sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Suflê de queijo...

“Foram exatos 732 dias tentando esquecer uma pessoa. Durante esse tempo, a sociedade – que, para mim, se resume a alguns membros da minha família sanguínea, dois ou três filmes e meus poucos e queridos amigos – parecia me dizer em coro que nosso amor era autodestrutivo, doentio e sem futuro. E esquecê-lo era o mais sensato e melhor a fazer. ´Olha , Mantraman, e nem amor era...´ Para esquecer, lancei mão de todos os artifícios que estavam ao meu alcance: falar com Deus, consultar oráculos, meditar, ir uma vez por semana ao Zoológico, psicoterapia, atidepressivos, vida regrada, outra pessoa, tudo em vão.
Acho que já falei isso aqui, não lembro. Em todo caso vou repetir: o verdadeiro herói se diverte sozinho. A solidão é a nobre arte de saber como lidar com os nossos mais íntimos e sagrados excrementos – as lágrimas, o sangue mestrual, o sêmen. É não esperar que ninguém venha arrumar sua cama, lavar sua louça, pagar suas contas, dividir suas intransferíveis dúvidas.

Depois de viver aquele amor inesquecível, estou comigo mesmo e, querem saber?, enquanto Deus não se comunicar, vou seguir por essa estrada, me contentando em não ter de responder a perguntas como “aonde é que você foi ontem?”

Algumas pessoas parecem preocupadas comigo. Não sabem da intensa felicidade que é a solidão. “Ah, Mantraman, não acha que é uma opção meio amarga?” Não sabem. Fui feliz um dia com alguém. Foram na verdade, alguns dias. Em todos os outros dias, me imaginava sozinho. E era um doce filme, cheio de esperança e luz, que se passava na tela de minha cabeça. Hoje estou nesse filme, e ele tem se mostrado muito mais sedutor e surpreendente do que eu havia imaginado, é claro que vez por outra recebo a visita da dúvida: por que não me apaixonar por alguém, viver feliz para sempre e ter um cachorrinho chamado Totó? Uma das respostas que sempre vêm é que, apesar de o amor ser lindo e tudo mais, ele dá muito trabalho. Atualmente, estou atrás de um ócio sereno, de uma preguiça míope.

Só os escassos de imaginação e os pobres de espírito perdem tempo a procura de uma felicidade estável, permanente. Eu procuro sofrer menos e sempre me consulto: “ E aí Mantraman, pipoca no abismo ou caramelo no paraíso?” Sei que é pouco provável que consiga esquecê-la, ou que nosso amor volte. O tempo é um deus que sabe muito bem como deixar o passado em seu devido lugar. Enquanto espero por sua passagem, procuro uma receita de suflê de queijo. Alguém sabe alguma?”
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(Por Tenzin Chopel.)

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