira pior que doença:
 é preciso entrar e sair dela, afastar os que nos querem consolar,
 aceitar pêsames por uma porção da alma que nem chegou a falecer."
(Mia Couto)

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Suflê de queijo...

“Foram exatos 732 dias tentando esquecer uma pessoa. Durante esse tempo, a sociedade – que, para mim, se resume a alguns membros da minha família sanguínea, dois ou três filmes e meus poucos e queridos amigos – parecia me dizer em coro que nosso amor era autodestrutivo, doentio e sem futuro. E esquecê-lo era o mais sensato e melhor a fazer. ´Olha , Mantraman, e nem amor era...´ Para esquecer, lancei mão de todos os artifícios que estavam ao meu alcance: falar com Deus, consultar oráculos, meditar, ir uma vez por semana ao Zoológico, psicoterapia, atidepressivos, vida regrada, outra pessoa, tudo em vão.
Acho que já falei isso aqui, não lembro. Em todo caso vou repetir: o verdadeiro herói se diverte sozinho. A solidão é a nobre arte de saber como lidar com os nossos mais íntimos e sagrados excrementos – as lágrimas, o sangue mestrual, o sêmen. É não esperar que ninguém venha arrumar sua cama, lavar sua louça, pagar suas contas, dividir suas intransferíveis dúvidas.

Depois de viver aquele amor inesquecível, estou comigo mesmo e, querem saber?, enquanto Deus não se comunicar, vou seguir por essa estrada, me contentando em não ter de responder a perguntas como “aonde é que você foi ontem?”

Algumas pessoas parecem preocupadas comigo. Não sabem da intensa felicidade que é a solidão. “Ah, Mantraman, não acha que é uma opção meio amarga?” Não sabem. Fui feliz um dia com alguém. Foram na verdade, alguns dias. Em todos os outros dias, me imaginava sozinho. E era um doce filme, cheio de esperança e luz, que se passava na tela de minha cabeça. Hoje estou nesse filme, e ele tem se mostrado muito mais sedutor e surpreendente do que eu havia imaginado, é claro que vez por outra recebo a visita da dúvida: por que não me apaixonar por alguém, viver feliz para sempre e ter um cachorrinho chamado Totó? Uma das respostas que sempre vêm é que, apesar de o amor ser lindo e tudo mais, ele dá muito trabalho. Atualmente, estou atrás de um ócio sereno, de uma preguiça míope.

Só os escassos de imaginação e os pobres de espírito perdem tempo a procura de uma felicidade estável, permanente. Eu procuro sofrer menos e sempre me consulto: “ E aí Mantraman, pipoca no abismo ou caramelo no paraíso?” Sei que é pouco provável que consiga esquecê-la, ou que nosso amor volte. O tempo é um deus que sabe muito bem como deixar o passado em seu devido lugar. Enquanto espero por sua passagem, procuro uma receita de suflê de queijo. Alguém sabe alguma?”
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(Por Tenzin Chopel.)

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

O Poeta...

"O Poeta violenta o silêncio conformado.
Cega com outra luz a luz do dia.
Desassossega o mundo sossegado.
Ensina a cada alma a sua rebeldia..."
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(Albino Santos)

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Dever...

"O dever de todas as coisas é ser uma felicidade." (Borges)

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Singeleza...

