quarta-feira, 3 de março de 2010

Longamente...

Quando uma pessoa é a doçura e a perturbação, a diversão e a gravidade, a novidade e a memória, a viagem e a morada, quando, vindo de muito longe, uma onda sobe em você, sobrevoada por pássaros mudos, quando o fragmento da menor parte de sua pele se lê como um canto aberto em cima de um piano, quando seus olhos se franzem, não ousando sorrir inteiramente, quando seus cabelos num único movimento varrem os dias e dias passados em espera, quando, nos lados do pescoço quatro jugulares marcam um compasso desenfreado, quando a noite e o tédio e o frio caem imediatamente sobre o resto da terra, quando no ouvido já ressoa a palavrinha futura da felicidade, "venha", que ser humano digno desse nome recusa esse milagre e escolhe fugir lembrando o desconforto de amar?
.
.
.
(Erik Orsenna)