quinta-feira, 30 de julho de 2009

Impassível...


Medo. Quanta beleza me dá medo. A beleza é assustadora.
No fundo só o que não importa é que não assusta, tudo que atinge profundidade, também causa instabilidade. Ou quase tudo. Ainda não encontrei a exceção.
EU SÓ QUERO QUE A GENTE SE AME. Silêncio. Nenhuma certeza. Eu esperneio. Impassível.
É tão bonito, e me dá tanto medo, que quase consigo ficar em silêncio. Finalmente..
.
.
.
(Maria Clara)

terça-feira, 28 de julho de 2009

Meu Amor...

Meu amor saiu por aí e não voltou mais. Perdeu-se o meu amor. Deve ter entrado numa tabacaria, livraria, lavanderia, tornearia, padaria, sabe-se lá. O fato é que meu amor perdeu-se. Nunca pensei que meu amor sairia a vagar, ficaria olhando uma vitrine, dobraria numa rua qualquer, entraria em um beco, cairia no chão e ficaria lá, preso entre o meio fio e a desilusão, olhando o movimento dos carros, fixado nos passos das pessoas, no vai e vem dos dias, apático, apoplético.

Meu amor perdeu-se. Não sei se um belo dia decidiu fugir de livre e espontânea consciência, ou se foi uma idéia que lhe surgiu de repente. Nunca foi distraído, o meu amor. Nunca deu-se a arroubos de insanidade nem a inconsciências transitórias. Penso que talvez esteja sofrendo de amnésia ou Alzheimer, com sorte quem sabe apenas um surto passageiro de estafa. Sumiu faz algum tempo – tempo demais para este meu coração danado de ansioso – e faz-me uma enormíssima falta. Já não há capuccinos que cheirem a canela, não há livros que me façam chorar. Abandonaram-me as músicas que eu sei de cor e que são obrigatórias por lei serem cantadas com as janelas do carro bem abertas, ou para que os vizinhos ouçam e riam. Enegreceu qualquer coisa que deveria estar por perto e agora não se acha, desertaram os perfumes da terra, da chuva, das manhãs de sono, de cabelos molhados, de café com pão, dos inícios das tardes quentes que contrariam as frentes frias.

Meu amor saiu e não voltou mais e não há o que possa suprir sua falta, não há o que possa ocupar seu lugar. Sem meu amor eu não sou eu, sou o forro roto do meu casaco, a pedra fria da minha casa, sou um corpo deambulante e oco que dormita dia e noite. Se alguém o encontrar, é favor devolvê-lo com a máxima urgência, avisar os bancos de sangue, a polícia militar, chamar a ambulância, convocar a assembléia de condomínio, tocar trombetas, marcar cirurgia, decretar feriado, publicar na imprensa de grande circulação, gritar por mim. Por favor.
.
.
.
(Patricia Antoniete)

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Sobre a dor...

Uma mulher disse: "Fala-nos da Dor."
E ele respondeu:
"Vossa dor é o quebrar da concha que encerra vossa compreensão.
Como a semente da fruta deve se quebrar para que seu coração apareça ante o sol, assim também deveis conhecer a dor.
Se vossos corações pudessem se manter sempre maravilhados com o milagre diário de vossas vidas, vossa dor não vos pareceria menos maravilhosa que vossa alegria;
E aceitaríeis as estações de vosso coração, como sempre aceitastes as estações que passam sobre vossos campos.
E esperaríeis com serenidade durante os invernos de vossa aflição.
Muitas de vossas dores vós mesmos as escolhestes.
É o remédio mais amargo com o qual vosso médico interior cura o vosso Eu doente.
Portanto, confiai no médico, e bebei seu remédio em silêncio e tranqüilidade:
Porque sua mão, embora pesada e dura, é guiada pela suave mão do Invisível.
E a taça que ele vos dá, embora queime vossos lábios, foi fabricada com o barro que o Oleiro umedeceu com Suas lágrimas sagradas."
(Khalil Gibran. O profeta)

sábado, 25 de julho de 2009

Se não usar seus talentos...

...você encrenca com a natureza quando a insegurança de uma pessoa é muito forte e ela não deveria mais ser assim, pois ela já tem condições de ser melhor, de usar o que já sabe, a natureza não o protege mais e aquilo vai se tornando realidade e chega a criar instabilidade e problemas. Você foi crescendo, e aquilo que era responsabilidade da natureza foi passando a ser sua. Ela não o defende mais, pois nestas coisas você já é adulto e deve se defender por conta própria. Deus não mima ninguém.
Ai de você se não usar o que já sabe, pois vai ficar exposto às conseqüências. Se é sua a responsabilidade de responder pelo que já sabe, então não tem o direito de culpar ninguém, muito menos Deus!
Você já sabe, e a vida o ajudou a aprender e lhe deu a capacidade de se escutar e se cuidar, mas você não quer se escutar, não quer assumir o que é e se abandona no desculpismo, então vai levar uma boa bofetada. Você é diferente e seu caminho é diferente. O que você sabe é diferente do que o outro sabe. O que é melhor para você é diferente do que é para o outro. Mas você gosta de se comparar e achar que também tem o direito e fica a escutar o que os outros falam. Daí, fica aí com medo do mundo.
Então, você pode ficar surdo, pois a vida diz:
- Vou tirar a audição, porque essa pessoa não está mesmo se escutando e se dando valor.
Mas você pode começar a ser responsável por si assumindo que você é diferente dos outros e fazendo tudo do seu jeito.
- Só vou me escutar, só vou escutar a minha natureza interior. Vou fazer as coisas do meu jeito. Vou ser como eu sou, vou fazer como eu quero. E não vou ficar escutando esse povo que só tem besteira para dizer. Vou escutar minha voz interior, minha voz espiritual, minhas experiências.
Aí então, minha filha, seus ouvidos vão melhorar. Está vendo como funciona? É porque você usou os talentos que tem, mas se não usar já encrenca com a natureza, já encrenca com a saúde.
Por isso, vocês fiquem atentos. Tudo o que vocês recebem, tem que dar algo em troca.
Desconfiem daquilo que parece de graça, porque não é, não.
Não podemos deixar de fazer o nosso melhor. Ás vezes, a gente está bem, está sossegado, naquela vida boa, e os outros começam:
- Você precisa fazer isso, precisa fazer aquilo. As pessoas gostam de arranjar coisas para a gente fazer e criar necessidades que não temos. E ainda acham que estão fazendo um bem. “Você precisa ler este livro”, diz o amigo.
Você, então, lê o livro, que diz assim: “O ser humano é um bicho atrasado. O ser humano está precisando de mais amor, de mais benevolência, tudo está errado e tudo precisa ser mudado”.
Você acredita no que lê e fica se olhando e vendo uma porção de defeitos em você. Aí fica louco para ver se consegue mudar você. Pensa que está trabalhando para melhorar. Sem se dar conta, cria um conflito com o seu jeito natural de ser e ele se torna uma doença, porque saiu do seu melhor.
Que coisa, não, minha gente? Nem sempre querer melhorar melhora. Às vezes, piora. Vê lá como é esse negócio de querer melhorar e acabar no pior. Vê lá se, com isso, você não vai fazer da sua vida um inferno.
Nunca se compare com nada e com ninguém. As pessoas gostam de idealizar, de imaginar e acreditam que isto que imaginaram é o perfeito sem o menor respeito pela natureza. Daí, elas tomam tudo o que é diferente do seu modelo imaginário como algo imperfeito e repugnante, criando assim uma batalha com a natureza. A natureza reage e as doenças aparecem.
A natureza já é perfeita; é o homem que distorce tudo, pois não analisa as coisas com cuidado. Se a pessoa falar mal de algo, é porque o mal está na cabeça dela. Por isso não lhe dê ouvidos ou vai se arrepender.
.
.
.
(Calunga)

