quinta-feira, 8 de abril de 2010

Inclemência...

É aqui que me torno dócil, que me resigno, que deixo cicatrizar as feridas ancestrais e profundas, que cravo as esporas na minha própria carne e parto à desfilada pelas margens quadriculadas do que escrevo, do que digo. É na escrita que me apaziguo, mesmo que sofra, mesmo que faça doer. Morrem-me os amigos, sem aviso, e eu vou chorá-los nos lugares endiabrados do combate e da alegria, onde estivemos vivos, onde fizemos a vigília, onde marcámos o tempo com o ferro em brasa da nossa juventude. Vão-me deixando só com as lembranças, com a erva queimada dos lugares onde a peleja fez história. Vou resvalando para a prosa, sem alento, para não esquecer a música que trago na fala. Estou ferido até à explosão das lágrimas pela inclemência que se aninha nas palavras.
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(José Jorge Letria)

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