quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Tudo vai dar certo...

Manuella, a mais nova de minhas três irmãs, tem quinze anos.
Todo mundo esperando aqui eu falar “ah, saudades de meus quinze anos”.

Porra nenhuma: quinze anos é uma idade foda.
É difícil. Eu sei que é.

Eu já estive lá.

E ela fez um post em seu magnífico blog, bem escrito como todos – e isso não é, em nada, uma concessão de minha parte, por conta do amor incondicional que sinto por minhas irmãs -, falando sobre essas dificuldades, sobre escolhas e sobre tudo o mais. Estive com ela há poucos dias e pudemos conversar, e me vi em grande parte das suas preocupações a respeito do futuro.

Assim, Manu, este post é pra você.
É uma conversa, uns conselhos (porquoi non?) e um guia de quem já passou por aí.
Deste modo, este post tem destino, mas não é por conta de um mero detalhe como esse que você, leitor sapeca, vai deixar de ler, não é, peraltinha?

O primeiro de todos os conselhos é: ter quinze anos é que nem uma gripe.
Passa.
Por mais que doa em todos os ossos do corpo.

Ou melhor: não passa nunca.

Você só aprende a caminhar carregando numa mão uma bandeijinha com dois ou três acepipes de experiência e arrastando o enorme saco de dúvidas por toda a existência. O que nos diferencia hoje, little sis, é que tenho uns dois ou três salgadinhos na mão direita. Mas na canhota ainda há um saco quase tão pesado quanto o seu – quem sabe mais.

Não ache que alguém, mais adulto, tem mais certeza do que você das coisas.
Ou que sabe mais.
Todos, sem exceção, ainda tateamos na vida.

Crer em Deus ou deixar de crer é um detalhe: no máximo, é um chute.
Não faz diferença, no final das contas.

Como já dizia um cara famoso, se o único motivo para que você não saia estapeando velhinhas pelas ruas é o medo de Deus, então, sorry, mas você é uma pessoa absolutamente desprezível.

Sendo assim, não se culpe demais por qualquer pisada de bola e nem ache que tem um anjinho anotando cada vacilo, cada vez em que você, mentalmente, pensa em enforcar outros seres humanos.
Todo mundo dá vacilo.
De vez em quando, todo mundo quer sufocar outro alguém.

Se Deus existir, ele é brodi e sabe colé da vida aqui embaixo.

Do mesmo modo, mas num sentido contrário, não ache que é tudo válido e que você não tem de prestar contas a ninguém no final do processo. Mesmo que Deus não exista, você terá de prestar contas a si mesma.

Ah, e desculpa deixar claro, mas nego vai te decepcionar.
Desculpa mesmo. Queria que não fosse assim. Mas tem gente escrota em profusão no mundo.

Com relação a isso, você tem dois caminhos: ou você se arma, se fecha pra vida e acha que é tudo uma merda – e aí toma menos rasteiras – ou você dá uma de poliana e, mesmo apanhando, confia nas pessoas.

Eu confio nas pessoas.
Não em todo mundo, porque não sou otário, mas em uma quantidade grande de gentes.
Me fodo de vez em quando, mas é um preço pequeno a pagar por conta de ter, em sua vida, amigos de verdade.

Laços de amizade valem tanto quanto laços de sangue. Às vezes, até mais.
E sempre se ponha no lugar dos outros. Empatia é uma qualidade fundamental da vida.
Fica mais fácil perdoar vacilos dos outros.

Não carregue mágoas, não tenha preconceitos, não ache que  “pessoas que fazem  __________(preencha com qualquer coisa) são piores que eu que não faço ______________ (idem)”.
Elas também não são melhores que você.

Todos tateamos às cegas.
Todo mundo é esse mesmo amontoado de desejos, contradições, alegrias, invejas e gracinhas.

Inspire-se nos grandes.
Não tenha medo de errar. Não tenha medo de mudar de ideia a respeito de nada.

Abortar convicções é um talento raro. Grandes os que conseguem.
Sempre é tempo de mudar.
Quem se apega a uma ideia só deve ter poucas.

Xô te contar um treco que os adultos não falam comumente, por medo de como isso será interpretado: não fique muito preocupada com o futuro. Ele chegará, independente do quanto você se prepare.

E os problemas que realmente vão te deixar fodida não são previsíveis.

Seja curiosa, aprenda o que der sobre a vida – mesmo que não tenha nenhuma relação com o que você imagina que vá fazer profissionalmente durante toda a sua vida. Não escolha uma profissão pensando em grana – que é massa, mas vem naturalmente quando a gente faz o que curte. Faça o que gosta e o que der na
cuca – respeitando o espaço dos outros – e tá joia.

Questione tudo.
Inclusive este texto.

Questione gente muito convicta. Questione ordens. Questione dogmas.
Lembre-se que você é a única responsável pela construção de sua própria vida, e só você paga quando algo não vai do jeito que você esperava.

Não se deixe aprisionar por um ideal inatingível de felicidade edulcorada de comercial de margarina.
Tem dias que são bons, outros são uma merda.

A maior luta que a gente trava, nesse sentido, é com a gente mesmo.

Aproveite algumas coisas que hoje não parecem tão bacanas, mas que daqui a dez parecerão muito melhores do que eram. Não ligue tanto pro seu físico bolinho de queijo. Em dez anos, você vai ver fotos suas e vai dizer “nossa, eu era muito gostosa”. Em dez anos, você vai ver fotos de si mesma e vai dizer “caralho, eu dava um dedo pra ter de novo essa pele de pêssego”.

E, por pele de pêssego, entenda essa cara “oleosa e espinhenta” que você detesta hoje.
Acredite: é pêssego. No futuro, vai piorar.

E dance, beije, viva, ame, cultive amigos, sorria, não perca a capacidade de se emocionar com as coisas, de se revoltar, de se emputecer. Dê um vexame ou outro de vez em quando, experimente, faça uma cena de novela mexicana, peça desculpas e siga impávida.

Tudo vai dar certo. Eu garanto.
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(Jojó da Babá. daqui.)

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