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Mulher detesta receber livro de presente...

“Some daqui”, ela disse a ele aos gritos. Ela sabia gritar. Era uma coisa tão natural nela como andar, ou dançar, ou cozinhar, ou pintar, ou ler, ou escrever. Moravam juntos fazia um ano, e ela o estava mandando embora de casa. Não funcionara, e ponto. Ele não tentou dissuadi-la em parte porque sabia ser impossível, e em parte também porque sabia que a história deles fora à falência como um daqueles bancos de investimentos americanos apanhados pela grande crise financeira de 2008. Em amores falidos quanto menos conversa houver melhor. Os diálogos costumam apenas aprofundar a dor e a raiva.

Quando decidiram morar juntos, depois de um namoro curto de cinco meses, um projetava grandes expectativas no outro. Um romance saudável não combina com expectativas elevadas: a frustração costuma ser letal. Espere pouco de um caso de amor e as chances de ele florescer são, paradoxalmente, maiores. Eles esperaram muito um do outro, e depois se culparam mutuamente pela decepção.

No final, o que restara de bom fora, apenas, a vida sexual.. Ele não conseguia se deitar ao lado dela na cama sem querer possuí-la. Parecia um feitiço. Ele gostava dos sons dela no sexo, dos gemidos suaves e constantes. Gostava do cheiro dela, do contorno delicado de seu corpo miúdo e bem feito. Do jeito de fechar e de abrir os olhos quando ele estava por cima dela. Gostava da expressão dela quando ficava sobre ele. Uma vez a fotografara assim e depois dera à foto o nome de Orgasmo Poltersgeist. Ela se sentia lisonjeada com o fascínio sexual que exercia sobre ele. Poucas sensações elevam tanto uma mulher quanto a de saber que é desejada. Mas o sexo bom apenas retarda o fim de uma história de amor, não o evita.


“Uma vez você falou que me dava orgasmos como ninguém”, ela disse na conversa final com ele. “Você achava que isso era suficiente. Mas não. Orgasmo uma mulher pode ter com um vibrador. Um casamento é muito mais que uma fábrica de orgasmos. Um casamento é feito fora da cama, não nela. Um casamento se constrói quando estamos de pé, e não deitados.”


Ele riu sozinho. Essa frase dela lembrou a ele uma tirada clássica de Churchill, o líder inglês da Segunda Guerra. “Sente-se em vez de ficar de pé, se você pode. E se deite em vez de ficar sentado, se der.” De Churchill ele se lembrava de outra tirada clássica. Uma mulher dissera a ele, numa festa da aristocracia inglesa, que poria veneno na sua bebida se fosse casada com ele. Churchill replicara que se fosse marido dela tomaria o veneno alegremente.


Ela tinha um vibrador, guardado na gaveta de calcinhas. Comprara pela internet para evitar o embaraço da compra pessoal. Homens se sentem constrangidos ao comprar preservativos, e mulheres sentem o mesmo ao comprar vibrador. Ele viu no vibrador - rosa, delicado, efeminado até, mas eficiente em suas cinco fases de vibração - um competidor. De uma forma estranha ele preferia que, se era para ter orgasmos sem ele, que fosse com outro homem e não com uma maquininha cor de rosa. A aquisição se fizera no final do casamento.

“Você não me enxergava nem nos presentes que dava para mim”, ela disse ao despedi-lo. Olhou para uma esstante cheia de livros que ele lhe dera. Uma mistura exótica e desconexa de letras. Greene, Llosa, Confúcio, Roth, Updike. “Você sabe que eu adoro ler. Ter um bom livro nas mãos me dá um prazer quase sexual.” No momento ela estava lendo A Menina Má, de Llosa. Vagava lenta e com atenção extrema pelas linhas e pelas páginas de Llosa. Ele dizia nos bons tempos, brincando, que ela era sua menina má.

“Mas. Porém. No entanto.” A cada palavra a voz dela subia de tom. “Caraca. Será que você nunca vai entender que mulher detesta receber livro de presente?”


Os amantes que iniciam uma guerra talvez subam aos céus nas reconciliações sexuais, mas inapelavelmente descerão ao inferno para daí não mais saírem, miseravelmente derrotados. O inferno só vai terminar com o fim da relação. Acabado o romance, se o homem e a mulher estiverem inteiros, o máximo que conseguirão dizer de tantas coisas que viveram juntos é: sobrevivi. E não será pouco. Porque muita gente não sobrevive. Digo fisicamente mesmo. Um dos destinos clássicos da guerra amorosa, como na guerra convencional, é o caixão. Uma imagem que trago perene na mente é a do sangue numa calçada em que um casal desvairadamente apaixonado se matou com uma faca. Eu jamais soube quem pegou primeiro a faca. Ou quem morreu primeiro. O fato é que ambos saíram mortos daquela que seria sua última briga.

