sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

O primeiro Amor...

É fácil saber se um amor é o primeiro amor ou não. Se admite que possa ser o primeiro, é porque não é, o primeiro amor só pode parecer o último amor. É o único amor, o máximo amor, o irrepetível e incrível e antes morrer que ter outro amor. Não há outro amor. O primeiro amor ocupa o amor todo. Nunca se percebe bem por que razão começa. Mas começa. E acaba sempre mal só porque acaba. Todos os dias parece estar mesmo a começar porque as coisas vão bem, e o coração anda alto. E todos os dias parece que vai acabar porque as coisas vão mal e o coração anda em baixo. O primeiro amor dá demasiadas alegrias, mais do que a alma foi concebida para suportar. É por isso que a alegria dói – porque parece que vai acabar de repente. E o primeiro amor dói sempre demais, sempre muito mais do que aguenta e encaixa o peito humano, porque a todo o momento se sente que acabou de acabar de repente. O primeiro amor não deixa de parte um único bocadinho de nós. Nenhuma inteligência ou atenção se consegue guardar para observá-lo. Fica tudo ocupado. O primeiro amor ocupa tudo. É inobservável. É difícil sequer reflectir sobre ele. O primeiro amor leva tudo e não deixa nada.

Não há amor como o primeiro. [...] O primeiro amor é uma chapada, um sacudir das raízes adormecidas dos cabelos, uma voragem que nos come as entranhas e não nos explica. Electrifica-nos a capacidade de poder amar. Ardem-nos as órbitas dos olhos, do impensável calor de podermos ser amados. Atiramo-nos ao nosso primeiro amor sem pensar onde vamos cair ou de onde saltamos. Saltamos e caímos. [...] O primeiro amor está para além das categorias normais da dor e do prazer. Não faz sentido sequer. Não tem nada a ver com a vida. Pertence a um mundo que só tem duas cores – o preto-preto feito de todos os tons pretos do planeta e o branco-branco feito de todas as cores do arco-íris, todas a correr umas para as outras. Podem ficar com a ternura dos 40 e com a loucura dos 30 e com a frescura dos 20 – não outro amor como o doentio, fechado-no-quarto, o amor do armário, com uma nesga de porta que dá para o Paraíso, o amor delirante de ter sempre a boca cheia de coração e não conseguir dizer outra coisa com coisa, nem falar, nem pedir para sair [...] Não há paz de alma, nem soalheira pachorra de cafunés com champagne, que valha a guerra do primeiro amor, a única em que toda a gente morre e ninguém fica para contar como foi. Não há regras para gerir o primeiro amor. Se fosse possível ser gerido, ser previsto, ser agendado, ser cuidado, não seria primeiro.
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(Miguel Esteves Cardoso)

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Regressar...

"Tens medo de fazer amor comigo?
-Tenho-respondeu ele.
-Por eu ser preta?
-Tu não és preta.
-Aqui, sou.
-Não, não é por seres preta que tenho medo.
-Tens medo que eu esteja doente...
-Sei prevenir-me.
-É porquê, então?
-Tenho medo de não regressar. Não regressar de ti."

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(Mia Couto. Venenos de Deus, Remédios do diabo)

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Vida Besta...

Imagine-se muito, mas muito rico. Com um volume de dinheiro além de qualquer capacidade de compreensão. Tanto, mas tanto dinheiro que você seria capaz de comprar o que quisesse, quando quisesse.

Não, não, não. Acho que não estou conseguindo me fazer entender. É de muito mais dinheiro que eu estou falando. Um patrimônio maior do que o PIB de alguns países. E um razoável – mas não total – tempo livre. Sem nenhuma restrição ou condição. O que você faria? Se um deles fosse você no futuro, o que perguntaria? O que demandaria?

Com essa idéia em mente quero propor novas formas de pensar para 2010.

Acredito que a verdadeira pergunta cuja resposta vale um milhão de dólares seja: “o que você faria DEPOIS de ganhar um milhão de dólares?”. Ou alguns bilhões, para nosso exercício teórico tanto faz. Pode ser que você já tenha nascido muito rico, pouco importa. Imagine-se agora transportado para uma ou duas décadas depois, sentado em uma mesa agradável, com uma bela vista, conversando com seus amigos. Ah! Esqueci de contar que não foi só você que ficou milionário.

Perdeu um pouco a graça? Natural. Depois de alimentado e protegido, nada mais humano que a busca por outros tipos de bens que agreguem status e experiência. É essa procura constante que nos mantém em movimento, ágeis e compenetrados. O Taoísmo defende que o caminho é mais importante do que o destino, e mesmo a fé das três grandes religiões monoteístas está muito mais concentrada na busca pelo paraíso do que nas coisas a fazer uma vez chegado lá. Vale lembrar que o Kama Sutra diz o que se deve fazer por aqui e que o Corão é bastante discreto quanto às atividades no Houris.

Por mais que muitas estratégias mercadológicas tentem dizer o contrário, o prazer na busca é considerado bem maior do que o da conquista, fato visível nas mais variadas atividades sociais: a torcida pelo esportista mais fraco, a admiração pelos que subiram na vida, a busca pela superação de obstáculos, a conquista amorosa… não faltam exemplos de paraísos cotidianos, muitas vezes só descobertos através de uma dolorida nostalgia.