Ele, guri altivo e garboso, indica sinal de parada ao ônibus no ponto de seu bairro, à espera de subi-lo em direção ao último dia de trabalho da semana na manhã aprazível e ensolarada de sexta-feira, aguardando a alforria merecida do feriado vindouro.
Sobe os altos degraus do veículo guarnecido de mochilas e bonitas sacolas de shopping. Total em seus movimentos, como se da nobreza fosse, vaidoso e presumido, reflete em seu sóbrio sorriso e seu olhar quase malicioso, o porte de quem se encontra acima do bem e do mal e de todas as coisas deste mundo, como se chegado às portas do Templo tivesse; sentindo-se merecedor exclusivo da atenção de todos naquele ônibus unicamente por sua chegada; pensando o por quê não havia conseguido um bom carro até então para dali estar bem distante.
Ao transpassar a catraca...
Perde a linha e todo seu ar posudo ao tropicar no sacolejo do busão, caindo deselegantemente com toda a tralha que carregava em frente à audiência em silêncio no bumba.
Ri como se tivesse graça. Ri pra desfarçar a miséria. Ri como se não doessem os joelhos e o ego soberbo reduzido a cocô do cavalo do bandido.
Sorri em falso. Sente vergonha da patuléia imóvel; conhecidos de tantas e tantas manhãs que não se conheciam.
Agora sim, era merecedor de toda a atenção que exigiu nas entrelinhas do alto do seu orgulho besta. No momento, apenas gostaria de se teletransportar pro Alasca, de voltar no tempo, de ser ajudado. Esqueceu da pompa e do porte, no tempo suficiente entre a queda e o recolher de seus pertences ainda agachado, a transformar o rei na barriga em súdito comum a desaparecer entre os tantos outros que ali viajavam.
Um breve momento significativo em sua pálida existência.
Recolheu-se em uma cadeira vaga no canto direito ao fundo e encolheu-se.
Pensou, refletiu, sopesou, porém mais absorveu por sentir, por doer, por calar a falsa grandeza de si mesmo.
Talvez daí, passaria a ser solicito, com o nariz abaixo da linha do horizonte. Talvez daí, passaria a olhar com mais singeleza...
Talvez daí, um outro homem levantasse.
Mudanças.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

E só tenho...

"Se um gesto me definisse seria o de te afastar o cabelo para te ver melhor
o rosto que me enche de bravura
e só te vejo pelos meus olhos por serem os que te vêem mais bela
por isso os escolho sempre
tenho os olhos feitos à medida da tua cara
e só tenho olhos para ti
quando não estás sou invisível e quase invisual
a visão não me serve de nada
vejo mas sem cor e é pior que a preto e branco
é desfocado
é esbatido
e sem chama
e sem cheiro
contigo cheira bem
sabe bem
ouve bem o que digo porque é sincero
porque se não fosse todo eu era falso
cada falso que há aí merecia cadeia ou morte
mas com os teus braços finos a fazer as vezes da corda que me serpenteia o pescoço
[para me matar de felicidade
e só te quero a ti
e só te vejo a ti como a última noite do Verão mais quente
com o céu mais estrelado
com a lua mais cúmplice
com os gestos mais carinhosos
e tiro-te o cabelo da frente com a ajuda da minha mão direita que só existe para isso
e vou para te beijar mas não o faço
hesito porque os meus olhos pediram-me que os deixasse olhar para ti mais uma vez
e eu deixo
para eles não chorarem muito"
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(João Negreiros)

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

A Invisibilidade do Privilégio...

Você é um privilegiado?

Um dos corolários positivos da ética de trabalho protestante aqui nos Estados Unidos é que ninguém tem medo de se dizer rico. De fato, ser rico é uma prova de que você trabalhou duro, fez tudo certo e tem Deus do seu lado. Se, por um lado, essa cultura estigmatiza e quase criminaliza a pobreza (afinal, em uma sociedade "perfeitamente meritocrática" onde "todos têm chances iguais" só os mais ineptos e preguiçosos vão ser pobres), por outro ela institucionaliza a filantropia. Ao se definir como rico, o indivíduo também se percebe como privilegiado (ainda que por merecimento) e, consequentemente, existe uma certa percepção de obrigação de ajudar os menos privilegiados. 

Não se conhece milionário americano que não doe parte significativa de sua fortuna para fins filantrópicos. Entre os americanos classe média que conheço, tanto de esquerda quanto de direita, tanto reacionários quanto progressistas, todos doam muito do seu tempo e alguma parte de sua renda para projetos assistenciais e filantrópicos. Nos EUA, o dinheiro é visto como recompensa por trabalho duro mas também, no melhor estilo Homem-Aranha, como uma espécie de super-poder que traz consigo algumas responsabilidades.