Eu falei acima do teste. Em casais que decidam testar a tese bélica da revista americana. Mas errei. A guerra no amor, como a globalização, não é escolha. É destino. Os tambores já começam a rufar, anunciando a guerra, quando certos homens e certas mulheres nem trocaram ainda o olhar de flerte. Pode ser que ele, o homem, tenha sido, em todos os outros relacionamentos, tão pacífico quanto uma ovelha tibetana. E ela também. Mas, ao se encontrarem, por alguma química estranha, os exércitos se mobilizam. E não demora muito para que alguém aperte o gatilho.


É o amor neurótico em ação. O amor neurótico é generoso como nenhum outro tipo de amor: proporciona momentos inigualáveis, sobretudo no sexo. E é também cruel como um cossaco russo. (Meu tio Fábio, falecido homem sábio do interior, é que me contava que não havia nada tão cruel quanto um cossaco russo. Jamais conferi a veracidade histórica dessa afirmação, mas confio integralmente na sabedoria de meu tio.) Céu e inferno, inferno e céu.

Uma característica essencial no amor neurótico é que você pega o pacote todo ou não pega nada. Não dá pra ficar com a parte boa e desprezar a ruim. Infelizmente, é impossível ter sexo com alta nota na escala Pacino - Diabo e, ao mesmo tempo, assistir de mãos dadas à novela das 8 comendo pipoca. A fraternidade é uma impossibilidade científica no amor neurótico.

Uma outra característica vital do amor neurótico é que, no princípio o êxtase predomina sobre a fúria. Há muito céu e pouco inferno. Cada vez mais no inferno, cada vez menos céu. Você mal acredita que um dia as coisas andaram tão bem, tão destruidora a relação se tornou. É tempo de encerrar. Isto é, se você ainda estiver vivo para cair fora. Eu quase iria dizendo, pueril e inutilmente: fuja, fuja do amor neurótico enquanto há tempo. Mas não adianta: você é capturado muito antes de se dar conta de que se trata de um amor neurótico. Então termino dizendo apenas a quem está vivendo ou vai viver uma paixão dessas: boa sorte.
.
.
.
(Fábio Hernandez)

terça-feira, 21 de julho de 2009

Pão bolorento...

Ele queria aquela vida pra ele. Nem sob tortura diria isso, é claro; precisava manter a fama de quem vive bem fazendo o que todo homem deseja e inveja: comer quem bem lhe aprouvesse, na hora que quisesse.


Aquela era a noite de jantar na casa do amigo. Seu melhor amigo, se dá pra dizer que homem tem dessas coisas. Gostava mesmo do cara. E também adorava acasa dele, a mulher dele, os filhos dele. Da vida dele. E dele. Mas, é claro também, não pretendia dizer isso nunca.
Era um gostar que passava longe da inveja, da ziquizira. Estava mais pro suspiro de satisfação diante de uma sobremesa gostosa. Era um alento saber que existia uma relação com o que ela implica-- mulher, família, contas, empregadas, vícios-- e que, ainda assim, deixava espaço para amigos e boa bebida.
Ligou avisando que chegaria antes da hora marcada (tinha cancelado um compromisso), mas que não precisavam acelerar o jantar: queria brincar com as crianças. Adorava crianças apesar de não ter nenhuma, mais por falta de vontade de lidar com a inevitável mãe delas do que pelo trabalho e dedicação que exigem. Tinha os filhos do amigo e isso já era bom.
Tocou a campainha. Deu um beijo na mulher do amigo, entrou. Deixou o vinho tinto (presente) sobre a mesa e foi direto pra sala bancar o animador de festa infantil. Enquanto rolava pelo chão entre brinquedos e almofadas, torturando os pequenos com cócegas, conversava com ela. Era maravilhosa. Bem humorada, inteligente, sarcástica, bonita e mãe -como uma mulher só poderia reunir tanta coisa boa? Ela contrariava a lei universal da média cinco: as gostosas eram imbecis e as legais eram demônios. Era mesmo um sortudo aquele sacana.
A porta da frente fechou e deu pra ouvir o barulho da chave batendo na mesinha. O amigo chegou, meio cansado por causa do trânsito, meio puto por causa do trabalho, meio alegre por poder tirar os sapatos e desabotoar a calça. Dá oi pra todo mundo, beijo na mulher e vai pra geladeira pegar alguma coisa pra beber: o calor senegalês daquele verão estava um horror.
Já devidamente instalados no sofá, começam, os três, a conversar. O assunto não importava muito: estavam ali pra passar tempo com quem gostavam. Reclamaram de dinheiro, sacanearam alguns ausentes, questionaram o talento de algum guitarrista. Mas era um tal de vai e volta da cozinha até o risoto ficar pronto, que dava tontura acompanhar o senta e levanta.
Pronto, ficou. Toca pra lá de novo.
Encheram a cara, riram, viram as crianças se babarem com a comida. Bom saber que alguém nesse mundo tinha um relacionamento longo, fiel. E olha que o amigo poderia ter feito o diabo se quisesse: não era só ele no casal que tinha todos aqueles atributos citados (só não ser mãe). Já nem lembrava há quanto tempo estavam juntos, do mesmo jeito que não lembrava ter conhecido casal tão unido, apesar das brigas que, fatalmente, rolavam. Puta sorte a deles.
De repente, parou de prestar atenção na conversa, mesmo participando com algum comentário eventual. Tinha algo errado com o amigo. Apesar dos costumeiros movimentos agitados e falar ininterrupto, alguma peça parecia fora de lugar. Sabe-se lá, poderia ser só uma impressão errada trazida pelo álcool.
Não, não era.
Ah, devia ser. Ele jamais faria besteira com aquela mulher ou aquela família. Com aquela vida. Jamais colocaria em risco aquilo tudo.