De volta à mesa de reminiscências, a conversa pode até tocar em um ou outro bem material, mas apenas por valor informativo, já que todos são, feito corretores yuppies de Wall Street nos anos 90, belos, jovens e ricos.

A conversa à mesa, então, voltar-se-ia para aquilo que cada um tem de único: suas experiências. À medida que dinheiro não é mais um problema, as lembranças das viagens, restaurantes, livros, filmes, eventos e músicas deve ser inesquecível, não? Não. Para sua surpresa, ela é tediosa, monótona. Quando se tem acesso fácil a praticamente tudo, a conquista perde a graça e tudo o que sobra são reações mecânicas, primitivas, quase brutais para satisfazer o corpo e anestesiar o cérebro.

Como eu sei? Porque estou lá. Você, a propósito, me faz companhia.

Comecei a pensar no assunto quando fui à Arábia Saudita, no ano passado. Em conversas com colegas de trabalho, o assunto caiu naturalmente no modo de vida de um Sultão do Najd ou do Hejaz, com seus palácios, carrões de luxo, barcos e aviões. Na minha imaginação, mesmo sem os tapetes voadores, eles ainda deveriam viver grandiosamente. Pois foi com espanto que soube de várias histórias de depressão, tédio, ignorância ou isolamento. Claro que sempre tinha um ou outro que dava um pulinho em Londres fazer a festa da Harrods antes que os chineses tomem conta, mas em geral, eles eram bem menos felizes do que eu imaginava.

Na hora me lembrei de um trecho do poema “Tabacaria“, escrito pelo Tio Fernando Pessoa, versão Álvaro de Campos:

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo
Que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses
Nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade
De tudo isso sem fazer nada disso);

Faz sentido. Mas não vou entrar nos detalhes daqueles meninos pobres que se descobrem artistas, fazem o maior sucesso, se enchem de tudo que é tipo de psicotrópicos (para ver se o cérebro pega no tranco, talvez) e depois largam tudo e viram Baby Consuelo porque isso tudo é muito, muito manjado.

Toco no assunto porque chafurdamos em uma era de abundância sem precedentes. Aquilo que era privilégio de reis e dos muito ricos hoje pode ser encontrado na prateleira de um supermercado, entregue em casa ou baixado em alguns segundos se a conexão for larga o bastante. Nunca se viveu tanto nem se teve acesso a tanto conhecimento. Aulas das universidades mais prestigiadas fazem companhias a podcasts de museus e institutos de pesquisa e quase ninguém os baixa. Tutoriais para qualquer coisa estão disponíveis nos Youtubes, mas são ofuscados por vídeos de crianças dopadas ou gatos tocando piano. Em busca de emoção, muitos deixam seu cotidiano ruir enquanto mergulham em sagas psicodélico-medievais enquanto outros fecham os olhos e fingem que são invisíveis, enquanto desenvolvem fetiches obsessivos por qualquer coisa que não seja real.

Hoje, que todos somos ricas celebridades, nunca foram tantos os casos de depressão, alcoolismo, desperdício, alienação, consumo desenfreado e dependência de todo tipo de substância alteradora da percepção em um cotidiano monótono e confuso. Participamos de um banquete suntuoso, do qual não parece haver muito do que se orgulhar. Vale ter isso em mente ao analisar as tendências que nos são oferecidas em belos pratos, por serviçais anônimos.
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(Luli Radfahrer)


"O tédio é simplesmente o pólo oposto da iluminação. Os animais não podem tornar-se iluminados, por isso eles não podem tornar-se entediados tampouco. O tédio simplesmente mostra que você está se tornando ciente da futilidade da vida, da constante roda repetitiva. Você já fez todas aquelas coisas antes " nada acontece. Você esteve dentro de todas aquelas viagens antes " não deu em nada. O tédio é a primeira indicação de que uma grande compreensão está surgindo em você, sobre a futilidade, a insignificância, da vida e de seus caminhos. Ora, você pode responder ao tédio de duas maneiras. Uma é o que é feito comumente: fugir dele, o evitar, não olhar olho no olho dentro dele, não afrontá-lo. Mantenha-o às suas costas; e fuja; fuja para dentro das coisas que possam ocupá-lo, que podem tornar-se obsessões " que o mantenha tão afastado das realidades da vida, que você jamais vê o tédio surgir novamente. Eis porque as pessoas inventaram o álcool, as drogas. São meios de fugir do tédio. Mas você não pode realmente fugir; você pode somente evitar por um tempo. Nova e novamente, o tédio virá, e nova e novamente ele será cada vez mais e mais ruidoso. Você pode fugir no sexo, comendo muito, na música " em mil um uma espécies de coisas você pode fugir. Mas nova e novamente o tédio surgirá. Ele não é algo que possa ser evitado: ele faz parte do crescimento humano. Tem de ser encarado. A outra resposta é encará-lo, meditar nele, ficar com ele, ser ele. Eis o que Buda estava fazendo debaixo da árvore Bodhi " eis o que todo o povo do Zen esteve fazendo através das eras."
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(Osho)



domingo, 24 de janeiro de 2010

És...

