terça-feira, 31 de março de 2009

segunda-feira, 30 de março de 2009

Sem meio-termo...

Não se vive aos cadinhos. Não se esmola vida. Não se pede licença para existir. Não se existe de favor. Viver é apoderar-se dos instantes, copular com os dias, apossar-se do estar sendo, emprenhar-se do mundo, dos sentidos, do agora. Viver é rasgar-se por dentro, deixar-se arranhar pelos cílios do medo, vibrar na alta freqüência do desmedido, enfiar a língua entre os dentes da insanidade, parir-se ao contrário todas as manhãs. Viver não é um exercício de preservação, mas de flagelo. Não há resguardo possível àqueles que estão vivos, nem prudência, nem moderação. Vida é o caminho que se faz todos os dias entre a loucura e a sanidade. Estar vivo é não ter medo de se perder nesse percurso.
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(Patricia Antoniete)

sábado, 28 de março de 2009

Inferno...

Pergunta feita por Professor da matéria Termodinâmica, no curso de Engenharia química da UFBA em sua prova final. Esse Professor é conhecido por fazer perguntas do tipo “Por que os aviões voam?” em suas provas finais.
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Sua única questão, nessa prova, foi:
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“O inferno é exotérmico ou endotérmico? Justifique sua resposta.”
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Vários alunos justificaram suas opiniões baseadas na Lei de Boyle ou em alguma variante da mesma. Um aluno, entretanto, escreveu o seguinte:
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“Primeiramente, postulemos que o inferno exista e que esse é o lugar para onde vão algumas almas. Agora postulamos que as almas existem, assim elas devem ter alguma massa e ocupam algum volume. Então um conjunto de almas também tem massa e também ocupa um certo volume. Então, a que taxa as almas estão se movendo para fora e a que taxa elas estão se movendo para dentro do inferno?
Podemos assumir seguramente que, uma vez que uma alma entra no inferno, ela nunca mais sai de lá. Por isso não há almas saindo.
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Para as almas que entram no inferno, vamos dar uma olhada nas diferentes religiões que existem no mundo e no que pregam algumas delas hoje em dia.
Algumas dessas religiões pregam que se você não pertencer a ela, você vai para o inferno… Se você descumprir algum dos 10 mandamentos ou se desagradar a Deus você vai para o inferno.
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Como há mais de uma religião desse tipo e as pessoas
não possuem duas religiões, podemos projetar que todas as almas vão para o inferno. A experiência mostra que pouca gente respeita os 10 mandamentos. Com as taxas de natalidade e mortalidade do jeito que estão, podemos esperar um crescimento exponencial das almas no inferno.
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Agora vamos olhar a taxa de mudança de volume no inferno. A Lei de Boyle diz
que para a temperatura e a pressão no inferno serem as mesmas, a relação entre a massa das almas e o volume do inferno deve ser constante. Existem, então, duas opções:
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1) Se o inferno se expandir numa taxa menor do que a taxa com que as almas entram, então a temperatura e a pressão no inferno vão aumentar até ele explodir, portanto EXOTÉRMICO.
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2) Se o inferno estiver se expandindo numa taxa maior do que a entrada de
almas, então a temperatura e a pressão irão baixar até que o inferno se congele, portanto ENDOTÉRMICO.
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Se nós aceitarmos o que a menina mais gostosa da UFBA me disse, no primeiro
ano: “Só irei pra cama com você no dia que o inferno congelar”, e levando-se em conta que AINDA NÃO obtive sucesso na tentativa de ter relações amorosas com ela, então a opção 2 não deve ser verdadeira. Por isso, o inferno é exotérmico.”
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O aluno tirou 10 na prova...
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“A imaginação é muito mais importante que o conhecimento” (Albert Einstein)

quinta-feira, 26 de março de 2009

Parábola do existir...

Há uma história sobre Buda, onde uma manhã um homem perguntou a ele: "Existe um Deus?"
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Buda olhou para o homem, olhou dentro e seus olhos e disse: "Sim, existe um Deus."
Neste mesmo dia, à tarde, outro homem perguntou: "O que você acha de Deus? Existe um Deus?"
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Novamente ele olhou para o homem e para dentro de seus olhos disse: "Não, não existe nenhum Deus."
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Ananda, que estava com ele nas duas ocasiões, ficou muito confuso, mas ele sempre era muito cuidadoso para não interferir em nada. Ele tinha o seu tempo quando todo mundo partia à noite e Buda estava indo dormir; se ele tinha que perguntar alguma coisa, ele poderia perguntar neste momento. Mas, à noite, enquanto o sol estava se pondo, um terceiro homem veio com quase a mesma questão, formulada diferentemente. Ele disse: "Você pode dizer algo sobre Deus?"
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Ananda estava agora escutando muito concentradamente o que Buda diria. Ele deu duas respostas absolutamente contraditórias no mesmo dia e agora uma terceira oportunidade surgiu - e não existe uma terceira resposta. Mas Buda deu uma terceira resposta.
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Ele não falou, ele fechou os seus olhos. Era uma linda noite. Os pássaros tinham se acomodado em suas árvores - Buda estava em baixo de uma mangueira - o sol se pôs, uma brisa fresca estava começando a soprar. O homem, vendo Buda sentando com os olhos fechados, pensou que talvez esta é a resposta, assim ele também se sentou com os olhos fechados.
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Uma hora se passou, o homem abriu os olhos, tocou os pés de Buda e disse: "Obrigado pela resposta." E foi embora.
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Ananda não podia acreditar, porque Buda não falou uma simples palavra. E quando o homem foi embora, perfeitamente satisfeito e contente, Ananda perguntou a Buda: "Isto é demais!
Você poderia pensar em mim - você me deixa louco. Eu estou à beira de um colapso nervoso. Para um homem você diz que existe Deus, para outro homem você diz que não existe Deus e para um terceiro você não responde. E este estranho seguidor diz que ele recebeu a resposta e, grato, ainda toca os seus pés! O que está acontecendo?"
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Buda disse: "Ananda, a primeira coisa que você tem que se lembrar é que estas perguntas não eram as suas, e aquelas respostas não foram dadas para você. Por que você deveria se preocupar com elas? Elas não são da sua conta, mas algo entre mim e aquelas três pessoas".
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Ananda disse: "Isto é verdade, estas não eram minhas perguntas e as respostas não foram dadas para mim. Mas o que eu posso fazer? Eu tenho ouvidos e escuto e eu escutei e vi e agora todo o meu ser está confuso - o que é certo?"
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Buda disse: "Você pensa na vida em termos absolutos, é esse o seu problema. A vida é relativa. Para o primeiro homem a resposta foi sim e era relativa a ele, estava relacionada com as implicações de sua questão, de seu ser, de sua vida. O homem a quem eu disse sim era um ateu; ele não acredita em Deus e não quero dar suporte a seu ateísmo estúpido; ele fica a proclamar que Deus não existe. Mesmo se um pequeno espaço for deixado inexplorado... talvez Deus exista naquele espaço.
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Só quando você investigou toda a existência pode dizer com absoluta certeza que Deus não existe. Isso é possível somente no final, e aquele homem estava simplesmente acreditando que Deus não existe, mas não tinha experiência existencial de que Deus não existe. Precisei estilhaçá-lo, precisei trazê-lo de volta à terra, precisei bater duro em sua cabeça. Meu sim foi relativo àquela pessoa, a toda a sua personalidade. Sua pergunta não era apenas palavras. A mesma palavra vinda de outra pessoa poderia ter recebido uma outra resposta.
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E foi isso que aconteceu quando respondi "não" ao outro homem. Ele era um idiota tal qual o primeiro, mas no pólo oposto. Ele queria o meu apoio - ele já acreditava em Deus. Ele veio com a resposta pronta, apenas para solicitar o meu apoio de modo que ele pudesse ir e dizer: ‘Eu estou certo, o próprio Buda pensa assim’. Eu tinha que dizer não para ele, apenas para perturbar a sua crença, porque crença não é sabedoria.
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E o terceiro homem veio sem crenças. Ele não me perguntou se Deus existe. Não, ele veio com o coração aberto, sem a mente, sem crenças, sem ideologias. Ele era realmente uma pessoa sã e inteligente. Ele me pediu: 'Você pode dizer algo sobre Deus?'
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Pude perceber que aquele homem não tinha crença dessa ou daquela natureza; ele é inocente. Com uma pessoa tão inocente, a linguagem não tem sentido. Não posso dizer sim nem não; apenas o silêncio é a resposta. Então fechei os olhos e permaneci em silêncio.
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E minha impressão sobre o homem provou ser correta. Ele fechou os olhos também. Ele entendeu minha resposta: fique em silêncio, vá para dentro. Ele então recebeu a resposta de que Deus não é uma teoria, uma crença que você deve estar contra ou a favor. Foi por isso que ele agradeceu pela resposta.
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Deus não é uma coisa muito distante de você; ou você é uma mente ou você é um deus. Em silêncio e consciência a mente desaparece e revela a sua divindade para você. Apesar de eu não ter falado nada para ele, ele recebeu a resposta e recebeu-a da maneira correta."
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(Osho)