O álcool é mesmo uma merda: nos faz duvidar da sanidade até de quem conhecemos a encarnações. Se tinha certeza de algo na vida, era a de que ele nunca colocaria em risco aquilo tudo. O risoto estava ótimo. Como sempre.
.
.
.
(Ailin Aleixo)

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Personagens...

Esta é uma história sobre quatro pessoas: Todo mundo, Alguém, Qualquer um, Ninguém .

Havia um importante trabalho a ser feito e TODO MUNDO tinha certeza de ALGUÉM o faria.

QUALQUER UM poderia tê-lo feito, mas NINGUÉM o fez.

ALGUÉM zangou-se porque era um trabalho de TODO MUNDO.

TODO MUNDO pensou que QUALQUER UM poderia fazê-lo, mas NINGUÉM imaginou que ALGUÉM ou mesmo TODO MUNDO deixasse de fazê-lo.

Ao final, TODO MUNDO culpou ALGUÉM quando NINGUÉM fez o que QUALQUER UM poderia ter feito.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

"Urubus comedores de carniça..."

“Yellow journalism is a type of journalism that downplays legitimate news in favor of eye-catching headlines that sell more newspapers. It may feature exaggerations of news events, scandal-mongering, sensationalism, or unprofessional practices by news media organizations or journalists” - Wikipedia gringa sobre yellow journalism, o equivalente a imprensa marrom.

A imprensa brasileira, mais uma vez, nos presenteia com um show de horrores, transformando a tragédia pessoal de alguns num espetáculo de todos. O que se assiste na televisão, nos portais e nos jornais é um caldo de notícias desencontradas, não-confirmadas e cruelmente manipuladas para dar um toque de sensacionalismo barato. O blog Salve a Rainha teceu ontem um comentário mirando nas headlines sobre o acidente aéreo que ocorreu nesta segunda-feira de uma maneira que não concordo, mas acabou acertando em cheio nos despropósitos daqueles que deveriam informar em favor da verdade.

A verdade é que o acidente com o voo da Air France deve ter uma explicação, tem que ter investigação e informações oficiais sobre esforços de buscas afim de um desfecho devem ser noticiadas. Só isso? Trata-se de algo que já daria muito trabalho a jornalistas sérios para pesquisar e informar. Entretanto, não é este o único esforço de enormes equipes, que dizem praticar jornalismo sério. É tanta pauta que sobra até para uma Ana Maria Braga entrevistar especialistas sobre aviação e engenharia aeronáutica.

Como o referido post do blog Salve a Rainha insiste, o que adianta noticiar que havia um casal em lua de mel no voo? De que vale para a busca dos fatos saber que um dos passageiros tinha medo de voar? Por trás desta humanização de uma notícia, afim de torná-la mais próxima de nós, reles mortais que poderiam estar num voo com um trágico e igual fim, o jornalismo marrom praticado pela imprensa brasileira exibe cada detalhe de carniça sensacionalista para ávidos leitores, hipnotizados pelo mistério e pela esperança de um desfecho milagroso.

Duas coisas devem ser comentadas sobre o que está ocorrendo neste momento em uma série de redações canarinhas:

1. Nesta busca pela headline mais impactante, quanto esforço está sendo colocado para cutucar a ferida daqueles que estão num momento difícil? Será o mesmo esforço que o jornalista está fazendo para entender laudos técnicos que virão a seguir para não ficar repetindo termos como grooving, reversor ou transponder, entre outros repetidos de maneira vazia no passado, em um infográfico para leigos?

2. Vale mesmo a pena correr atrás da melhor headline em detrimento de dar a notícia corretamente? Se valer, o que impede um jornalista destes de tentar comprar, por exemplo, um assessor de imprensa para que ele forneça comunicados oficiais vazios apenas para que sua equipe tenha um “furo”? Aqui vai uma notícia para vocês: não impede e eu tenho convicção que alguns colegas assessores de imprensa que já passaram por um gerenciamento de crise sério como este já receberam assédios semelhantes.

Há algo muito mais podre do que toda a coleção de discussão sobre ética em blogs elevada ao quadrado nestas fábricas de notícias. E onde há podridão, não podem faltar os urubus de plantão. Eu não desejo uma tragédia pessoal que alardeie a opinião pública na vida de ninguém, pois só quem já viu de perto sabe como lambe o beiço (ou o bico) um jornalista marrom louco pela notícia. Parafraseando os Racionais MCs, urubus filhos da puta, comedores de carniça.

Mas eu ainda não acabei. Nós aqui do time do Social Media, a turminha descolada do Twitter e dos blogs que adora uma confusão, que faz história, vira mito e revoluciona a comunicação, não somos mais do que expectadores deste showzinho sem fim, auxiliando o conteúdo da web com piadinhas de gosto duvidoso, boatos que são espalhados sem a menor noção do que está sendo provocado por ele, e, claro, a tonelada de posts para atrair paraquedistas torpes querendo fotos de cadáveres. Não é melhor em nada do que as práticas dos jornalistas descritos neste post.

Para finalizar este post grande, uma notícia a todos que esperam pela porra da lista de passageiros, como já ouvi por aí: a França não permite que se espetacularize uma notícia. Cada uma das famílias é acionada e, em geral, opta por não vincular o nome da vítima ao acidente. Lá, a imprensa respeita (ou é obrigada a respeitar) cada uma das famílias e amigos, que não podem ser importunados, tomar microfonada, nada. Como a empresa é francesa, tal qual uma boa parte das vítimas deste voo, investiga-se lá e respeita-se as regras de lá. Se alguém mencionar algum tipo de lei para fazer o mesmo por aqui, provavelmente vai ter que ouvir muita ladainha sobre censura, ditadura e liberdade de imprensa. Que me desculpem os colegas comunicadores e me chamem de direitista, eu opto pelo bom senso.

Desejo força aos familiares e amigos das vítimas e um caloroso abraço aos amigos jornalistas sérios que querem os fatos e que ajudaram com as informações deste post."

.. daqui.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

terça-feira, 14 de julho de 2009

O alvo...



"Eu falo de amor à vida,
Você de medo da morte.
Eu falo da força do acaso
E você de azar ou sorte.

Eu ando num labirinto
E você numa estrada em linha reta.
Te chamo pra festa,
Mas você só quer atingir sua meta.
Sua meta é a seta no alvo,
Mas o alvo, na certa, não te espera.