"E desde então, sou porque tu és
E desde então és sou e somos...
E por amor
Serei...
Serás...
Seremos..."




(Pablo Neruda)

sábado, 23 de janeiro de 2010

Alma nua...

"Amar é ver a alma do outro nua e, por tudo o que se vê, apesar de tudo o que se vê, manter o olhar encantado e cuidadoso. O amor não precisa vestir motivos. O amor é nu."
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(Ana Jácomo)

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Meus monstros...

“Todo mundo tem segredos. Ou pelos menos as pessoas interessantes. Nada mais chato que alguém mapeado, retilíneo, constante, bonzinho, doce, amável. Para mim, só vale a pena quem tem um cadáver no armário, uma sombra perigosa, um poço fundo. Pessoas simplórias são como muitos dias de sol seguidos: agradáveis e infinitamente entediantes.
É a falta de obviedade desperta a curiosidade. Não é à toa que os mitos nascem da dualidade, da pouca incidência de clareza sobre sua personalidade: ninguém fica embasbacado pela simplicidade do seu Zé da quitanda (no máximo, enternecido). Somos fascinados pelo que não entendemos, amamos o desconhecido—por isso mergulha-se à noite, escala-se o Himalaia, come-se fora de casa. (...) Por isso os vilões são mais tesudos que os mocinhos: é só quando ultrapassamos a barreira do familiar, do seguro, que nos tornamos verdadeiramente pessoas. Menos ingênuas, é certo, mas completas.
Ter segredos é viver intensamente, é a prova de que a realidade é muito mais do que nossos forçados sorrisos de bom dia, o escritório claustrofóbico, o saldo negativo. Ter segredos é ter coragem de arcar com o peso de ser único. Porque quem não se arrisca, não faz besteira, não vive: apenas gasta o tempo que deveria ser aproveitado apaixonadamente. Apenas caminha sobre os dias rumo à morte.”
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(Ailin Aleixo)

Possui-la...



"Maravilhoso seria possuí-la,
mostrar-me todo e real a ela,
abrir à volúpia uma janela,...
o portão, a porta, a casa inteira,
até que se fizesse verdadeira,
alojando-se confortável ao coração.

E por ser assim profunda, então,
toda palavra se tornando obsoleta,
a felicidade fazendo-se completa;
mergulhados os corpos no silêncio,
faríamos amor, como hoje penso:
a paixão elevada, além da poesia

A prática conduzir-nos-ia ao cansaço
e este, ao mais perfeito deleite:
vê-la dormir, tal anjo ao abandono;
instante em que,... atrevido,
eu pararia o universo,
só pra evitar que alguma luz distante
pudesse, talvez, incomodar seu sono."
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(André L. Soares)

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Livro do autoconhecimento humano...

"sofremos até a página sete
amamos o próximo até a página três
temos certeza absoluta até a página dois
gostamos de peixe cru até a página nove
achamos a Julia Roberts bonita até a página cinco
conversamos como adultos até a página seis
pensamos na camada de ozônio até a página oito
acreditamos no ser humano até a página um
aceitamos o mundo como ele é até a página quatro
mas julgamos
julgamos sempre
pela capa."
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(Marcelo Ferrari)

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Nunca antes...

"nunca antes uma coisa
nem ninguém me
doeu tanto como eu
mesmo me dôo agora (...)"
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(Caio Fernando Abreu)

Logo...

São todos uns
apaixonados:

Os Santos. Os Psicopatas. Os artistas.

E todos vivem gripados
espirrando paixão nas
cruzes, cruzes
nas covas, covas
na alma.

Logo,
o amor existe.

Acontece que somos alérgicos.
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(Clarrissa Yemisi)

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Desassossego...

"Tudo me cansa, mesmo o que não me cansa. A minha alegria é tão dolorosa como a minha dor. Quem me dera ser uma criança pondo barcos de papel num tanque de quinta, com um dossel rústico de entrelaçamentos de parreira pondo xadrezes de luz e sombra verde nos reflexos sombrios da pouca água. Entre mim e a vida há um vidro ténue. Por mais nitidamente que eu veja e compreenda a vida, eu não posso lhe tocar. Raciocinar a minha tristeza? Para quê, se o raciocínio é um esforço? e quem é triste não pode esforçar-se. Nem mesmo abdico daqueles gestos banais da vida de que eu tanto quereria abdicar. Abdicar é um esforço, e eu não possuo o de alma com que esforçar-me. Quantas vezes me punge o não ser o manobrante daquele carro, o cocheiro daquele trem! qualquer banal Outro suposto cuja vida, por não ser minha, deliciosamente se me penetra de eu querê-la e se me penetra até de alheia! Eu não teria o horror à vida como a uma Coisa. A noção da vida como um Todo não me esmagaria os ombros do pensamento. Os meus sonhos são um refúgio estúpido, como um guarda chuva contra um raio. Sou tão inerte, tão pobrezinho, tão falho de gestos e actos. Por mais que por mim me embrenhe, todos os atalhos do meu sonho vão dar a clareiras de angústia. Mesmo eu, o que sonha tanto, tenho intervalos em que o sonho me foge. Então as coisas aparecem-me nítidas. Esvai-se a névoa de quem me cerco. E todas as arestas visíveis ferem a carne da minha alma. Todas as durezas olhadas me magoam o conhêce-las durezas. Todos os pesos visíveis de objectos me pesam por a alma dentro. A minha vida é como se me batessem com ela."



