sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Eu não sou eu...

"Eu não sou eu.
Sou este
que vai ao meu lado sem eu vê-lo;
que, por vezes, vou ver,
e que, às vezes, esqueço.
O que se cala, sereno, quando falo,
o que perdoa, doce, quando odeio,
o que passeia por onde estou ausente,
o que ficará de pé quando eu morrer."
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(Juan Ramón Jiménez)

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

"Nós"...

Nós fomos a Trancoso no último verão, nós temos um filhinho chamado Rodrigo, nós nos conhecemos pela Internet, nós costumamos dormir tarde, nós nos damos superbem. Nós: que sociedade vitoriosa! Você e mais alguém, uma equipe de dois, uma dupla imbatível, destinada a ser feliz para sempre.

Tudo o que queremos é um dia poder enfrentar o mundo bem acompanhada. Nós: dois em um, somando forças para batalhar pela vida. É uma boa tática, mas o problema geralmente está neste "dois em um", nesta necessidade de fundir-se, de buscar o "nós" antes de tornar-se um "eu".

Todos gostariam de ter a fórmula do amor indestrutível. Não existe amor indestrutível, porém há amores mais sólidos que outros, mais resistentes às adversidades, porque são amores vividos por duas pessoas que armazenam uma boa quantidade de informações sobre si mesmos, pessoas que investigaram a fundo sua coragem e suas fraquezas, pessoas com objetivos, idéias e estilos definidos, pessoas que souberam ser sós antes de irem à luta por um "nós".

Não é fácil tornar-se um "eu". Nascemos numa família que nos repassou seus códigos, depois fizemos amigos que pensavam igualzinho a gente, enfim, não houve muito tempo para interiorizar-se e desenvolver a própria identidade: desde cedo fomos incentivados a escolher uma tribo e se enquadrar.

Intelectual? Aventureiro? Bicho-do-mato? Patricinha? Rebelde? Esquisito? Please, apareça alguém para me ajudar a descobrir quem sou! Aí aparece alguém que gosta muito de você, mesmo lhe conhecendo tão pouco. Mesmo VOCÊ se conhecendo tão pouco! É um convite para interromper as buscas e relaxar:
encontrei o amor, não importa mais quem eu sou. Agora somos dois, somos nós, somos um exército.

Não caia nesta cilada. Casais maduros costumam ser formados por duas pessoas individualizadas, e não por pessoas que se anulam em função da outra. Não interrompa as buscas: continue se investigando, se questionando e evoluindo, mesmo que você tema que suas descobertas o modifiquem e o afastem de quem
você ama. Muito mais desastroso é se afastar de si mesmo.
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(Martha Medeiros)

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Cada coisa em seu lugar...

 A festa reuniu todos os discípulos de Nasruddin. Comeram e beberam por muitas horas e conversaram sobre a origem das estrelas. Quando já era quase madrugada, todos se prepararam para voltar as suas casas.
Restava um belo prato de doces sobre a mesa: Nasruddin obrigou seus discípulos a comê-lo.
Um deles, porém, se recusou.
"O mestre está nos testando", disse. "Quer ver se conseguimos controlar nossos desejos".
"Você está enganado", respondeu Nasruddin. "A melhor maneira de dominar um desejo é vê-lo satisfeito. Prefiro que vocês fiquem com o doce no estômago - que é seu verdadeiro lugar - do que no pensamento, que deve ser usado para coisas mais nobres."
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"Sempre receba aquele que o procura e não corra atrás de quem o rejeita. Desta maneira, você estará criando um laço de harmonia com o seu semelhante. Quando vemos alguém muito ansioso para mostrar como é bom e compreensivo, precisamos testá-lo com severidade. Porque ele busca aplauso para seus gestos e pode ter perdido completamente a humildade."

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Para ser grande...

"Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.

Põe quanto és
No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive."

(Ricardo Reis)

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Tecnomacumba / Divino...



Quase nunca vou a festa
não vejo televisão
não gosto de usar vermelho
não me banho com loção
não sei falar esperanto
conversa fiada eu não
quando durmo sonho sonho
quando acordo como pão
são judas são benedito
são cosme cristinho meu
a paixão é roupa velha
que o rato da dor roeu
passo horas só passando
como o ferro que só passa
cachaça boa eu conheço
é pelo brilho da taça
o mundo anda sem guia
making of da desgraça
road movie sem governo
ave-maria sem graça
o mal da naftalina
é a vitória da traça
o carro que eu andava
parou pra trocar pneu
a existência é um carro
na oficina de Deus
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(Rita Ribeiro / Zeca Baleiro)

Quando...

... a gente briga e não se entende; de quem é a culpa? .. da boca, ou do ouvido?

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Aquilo...

Aquilo que carrego, é aquilo que consigo dar...

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Pulsos...

"Não cortaremos os pulsos, ao contrário, costuraremos com linha dupla todas as feridas abertas." (Lygia Fagundes Telles)

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Pegadinha Astral...