Eu olho pro infinito
E você de óculos escuros.
Eu digo: "Te amo!"
E você só acredita quando eu juro.

Eu lanço minha alma no espaço,
Você pisa os pés na terra.
Eu experimento o futuro
E você só lamenta não ser o que era.
E o que era?
Era a seta no alvo,
Mas o alvo, na certa, não te espera.

Eu grito por liberdade,
Você deixa a porta se fechar.
Eu quero saber a verdade
E você se preocupa em não se machucar.

Eu corro todos os riscos,
Você diz que não tem mais vontade.
Eu me ofereço inteiro
E você se satisfaz com metade.
É a meta de uma seta no alvo,
Mas o alvo, na certa não te espera!

Então me diz qual é a graça
De já saber o fim da estrada,
Quando se parte rumo ao nada?

Sempre a meta de uma seta no alvo,
Mas o alvo, na certa, não te espera.

Então me diz qual é a graça
De já saber o fim da estrada,
Quando se parte rumo ao nada?"

segunda-feira, 13 de julho de 2009

O livro de Mirdad...

"No mais alto cume das Montanhas Alvas, conhecido como o Pico do Altar, jazem as vastas e sombrias ruínas de mosteiro outrora famoso, com o nome de A ARCA. A tradição ligava a uma antigüidade tão venerável quanto a do Dilúvio, e seu fundador o próprio Noé. Reza a lenda que Noé disse a seu filho: "Assalta-me um receio de que os homens, com o tempo, se esqueçam do Dilúvio e da luxúria e maldade que o provocaram; de que também se esquecem da Arca e da Fé que a susteve em triunfo durante 150 dias sobre a fúria dos abismos vingadores e de que nem se lembrem da Nova Vida que surgiu dessa Fé da qual eles são o fruto. Para que eles não esqueçam, eu te peço, filho meu, que levantes um altar sobre o mais alto pico destas montanhas, e rogo-te que construas, à volta desse altar, uma casa que em todos os pormenores corresponda à Arca e que, sendo embora, de menores dimensões, será chamada A Arca".
Nove monges habitavam o lugar, pois esse foi o número dos que habitavam a Arca original. Segundo Noé, a 9ª pessoa "era um clandestino, que somente eu vi e conheci. Era meu constante companheiro e meu homem do leme. Nada mais me perguntes sobres ele, mas não deixes de lhe guardar um lugar no teu Santuário. Esta é minha vontade".
Quando Noé morreu, seus filhos lhe enterraram debaixo do altar, na Arca, que por muitos e muitos anos continuou a ser, de fato e em espírito, o verdadeiro Santuário idealizado e ordenado pelo venerável conquistador do Dilúvio. Com o passar dos séculos, porém, a Arca principiou, pouco a pouco, a receber dos fiéis donativos muito além do que realmente necessitava. De tal fato resultou que se foi tornando, de ano para ano, mas rica em terras, prata, ouro e pedras preciosas.
Um dia, há algumas gerações atrás, tendo falecido um dos nove, apresentou-se um estranho aos portões do mosteiro, solicitando admissão na comunidade. De acordo com as antigas tradições da Arca, tradições essas que jamais haviam sido violadas, o estranho deveria ser imediatamente admitido, já que havia sido o primeiro a solicitar essa admissão, após o falecimento de um dos nove. Mas o Superior da comunidade era um homem prepotente, de mentalidade mundana e coração duro. Não se agradou da aparência do estranho que estava nu, faminto e coberto de chagas; disse-lhe que era indigno de ser admitido na comunidade. Aceitou-o, porém, como servo, profissão que o estranho exerceu por 7 anos em total silêncio, enquanto o mosteiro acumulava riquezas incalculáveis, comprando para si todas as terras e vilas por muitas milhas ao seu redor.
No oitavo ano, o servo resolve falar.

A PALAVRA CRIADORA
Velados estão vossos olhos com grande número de véus. Cada coisa sobre a qual lançais vosso olhar é um véu. Selados estão vossos lábios com grande número de selos. Cada palavra que pronunciais é um selo.
As coisas, sejam quais forem as suas formas e espécies, são somente véus e ataduras com que a Vida está atada e velada. Como poderão os vossos olhos, que são em si mesmo um véu e uma atadura, levar-vos a algo que não seja às ataduras e véus?
E as palavras? Não são elas seladas por letras e sílabas? Como poderão os vossos lábios, que são em si mesmo selos, balbuciar algo que não seja selo?
Os olhos podem velar, porém não podem penetrar os véus.
Os lábios podem selar, porém não podem quebrar os selos.
Não lhes peçam nada mais do que eles podem dar. Essa é a parte que lhes toca na atividade do corpo e eles bem a desempenham. Para penetrardes além dos véus necessitais de olhos outros que não aqueles dotados de pálpebras e sobrancelhas, e para quebrar os selos precisais de outros lábios que não aqueles de carne. Vede, em primeiro lugar, corretamente, os vossos olhos, se quiseres ver corretamente as outras coisas. Se não virdes e não falares corretamente, nada mais vereis senão a vós mesmos e nada mais pronunciareis senão a vós mesmos. Se, pois, vosso mundo é um enigma indecifrável, é porque vós mesmos sois enigmas indecifráveis. E se o vosso falar é uma deplorável confusão, é porque sois essa deplorável confusão.