(Bernardo Soares)

domingo, 17 de janeiro de 2010

Calma, vai passar...

Olhe, não fique assim não, vai passar. Eu sei que dói. É horrível. Eu sei que parece que você não vai agüentar, mas agüenta. Sei que parece que vai explodir, mas não explode. Sei que dá vontade de abrir um zíper nas costas e sair do corpo porque dentro da gente, nesse momento, não é um bom lugar para se estar. (Fernando Pessoa escreveu, num momento parecido, "hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu")
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Dor é assim mesmo, arde, depois passa. Que bom. Aliás, a vida é assim: arde, depois passa. Que pena. A gente acha que não vai agüentar, mas agüenta: as dores da vida. Pense assim: agora tá insuportável, agora você queria abrir o zíper, sair do corpo, encarnar numa samambaia, virar um paralelepípedo ou qualquer coisa inanimada, anestesiada, silenciosa. Mas agora já passou. Agora já é dez segundos depois da frase passada. Sua dor já é dez segundos menor do que duas linhas atrás. Você acha que não, porque esperar a dor passar é como olhar um transatlântico no horizonte estando na praia. Ele parece parado, mas aí você desvia o olho, toma um picolé, lê uma revista, dá um pulo no mar e quando vai ver o barco já tá lá longe. A sua dor agora, essa fogueira na sua barriga, essa sensação de que pegaram sua traquéia e seu estômago e torceram como uma toalha molhada, isso tudo - é difícil de acreditar, eu sei - vai virar só uma memória, um pequeno ponto negro diluído num imenso mar de memórias. Levante-se daí, vá tomar um picolé, ler uma revista, dar um pulo no mar. Quando você for ver, passou.
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Agora não dá mesmo pra ser feliz. É impossível. Mas quem disse que a gente deve ser feliz sempre? Isso é bobagem. Como cantou Vinícius: "É melhor viver do que ser feliz". Porque pra viver de verdade a gente tem que quebrar a cara. Tem que tentar e não conseguir. Achar que vai dar e ver que não deu. Querer muito e não alcançar. Ter e perder.
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Tem que ter coragem de olhar no fundo dos olhos de alguém que a gente ama e dizer uma coisa terrível, mas que tem que ser dita. Tem que ter coragem de olhar no fundo dos olhos de alguém que a gente ama e ouvir uma coisa terrível, que tem que ser ouvida. A vida é incontornável. A gente perde, leva porrada, é passado pra trás, cai. Dói, ai, eu sei como dói. Mas passa.
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Tá vendo a felicidade ali na frente? Não, você não tá vendo, porque tem uma montanha de dor na frente. Continue andando. Você vai subir, vai sentir frio lá em cima, cansaço. Vai querer desistir, mas não vai desistir, porque você é forte e porque depois do topo a montanha começa a diminuir e o unico jeito de deixá-la pra trás é continuar andando.
Você vai ser feliz.
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Tá vendo essa dor que agora samba no seu peito de salto de agulha? Você ainda vai olhá-la no fundo dos olhos e rir da cara dela. Juro que tô falando a verdade. Eu não minto. Vai passar.
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(Antonio Prata)

sábado, 16 de janeiro de 2010

Sacanagem...

"O Amor é a verdadeira sacanagem". (Tom Jobim)

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Tende piedade de nós...

"Pelo Marcos Valério e o Banco Rural
Pela casa de praia do Sérgio Cabral
Pelo dia em que Lula usará o plural
Senhor, tende piedade de nós!

Pelo nosso Delúbio e Valdomiro Diniz
Pelo “nunca antes nesse país”
Pelo povo brasileiro que acabou pedindo bis
Senhor, tende piedade de nós!

Pela Cicarelli na praia namorando sem vergonha
Pela Dilma Rousseff sempre tão risonha
Pelo Gabeira que jurou que não fuma mais maconha
Senhor, tende piedade de nós!

Pelo casal Garotinho e sua cria
Pelos pijamas de seda do “nosso guia”
Pela desculpa de que “o presidente não sabia”
Senhor, tende piedade de nós!

Pela jogada milionária do Lulinha com a Telemar
Pelo espírito pacato e conciliador do Itamar
Pelo dia em que finalmente Dona Marisa vai falar
Senhor, tende piedade de nós!

Pela “queima do arquivo” Celso Daniel
Pela compra do dossiê no quarto de hotel
Pelos “hermanos compañeros” Evo, Chaves e Fidel
Senhor, tende piedade de nós!

Pela volta triunfal do “caçador de marajás”
Pelo Duda Mendonça e os paraísos fiscais
Pelo Galvão Bueno que ninguém aguenta mais
Senhor, tende piedade de nós!

Pela eterna farra dos nossos banqueiros
Pela quebra do sigilo do pobre caseiro
Pelo Jader Barbalho que virou “conselheiro”
Senhor, tende piedade de nós!