quarta-feira, 25 de março de 2009

Curta é a vida, longa é a paixão...

Tentei dizer quanto te amava, aquela vez,
baixinho mas havia um grande berreiro,
um enorme burburinho e, pensado bem,
o berçário não era o melhor lugar.
Você de fraldas, uma graça, e eu pelado lado a lado,
cada um recém-chegado; você sem saber ouvir,
eu sem saber falar.
Tentei de novo, lembro bem, na escola.
Um PS no bilhete pedindo cola interceptado pela professora como um gavião.
Fui parar na sala da diretora e depois na rua
enquanto você, compreensivelmente, ficou na sua.
A vida é curta, longa é a paixão.
Numa festinha, ah, nossas festinhas, disse tudo:
"Eu te adoro, te venero, na tua frente fico mudo"
E você não disse nada. E você não disse nada.
Só mais tarde, de ressaca, atinei.
Cheio de amor e Cuba,
me enganei e disse tudo para uma almofada.
Gravei, em vinte árvores, quarenta corações.
O teu nome, o meu, flechas e palpitações:
No mal-me-quer, bem-me-quer, dizimei jardins.
Resultado: sou persona pouco grata corrido a gritos de
"Mata! Mata!" por conservacionistas, ecólogos e afins.
Recorri, em desespero, ao gesto obsoleto:
"Se não me segurarem faço um soneto"
E não é que fiz, e até com boas rimas?
Você não leu, e nem sequer ficou sabendo.
Continuo inédito e por teu amor sofrendo.
Mas fui premiado num concurso em Minas.
Comecei a escrever com pincel e piche num muro branco,
o asseio que se lixe, todo o meu amor para a tua ciência.
Fui preso, aos socos, e fichado.
Dias e mais dias interrogado:
era PC, PC do B ou alguma dissidência?
Te escrevi com lágrimas , sangue, suor e mel
(você devia ver o estado do papel)
uma carta longa, linda e passional.
De resposta nem uma cartinha
nem um cartão, nem uma linha!
Vá se confiar no Correio Nacional.
Com uma serenata, sim, uma serenata
como nos tempos da Cabocla Ingrata me declararia,
respeitando a métrica.
Ardor, tenor, a calçada enluarada...
havia tudo sob a tua sacada
menos tomada pra guitarra elétrica.
Decidi, então, botar a maior banca no
céu escrever com fumaça branca:
"Te amo, assinado.." e meu nome bem legível.
Já tinha avião, coragem, brevê tudo para
impressionar você mas veio a crise, faltou o combustível.
Ontem você me emprestou seu ouvido e na discoteca,
em meio do alarido, despejei meu coração.
Falei da devoção ha anos entalada e você disse
Disse "eu não escuto nada".
Curta é a vida, longa é a paixão.
Na velhice, num asilo, lado a lado em meio a um silêncio
abençoado direi o que sinto, meu bem.
O meu único medo é que então empinando a orelha
com a mão você me responda só: "Heim?"
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(Luis Fernando Veríssimo)

segunda-feira, 23 de março de 2009

Os primeiros 10%...