Quando estiver projetado com mais alguém, puxe assunto e comece a falar sobre o cordão de prata.

Então pergunte a pessoa se é verdade que o cordão de prata pode se romper. Quando ela te olhar com aquela cara de quem está falando com um principiante meio retardado e responder que “é claro que não”, faça um ar bem inocente e pergunte: “Então o que que é essa pontinha solta, aí nas suas costas?”

(Esta pegadinha tem mais graça ainda se você e a pessoa estiverem num local bem umbralino.)
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Bene

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Crença...

"Quando não acredito em mais nada, acredito naquilo que experimentei." (Carmen Hernandez)

sábado, 17 de outubro de 2009

O suicidio do bicho-grilo...

São Tiago Antão, no ano II antes de Cristo, peregrinou em jejum pelo deserto, durante seis meses, porque havia matado uma pulga.

Essa atitude lembra muito a de um espécime tipicamente brasileira: o Bicho-grilo porraloquensis . Ele é resultado do cruzamento entre o estudante de filosofia da USP, o hippie da Bolívia e o capoeirista do Pelourinho. Não necessariamente nesta ordem.

Reproduz-se em cativeiro e habita principalmente os quarteirões entre as Ruas Fidalga e Harmonia, na Vila Madalena, em São Paulo.

No Rio adotaram o Baixo Leblon; em Salvador, o entorno do Pelourinho.

É reconhecido por suas batas coloridas, lenços na cabeça e um vocabulário de apenas de quatro expressões: "só", "meu", "muito louco e "tô louco pra caralho."

A alimentação básica do bicho-grilo porraloquensis é arroz integral, batata barôa, empanada argentina, tofu e mais um pouco de arroz integral. Alguns tomam cerveja e fumam um cigarrinho fino e mal-cheiroso.

Os Bicho-grilo têm muitos filhotes. Ninam os rebentos à noite com músicas do Beto Guedes e do Led Zeppelin. Também gostam de colocar nomes diferentes nos filhotes, como Cauê, Aritana, Lenine, Stalimir, Krishna ou Lua. Aparentemente estes nomes são para chocar a sociedade. Como, por exemplo, o de um morador da Rua Girassol encontrado recentemente por pesquisadores e que se chamava Genival Lacerda da Silva Che Guevara.

Nos anos 90, com a proliferação dos bares de pagode e da novela "Vila Madalena", os Bicho-grilo começaram a entrar em extinção. Não podiam mais dormir em redes na varanda e foram ficando cada vez mais tristes. Foi aí que aconteceu a grande diáspora em direção à Visconde de Mauá, São Tomé das Letras, Trindade e calçadas do Espaço Unibanco.

Hoje há poucos espécimes na Vila. Foram sendo expulsos pelas boates, bares, restaurantes e casas de lenocínio. Mesmo assim há agências especializadas em safáris nos bairros onde eles ainda sobrevivem e se reproduzem.

O passeio é instrutivo e muito bem organizado. Percorre-se o local em jipes dirigidos por "rangers" treinados em Bostwana e Quênia. Armados com dardos de tranqüilizantes de maconha, eles mantêm uma distância segura entre turistas e porralocas.

Pode-se também conhecer a área de balão.

O Ministério da Saúde exige apenas vacinação contra larica.

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Era uma vez um bicho-grilo. Por um motivo porraloca qualquer, ele foi ficando triste, triste. A deprê aumentou tanto que o bicho-grilo resolveu tomar uma atitude drástica: pôr fim à existência.

À noite, na cama (ou melhor, na rede, que bicho-grilo não dorme em cama), ele abriu a gaveta do criado-mudo (ou melhor, o bolso da mochila, que bicho-grilo não usa criado-mudo) e pegou o primeiro vidro de remédio que a mão alcançou.
Fechou os olhos, abriu a boca e tomou todo o conteúdo.

Encolheu-se. Logo chegaria a hora de encontrar Shiva. Ou seria o Paulo Coelho?

Não importa a divindade que o iria receber, o importante era escapar de um mundo que não entendia o reiki, a massagem holística, os florais mineiros e principalmente o tofu. Sim, a indiferença do mundo ao queijo de soja era imperdoável. Nada poderia valer à pena se o gênero humano não tivesse sensibilidade suficiente para substituir qualquer alimento por esse maná.

Meia hora, uma hora, duas horas e nada do bicho-grilo morrer. Ele então resolveu abrir os olhos e ver o que tinha tomado.

Era homeopatia.
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(Carlos Castelo)

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Relacionar-se...