Pela máfia dos “vampiros” e “sanguessugas”
Pelas malas de dinheiro do Suassuna
Pelo Lula na praia com sua sunga
Senhor, tende piedade de nós!

Pelos “meninos aloprados” envolvidos na lambança
Pelo plenário do Congresso que virou pista de dança
Pelo compadre Okamotto que empresta sem cobrança
Senhor, tende piedade de nós!

Pela família Maluf e suas contas secretas
Pelo dólar na cueca e pela máfia da Loteca
Pela mãe do presidente que nasceu analfabeta
Senhor, tende piedade de nós!

Pela refinaria brasileira que hoje é boliviana
Pelo “compañero” Evo Morales que nos deu uma banana
Pela mulher do presidente que virou italiana
Senhor, tende piedade de nós!

Pelo MST e pela volta da Sudene
Pelo filho do prefeito e pelo neto do ACM
Pelo político brasileiro que coloca a mão na “m”
Senhor, tende piedade de nós!

Pelo Ali Babá e sua quadrilha
Pelo Gushiken e sua cartilha
Pelo Zé Sarney e sua filha
Senhor, tende piedade de nós!

Pelas balas perdidas na Linha Amarela
Pela conta bancária do bispo Crivella
Pela cafetina de Brasília e sua clientela
Senhor, tende piedade de nós!

Pelo crescimento do PIB igual do Haiti
Pelo Doutor Enéas e pela senhorita Suely
Pela décima plástica da Marta Suplicy
Senhor, tende piedade de nós!

Para que possamos ter muita paciência
Para que o povo perca a inocência
E proteste contra essa indecência
Senhor, dai-nos a paz!"

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Tudo vai dar certo...

Manuella, a mais nova de minhas três irmãs, tem quinze anos.
Todo mundo esperando aqui eu falar “ah, saudades de meus quinze anos”.

Porra nenhuma: quinze anos é uma idade foda.
É difícil. Eu sei que é.

Eu já estive lá.

E ela fez um post em seu magnífico blog, bem escrito como todos – e isso não é, em nada, uma concessão de minha parte, por conta do amor incondicional que sinto por minhas irmãs -, falando sobre essas dificuldades, sobre escolhas e sobre tudo o mais. Estive com ela há poucos dias e pudemos conversar, e me vi em grande parte das suas preocupações a respeito do futuro.

Assim, Manu, este post é pra você.
É uma conversa, uns conselhos (porquoi non?) e um guia de quem já passou por aí.
Deste modo, este post tem destino, mas não é por conta de um mero detalhe como esse que você, leitor sapeca, vai deixar de ler, não é, peraltinha?

O primeiro de todos os conselhos é: ter quinze anos é que nem uma gripe.
Passa.
Por mais que doa em todos os ossos do corpo.

Ou melhor: não passa nunca.

Você só aprende a caminhar carregando numa mão uma bandeijinha com dois ou três acepipes de experiência e arrastando o enorme saco de dúvidas por toda a existência. O que nos diferencia hoje, little sis, é que tenho uns dois ou três salgadinhos na mão direita. Mas na canhota ainda há um saco quase tão pesado quanto o seu – quem sabe mais.

Não ache que alguém, mais adulto, tem mais certeza do que você das coisas.
Ou que sabe mais.
Todos, sem exceção, ainda tateamos na vida.

Crer em Deus ou deixar de crer é um detalhe: no máximo, é um chute.
Não faz diferença, no final das contas.

Como já dizia um cara famoso, se o único motivo para que você não saia estapeando velhinhas pelas ruas é o medo de Deus, então, sorry, mas você é uma pessoa absolutamente desprezível.

Sendo assim, não se culpe demais por qualquer pisada de bola e nem ache que tem um anjinho anotando cada vacilo, cada vez em que você, mentalmente, pensa em enforcar outros seres humanos.
Todo mundo dá vacilo.
De vez em quando, todo mundo quer sufocar outro alguém.

Se Deus existir, ele é brodi e sabe colé da vida aqui embaixo.

Do mesmo modo, mas num sentido contrário, não ache que é tudo válido e que você não tem de prestar contas a ninguém no final do processo. Mesmo que Deus não exista, você terá de prestar contas a si mesma.

Ah, e desculpa deixar claro, mas nego vai te decepcionar.
Desculpa mesmo. Queria que não fosse assim. Mas tem gente escrota em profusão no mundo.

Com relação a isso, você tem dois caminhos: ou você se arma, se fecha pra vida e acha que é tudo uma merda – e aí toma menos rasteiras – ou você dá uma de poliana e, mesmo apanhando, confia nas pessoas.

Eu confio nas pessoas.
Não em todo mundo, porque não sou otário, mas em uma quantidade grande de gentes.
Me fodo de vez em quando, mas é um preço pequeno a pagar por conta de ter, em sua vida, amigos de verdade.

Laços de amizade valem tanto quanto laços de sangue. Às vezes, até mais.
E sempre se ponha no lugar dos outros. Empatia é uma qualidade fundamental da vida.
Fica mais fácil perdoar vacilos dos outros.