Deixai as coisas como elas são e não vos esforceis para modificá-las. Porque elas parecem ser o que parecem devido a vós parecerdes o que pareceis. Se elas vos falarem asperamente, atentai para vossas línguas. Se vos parecem feias, procurai a fealdade, em primeiro e último lugar, nos vossos próprios olhos. Não deveis pedir às coisas que se dispam dos seus véus. Tirai vós próprios os vossos véus, e elas perderão os seus.
A chave para remover os véus de si mesmo e quebrar os próprios selos é uma palavra que deveis trazer eternamente presa em vossos lábios. É a menor e a maior de todas as palavras. Mirdad a denominou A PALAVRA CRIADORA. "Eu", ó monges, é a Palavra Criadora. Quando disserdes eu, acrescentai, imediatamente, em vossos corações: "Deus seja o meu refúgio contra a malignidade do eu e meu guia para a bem-aventurança do eu", pois nessa palavra, embora tão pequena, está encerrada a alma de todas as outras palavras.
Vosso eu nada mais é do que a vossa consciência de Ser, ilenciosa e incorpórea, que se faz sonora e corpórea. É o inaudível que se torna audível; o invisível que se torna visível; a visão que os permite ver o que não se vê; a audição que os permite ouvir o que não se ouve. Ainda tendes presos os vossos olhos e os vossos ouvidos. E se não virdes com os vossos olhos e não ouvirdes com os vossos ouvidos, nada vereis e nada ouvireis. Basta que penseis eu, e um mar de pensamentos se agitará dentro de vossas cabeças. Esse mar é uma criação de vosso eu, que é, ao mesmo tempo, o pensador e o pensamento. Se tendes pensamentos que apunhalam, que mordem o despedaçam, ficai certos de que somente o eu-em-vós lhes deu o punhal, os dentes ou as garras.

Pelo mero pronunciar eu, trazeis à vida uma multidão de palavras, cada qual símbolo de uma coisa; cada coisa, símbolo de um mundo; cada mundo, parte de um universo. Esse universo é criação do vosso eu, o qual é, ao mesmo tempo, o criador e criatura. Se houver alguns duendes em vosso universo, podeis estar certos de que foi o vosso eu quem os criou. Conforme for a vossa consciência, assim será o vosso eu. Conforme for o vosso eu, assim será o vosso mundo. Se o vosso eu for uno, o vosso mundo será uno; e vós tereis a paz eterna com todas as hostes celestiais e os habitantes da Terra. Se o vosso eu for múltiplo, o vosso mundo será múltiplo; e estareis em perpétua guerra com vós mesmos e com todas as criaturas dos domínios imensuráveis de Deus.

O eu é o centro de vossa vida de onde irradiam as coisas que constituem a totalidade de vosso mundo e para o qual elas convergem. Se ele for firme, o vosso mundo será firme, e não haverá forças em cima ou em baixo que vos possam desviar para a direita ou para a esquerda. Se for instável, vosso mundo será instável; e sereis um folha indefesa colhida pelo terrível redemoinho do vento. Alerta! Eis que o vosso mundo é firme, não há dúvida, somente, porém, na instabilidade. E o vosso mundo é certo unicamente na incerteza. E é constante o vosso mundo, mas tão só na inconstância. E o vosso mundo é uno, mas somente na multiplicidade.
O vosso é um mundo em que os berços se tornam sepulcros, e os sepulcros se tornam berços; em que os dias devoram as noites, e as noites vomitam dias; de paz, declarando guerra, e de guerra, implorando paz; em que os sorrisos flutuam sobre as lágrimas, e as lágrimas brilham nos sorrisos. O vosso é um mundo em constante trabalho de parto, em que a parteira é a Morte. O vosso é um mundo dividido contra si mesmo, porque vosso eu é assim dividido.
O vosso é um mundo de barreiras e de cercas, porque o vosso eu é uma dessas barreiras e cercas. Ele põe uma cerca para que aquilo que lhe é estranho não entre, e estabelece outra para aquilo que lhe é afim não saia. No entanto, o que está para fora da cerca se põe a passar para o lado de dentro, e o que está dentro se põe a passar pra fora, pois sendo ambos prole da mesma mãe - e também o vosso eu - não podem ser separados. E vocês, em vez de se regozijarem com a sua feliz união, tornam a continuar o infrutífero trabalho de separar o inseparável. Em vez de estabelecerem a divisão de vosso eu, despedaçam a vida na vã tentativa de tentar separar aquilo que pensam ser o vosso eu daquilo que julgam não ser o vosso eu. Eis porque as palavras dos homens são embebidas em veneno. Eis porque são os seus dias são ébrios de tristeza. Eis porque são as suas noites tão atormentadas pela dor.
Mirdad, ó monges, estabelecerá a divisão em vosso eu para que possais viver em paz convosco mesmo, com todos os homens e com todo o universo.
Mirdad extrairá o veneno de vosso eu para que possais provar as doçuras da Compreensão.
Mirdad vos ensinará a pesardes o vosso eu para que conheçais a alegria do PERFEITO EQUILÍBRIO."
(Trecho do livro "O livro de Mirdad de Mikhail Naimy)

O que é ciume?

Ciúme é comparação. E fomos ensinados a comparar, fomos condicionados a comparar, comparar sempre. Alguém possui uma casa melhor, alguém tem um corpo mais bonito, alguém tem mais dinheiro, alguém possui uma personalidade mais carismática. Compare, continue comparando a si mesmo com todo mundo que você encontrar, e o resultado será um grande ciúme; esse é o sub produto do condicionamento da comparação.

De outra maneira, se você deixa de comparar, o ciúme desaparece. Assim você simplesmente sabe que você é você e ninguém mais, e que não há nenhuma necessidade de ser outro alguém. É bom que você não se compare com as árvores, senão você começaria a se sentir muito ciumento: porque você não é verde? E porque Deus tem sido tão duro com você – e nenhuma flor? É melhor você não se comparar com os pássaros, com os rios, com as montanhas; do contrário você irá sofrer. Você só se compara com os seres humanos, porque você foi condicionado a só se comparar com os seres humanos; você não se compara com os pavões e com os papagaios. Senão seu ciúme seria bem maior; você estaria tão sobrecarregado de ciúmes que você não seria capaz de viver de maneira nenhuma.

A comparação é uma atitude muito tola, porque cada pessoa é única e incomparável. Uma vez que esse entendimento se estabelece em você, o ciúme desaparece. Cada um é único e incomparável. Você é apenas você mesmo: ninguém nunca foi como você e ninguém nunca será como você. E você também não precisa ser nenhum outro.

. Deus cria somente originais; ele não acredita em cópias carbono.

Um grupo de galinhas estava no quintal quando uma bola de futebol passou por sobre a cerca e caiu no meio delas. Um galo chegou gingando, estudou-a, e então disse, “Não estou reclamando garotas, mas vejam o trabalho que eles estão fazendo no vizinho ao lado”.