"Uma das características mais marcantes de quem está em começo de carreira é uma enorme pressa. Pressa em aprender todas as técnicas, pressa em montar um portfólio, pressa em arranjar um emprego, pressa em sair da faculdade, pressa em “acontecer”, pressa, pressa, pressa, pressa… mas pra que tanta pressa? Poucos sabem, mas mesmo assim continuam a ter pressa. Afinal de contas o Pelé, aos 17, já era campeão mundial. O Michael Phelps, aos 15, já tinha mais medalhas que o Brasil. Segundo essa linha apressada, se você não “virou” antes dos 25, já era.
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Essa lógica, além de perversa, não faz o menor sentido. Duvido que o designer de 25 anos quisesse ter sua casa projetada por um arquiteto da mesma idade. Ou sua causa defendida por um advogado sem um fio de cabelo branco. Por mais competente e seguro que fosse, não acredito que ele encararia tranqüilo ao ser operado por um médico recém-saído da residência. Acho até que mesmo um jovem gerente de banco não inspiraria a sua confiança. O medo faz sentido: por mais habilidoso que seja, o que me garante que um piloto com poucas horas de vôo seja capaz de enfrentar uma tempestade, se as únicas que viu foram em um simulador?
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Você pode até argumentar que em criação é diferente, mas está errado. Marcello Serpa, Alexandre Gama e Nizan Guanaes estão na faixa dos 50 anos, Washington Olivetto na dos 60 – junto com Chico, Caetano e Gil. Os fundadores da DPZ ainda estão ativos, com bem mais de 70. E o que dizer do Niemeyer, nosso highlander da arquitetura?
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A pressa, já dizia a sua avó, é inimiga da perfeição. Nunca se viveu tanto e nunca se trabalhou por tanto tempo. Quando eu era criança, “velho” era quem tinha 40 anos. Hoje é preciso ter umas duas décadas ou três a mais. Do jeito que a tecnologia avança, não é preciso ser otimista para acreditar que você certamente viverá mais de 100 anos – se não for fumante, claro. Também não é difícil acreditar que você dificilmente se aposentará antes de ter completado seus 80 e estiver com a cabeça bem cheia de cabelos brancos. Em uma vida tão longa, os primeiros vinte por cento são claramente desprezíveis: eles são o período de aprendizado, em que o profissional está se formando para encarar umas seis boas décadas de maratona. Aquele que largar desesperado dificilmente terá fôlego para chegar longe.
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Apesar das bobagens faladas pelos livros e revistas de auto-ajuda executiva, você não se aposentará antes dos quarenta. Nem que tenha ganho um, dez ou cem milhões de euros. O trabalho é a atividade intelectual que nos mantém vivos e ativos, por mais que não gostemos dele. Mesmo que você não precise do salário, trabalhará pelo prazer de ver idéias acontecerem, de interagir com pessoas, de criar coisas. Vestir o pijama é jogar a toalha, e é isso que tanto deprime os desempregados, muito mais do que a falta de dinheiro.
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Dê uma busca nos nomes que você ouviu terem ficado milionários antes do estouro da bolha das empresas pontocom e provavelmente descobrirá que todos estão trabalhando. Pesado. Os donos do Google batem ponto todos os dias, emesmo o Bill Gates chamou de “aposentadoria” o que muitos chamariam de mudança de emprego. Para um trabalho mais puxado, vale ressaltar. O que ele faz em sua ONG não tem expediente nem final de semana, muito pelo contrário. Mesmo aquele capitalista mais nojento, tipo Donald Trump, com todos seus aviões e banheiros com torneiras de ouro, não é visto de chinelos em praias tropicais, mas de terno em salas de reunião. Se é assim, em quem você se espelha com toda essa pressa? Se não vai parar de trabalhar, pra que a correria?
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Hoje em dia quem tem 26 anos acabou de completar os primeiros 10% de sua carreira. Aos 40, terá chegado a um terço dela. A metade só chegará quando ele chegar à meia-idade. Nem mesmo quando ele chegar aos setenta poderá dizer que o fim está próximo. A não ser que aconteça alguma guerra ou pandemia, a expectativa de vida no meio do século XXI pode ser bem maior do que se imagina hoje.
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A experiência faz bem. Quem arranja o primeiro emprego em uma empresa grande não tem tempo de treinar. Quando fizer uma besteira – e todos fazem besteiras o tempo todo, não se iluda – será mais visível e frágil. Quem vira chefe rápido, rapidamente será enganado por seus subordinados, trapaceado por seus colegas ou preterido em uma futura promoção. Quem ganha dinheiro fácil e rápido costuma gastá-lo ainda mais rápido e com mais facilidade, como se vê facilmente em muito jogador de futebol, pagodeiro, apresentador de TV, modelo/atriz, participante do Big Brother ou ganhador da MegaSena.
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Antes de sair correndo desembestadamente e gastar toda a sua energia, gaste alguns minutos para perceber aonde está e para onde pretende ir. Não se pode seguir vários caminhos ao mesmo tempo e são poucos os que realmente valem a pena. Estude o máximo que você puder, porque o mundo está cada vez menor e cada vez mais difícil de enganar.
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A vida não é fácil. Quem diz que é, mente ou está ainda mais perdido que você. Como diria um filósofo Zen, “ao caminhar, apenas ande”. Concentre-se no que pretende fazer, como pretende ser reconhecido, aonde pretende chegar daqui auns 20 anos. E leve 20 anos para chegar lá. Se conseguir o que quer em 18 anos, estará no lucro. Se chegar em 5, provavelmente definiu a meta errado. Ou chegou ao lugar errado.
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Ninguém duvida que o Jobs que criou o iPhone é muito melhor do que o Steve que fundou a Apple. O primeiro mudou o mercado, o segundo foi demitido. Por mais que você acredite estar com “vinte e tantos” anos, saiba que o prefixo “vinte” não admite o complemento “tantos”. Isso é coisa para quem tem trinta ou quarenta. Nessa idade, só se tem “vinte e qualquer coisa”.
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É a melhor época da vida para se experimentar e errar – pode ir tranqüilo, ninguém está de olho em você.
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(Luli Radfahrer)

domingo, 22 de março de 2009

Cheguem...

"Cheguem até a borda, ele disse.
Eles responderam: Temos medo.
Cheguem até a borda, ele repetiu.
Eles chegaram. Ele os empurrou...
... e eles voaram"

(Guillaume Apollinaire)

sexta-feira, 20 de março de 2009

Desabrochar..

"E chegou o dia em que o risco de continuar espremido dentro do botão era mais doloroso que o de desabrochar..." (Anais Nin)

quinta-feira, 19 de março de 2009

Eu te amava...

"Eu te amava desde sempre nas imperfeições dos outros que não tens e nas que tens, porque em ti elas têm um outro significado, o sentido do vivo, do imperfeito, da real dimensão do humano. Te amava desde muito antes, antes de conhecer o som do teu riso, uma água que despenca do telhado num dia de chuva, antes das minhas mãos espalmadas sobre teus seios, pássaros famintos a revoar sobre campos de trigo. Te amava mesmo quando menino aprendia a ler as palavras que um dia tu me mostrarias a cor verdadeira, quando via pela primeira vez as coisas do mundo que tu reinventarias num olhar. Te amava sempre, sempre, sempre, quando ainda estavas ocupada no teu ofício de me encontrar, sem saber que me procuravas e eu ainda me ocupava em evitar que me encontrasses até que pudéssemos nos reconhecer. Te amava pelas esquinas onde não estavas, pela minha vida que ia se fazendo secretamente cada dia mais perto da tua, pelas conspirações do mundo que nos enlaçavam, nos enredavam, nos libertavam e iam nos preparando para sermos um do outro. Te amava tanto desde sempre porque já amava a mim nessa altura e aqui estavas tu, comigo, no que seríamos nós."
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(Patrícia Antoniete)

Ana Jácomo...