Não carregue mágoas, não tenha preconceitos, não ache que  “pessoas que fazem  __________(preencha com qualquer coisa) são piores que eu que não faço ______________ (idem)”.
Elas também não são melhores que você.

Todos tateamos às cegas.
Todo mundo é esse mesmo amontoado de desejos, contradições, alegrias, invejas e gracinhas.

Inspire-se nos grandes.
Não tenha medo de errar. Não tenha medo de mudar de ideia a respeito de nada.

Abortar convicções é um talento raro. Grandes os que conseguem.
Sempre é tempo de mudar.
Quem se apega a uma ideia só deve ter poucas.

Xô te contar um treco que os adultos não falam comumente, por medo de como isso será interpretado: não fique muito preocupada com o futuro. Ele chegará, independente do quanto você se prepare.

E os problemas que realmente vão te deixar fodida não são previsíveis.

Seja curiosa, aprenda o que der sobre a vida – mesmo que não tenha nenhuma relação com o que você imagina que vá fazer profissionalmente durante toda a sua vida. Não escolha uma profissão pensando em grana – que é massa, mas vem naturalmente quando a gente faz o que curte. Faça o que gosta e o que der na
cuca – respeitando o espaço dos outros – e tá joia.

Questione tudo.
Inclusive este texto.

Questione gente muito convicta. Questione ordens. Questione dogmas.
Lembre-se que você é a única responsável pela construção de sua própria vida, e só você paga quando algo não vai do jeito que você esperava.

Não se deixe aprisionar por um ideal inatingível de felicidade edulcorada de comercial de margarina.
Tem dias que são bons, outros são uma merda.

A maior luta que a gente trava, nesse sentido, é com a gente mesmo.

Aproveite algumas coisas que hoje não parecem tão bacanas, mas que daqui a dez parecerão muito melhores do que eram. Não ligue tanto pro seu físico bolinho de queijo. Em dez anos, você vai ver fotos suas e vai dizer “nossa, eu era muito gostosa”. Em dez anos, você vai ver fotos de si mesma e vai dizer “caralho, eu dava um dedo pra ter de novo essa pele de pêssego”.

E, por pele de pêssego, entenda essa cara “oleosa e espinhenta” que você detesta hoje.
Acredite: é pêssego. No futuro, vai piorar.

E dance, beije, viva, ame, cultive amigos, sorria, não perca a capacidade de se emocionar com as coisas, de se revoltar, de se emputecer. Dê um vexame ou outro de vez em quando, experimente, faça uma cena de novela mexicana, peça desculpas e siga impávida.

Tudo vai dar certo. Eu garanto.
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(Jojó da Babá. daqui.)

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Às vezes...

"Eu sou calmo e violento, sou vendaval e brisa que a mercê da vida, às vezes sou conforto, às vezes incômodo. Às vezes paz, às vezes caos.

Eu, o vento, que sou incolor e frio, sou calor e sangue, que a mercê da vida, às vezes sou dor, às vezes rotina. As vezes sou morte, às vezes vida.

Eu, o vento, que sou órfão e só, sou carinho e carente, que a mercê da vida, às vezes sou colheita, às vezes plantio. Às vezes sou notado, às vezes esquecido.

Eu, o vento, que sou força e anemia, sou opressor e vítima, que a mercê da vida, às vezes sou vento, simplesmente."
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(Mário Nhardes)

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Amar é chegar atrasado depois de dormir demais...

“Se realmente quisermos nos comunicar, devemos desistir de saber o que fazer.” –Pema Chödrön

Se você já dormiu demais e chegou bastante atrasado no trabalho, sabe do que estou falando. Não há desculpa, não há justificativa. Você está ali, aberto, com cara de sono, sem pensar direito, com um certo embaraço, pronto para levar uma bronca ou ser demitido. Você não sabe se pede desculpas ou se finge que nada aconteceu, esperando alguém perguntar para improvisar uma resposta. A pose que costumava manter foi embora. Pensa em cobrar seu colega por algo que ele ficou de entregar, mas onde está sua autoridade? Por não haver como se esconder, acaba rindo da situação.

Exposição total, sem proteção, livre de artimanhas, presença aberta, o amor é essa experiência de subir ao palco com uma pomba na cabeça, sem lembrar de ter nascido, envergonhado, quase rindo, desprovido de roteiro ou planejamento. Amar é dormir demais e, mesmo assim, ir ao trabalho de peito aberto sem levar nenhuma desculpa.

Quer atitude mais vulnerável e ridícula do que dizer “Eu te amo”, ficar de joelho e perguntar se a pessoa quer passar o resto de sua vida com você? Ou tirar a roupa e ficar lambendo e sendo lambido em posições que desafiam qualquer ilustração? Amar é se fazer presente ao ponto de trazer à tona os aspectos mais infantis (leia-se lúdicos, mágicos, criativos) e ridículos (leia-se livres, destemidos, ousados) do outro.

Um bodisatva no metrô

Você entra em um vagão do metrô e todos começam a rir. Então lhe sobram duas opções: (1) se opor às gargalhadas, manter a pose séria, se elevar (achando tudo ridículo) ou se rebaixar (achando que é o motivo da piada); ou (2) abraçar a situação e rir junto, sabendo que a grande piada não tem origem nem destino.

