sábado, 13 de fevereiro de 2010

Singeleza...

Ele, guri altivo e garboso, indica sinal de parada ao ônibus no ponto de seu bairro, à espera de subi-lo em direção ao último dia de trabalho da semana na manhã aprazível e ensolarada de sexta-feira, aguardando a alforria merecida do feriado vindouro.
Sobe os altos degraus do veículo guarnecido de mochilas e bonitas sacolas de shopping. Total em seus movimentos, como se da nobreza fosse, vaidoso e presumido, reflete em seu sóbrio sorriso e seu olhar quase malicioso, o porte de quem se encontra acima do bem e do mal e de todas as coisas deste mundo, como se chegado às portas do Templo tivesse; sentindo-se merecedor exclusivo da atenção de todos naquele ônibus unicamente por sua chegada; pensando o por quê não havia conseguido um bom carro até então para dali estar bem distante.
Ao transpassar a catraca...
Perde a linha e todo seu ar posudo ao tropicar no sacolejo do busão, caindo deselegantemente com toda a tralha que carregava em frente à audiência em silêncio no bumba.
Ri como se tivesse graça. Ri pra desfarçar a miséria. Ri como se não doessem os joelhos e o ego soberbo reduzido a cocô do cavalo do bandido.
Sorri em falso. Sente vergonha da patuléia imóvel; conhecidos de tantas e tantas manhãs que não se conheciam.
Agora sim, era merecedor de toda a atenção que exigiu nas entrelinhas do alto do seu orgulho besta. No momento, apenas gostaria de se teletransportar pro Alasca, de voltar no tempo, de ser ajudado. Esqueceu da pompa e do porte, no tempo suficiente entre a queda e o recolher de seus pertences ainda agachado, a transformar o rei na barriga em súdito comum a desaparecer entre os tantos outros que ali viajavam.
Um breve momento significativo em sua pálida existência.
Recolheu-se em uma cadeira vaga no canto direito ao fundo e encolheu-se.
Pensou, refletiu, sopesou, porém mais absorveu por sentir, por doer, por calar a falsa grandeza de si mesmo.
Talvez daí, passaria a ser solicito, com o nariz abaixo da linha do horizonte. Talvez daí, passaria a olhar com mais singeleza...
Talvez daí, um outro homem levantasse.
Mudanças.

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