Como posso deixar de mencionar, de declarar o Encontro...
Da poetisa que chegou até mim através de seu encanto como reflexo das palavras em texto de data antiga que encontrei;
A poetisa que em seu reflexo, inspirou-me a olhar pra dentro e encontrar vastos campos, coloridos, intensos, perfumados..
Cheiro de flor quando ri! Quando sorrio!
Sintonia é sintoma;
Sintoma de sinfonia dos seres que se reconhecem;
Amor que permeia nosso Ser; Amor como gratidão..
Clara como a Luz; Ana como janela permitindo o reencontro da harmonia inesperada!
Bem-vinda à minha vida, embora por aqui já seja conhecida..
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Encontro
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No meio das defesas todas, havia algo que não se defendia, não sabia como se defender, não conseguiria, ainda que tentasse. Havia algo delicioso de se sentir que escorregava de dentro da gente e se esparramava no sorriso. Escapulia no olhar. Cantava no silêncio. Fazia florescer pés de sol no tempo encantado em que estávamos juntos. Dispensava nomes e entendimentos. Havia algo que tinha um cheiro inconfundível de alegria. De vida abraçada. De chuva quando beija a aridez. De lua quando é cheia e o céu diz estrelas. Um cheiro da paz risonha do encontro que é bom.
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No meio das defesas todas, havia algo que não se defendia, não sabia como se defender, não conseguiria, ainda que tentasse. Havia algo maravilhoso para ser dado e recebido, daqueles presentes que a vida embrulha com os seus papéis mais bonitos e entrega, toda contente, a duas pessoas. Havia algo para ser trocado, e troca é quando duas vidas se sentem olhadas ao mesmo tempo. Havia algo que fazia um coração falar com o outro, ouvir o que era dito, gostar do que era dito, rir com o que era dito, sentir-se espelhado, sentir-se enternecido, querer brincar, muito além do que qualquer palavra, por qualquer motivo, por qualquer defesa, tentasse, em vão, esclarecer. Uma vontade de parar todos os relógios do mundo para eternizar a dádiva da presença compartilhada, e a impressão de que às vezes até conseguíamos.
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No meio das defesas todas, havia algo que não se defendia, não sabia como se defender, não conseguiria, ainda que tentasse. Havia algo que escapava, ileso, dos artifícios todos, todos tolos, que a razão arranjava para não deixar o amor fluir com a beleza dele, o chamado dele, a natureza dele. Amor sempre arruma brecha para escoar entre os dedos temerosos do medo. Pode ser que a gente sinta tanto receio e se proteja tanto, as feridas antigas cicatrizadas coisíssima nenhuma, que nem consiga vivê-lo em sua plenitude. Mas que ele escoa, escoa. Esparrama no sorriso. Escapole no olhar. Canta no silêncio. Diz.
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No meio das defesas todas, havia algo que não se defendia, não sabia como se defender, não conseguiria, ainda que tentasse. Havia algo que delatava o desejo, os quarteirões da gente todos iluminados com o fogo feliz da sensualidade, iluminadas as ruas todas que dão acesso ao lugar onde o corpo e a alma costumam se encontrar e dançar numa única canção. Havia algo que não podia ser negado, preterido, amordaçado. Algo que inaugura primavera, tanto faz se é inverno. Algo raro e precioso. Que é perfeito, ao mesmo tempo que consegue incluir todas as imperfeições. Que é lindo, ao mesmo tempo que consegue integrar as esquisitices todas que gente também tem. Havia amor e, de um jeito ou de outro, sabíamos sem nos dizer, havia chegado pra ficar.
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O amor quando é amor é amor.
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(Ana Jácomo)

terça-feira, 17 de março de 2009

O amor é uma doença...

Eu não sei guardar coisas. Se eu compro chocolates, como todos no mesmo dia. Se eu compro balas, chicletes, devoro todos em minutos, compulsivamente. Detesto saber que algo me espera, quero acabar logo com aquilo.
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Não sei lidar com a responsabilidade da felicidade. A felicidade guardada na bolsa ou na vida. Eu tenho um homem lindo me esperando essa hora, e eu quero com todas as células do meu corpo ir ao encontro dele. Mas eu não sei lidar com tanta felicidade, por isso estou planejando a morte dele.
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Estou planejando matá-lo com minha estupidez, quero que ele morra fulminado pelas minhas armas de boicote. Quero que ele perceba o quanto sou chata, ciumenta, louca e doente. E que ele enjoe logo da minha cara abatida de intensidade. Que ele pegue logo bode do meu cansaço em viver tanto, porque vivo muito mesmo quando estou deitada olhando para um ponto fixo.
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É tão cansativo ser eu mesma com todos os meus medos e neuroses, e quero que ele sinta o fardo do meu peso. Morra e me liberte dessa alegria incontrolável. Passe desta para uma melhor, porque eu sou um lixo.
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Eu lembro daquele conto da Clarice em que a garotinha ruiva guardava os contos para ler depois, porque queria prolongar o mistério da felicidade. Pois eu quero mais é botar fogo em todos os contos de felicidade que a vida escreve para mim, porque por alguma razão maluca a felicidade me escraviza, me paralisa, me faz ficar triste. Eu olho para você e tenho tanta, mas tanta alegria em saber que você existe, que sinto ódio. Ódio de eu não mais esperar por você.
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O sentido da minha vida era encontrar você. O motivo para eu seguir adiante nos corredores escuros e bater em portas obscuras, era a sua busca. Agora que você está sentado numa sala clara e óbvia, não preciso mais me enfiar em buracos. Mas os buracos eram a única trilha que eu conhecia.
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Você me soltou na atmosfera e eu estou voando. E eu sinto saudades do buraco, da espera, da angústia. Eu sinto falta de olhar triste para o espelho e me sentir metade. Agora que eu tenho você, nem perco mais meu tempo olhando para o espelho, porque só tenho olhos para você. Você me roubou de mim mesma. E eu sou tão ciumenta que estou com ciumes de mim. Você me tirou da minha vida incompleta. E me transformou numa completa idiota. O amor é uma doença. Eu sinto náuseas, febres, dores musculares. Eu acordo assustada no meio da noite. Eu choro à toa.
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Eu estava do lado da sujeira, eu era a outra, eu estava por dentro do crime. Você me fez sentir um mundo limpo, verdadeiro e eterno. E esse mundo é tão novo pra mim, que eu te odeio. Que eu estou pequena nele, e preciso de você o tempo todo para me abraçar e dizer que está tudo bem. E quando você não está por perto, eu caio. Porque não sei nada desse mundo de alegrias e coisas bonitas. Você não me deu saída. Você transformou todas as vozes que me davam escapatórias para outros corredores, em sons sem lábia. Minhas saídas perderam as escadas escuras e charmosas, porque você lavou meu chão de imundícies com amaciante Fofo.
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Se eu tentar fugir, escorrego no perfume da minha nova vida. A nova vida que não sei viver. A nova vida que quero viver ao seu lado. Ao lado do homem que eu odeio porque nunca amei tanto.
Ao lado da felicidade que eu odeio porque se ela acabar, não sei mais se consigo voltar pra casa. E nem se quero.
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Era eu, entende? Era eu que me atracava com o lado errado da vida para estar sempre certa. Era eu a resposta para todas as perguntas que ninguém tem coragem de perguntar. Sim, o mundo é imperfeito, as pessoas traem, o amor não existe, seu marido me come, seu namorado me come, o mundo quer me comer enquanto você borda seu laço cor-de-rosa.
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Agora eu estou aqui, inconformada com o seu passado, querendo matar suas lembranças. Com ciumes do seu silêncio porque ele está com você há mais tempo do que eu e eu tenho medo do quanto ele te consome, com ciumes do seu sono porque ele te leva do meu foco.
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Com raiva da sua importância porque ela me congela, com raiva do tempo que não dura para sempre quando você me olha sabendo das minhas loucuras e ainda assim me amando. Agora eu estou aqui, querendo que todos os amores do mundo durem para sempre, e que nenês nasçam, e que árvores cresçam e que garoras vagabundas não nos invejem e que os desejos das nossas sombras não nos traia.
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Agora eu estou aqui, de quatro, de lingua no chão, te odiando muito, virando a cara, socando você, cuspindo em você, te tratando mal, tudo isso porque não sei lidar com o mundo girando na minha barriga, a tontura do amor, o enjôo do vício em você, a dor do músculo quando me separo.
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Pode parecer maluco, mas todas as minhas súplicas para que você desista de mim, é um jeito maluco de pedir que você não desista nunca, pelo amor de Deus.
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(Tati Bernardi)