Repositório de todas as histórias, cenas e vidas, contexto de todas os dramas possíveis, a grande piada não tem conteúdo, autor ou alvo. Se você ainda não está sorrindo, por favor:



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(Gustavo Gitti)

Ver também: "A piada cósmica."

Ela...

"Ela é a sensibilidade de alguém que não entende o que veio fazer nessa vida, mas vive." (Caio Fernando Abreu)

sábado, 9 de janeiro de 2010

Terremoto...

"Que esta minha paz e este meu amado silêncio
Não iludam a ninguém
Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta
Nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios
Acho-me relativamente feliz
Porque nada de exterior me acontece...
Mas,
Em mim, na minha alma,
Pressinto que vou ter um terremoto!"
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(Mario Quintana)

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Imortalidade...

"É certo, se isso lhe serve de consolação, que se antes de cada ato nosso nos puséssemos a prever todas as consequências dele, a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar. Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma forma bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-los, para congratular-nos, ou pedir perdão, aliás, há quem diga que isso é que é a imortalidade que tanto se fala..."
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(Saramago)

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Quero ser feliz também...

Calma...

“Calma. Tudo está em calma
Deixe que o beijo dure,
deixe que o tempo cure.
Deixe que a alma tenha a mesma idade que a idade do céu...”

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Hora do embarque...

Olá Buda! Não tô zen como tu. Mas tô bem. Tô passando pela fase das experiências mundanas. Sabe comé, nem tão esotérica assim. Tem dias que subo ao paraíso e outros pelas paredes. Vim te convidar pra dar um mergulho. Quem sabe a gente volta purificado? É um estalo, um clique ou, se preferir, um cruzado de direta. É isso: um nocaute. Descobri que sou ignorante. Será melhor quando a gente tem certeza da ausência? Sei que a impossibilidade de voltar à cegueira é angustiante, mas também é redentora. Não acha? Não afirmo que sim ou que não. Só pergunto. Me diga: Tu bebe coca-cola aí no nirvana? Foi arrotando que chegou à iluminação? O Big Mac realmente saciou o vazio da vida? Antigamente eu costumava contar o tempo por copas do mundo. Quatro anos parecia uma eternidade. A partir da copa do México, perdi as contas e a paciência. As novelas duram menos. As pilhas duram menos. O espaço. Entre uma aspirina. E outra. Nem se fala. Ouvi dizer que o tempo tá curto porque o planeta tá girando mais rápido. Meu relógio continua fazendo tiquetaque. Se bem que é digital. Mas por falar em tempo, dias, meses, anos, séculos, éons, qual é a diferença? Proporção? Desde que nasci escuto falar em reforma agrária, liberdade, fraternidade. As guerras continuam. Será que nunca iremos sair da tela inicial do videogame? Cheguei à conclusão de que os ponteiros são como repórteres de telejornal: dão informações relativamente corretas e absolutamente falsas. E é por isso que tô te escrevendo hoje. Com essa onda de fim do mundo, gostaria de confirmar a hora do embarque.
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(Marcelo Ferrari)

domingo, 3 de janeiro de 2010

Constipação espiritual...

Somente após brahmacharya, quando você alcançou a realização, você possui o mundo sem possui-lo. Mas aos poucos você precisa treinar a si mesmo para a não-possessão.

Não seja possessivo, pois sempre quando você fica possessivo você simplesmente demonstra que você é um mendigo. Sempre quando você tenta possuir, você simplesmente demonstra que você não possui; do contrário não há nenhum esforço. Você é um mestre. Não há nenhuma necessidade de tentar para isso.

Por exemplo, se você ama uma pessoa: se você tentar possuir a pessoa, então você não a ama. Você também não tem certeza do amor dela. É por isso que você cria todas as medidas de segurança, cercando-a de todo truque, pela esperteza, pela argúcia, para que ela não lhe deixe. Porém você está matando o amor. Amor é liberdade, amor dá liberdade, amor vive na liberdade. Amor é, no seu núcleo intrínseco, liberdade. Você irá destruir a coisa toda.

Se você realmente ama, não há nenhuma necessidade de possuir; você possui tão profundamente, qual é a necessidade? Você não reivindica; uma reivindicação parecerá superficial. Quando você realmente possui, você torna-se não-possessivo. Contudo a pessoa precisa treinar a si mesma, estar atenta. Não tente possuir coisa alguma. No máximo use-a, e seja agradecido que lhe foi permitido usar, mas não possua.

Possessão é uma mesquinhez; e um ser mesquinho não pode florescer. Um ser mesquinho está sempre numa constipação espiritual, enfermo. Você tem que se abrir, compartilhar. Compartilhar seja o que for que você tenha e isso irá crescer; compartilhe mais e isso cresce mais. Continue dando, e você é continuamente recarregado. A fonte é eterna; não seja avarento. O que quer que seja – amor, sabedoria...seja o que for, compartilhe. Compartilhar é o significado da não-possessibilidade.

Mas você pode ser tolo, como muitas pessoas são. Elas pensam, “Deixe a casa, vá para a floresta, pois como você pode viver numa casa se você não possui?”

