quarta-feira, 18 de agosto de 2010

As portas do Templo...

"Ao chegar às portas do Templo, aconselhou-o:

- Não há mais o que fazer ao teu lado; me é lícito partir...
- Partir? Por que?! Agora que eu cheguei até aqui. Tenho medo. Você não vê? Não são portas, são portões! Parecem pesar toneladas, talvez sozinho eu não consiga abrir!
- É teu medo o peso que te obsta; o destemor é sua chave. Para entrar, abra-as com teus olhos.
- Como assim, meus olhos?
- Aqueles que você nunca usou lá fora. Os olhos que veem as coisas tais quais elas são.
- Mas eu vejo as coisas!!!
- Você vê teu horizonte coberto de poeira e teus semelhantes em volta da neblina. E você escuta do mesmo jeito que vê.
- Eu não entendo nada do que você fala. Tudo muito poético, mas muito vago, inconsistente, sem sentido pra mim...
- Tua Vida em teu dia-a-dia lhe sussurra as tuas próprias verdades desta forma. Aquelas que lhes são íntimas e que adormecem no teu sangue e falam à tua Alma. Tuas próprias verdades. E esta é a linguagem. Aquela que apenas aponta; vaga, mística. Como o intervalo que permeia o dia e a noite, onde se misturam luz e escuridão. Exatamente onde um termina e o outro acaba. Onde nada pode ser traçado, onde nada é absoluto. Cabe a você costurar os retalhos com a sua compreensão.
- Eu não sei se..
- Oras, o que são símbolos? O que são suas ideias? Seus pensamentos? Sua arte? Seus acessos de fúria e seu amor que aparece e lhe arrebata sem aviso, que lhe dá vontade de abraçar a todos? São expressões. Eles são formas. Que correm para fora de você; são os reflexos destas Verdades viventes aí dentro. O acaso, a coincidência são expressões da harmonia e da Inteligência. Isto tudo vive em ti. Mas você só entende a sombra das partes que a Verdade lhe conta. Come os frutos mas desconhece seu passado. Você vê o crescer da árvore, mas ignora a raíz que a sustenta e a terra que lhe faz fértil. Abençoa a bonita e amaldiçoa a que não lhe contenta.
- É você quem fala, e não eu. É você quem me conta tudo isto! Você é quem me trouxe tudo isto!
- E por um acaso, o que sou? Sou teu reflexo. Sou a sua projeção. Você colore as coisas  que vê com tuas cores, tuas sombras, teus tons. Você é quem traduz, quem interpreta o que lê. Você vê em mim aquilo que busca ou aquilo que rejeita, pois, ambos, estão em você.
- Você é minha projeção? A Vida é uma manifestação de símbolos?
- Por assim dizer...
- Como?
- Você não está separado. Você não é uma Ilha. Ninguém é. Eu sou a Vida falando. Um pássaro que canta é a Vida cantando. Quem vem até você é a Vida vindo; quem vai é a Vida indo. E você permite tal proximidade ou não, pelas escolhas que acredita fazer e por aquelas em que suas verdades dentro de você fazem, através de você e que você mal se dá conta. Na verdade, é a Vida quem se expressa em você. Você é a expressão dela. Todo o resto, também.
- Isto é...?
- Você cria o propósito, você cria e escolhe seus momentos, o seu eterno presente que se sucede ininterruptamente e que lhe dá uma falsa sensação de tempo e de futuro; você permite a Vida vir até você pela sua abertura, pelo modo e a forma como vê e entende, o quanto se permite ver, ouvir, sentir. A questão é que você cria e cria a permissão.. você aproxima e afasta seja lá o que for, de acordo com quem você É.
- E o que eu sou? Quem eu sou?
- Você vai além do que vê a tua volta. Você vê as suas projeções e tão somente elas. Você vê os símbolos. Você vê as formas. Você olha pra fora. Você nunca olhou pra dentro. Você tem medo de entrar pelas portas do Templo. E dentro, é só você quem pode se dizer quem realmente é.
- É isso o que você quer dizer quando vejo poeira e neblina?
- Agora você começa a entender...
- Que bom...
- Você se permite olhar para as coisas através da janela do teu entendimento. Você não pode ver toda a paisagem. O vidro não permite a nitidez, você troca as cores do vidro e acha que tudo lá fora é cinza, ou cor de rosa. Talvez se você levantasse os vidros.. Talvez se aumentasse a janela.. Talvez se saísse pela porta...
- Entendo o que você quer dizer.
- A poeira é a estreiteza com que se permite ver a Vida. Cheia de entendimentos de alguém que não você, a educação de seus pais que lhe ensinaram o que é bom e ruim, as crenças que os pais de seus pais lhe deixaram como legado e que você aceitou como verdade por ser verdade pra eles. Você não vê a totalidade. Não agora. Você vê com suas cores, mas seus lápis podem ser poucos e as cores desbotadas.
- Por isso devo "ver" com os olhos?
- Exatamente. Os olhos que você nunca usou. Os que estão abrindo aos poucos e que lhe causam medo porque nunca enxergaram. Medo do desconhecido. Medo de que a luz ofusque.
- Ah, talvez esse seja o meu medo de abrir as portas. Por isso as vejo tão pesadas, e eu nem ao menos tentei abri-las. Se a Vida é um conjunto de reflexos e símbolos, o Templo reflete quem Eu Sou, e para entrar, é preciso ser destemido. Para entrar, preciso ver como sou, lidar como sou. É isso?

E o outro havia desaparecido. E ele entendeu. Compreendeu. Sendo sua projeção, o outro lhe transmitia algo que não podia ser imediatamente absorvido, percebido. Por isso a relação entre os dois aconteceu. Ele mesmo havia trazido aquela presença, aquelas palavras até si. No desaparecer do outro, percebeu que não havia mais necessidade de tal projeção, de carregar interpretações. Talvez pudesse, agora, ver as coisas tais quais elas realmente são...
E com apenas um ligeiro empurrão, abriu os portões do Templo..."

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