Amor de Florbela

"Meus versos!... Sei eu lá também que são...
Sei lá! Sei lá!... Meu pobre coração
Partido em mil pedaços são talvez...

Versos! Versos! Sei lá o que são versos..
Meus soluços de dor que andam dispersos
Por este grande amor em que não crês!...

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!
E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...

Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços...
São os teus braços dentro dos meus braços:
Via Láctea fechando o Infinito!...

Na vida, para mim, não há deleite.
Ando a chorar convulsa noite e dia...
E não tenho uma sombra fugidia
Onde poise a cabeça, onde me deite!

Mas a minha tortura inda é maior:
Não ser poeta assim como tu és
Para gritar num verso a minha Dor!..."
(Florbela Espanca)

segunda-feira, 16 de março de 2009

Medo...

Diante das minhas lágrimas, tenho medo.. muito medo.. d´eu ter fechado as portas do amor pra mim! Porque ninguém mais carrega as chaves.. se eu vê-las fechadas, saberei quem fechou!
Tenho medo de machucar..
Tenho medo de não..
Tenho medo do sim..
Dói,
E sei que vai passar.
Mas dói agora, e agora, eu sou!
Tenho medo de viver em fortalezas que construi, na armadura que confeccionei
.. por medo!
Quero deixar o caminho, abandonar a procura! Deixar de ir, que apenas venha!
Quero abandonar, mas que não me abandonem! Dentro de mim, minha grandeza e pequenez andam juntas..
Que a paz venha abrandar a nossa alma, os nossos corações
E o porvir venha me confirmar aquilo que eu sempre soube, mas que agora, esqueci!
De que tudo vai dar certo, porque na verdade, já deu!

domingo, 15 de março de 2009

A vida fica...

"Não se engane, meu amor, não se engane. A vida não passa. a vida fica, cada vez mais.
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Sabe aquele sorriso de ontem, o menino chorando agarrado ao pai, a bomba de creme da padaria, a vez que mandaste o chefe à merda, o gemido de prazer, o gol perfeito, o sol sobre o mar e o vento com maresia, o anel perdido, a tarde de férias, o amigo morto, o cheiro do cabelo da primeira namorada, a irritação com o taxista, a cerveja gelada entre os amigos que não mais se encontraram, o dia do casamento, a palavra mais dura de todas, o porre de Ano Novo, o cigarro na janela sobre os telhados, o abraço no saguão do aeroporto, o bolo de Fubá da avó, o livro roubado da biblioteca, a gripe mal curada, a manhã de domingo, o café com pão quentinho, o assalto à mão armada, a nuvem em formato de cachorro, aquele poema inacabado, a covardia de não ter tentado, o amor impossível?
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Fica. Tudo isso e todo o resto ficam.
A vida fica nos olhos, nas mãos, nas rugas nos cantos da boca, nos cabelos que aos poucos ganham as cores do tempo e dos invernos, nas pernas mais fracas, mais bambas, mais trôpegas e cada vez mais cansadas de levantar depois de cada tombo.
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A vida fica cada vez mais nos pulmões e no peito, com rastros de gritos e gargalhadas, soluços, rancores, tristezas, nas costas fica a vida como cicatriz das asas arrancadas, dos punhais, no encurvar dos ombros que suportam a carga dos anos e das culpas, fica a vida, cada vez mais a vida, que nunca passa. Fica nos planos dentro da gaveta, trancados e cheirando a mofo, fica na boca com gosto de comida e riso, de beijos, das palavras que não queríamos ter dito, das palavras que não deveríamos ter deixado de dizer.
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Não se engane, meu amor, não se engane. A vida não passa, não. A vida fica, cada vez mais, sempre e sempre mais.
Fica incrustada na pele que ganha marcas, que perde a cor, que fica opaca.
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Fica nas artérias, nos lábios que enrugam dos carinhos e dos assovios, das músicas e orações desaprendidas, nos ouvidos que vão ensurdecendo de desouvir.
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Fica nos pés tortos e calejados do andar incessante do mundo, no ventre que vai secando de desistências e recomeços, nos olhares cegos de desatenção e desmemória, nos braços enfraquecidos pela solidão construída palmo a palmo ao nosso redor, nas frustrações e nas canalhices, nas pequenas maldades debaixo das unhas, nas desconfianças mesquinhas atrás das orelhas, no amargo da língua cheia de ressentimentos.
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A vida não passa, meu amor, não se engane. A vida não passa, não. Nada disso vai passar. O tempo minora e ajeita, recobre a pele arrancada, mata o viço do brilho de outrora, mas a vida fica, sempre e cada vez mais, e se acumula e nos torna exatamente aquilo que fizemos e faremos dela. Exatamente.
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Portanto, meu amor, tenhamos coragem.
Façamos com a vida o que queremos que ela faça de nós."
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(Patrícia Antoniete)

sexta-feira, 13 de março de 2009

The Giving Tree..