Você pode viver na casa; não há nenhuma necessidade de possui-la. Você estará vivendo na floresta. Você irá possuir a floresta? Dirá você, “Agora sou o senhor desta floresta?” Se você puder viver na floresta sem possui-la, qual é o problema? Porque você não pode viver na casa e na loja sem possui-la? Pessoas tolas dizem, “Deixe sua esposa, seus filhos. Fuja, pois não-possessibilidade é para ser praticada”. Eles são estúpidos.

Para onde você irá? Onde você for, sua possessibilidade estará com você. Não fará qualquer diferença. Onde você estiver, apenas compreenda e abandone possessibilidade. Nada está errado com sua esposa – não diga minha esposa. Basta largar o “minha”. Nada de errado com seus filhos – são lindas crianças, crianças do divino. A você foi dado uma oportunidade para servir e amar a eles: use-a, mas não diga “meu”. Eles vieram através de você, mas eles não lhe pertencem. Eles pertencem ao futuro; eles pertencem ao todo. Você foi uma passagem, um veículo, porém você não é o dono.

Então qual é a necessidade de fugir para algum lugar? Esteja onde quer que aconteça você estar. Esteja onde a existência lhe colocou e viva numa não-possessibilidade, e de repente você começará a florescer. Energias estarão fluindo, você não será um fenômeno bloqueado, você se tornará um fluxo. E fluxo é belo. Viver bloqueado e congelado é ser feio e morto.

Estas cinco auto-disciplinas internas são o requerimento básico “... independente de classe, lugar, tempo, ou circunstâncias”. Se você nasceu hoje ou você nasceu cinco mil anos passados não faz nenhuma diferença.

Existem pregadores na Índia que dizem, “Nesse kali yuga você não pode tornar-se iluminado”. Patanjali diz, “...independente de classe, lugar, tempo, ou circunstâncias”. Você pode tornar-se iluminado onde quer que você esteja. Tempo não importa. É consciência que importa. Lugar não importa. Esteja você nos Himalaia ou no mercado isso não importa. Circunstâncias não importam – seja você um grahasta, uma dona de casa, ou uma pessoa que renunciou a tudo, não. Classe não importa – seja você rico ou pobre, educado ou analfabeto, brâmane ou um sudra, Hindu ou um Maometano, Cristão ou um Judeu. Nada importa, pois bem no fundo vocês são um.

Na circunferência pode haver diferenças, mas é só na circunferência; o centro permanece intocado.

Alcance a pureza do centro. Essa é a meta.
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(Osho. Yoga: the Alpha and Omega)

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

(re)Caminhar...

Que o velho morra para dar lugar ao novo...
Pois toda morte é um renascimento;
Que eu possa ir fundo, dentro de mim, para poder tocar o céu...
Que eu possa alcançar o horizonte...
Que eu possa ter tempo para tudo aquilo que deixei de realizar, e que poderia fazer a qualquer momento...
Que as horas passem devagar quando precisem... os dias menos depressa...
E que eu possa conquistar o atemporal. Não pelo que eu faço, mas por quem eu sou.
Além do sucesso, minha integridade. Além dos objetivos, minha inteireza.
Que eu possa perceber que sou eu quem carrego a chave das próprias prisões que crio..
E que eu me liberte, livre do medo, da angústia, da aflição...
E neste vôo, possa lançar as sementes do Amor.
Amor que todos devemos cultivar.
Além da bela silhueta, além dos preciosos amigos, além de qualquer explicação ou teoria lógica e lapidada.
Além de belos títulos de livros ou filmes. De boas marcas. De comentados lugares.
Eu possa me encontrar. Em tudo aquilo e mais um pouco. Ou menos.
E que eu possa refletir, como um espelho, todos a minha volta.
Que o porvir possa acalmar a ansiedade do dever-ser e do vir-a-ser
Porque eu ainda não sou, nada além, do que eu já sou.
E em mim, tudo basta. Mesmo quando me sinto vazio..
E que, diante do vazio, eu não me preencha com mais dele.
Mas possa decorar minha mente e minha alma de boas conversas, de poesia, de paisagens, de comida frugal e música.. daquelas que tocam o ser.
Que eu aprenda a perdoar, primeiro a mim, por não saber perdoar.
Que eu lembre do melhor e esqueça o necessário..
..O desnecessário para crescer. Pois crescer é inevitável.
E que o inevitável venha. E assim, eu aprenda a aceitar.
Que eu possa criar. Que eu volte a ser quem eu nunca fui, e quem um dia eu deixei de ser.
Sorrisos e lágrimas. Criador e criatura. Céu e terra.
Que os monstros se tornem disciplina e Compaixão.

Tenho equilíbrio. Procuro por mais.
Equilibrei-me por desequilibrar-me.
Além das palavras, o agradecimento contido em cada uma delas.
Pois é a experiência que me brinda com a realidade que me envolve.
Escada de degraus infinitos.
Um recomeço de um caminhar eterno.
Abençoado, próspero, tranquilo. Para mim e para você.
Só para você.
Só para mim.
2008. (Guilherme)



"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para adiante vai ser diferente". (Carlos Drummond de Andrade)