Na porta do vizinho grandes coisas estão acontecendo: a grama é mais verde, as rosas são mais rosadas. Todo mundo parece estar tão feliz – exceto você. Você está continuamente comparando. E a mesma coisa está acontecendo com os outros, eles também estão comparando. Talvez eles também achem que seu gramado é mais verde – sempre parece mais verde à distância – que você tem uma esposa mais bonita... Você está cansado, você não pode acreditar como você permitiu se envolver com essa mulher, você não sabe como se livrar dela – e o vizinho pode estar com ciúmes de você, que você tem uma mulher tão bonita! E você pode estar com ciúmes dele...

Todo mundo tem ciúmes de todo mundo. E com ciúmes criamos um tal inferno, e com ciúmes nos tornamos muito medíocres.

Um velho fazendeiro estava mal-humoradamente avaliando os estragos da inundação. “Hiram!” Gritou o vizinho, “seus porcos foram todos levados pela correnteza”.
“E quanto aos porcos do Thompsom?” Perguntou o fazendeiro.
“Eles também foram levados”.
“E os de Larsen?”
“Também”.
“Hum!” Exclamou o fazendeiro, comemorando. “Não foi tão ruim como eu pensava”.

Se todos estão na miséria, isso parece bom; se todos estão perdendo, isso parece bom. Se todos estão felizes e bem sucedidos, isso tem um sabor muito amargo.

Mas por que antes de tudo a idéia do outro entra na sua cabeça? Deixe-me lembrá-lo novamente: porque você não permitiu sua própria seiva fluir; você não permitiu sua própria felicidade brotar, você não permitiu seu próprio ser florescer. Daí você se sentir vazio no íntimo, então você olha para o exterior de cada um e de todo mundo porque isso é só o que você pode ver.

Você conhece seu íntimo e você conhece o exterior dos outros: isso gera ciúmes. Eles conhecem seu exterior e eles conhecem o interior deles: isso gera ciúmes. Ninguém mais conhece seu íntimo. Lá você sabe que você não é nada, não vale nada. E os outros parecem tão sorridentes exteriormente. O sorriso deles pode ser falso, mas como você pode saber que são falsos? Talvez seus corações sejam também sorridentes. Você sabe que seu sorriso é falso porque seu coração não está sorrindo de maneira alguma, ele pode estar lamentando e chorando.

Você conhece sua interioridade, e só você a conhece, ninguém mais. E você conhece o exterior de todos, e as pessoas fizeram o exterior delas parecer bonito. Exteriores são vitrines e são muito enganadoras.

Há uma antiga história Sufi:
Um homem estava muito oprimido pelo seu sofrimento. Ele costumava orar diariamente a Deus, “Porque eu? Todos parecem ser tão felizes, porque só eu estou sofrendo tanto?” Um dia, em grande desespero, ele orou a Deus, “Você pode me dar o sofrimento de qualquer um outro e estou pronto para aceitar isso. Mas leve o meu, não posso mais suportá-lo”.

Aquela noite ele teve um belo sonho, belo e muito revelador. Ele sonhou naquela noite que Deus aparecia no céu e dizia para todos, “Tragam todos os seus sofrimentos para o templo”. Todos estavam cansados de sofrer – na verdade todos tinham orado alguma vez ou outra, “Estou pronto para aceitar o sofrimento de qualquer um outro, porém leve o meu sofrimento, é demais, é insuportável”.

Assim todo mundo colocou seu próprio sofrimento em sacolas e levaram para o templo e todos pareciam muito felizes; o dia havia chegado, suas preces foram ouvidas. E esse homem também correu para o templo.

E então Deus falou, “Coloquem suas sacolas na parede”. Todos as sacolas foram colocadas na parede e então Deus declarou: “Agora vocês podem escolher. Podem pegar qualquer sacola”.

E a coisa mais surpreendente foi: que esse homem que tinha estado sempre orando, correu em direção a sua sacola antes que alguém mais pudesse escolhê-la! Ele contudo, ficou surpreso porque todo mundo correu para sua própria sacola e todos estavam contentes com a escolha. O que aconteceu? Pela primeira vez, todos viram a miséria dos outros, o sofrimento dos outros – as sacolas deles eram tão grandes, ou até mesmo maiores!

E o segundo problema era, as pessoas tinham se acostumado com os seus próprios sofrimentos. E agora escolher o sofrimento de outra pessoa – quem sabe que tipo de sofrimento estará dentro da sacola? Pra que se incomodar? Pelo menos você está familiarizado com o seu próprio sofrimento e você já está acostumado com ele, e ele é suportável. Por tantos anos você o tolerou – porque escolher o desconhecido?

E todos foram para casa felizes. Nada havia mudado, eles estavam trazendo o mesmo sofrimento de volta, mas todos estavam felizes e sorridentes e alegres porque conseguiram suas próprias sacolas de volta.

Pela manhã ele orou para Deus e disse, “Grato pelo sonho; nunca mais pedirei novamente. Tudo que você me tem dado é bom para mim, tem que ser bom para mim; eis porque você me deu isso”.

Devido ao ciúme você está em constante sofrimento; você torna-se medíocre para os outros. E por causa do ciúme você começa a ficar falso, porque você começa a fingir. Você começa a fingir coisas que você não possui, você começa a fingir coisas as quais você não pode ter, que não são naturais a você. Você se torna cada vez mais artificial. Imitando os outros, competindo com os outros, que mais você pode fazer? Se alguém tem alguma coisa e você não tem, e você não tem a possibilidade natural de ter isso, o único jeito é arranjar algum substituto barato para isso.

Eu soube que Jim e Nancy Smith divertiram-se muito na Europa nesse verão. É tão legal quando um casal finalmente tem a oportunidade de realmente viver bem. Eles estiveram por toda parte e fizeram de tudo. Paris, Roma... Você diz o nome, eles estiveram lá e viram tudo.
Porém foi tão embaraçante voltar para casa e passar pela alfândega. Vocês sabem como a os oficiais da alfândega espionam todos os seus pertences. Eles abriram uma sacola e tiraram três perucas, cuecas de seda, perfume, tintura para os cabelos... Realmente embaraçante. E era apenas a sacola de Jim!