Existiu certa vez uma árvore muito antiga e majestosa, com galhos que se estendiam para o céu. Quando ela florescia, borboletas de todas as formas, cores e tamanhos dançavam à sua volta. Quando ela dava frutos, pássaros vinham de longe para se empoleirar em seus galhos. Eles eram como braços abertos ao vento, à espera dos que procuravam sua sombra.
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Havia um garotinho que costumava brincar todos os dias sob essa árvore e ela passou a cultivar uma grande afeição por ele. O grande, o ancião, pode se afeiçoar ao pequeno e jovem se não tiver consciência de que é grande. A árvore não tinha essa consciência - só os seres humanos têm esse tipo de conhecimento - no entanto, afeiçoou-se ao garoto. O ego sempre tenta amar o que é grande, sempre procura se relacionar com o que é maior que ele. Mas, para o amor, ninguém é grande ou pequeno. Ele abraça qualquer um que esteja por perto.
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Assim, a árvore nutriu um grande amor por esse menino que costumava brincar perto dela. Seus galhos eram altos, mas ela o curvava e os inclinava para baixo, de modo que ele pudesse colher suas flores e comer de seus frutos. Ao contrário do ego, o amor está sempre pronto a se curvar. Se alguém tenta se aproximar do ego, ele procura se elevar ainda mais, esticando-se ao máximo para que não seja possível alcançá-lo. Todo aquele que é acessível, ele considera pequeno. Mas o que não se deixa atingir, o que está no trono do poder, ele considera grandioso.
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O garotinho vinha brincar e a árvore curvava seus galhos. Quando ele colhia suas flores, a árvore ficava radiante, todo o seu ser era preenchido com a alegria do amor. O amor sempre fica feliz quando pode dar alguma coisa; o ego só fica satisfeito quando consegue algo para si.
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O menino cresceu. Às vezes ele dormia sob a árvore, ás vezes comia seus frutos e outras vezes fazia uma coroa com suas flores e fingia que era o rei da selva. Qualquer um de nós vira rei quando está cercado pelas flores do amor, mas tornamo-nos pobres e miseráveis quando os espinhos do ego ferem a nossa pele. Ver o garoto usando a coroa de flores e dançando ao redor dela, enchia a árvore de alegria; ela balançava de amor e cantava ao sabor da brisa. O menino cresceu mais ainda e virou um rapaz. Ele começou a subir na árvore e a se balançar em seus galhos. A árvore sentia imensa alegria quando ele descansava em seus galhos. O amor fica feliz quando dá conforto a alguém; o ego só fica feliz quando tira o conforto de alguém.
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À medida que o tempo passava, o rapaz começou a ter outras tarefas e obrigações. Sua ambição aumentou; ele tinha de passar nas provas, tinha amigos a quem superar e por isso deixou de visitar a árvore com tanta frequência. Mas a árvore continuou esperando por ele ansiosamente. Chamava-o com toda a sua alma: - Venha, venha! Estou esperando você! - O amor sempre espera pela pessoa amada. O amor é uma espera. A árvore ficava triste quando o rapaz não vinha. O amor só tem uma tristeza: quando não pode ser compartilhado; o amor se entristece quando não pode se entregar; mas, quando pode se render totalmente, o amor é extremamente feliz.
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O rapaz ficou mais velho e quase não vinha mais visitar a árvore. Todos os que crescem e se tornam grandes no mundo da ambição têm cada vez menos tempo para o amor. O rapaz era agora ambicioso e só encontrava tempo para assuntos mundanos: "Árvore? Que árvore? Por que eu deveria visitá-la?"
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Um dia, quando ele passava, a árvore o chamou: - Ouça! Estou esperando-o, mas você nunca vem. Espero por você todos os dias!
- Por que você acha que eu tenho de ver você? O que você tem para me dar? - retrucou o rapaz. - Estou atrás de dinheiro. - O ego sempre tem uma motivação. - O que você tem a me oferecer? Só vou vê-la se receber algo em troca. - O ego sempre quer um motivo, um propósito. O amor não precisa de motivos nem propósitos. Poder amar é a sua maior recompensa.
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Chocada, a árvore disse: - Você só virá se eu lhe der algo em troca? Eu só posso dar o que tenho. - Aquele que nega não ama. O ego nega, o amor dá incondicionalmente. - Mas eu não tenho dinheiro. Isso é uma invenção humana. Nós, árvores, não temos essa doença e somos felizes assim. Flores brotam em nós. Frutos pendem de nossos galhos. Oferecemos uma sombra refrescante. Dançamos com a brisa e cantamos canções. Pássaros inocentes empoleiram-se nos nossos galhos e gorjeiam porque não temos dinheiro algum. No dia em que nos preocuparmos com dinheiro, também passaremos a ser fracas e miseráveis como os seres humanos, que frequentam templos e ouvem sermões sobre como conquistar a paz, como encontrar o amor... Não, nós não temos dinheiro nenhum.
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- Então por que eu deveria vir aqui? - perguntou o rapaz. - Eu tenho de ir aonde há dinheiro. Eu preciso de dinheiro. - O ego quer dinheiro porque dinheiro é poder. O ego precisa de poder.
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A árvore refletiu profundamente e então teve uma idéia: - Faça o seguinte. Colha os meus frutos e coloque-os à venda. Assim você ganhará dinheiro!
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Os olhos do rapaz brilharam. Ele subiu na árvore e colheu todos os frutos, até mesmo os que estavam verdes. A violência dele fez com que os galhos se quebrassem e folhas fossem arrancadas, mas a árvore ficou feliz e satisfeita. Mesmo a dor traz felicidade ao amor. Mas o ego, mesmo quando ganha algo, não fica feliz.
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O rapaz nem sequer se voltou para agradecer a árvore. Mas ela nem notou. Sentia-se grata só pelo fato de o rapaz aceitar sua oferta de amor: colher e vender seus frutos.
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O rapaz ficou muito tempo sem aparecer. Ele ganhara dinheiro e estava ocupado tentando fazer com que ele se multiplicasse. Esquecera totalmente da árvore. Anos se passaram. A árvore ficou triste. Ela esperava ansiosametne que ele voltasse, como a mãe que procura o filho perdido, com os seios repletos de leite. Todo o seu ser anseia pela criança, busca desesperadamente encontrá-la para que possa sentir algum alívio. Assim era o choro interior da árvore. Todo o seu ser estava em agonia.
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Depois de muitos anos, o rapaz, já adulto, voltou para ver a árvore.
- Aproxime-se, venha me abraçar - pediu a árvore.
- Que bobagem é essa?! - respondeu o homem. - Não sou mais criança. - O ego considera o amor uma bobagem, uma fantasia infantil.
Mas a árvore lhe fez um convite: - Venha, balance nos meus galhos. Venha dançar comigo!
- Pare com essa conversa fiada! - replicou o homem. - Quero construir uma casa. Você pode me dar uma casa?
- Uma casa?! - exclamou a árvore. - Eu não preciso de casa para viver.
Só os seres humanos vivem em casas. Nenhum outro ser deste mundo vive numa casa, a não ser o homem. E veja as condições em que ele está! Em que condição está esse homem que vive confinado entre quatro paredes? Quanto maior a casa, mais insignificante o homem se torna.
- Nós não precisamos de casa para morar - disse a árvore. - Mas você pode cortar meus galhos e construir com eles uma casa.
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Sem perder tempo, o homem foi buscar um machado e cortou todos os galhos da árvore. A árvore se tornou apenas um tronco nu. Mas ela estava feliz assim. O amor fica feliz mesmo quando seus membros são mutilados pelo ser amado. Amor é doação; o amor está sempre pronto para compartilhar.
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O homem não se deu ao trabalho de agradecer à árvore. Construiu sua casa. Os dias se passaram e se transformaram em anos.
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O tronco não se cansou de esperar. Ele queria chamar o homem, mas não tinha nem ganhos nem folhas que lhe dessem uma voz. O vento soprava, mas ele não tinha como chamá-lo. Mas, em sua alma, ainda ressoava um único apelo: - Venha, venha meu bem-amado. Venha!
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Um longo tempo se passou e o homem foi ficando velho. Certa vez, ele estava passando pela árvore e resolveu parar.
- O que mais posso fazer por você? - perguntou a árvore. - Faz tanto tempo que você não vem!
- O que pode fazer por mim? - perguntou o velho. - Meu desejo é viajar por terras distantes e ganhar mais dinheiro. Mas para isso preciso de um barco.
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Alegremente, a árvore disse: - Corte meu tronco e faça com ele um barco. Ficarei muito feliz em ser um barco e em ajudá-lo a ganhar mais dinheiro em terras distantes. Só não deixe de tomar cuidado e de voltar logo. Estarei esperando a sua volta.
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O homem trouxe uma serra, cortou o tronco, fez um barco e se pôs a navegar.
Agora a árvore era apenas um toco. Ela esperava pela volta do seu amado. Nunca se cansava de esperar. No entanto, já não tinha nada a oferecer. Talvez o homem nunca voltasse; o ego só vai aonde possa ter alguma vantagem. Ele nunca vai aonde não há nada a ganhar.
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Uma noite, eu estava descansando perto do toco da árvore. - Aquele amigo meu não voltou ainda - ela sussurrou para mim. - Estou muito preocupada, pois ele pode ter se afogado ou se perdido. Pode estar perdido num daqueles países distantes. Pode ser que nem esteja vivo. Como eu gostaria de ter notícias dele. Assim eu poderia morrer feliz. Mas ele não viria mesmo que eu pudesse chamá-lo. Não tenho mais nada para lhe dar e ele só entende a linguagem do pegar e tomar..."
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(Resumo do livro "The Giving Tree" (A árvore generosa) de Shel Silverstein.)