“Gostaria que você se tornasse tão capaz que pudesse viver o dia-a-dia e ainda ser meditativo. Gostaria que você se relacionasse com as pessoas, amasse, tivesse milhões de relacionamentos – porque eles enriquecem... – e, ainda assim, continuasse a ser capaz de fechar suas portas e, algumas vezes, tirar uma folga de todos os relacionamentos, de modo que você possa relacionar-se com seu próprio ser também. Relacione-se com os outros, mas relacione-se consigo mesmo também. Ame os outros, mas ame a si mesmo também. Saia! – o mundo é belo, cheio de aventuras; é um desafio, ele o enriquece. Não perca essa oportunidade! Sempre que o mundo bater à sua porta e chamá-lo, saia! Saia sem medo, não há nada a perder, há tudo a ganhar. Mas não se perca. Não vá, permaneça lá e se perca. Algumas vezes, volte para casa. Algumas vezes, esqueça o mundo – estes são os momentos para a meditação. Diariamente, se quiser tornar-se equilibrado, você deve equilibrar o exterior e o interior. Ambos devem ter o mesmo peso, para que dentro de você nunca haja desequilíbrio. É isso que os Mestres-Zen querem dizer quando recomendam: “ Caminhe no rio, mas não deixe a água tocar em seus pés”. Esteja no mundo, mas não deixe o mundo estar em você. Quando voltar para casa, volte para casa – como se todo o mundo tivesse desaparecido. “
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(Osho)

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Banqueiro...

Normalmente, um relacionamento sempre perturba. A não ser que você seja capaz de permanecer só, um relacionamento sempre perturba.

Ele é quase como um banqueiro. Se você tiver dinheiro, o banqueiro irá oferecê-lo a você. Se você não tiver, ele não lhe dará dinheiro. Quando você tem, todo mundo está pronto para lhe ajudar; quando você não tem, ninguém está disponível! Assim, os bancos continuam dando dinheiro às pessoas que são ricas.

Com os relacionamentos, é exatamente o mesmo caso. Se você está feliz, o relacionamento a fará mais feliz. Se você está feliz sozinha – o que significa que você não está precisando de um relacionamento – somente assim um relacionamento lhe dará felicidade. Se você está precisando dele, então você se tornará miserável – porque toda dependência traz miséria.
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(Osho)

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Reinos...



“A grandiosa contribuição do pensamento oriental, de Buda a Vivekananda, a Ramakrishna e outros, dos taoístas tibetanos aos físicos nucleares, enseja a revisão dos parâmetros aceitos, bem como dos modelos estabelecidos, propondo a identificação de fórmula com aparência diversa, no entanto, que se harmonizam, unindo duas culturas – a do passado e a do presente – em uma síntese perfeita, em favor de um homem e de uma mulher holísticos, completos, ao revés de examinados em partes.

Esse concurso que se vinha insinuando multissecularmente, logrou impor-se através das terapias libertadoras de conflitos, tais a meditação, a respiração, a oração, a magnetização da água, a bioenergia, os exercícios de tai-chi-chuan, o controle mental de inegáveis resultados nas mais variadas áreas do comportamento, do inter-relacionamento pessoal, da saúde ...

(...) Somente quando estudado na sua plenitude – espírito, perispírito e matéria – podem-se resolver todos os questionamentos e desafios que o compõem, alargando-lhe as possibilidades de desenvolvimento do deus interno, facultando completude, realização plenificadora, estado de Nirvana, de samadhi, ou de reino dos Céus que lhe cumpre alcançar”.
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(espírito Joanna de Angelis)

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Mudança...

"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o Mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía."

(Luís Vaz de Camões)

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Pancada...

Triste, a escutar, pancada por pancada
A sucessividade dos segundos,
Ouço, em sons subterrâneos, do Orbe oriundos,
O choro da energia abandonada!

É a dor da força desaproveitada
- O cantochão dos dínamos profundos,
Que, podendo mover milhões de mundos,
Jazem ainda na estática do nada!

É o soluço da forma ainda imprecisa...
Da transcendência que se não realiza...
Da luz que não chegou a ser lampejo...

E é em suma, o subconsciente aí formidando
Da natureza que parou, chorando,
No rudimentarismo do desejo!

(Augusto dos Anjos)

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Regra No. 5

Nada é original. Apropria-te de tudo o que te enche de inspiração ou estimula a tua imaginação. Devora sem distinção filmes velhos e filmes novos, músicas, livros, quadros, fotografias, poemas, sonhos, conversas ouvidas por acaso, arquitetura, sinaléctica urbana, árvores, nuvens, movimentos de água, sombras e luz. Rouba apenas as coisas que falem diretamente ao teu coração. Se agires assim, a tua criação (tal como o teu fruto) será autêntica. A autenticidade é inestimável; a originalidade uma quimera. E não tentes dissimular o que pediste emprestado - reinvidica-o se for teu desejo. Dê por onde der, lembra-te sempre do que disse Jean-Luc Godard: "O importante não é onde se apanha as coisas - é até onde se as leva".
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(Jim Jarmusch)

terça-feira, 6 de outubro de 2009

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Pontes...

"Ninguém pode construir em teu lugar as pontes que precisarás passar para atravessar o rio. Ninguém, exceto tu!" (Nietzsche)