Basta olhar para dentro de sua mala e você irá encontrar tantas coisas artificiais, falsas, coisas fictícias – pra que? Porque você não pode ser natural e espontâneo? – devido aos ciúmes.

O homem ciumento vive no inferno. Pare de comparar e os ciúmes desaparecem, a mediocridade desaparece, a falsidade desaparece. Mas você só pode deixá-los se seus tesouros íntimos começarem a crescer; não existe outra maneira.

Cresça, torne-se um individuo mais e mais autêntico. Ame e respeite a si mesmo do jeito que Deus lhe fez e então, imediatamente, as portas do paraíso se abrem para você. Elas sempre estiveram abertas, você simplesmente nunca deu atenção a elas.
.
.
.
(Osho, Extraído de: The Book of Wisdom, Chapter 27)

segunda-feira, 6 de julho de 2009

A grande maldição...

"Seja ciumento" é a pior praga que pode ser rogada sobre você.

Você provoca. Atiça só pra ver se a ação condiz com o meu discurso. Daí se assusta: largo o copo de vinho na metade, levanto da mesa, chego bem pertinho do rosto da criatura que se interpôs entre sua atenção e minha inteligência. Próxima daquele ser desconhecido e instantaneamente odiado. Ela que, mesmo sem nome, desviou seu olhar de mim. Então apóio a mão esquerda na mesa, a direita na cintura e digo, bem arrogante: "Se olhar mais, vai ter que ir lá e tentar pegar. Caso contrário, é melhor você mudar de lugar. Atrás daquela pilastra,
de preferência".

O ciúme me faz perder o bom senso, a compostura e a educação que me resta. Me transformo repentinamente na Maria Padilha, mesmo sem o sotaque, a garrafa de cachaça na mão e o cigarro caído no canto da boca. Tenho ganas de acabar com o mundo, só para me assegurar de que você perceba o quanto odiei seu pequeno flerte e a grande dor que ele me causou: a dor de me sentir excluída, nem que por instantes, da sua vida. Notar que outra pessoa pode tomar aquele lugar que é só meu. Desejo que seja só meu (e vivo nessa intenção).

Assim que notei seus olhos pousados sobre outra mulher, um curta-metragem B foi projetado dentro do meu cérebro. Aquele sorrisinho de lado que tão bem conheço não era pra mim; não daria pra você sorrir assim me ouvindo contar sobre o preço da geladeira, por mais graciosa que eu seja. Seus pensamentos ficaram, repentinamente, cheios de outra pessoa, outro corpo, outro gemido, outra pele. Cheios de novas possibilidades. Fui jogada para a periferia da sua
vida. E, então, largo o copo de vinho pela metade, levanto da mesa...

Nada é mais terrível que imaginar o amado entregando-se à exploração de outro corpo, outra vida. Nada, nem a fome, nem o frio, nem a pobreza - tudo isso, todos eles, passam, seja com o supressão da necessidade ou com a morte. Mas suas mãos correndo por outras curvas, sua boca sugando outra saliva me jogam imediatamente no desespero, no atemporal desespero: ali, nada posso. Não consigo parar de imaginar nem continuar imaginando. Nessa hora não me cabe perguntar se quero ou não mergulhar nesses pensamentos: já fui atirada ao mar.

...Atrás daquela pilastra, de preferência". Viro de costas e volto em direção ao meu lugar. Você fica perplexo. A piranha, boquiaberta, sem graça, quase se enfiando debaixo da mesa. Você, baixinho, me xinga, me chama de louca. Eu não me importo: da próxima vez, seja discreto. Ou não dê esse sorriso. Quanto ao que não vejo, tudo bem. Quanto ao que não sei, tudo bem. Mas que eles continuem no terreno do não sei. Te falo: "Sou irracionalmente desconfiada e passional. Não me dê motivos, por favor, para que eu me arrependa de amar
você. Porque, quando me arrepender de te amar, já não vou ter mais do que me arrepender. E aí, querido, vou ser capaz de qualquer coisa".
Ao imaginar tudo o que pode nem ter acontecido, nem vir a acontecer, mas já é completamente real em mim, me sinto diminuída, excluída, banal. A raiva que brota vem tanto dessas sensações perniciosas quanto do medo de perder quem se ama. O medo de não saber se se é suficiente para lutar contra o inimigo (sempre mais armado nos delírios do que na realidade). A tristeza de já não saber se se é suficiente. Tristeza e ódio misturados são uma bomba e tanto.
Podem arrasar a noite. Podem arrasar a vida.
.
.
.
(Ailin Aleixo)

sexta-feira, 3 de julho de 2009

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Onde está nossa essência?

.....Buscamos significados mais profundos, porque nos sentimos responsáveis: por nós, pelo outro, pelo mundo, pela vida. E pela morte?
Pela morte ás vezes também.Ou, ao menos, pelo que fazemos em relação a ela, ou diante dela.
Onde está a nossa essencia? Onde estaremos nós um dia, um dia que pode ser hoje, amanhã, daqui a um mês?
Por não saber a resposta, nos defendemos no cotidiano, no trabalho, na arte, na filosofia, na bebida, na droga, na frivolidade, na ideologia - não importa. Em tudo o que de legítimo ou ilegítimo fazemos, nos ocultamos.
Porém o olho mágico da que fatalmente virá nos espreita, e dificilmente estaremos preparados. Ninguém nem ao menos sabe nos dizer o que é estar preparado para isso - isso que é a um tempo separação e encontro.
A rainha de nossa perplexidade, que torna o presente tão importante, o amor tão urgente, a bondade tão necessária, a ética tão essencial, a arte tão explicável - ela, a majestade morte, deveria nos tornar muito muito melhores do que somos. Muito mais generosos. Muito mais audaciosos. Muito mais abertos para a vida, a alegria, a claridade, em lugar de tão enredados
em nossas intrigas mesquinhas, nossas reclamações cotidianas, nossas vinganças minúsculas.
Porque só com a vida bem vivida, com decência, coragem e doçura , prepara-se alguém, ainda que sem muita habilidade, para isso que chamamos de morte: que nos espreita na cama, no carro, no avião, na calçada, ou na escola invadida por um terrorista alucinado.
.
.
.
(Lya Luft)