quinta-feira, 12 de março de 2009

Ninguém venha me dar vida...

"Ninguém venha me dar vida,
que estou morrendo de amor,
que estou feliz de morrer,
que não tenho mal nem dor,
que estou de sonho ferido,
que não me quero curar,
que estou deixando de ser,
e não quero me encontrar,
que estou dentro de um navio,
que sei que vai naufragar,
já não falo e ainda sorrio,
porque está perto de mim
o dono verde do mar que busquei desde o começo,
e estava apenas no fim.
Corações, por que chorais?
Preparai meu arremesso
para as algas e os corais.
Fim ditoso, hora feliz:
guardai meu amor sem preço,
que só quis quem não me quis."

(Cecília Meireles, in "Ninguém venha me dar vida")

quarta-feira, 11 de março de 2009

Cagada...

Privada I: o homem e sua obra

"Este ódio de tudo o que é humano, de tudo
o que é 'animal' e mais ainda de tudo que é
'matéria', este horror dos sentidos (...) tudo isso
significa (...) vontade de aniquilamento,
hostilidade à vida, recusa em se admitir
as condições fundamentais da própria vida". (Nietzsche)
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O Homem é o novo rico da natureza. Assim que nos demos conta de que éramos os únicos na vizinhança que falávamos, fazíamos as quatro operações e conseguíamos encostar o dedão no mindinho, ficamos profundamente, irremediavelmente bestas. Cobrimos a pele com panos, penteamos o cabelo pra trás, passamos uma salivinha na sobrancelha, dissemos: adeus, bicho! e saímos da selva.
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Nem mal deixamos o bosque, passamos a esnobá-lo e a condenar as atitudes de todos os seus habitantes. Nós éramos superiores! Nós dominávamos a natureza! Nós usávamos ferramentas, meias e fio dental!
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Novo rico que se preze, no entanto, dá bandeira. Há sempre um douradinho além da conta, um sotaque suburbano escapando num momento de exaltação, um conversível rosa com a placa mom ou dad. Com a humanidade também é assim. Por mais que consigamos trocar nossos odores naturais por mentol, eucalipto ou tutti-frutti, gastemos um bilhão de dólares em pesquisa para criar lâminas capazes de raspar perfeitamente nossos pêlos e cubramos toda acrosta da terra com asfalto e carpete sintético, um ato sempre nos denunciará o passado selvagem, a natureza animal: a cagada. Ali não tem desculpa, não tem disfarce.
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A merda é nossa ligação perene com a floresta, com o barro de onde viemos. Aí não tem talher nem tailleur nenhum que nos diferencie da arara ou do tamanduá. Nus como as trutas, acocorados como os cães, expelimos a verdade universal, fisiológica, cilíndrica e obscura que por tanto tempo tentamos ocultar. Somos animais!
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Temendo uma reflexão mais elaborada sobre o assunto, e sabendo das conseqüências que tamanha verdade traria uma vez revelada, desde cedo cuidamos de camuflar o assunto. Fizemos com a bosta o que fazemos com as putas, as drogas e tudo aquilo que é necessário existir, mas não é preciso divulgar; marginalizamo-la. Condenamos as fezes ao ostracismo.
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No início, enquanto vagávamos nômades, a coisa era bem fácil. O sujeito simplesmente se afastava um pouco da horda, fazia o que tinha de fazer e ia embora, deixando as sujeiras para trás. Estávamos literalmente cagando e andando.
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Quando os primeiros povos dominaram as técnicas de irrigação e, portanto, a agricultura, passaram a viver fixos num determinado local, e defecar ficou um pouquinho mais complicado. O sujeito tinha que sair da aldeia, andar um pouco, achar uma moita, cavar um buraco, fazer e enterrar. Durante muito tempo a coisa rolou assim, trabalhosa, mas sem maiores problemas.
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Foi o crescimento da população e das aldeias que começou a complicar o processo. A moitinha ia ficando cada vez mais longe de casa, corria-sesempre o risco de se encontrar um conhecido por lá e, pior de tudo, cavar um buraco de segunda mão.
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Dizem que foi um bretão chamado Walter Collins que teve a brilhante idéia: cavar um buraco bem fundo no quintal de casa e cercá-lo por paredes. Em pouco tempo a invenção de Walter, assim como suas iniciais, já podiam ser vistas em grande parte do mundo. Parecia que o problema havia sido solucionado. Mas veio a revolução industrial, o grande êxodo para as cidades e os quintais, como se sabe, foram pra cucuia.
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Talvez tenha sido esse o momento mais difícil da humanidade frente aos seus excrementos, o clímax entre o Homem e sua sombra animal. Tivemos que trazer a bosta para dentro de nosso próprio lar. Para que isso fosse possível, bastava que jamais assumíssemos o verdadeiro fim do aposento que covardemente, eufemisticamente, chamamos de banheiro. Sim, meus caros, para não dar nas vistas, inventamos o chuveiro, a banheira, a higiene bucal, o secador de cabelo, o rímel, o blush e o batom, a acne e os tratamentos anti-acne e todas as outras coisas para se fazer ali. Além disso, criou-se um arsenal para se disfarçar o cocô: sprays com odor de rosas, sachês que deixam a água da privada azul, verde ou rosa, exaustores, bidês e papeis higiênicos perfumados.
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Ali, naquele ambiente cientificamente controlado, podemos aliviar as nossas necessidades com o máximo distanciamento possível. Após dar a descarga, nosso cocô é mandado para esgotos submersos, que desembocam em rios que vão dar lá longe no oceano. Sanamos o problema por enquanto, mas é só uma questão de tempo.
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Todo esse cocô está se unindo, formando o maior movimento underground do mundo. Nossas cidades, nossos países estão boiando sobre rios de merda. Fala-se muito no fim do petróleo e no fim da água, mas não será assim que nós morreremos. Numa incerta manhã um cidadão dará a descarga e, como na piada, ouvirá o estrondo: o subsolo, entupido, explodirá. A verdade, reprimida por séculos e séculos, emergirá. Só nesse dia todos perceberão o tamanho dacagada em que nos metemos desde o dia em que resolvemos sair da floresta. Enão haverá sachê nem bom ar que dê jeito.
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Como se sabe, só as baratas sobreviverão.
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(Antônio Prata)

