quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

A Invisibilidade do Privilégio...

Você é um privilegiado?

Um dos corolários positivos da ética de trabalho protestante aqui nos Estados Unidos é que ninguém tem medo de se dizer rico. De fato, ser rico é uma prova de que você trabalhou duro, fez tudo certo e tem Deus do seu lado. Se, por um lado, essa cultura estigmatiza e quase criminaliza a pobreza (afinal, em uma sociedade "perfeitamente meritocrática" onde "todos têm chances iguais" só os mais ineptos e preguiçosos vão ser pobres), por outro ela institucionaliza a filantropia. Ao se definir como rico, o indivíduo também se percebe como privilegiado (ainda que por merecimento) e, consequentemente, existe uma certa percepção de obrigação de ajudar os menos privilegiados. 

Não se conhece milionário americano que não doe parte significativa de sua fortuna para fins filantrópicos. Entre os americanos classe média que conheço, tanto de esquerda quanto de direita, tanto reacionários quanto progressistas, todos doam muito do seu tempo e alguma parte de sua renda para projetos assistenciais e filantrópicos. Nos EUA, o dinheiro é visto como recompensa por trabalho duro mas também, no melhor estilo Homem-Aranha, como uma espécie de super-poder que traz consigo algumas responsabilidades.

A situação no Brasil não poderia ser mais diferente. Nossa cultura católica ao mesmo tempo em que estimula uma certa ostentação da riqueza (comparem uma igreja católica e uma luterana), também estigmatiza a riqueza como um pecado mortal. Aqui, uma grande fortuna é sempre suspeita: no imaginário popular, o milionário não é alguém que trabalhou mais duro do que todos, mas provavelmente um grande corrupto, um bandido, alguém com esqueletos no armário.
Na década de 80, quando meu pai ia me buscar no colégio com carros que nem o mais milionário dos brasileiros tinha, o xingamento que os colegas me gritavam era: "filho de bicheiro". Sem entrar no mérito da honestidade ou não da fortuna do meu pai, a primeira reação instintiva do brasileiro ao ser confrontado com riqueza desproporcional é sempre associá-la à contravenção, não ao trabalho.

A classe média-alta brasileira fica presa num paradoxo esquizofrênico no qual ela se vê obrigada a reclamar de falta de dinheiro o tempo todo ("esses impostos escorchantes!" etc) ao mesmo tempo em que não pode deixar de trocar de carro todo ano, senão pega mal na firma ("o que é que vão pensar de mim!" etc).

Ninguém é rico no Brasil. 

Eu, que sempre fui educado pra saber que era rico, que tinha privilégios que quase ninguém teve e que esses privilégios traziam certas obrigações (entre elas, a de não ostentar), ficava constantemente chocado de conversar com amigos igualmente ricos e perceber que nenhum deles se considerava rico. Nenhum. Aliás, a palavra era feíssima.

Diálogo verídico acontecido em uma lancha de 40 pés em Angra. Estou conversando com meu amigo, menciono en passant que somos os dois ricos ("porque nós os ricos" etc) e ele pára tudo, corta a frase no meio, interrompe o assunto e diz que não, imagina!, ele e sua família não são ricos! E eu, só não mais surpreso por essa denegação ser tão comum, respondo:

"Mas João Paulo! Acabamos de sair de sua casa com pier que vale sei lá quantos milhões, estamos na sua lancha de 40 pés que você acabou de trocar ano passado e estamos indo pra um restaurante em uma ilha comer um almoço que provavelmente vai custar mais de mil reais! Como é que você não é rico?!"

E começam os malabarismos verbais:

"Bem, você veja, não somos ricos, meu pai trabalhou muito, mas é assalariado, conseguiu economizar, temos um certo conforto, é verdade, mas não somos ricos."

Por fim, o abacaxi é fatalmente passado adiante:

"Rico é o Carlos Eduardo, que tem um iate de 60 pés e é dono da própria ilha. Ele sim é rico, Alex."

Podem ficar certos de que, mais tarde, Carlos Eduardo também negou peremptoriamente ser rico. Pra ele, sua família também tinha tido a sorte de uma vida confortável, estavam "bem", sabe?, mas rico mesmo era um outro amigo nosso, o Luis Felipe. Infelizmente, não lembro mais o que o Luis Felipe possuía para marcá-lo como rico. Talvez Belize.

O Peixe e a Água

Enfim, sei bem que a maioria dos leitores não está nesse nível de privilégio - muito menos eu, que hoje sou pobre de marré-de-si e tive que vir pro exterior pra conseguir ganhar a vida, com uma bolsa de estudos que me coloca bem pouco acima da linha de pobreza oficial nos EUA. 

E, apesar de ter demonstrado no parágrafo anterior que sou fluente no discurso chorador-de-miséria da classe média, eu ainda assim tenho uma noção profunda da extensão dos meus privilégios.

Mas entendo porque meus amigos ricos não se achavam ricos. Pelo mesmo motivo, nossa elite não se vê como elite e nossos privilegiados não se vêem como privilegiados. Ou, como disse a Lola, por exemplo, os homens não entendem que é um privilégio não ter medo de morrer quase diariamente.

Quando você cresce rodeado por algo - nesse caso, privilégio - aquilo vira a regra contra a qual o mundo é comparado. Nossa vida é sempre a normal, ou melhor, a normativa: as outras é que são menos ou mais alguma coisa.

Além disso, a maioria das pessoas olha pra cima, e não para baixo: compram a Caras e assistem programas de fofocas pra saber como é a vida dos ricos e dos famosos, mas evitam cruzar olhares com o mendigo da rua ou com o pivete do sinal e, com certeza, nunca pararam para conversar com eles e ouvir suas histórias.

Então, o processo funciona mais ou menos assim: você evita os mais pobres (por serem francamente desagradáveis, não?), considera sua vida normativa, e só conhece em detalhes as rotinas dos mais ricos. Resultado: você não se acha nem rico nem privilegiado nem de elite; privilegiado é o Luciano Huck, que tem uma jacuzzi em cada cômodo da casa! Sério, eu vi na Caras.

Por outro lado, pergunte às pessoas que trabalham de voluntários em favelas: a cada vez que saem de lá, se sentem privilegiadas somente por ter água encanada!

Por isso, no post original pedindo a reflexão sobre o privilégio, eu pedi que vocês se comparassem com quem tem menos, e não com quem tem mais. Depois de ler o depoimento do leitor Josué sobre as dificuldades que enfrentou por ser negro, o Henrique comentou:

Me sinto bem aceito e adequado a frequentar qualquer espaço, entrar em qualquer loja, qualquer sala de professor, perguntar o que eu quiser e costumo ser bem tratado. Vejo que negros não gozam desse 'respeito automático'. Só fica um pouco difícil ver como privilégio uma coisa que me parece tão natural, a impressão é de que isso falta a eles e não que sobra para nós... É uma impressão logo destruída pelos primeiros raciocínios, mas que existe... 

O peixe não enxerga a água justamente por ter vivido toda a sua vida rodeado por ela: só dá por sua falta quando está se debatendo no convés do barco.

Convido meus leitores a tentarem perceber a água que os rodeia *antes* de chegarem no convés - antes que as consequências das desigualdades sociais brasileiras explodam em suas caras.

O principal objetivo desses textos é fazer com que você desnaturalize tudo o que lhe parecia mais natural.
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(Alex Castro)

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