domingo, 2 de maio de 2010

Vermelho...

"Estava parada no farol, debaixo de um viaduto. Gotas de chuva escorriam pela beira da construção e pingavam no vidro do carro. O entorno era cinza escuro de cimento velho. Era uma noite de quinta-feira e a cidade tinha as suas infelicidades camufladas. Tão escondidas, que a sombra de um capuz preto passou por trás do carro sem ela nem perceber. Estava sozinha, ouvia música na rádio distraídamente. Sorrateira a sombra deslizou pela janela e se transformou em um homem parado do lado do passageiro. A barriga gelou e a garganta ficou seca. Um fantasma magro de olhos profundos, parecia a morte. Veio o golpe brutal que quebrou o vidro da janela. Um barulho forte e seco como a própria pancada. O vidro estilhaçado caía aos poucos, enquanto ele sem pensar no próprio braço tentava agarrar a bolsa em cima do banco. Havia sangue. Ela gritou assutadada, mas os gritos foram abafados. Ninguém ouviu. Só ele. Por um momento se olharam nos olhos. Deviam ter a mesma idade. Assustado ele fugiu correndo, deixou a bolsa e partiu segurando o braço machucado. Desapareceu no escuro de onde veio. Ela ficou sozinha, imóvel. Sentia o peito estilhaçado com o vidro. Não tinha raiva, nem revolta, só tristeza. Se perguntou como estaria o braço do rapaz. Se sentiu imbecil por pensar nisso. Se sentiu culpada por ter deixado a bolsa em cima do banco. Se sentiu idota por se sentir culpada. Tudo isso no tempo de um farol. Verde, não deu mais tempo de pensar. A cidade pedia a atenção para outras coisas. Engatou a marcha enquanto secava as lágrimas. Queria que essa história fosse ficção, mas não era. Ela não tinha papel nenhum, nem ele era o vilão. Os dois eram só mais um."
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(Ana Reber)

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