A situação no Brasil não poderia ser mais diferente. Nossa cultura católica ao mesmo tempo em que estimula uma certa ostentação da riqueza (comparem uma igreja católica e uma luterana), também estigmatiza a riqueza como um pecado mortal. Aqui, uma grande fortuna é sempre suspeita: no imaginário popular, o milionário não é alguém que trabalhou mais duro do que todos, mas provavelmente um grande corrupto, um bandido, alguém com esqueletos no armário.
Na década de 80, quando meu pai ia me buscar no colégio com carros que nem o mais milionário dos brasileiros tinha, o xingamento que os colegas me gritavam era: "filho de bicheiro". Sem entrar no mérito da honestidade ou não da fortuna do meu pai, a primeira reação instintiva do brasileiro ao ser confrontado com riqueza desproporcional é sempre associá-la à contravenção, não ao trabalho.

A classe média-alta brasileira fica presa num paradoxo esquizofrênico no qual ela se vê obrigada a reclamar de falta de dinheiro o tempo todo ("esses impostos escorchantes!" etc) ao mesmo tempo em que não pode deixar de trocar de carro todo ano, senão pega mal na firma ("o que é que vão pensar de mim!" etc).

Ninguém é rico no Brasil. 

Eu, que sempre fui educado pra saber que era rico, que tinha privilégios que quase ninguém teve e que esses privilégios traziam certas obrigações (entre elas, a de não ostentar), ficava constantemente chocado de conversar com amigos igualmente ricos e perceber que nenhum deles se considerava rico. Nenhum. Aliás, a palavra era feíssima.

Diálogo verídico acontecido em uma lancha de 40 pés em Angra. Estou conversando com meu amigo, menciono en passant que somos os dois ricos ("porque nós os ricos" etc) e ele pára tudo, corta a frase no meio, interrompe o assunto e diz que não, imagina!, ele e sua família não são ricos! E eu, só não mais surpreso por essa denegação ser tão comum, respondo:

"Mas João Paulo! Acabamos de sair de sua casa com pier que vale sei lá quantos milhões, estamos na sua lancha de 40 pés que você acabou de trocar ano passado e estamos indo pra um restaurante em uma ilha comer um almoço que provavelmente vai custar mais de mil reais! Como é que você não é rico?!"

E começam os malabarismos verbais:

"Bem, você veja, não somos ricos, meu pai trabalhou muito, mas é assalariado, conseguiu economizar, temos um certo conforto, é verdade, mas não somos ricos."

Por fim, o abacaxi é fatalmente passado adiante:

"Rico é o Carlos Eduardo, que tem um iate de 60 pés e é dono da própria ilha. Ele sim é rico, Alex."

Podem ficar certos de que, mais tarde, Carlos Eduardo também negou peremptoriamente ser rico. Pra ele, sua família também tinha tido a sorte de uma vida confortável, estavam "bem", sabe?, mas rico mesmo era um outro amigo nosso, o Luis Felipe. Infelizmente, não lembro mais o que o Luis Felipe possuía para marcá-lo como rico. Talvez Belize.

O Peixe e a Água

Enfim, sei bem que a maioria dos leitores não está nesse nível de privilégio - muito menos eu, que hoje sou pobre de marré-de-si e tive que vir pro exterior pra conseguir ganhar a vida, com uma bolsa de estudos que me coloca bem pouco acima da linha de pobreza oficial nos EUA. 

E, apesar de ter demonstrado no parágrafo anterior que sou fluente no discurso chorador-de-miséria da classe média, eu ainda assim tenho uma noção profunda da extensão dos meus privilégios.

Mas entendo porque meus amigos ricos não se achavam ricos. Pelo mesmo motivo, nossa elite não se vê como elite e nossos privilegiados não se vêem como privilegiados. Ou, como disse a Lola, por exemplo, os homens não entendem que é um privilégio não ter medo de morrer quase diariamente.

Quando você cresce rodeado por algo - nesse caso, privilégio - aquilo vira a regra contra a qual o mundo é comparado. Nossa vida é sempre a normal, ou melhor, a normativa: as outras é que são menos ou mais alguma coisa.

Além disso, a maioria das pessoas olha pra cima, e não para baixo: compram a Caras e assistem programas de fofocas pra saber como é a vida dos ricos e dos famosos, mas evitam cruzar olhares com o mendigo da rua ou com o pivete do sinal e, com certeza, nunca pararam para conversar com eles e ouvir suas histórias.

Então, o processo funciona mais ou menos assim: você evita os mais pobres (por serem francamente desagradáveis, não?), considera sua vida normativa, e só conhece em detalhes as rotinas dos mais ricos. Resultado: você não se acha nem rico nem privilegiado nem de elite; privilegiado é o Luciano Huck, que tem uma jacuzzi em cada cômodo da casa! Sério, eu vi na Caras.

Por outro lado, pergunte às pessoas que trabalham de voluntários em favelas: a cada vez que saem de lá, se sentem privilegiadas somente por ter água encanada!

Por isso, no post original pedindo a reflexão sobre o privilégio, eu pedi que vocês se comparassem com quem tem menos, e não com quem tem mais. Depois de ler o depoimento do leitor Josué sobre as dificuldades que enfrentou por ser negro, o Henrique comentou:

Me sinto bem aceito e adequado a frequentar qualquer espaço, entrar em qualquer loja, qualquer sala de professor, perguntar o que eu quiser e costumo ser bem tratado. Vejo que negros não gozam desse 'respeito automático'. Só fica um pouco difícil ver como privilégio uma coisa que me parece tão natural, a impressão é de que isso falta a eles e não que sobra para nós... É uma impressão logo destruída pelos primeiros raciocínios, mas que existe... 

O peixe não enxerga a água justamente por ter vivido toda a sua vida rodeado por ela: só dá por sua falta quando está se debatendo no convés do barco.

Convido meus leitores a tentarem perceber a água que os rodeia *antes* de chegarem no convés - antes que as consequências das desigualdades sociais brasileiras explodam em suas caras.

O principal objetivo desses textos é fazer com que você desnaturalize tudo o que lhe parecia mais natural.
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(Alex Castro)

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Pudera eu...

"Ah! Pudera eu
empurrar o tempo
dissolver distâncias e silêncios,
acender a noite onde me deito
como uma pálpebra de luz
que adormece devagar.

Ah! Pudera eu
colher toda a luz
que o crepúsculo guarda no teu corpo
até que um sopro ancestral
irrompa das flautas matinais…

Ah! Pudera eu
abraçar as tuas palavras dentro das minhas,
tecer com elas a forma exacta do teu corpo,
adormecer o medo
na ternura dos teus olhos
para sentir o prazer
de caminhar nas brisas interditas,
que fazem as delícias de lábios sequiosos…"
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(Albino Santos)

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Encantação...

"Eu te conheço até o osso por intermédio de uma encantação que vem de mim para ti.
Só há uma coisa que me separa de você: o ar entre nós dois. Às vezes para ultrapassar esse quase cruel afastamento, eu respiro na tua boca que então me respira e eu te respiro. Mas só por um único instante, senão sufocaríamo-nos: seria o castigo que se recebe quando um tenta ser outro."
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(Clarice Lispector)

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Amor...

"Todo encontro genuíno de amor é também o encontro de duas pessoas que conseguem ouvir a música uma da outra e sentir alegria e descanso com aquilo que ouvem. Conseguem ouvir, não importa quantos ruídos tenham inventado pelo caminho, tantas vezes para se proteger da dor afastando a vida."
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(Ana Jácomo)

O amor é outra coisa...

O amor não surge de repente numa esquina e te chacoalha todo.
O nome disso é trombadinha.
O amor é outra coisa.

O amor não inunda a sua vida e vira tudo de cabeça pra baixo.
O nome disso é tsunami na Samoa.
O amor é outra coisa.

O amor não rejuvenesce.
O nome disso é peeling.
O amor é outra coisa.

O amor não traz paz de espírito.
O nome disso é coma.
O amor é outra coisa.

O amor não nos torna mais felizes.
O que faz isso é Prozac.
O amor é outra coisa.

O amor não deixa tudo mais florido.
O nome disso é adubo.
O amor é outra coisa.
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via @naoehamor

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Ojos de Brujo...



"y un descuido del pasado tal vez mejore el presente..."

Claridade...

"Deveria chamar-te claridade
Pelo modo espontâneo
Franco e aberto
Com que encheste de cor meu mundo escuro..."
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(Vinicius de Moraes)

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Você é apenas um menino...

"Você é um menino. Treze, catorze anos. Inseguro, tímido. Começa a se interessar pelas mulheres. E não vai demorar para perceber que mulheres e problemas aparecem juntos em sua vida. Você não sabe lidar com o mundo novo no qual está entrando. Sua voz está mudando. Os pêlos estão aparecendo. O futebol já não é seu único interesse. Aparecem os primeiros bailes. Você não sabe direito que roupas escolher. As sugestões de sua mãe lhe parecem horríveis. Mãe nunca acerta na roupa do filho, uma lei tão velha e tão eterna quanto as estrelas no céu e as ondas no mar. Ser criança era muito mais fácil.

E então você olha para os garotos um pouco mais velhos. Eles estão nas classes um ou dois ou três anos mais adiantadas que a sua. Seu olhar mistura admiração e inveja. Eles parecem tão seguros. Tão confiantes. Alguns ameaçam um bigode, uma barba. A voz já está definida. E as meninas da sua classe estão apaixonadas por eles, não por você. Eles são mais altos que você. Eles são melhores que você. Já devem até ter dormido com alguma menina. E você jamais viu uma mulher nua que não fosse sua mãe ou não estivesse numa revista. Eles se libertaram daqueles programas sem graça com a família. Mas seu dia chegará. Os dias hão de passar. Você vai crescer e seus problemas desaparecerão. Você será um homem firme, forte, como os caras mais velhos.

E eis que você é como eles. Os caras maiores que você via de longe. Você imaginava que sua vida seria outra. Mas não foi bem assim. Você cresceu, sua voz engrossou. Você até viaja sozinho, sem os pais, com os amigos. A virgindade ficou para trás, mas você já percebeu que o sexo não é o fenômeno extraterrestre que você pensava ser antes de experimentá-lo. É bom, às vezes muito bom, algumas vezes ótimo. Mas não é coisa do outro mundo. A terra não treme sempre ao fazer sexo, ao contrário do que você sonhava. Você já é um homem. Ou quase um homem. E pensava que a segurança máscula viesse com o tempo, com a mesma naturalidade com que a terra se molha quando vem a chuva. Mas não.

Seu dia chegará. E então você olha para os homens feitos. Formados, empregados. Alguns casados. Eles, sim, são os típicos homens. Basta olhar para o andar seguro, o olhar firme. Eles não têm dúvidas, não têm medos como você. Os mais ricos têm carros chiques. Pagam com cartão de crédito, e não com o dinheiro pedido a seu pai, como você. Uns vestem gravatas que devem valer duas mesadas suas. Alguns têm um cartão em que estão escritos o nome e o cargo. Nada parece ser capaz de abalá-los. Eles não sentem vontade, nas noites mais escuras, de pedir um refúgio na cama dos pais. Você sente, às vezes. Seja honesto: você fez isso outro dia.

Seu dia chegará. E chegou. Você se formou. Arrumou um emprego promissor. Tem um cartão profissional. O carro podia ser melhor, mas é bom. Tem ar-condicionado e som. O namoro é firme. Deve terminar em casamento. Seu armário tem até um blazer Armani que você comprou num momento de entusiasmo e desvario. Mil reais. Você parece o cara mais seguro do mundo, como todos os seus colegas e amigos. Mas só parece. Lá dentro continua uma criança, como todos os seus colegas e amigos. Todos disfarçam bem. Todos aprenderam que ser homem é ser forte. Você queria gritar socorro, mas não convém demonstrar fraqueza. Você queria se abrigar no colo de seu pai, mas ele já não está lá. E então você ri, porque a vida é mesmo engraçada, repleta de crianças fingindo-se de homens até o último dos dias."
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(Fabio Hernandez)