terça-feira, 10 de março de 2009

Tu e Eu..

Somos diferentes, tu e eu.
Tens forma e graça
e a sabedoria de só saber crescer
até dar pé.
Eu não sei onde quero chegar
e só sirvo para uma coisa
- que não sei qual é!
És de outra pipa
e eu de um cripto.
Tu, lipa
Eu, calipto.

Gostas de um som tempestade
roque lenha
muito heavy
Prefiro o barroco italiano
e dos alemães
o mais leve.
És vidrada no Lobo
eu sou mais albônico.
Tu, fão.
Eu, fônico.

És suculenta
e selvagem
como uma fruta do trópico
Eu já sequei
e me resignei
como um socialista utópico.
Tu não tens nada de mim
eu não tenho nada teu.
Tu, piniquim.
Eu, ropeu.

Gostas daquelas festas
que começam mal e terminam pior.
Gosto de graves rituais
em que sou pertinente
e, ao mesmo tempo, o prior.
Tu és um corpo e eu um vulto,
és uma miss, eu um místico.
Tu, multo.
Eu, carístico.

És colorida,
um pouco aérea,
e só pensas em ti.
Sou meio cinzento,
algo rasteiro,
e só penso em Pi.
Somos cada um de um pano
uma sã e o outro insano.
Tu, cano.
Eu, clidiano.

Dizes na cara
o que te vem a cabeça
com coragem e ânimo.
Hesito entre duas palavras,
escolho uma terceira
e no fim digo o sinônimo.
Tu não temes o engano
enquanto eu cismo.
Tu, tano.
Eu, femismo.
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(Luis Fernando Veríssimo)

segunda-feira, 9 de março de 2009

Prevenção...

Como os assaltos crescem dia-a-dia, não podendo contê-los, a PM, sabiamente, dá conselhos aos cidadãos para serem menos assaltados:

1) Não demonstre que carrega muito dinheiro.
2) Jamais deixe objetos à vista, dentro do carro.
3) Levante todos os vidros, mesmo em movimento.
4) Não deixe documentos no veículo.
5) Na volta, ao se aproximar do carro, verifique se não há alguém suspeito por perto.
6) Não leve objetos de valor nem muito dinheiro para a praia.
7) Se, ao ir à praia, for de carro, coloque o veículo num ponto em que fique ao alcance de sua vista.
8) À noite, em locais escuros, use faróis altos.
9) Não dirija com o braço fora do carro.
10) Ao chegar em casa e antes de descer para abrir o portão, ou esperar por isso, verifique se não há pessoas suspeitas por perto.
11) À noite não se deixe aproximar por veículos com mais de dois homens.
12) Se assaltado, fique calmo. Não faça movimentos bruscos e evite encarar os assaltantes. Não discuta nem reaja.
13) Evite aglomerações. Nos locais em que todos se acotovelam os punguistas agem.

Depois de ler com extrema atenção estas instruções oficiais, acrescento as minhas, ou melhor, resumo:

1) Não saia de casa.
2) Se possível, não saia do quarto.
3) De preferência, não saia do cofre.
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(Millôr Fernandes)

sexta-feira, 6 de março de 2009

Lennon...

Fizeram a gente acreditar que cada um de nós é a metade de uma laranja, e que a vida só ganha sentido quando encontramos a outra metade. Não contaram que já nascemos inteiros, que ninguém em nossa vida merece carregar nas costas a responsabilidade de completar o que nos falta: a gente cresce através da gente mesmo. (...)
Fizeram a gente acreditar que casamento é obrigatório e que desejos fora de hora devem ser reprimidos. Fizeram a gente acreditar que os bonitos e magros são mais amados, que os que transam pouco são confiáveis, e que sempre haverá um chinelo velho para um pé torto. Só não disseram que existe muito mais cabeça torta do que pé torto. Fizeram a gente acreditar que só há uma fórmula de ser feliz, a mesma para todos, e os que escapam dela estão condenados à marginalidade. Não nos contaram que estas fórmulas dão errado, frustram as pessoas, são alienantes, e que podemos tentar outras alternativas. Ah, também não contaram que ninguém vai contar isso tudo pra gente. Cada um vai ter que descobrir sozinho. E aí, quando você estiver muito apaixonado por você mesmo,v ai poder ser muito feliz e se apaixonar por alguém.
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(John Lennon)

quarta-feira, 4 de março de 2009

Pessoa...

"Se à vezes digo que as flores sorriem
E se eu disser que os rios cantam,
Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores
E cantos no correr dos rios...
É porque assim faço mais sentir aos homens falsos
A existência verdadeiramente real das flores e dos rios".

(Fernando Pessoa)

segunda-feira, 2 de março de 2009

Vinicius...

"Para viver um grande amor,
primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro
e ser de sua dama por inteiro
— seja lá como for".

domingo, 1 de março de 2009

Way of life...

"Quando você vive de um determinado modo, a pessoa não gosta que alguém descreva como é estúpido esse seu modo de viver. Ninguém quer ser chamado de estúpido. Não é sobre a questão daquilo que dizem que vocês se sentem incomodados - é sobre suas vidas; se as suas vidas são estúpidas e vocês a estão vivendo, então vocês são estúpidos. Isso ofende. Mas isso é questão do ego! Se nós compreendessemos o que é o processo do ego ao olharmos melhor para nós mesmos e não tivéssemos nenhum ego, não importaria se alguém nos dissesse se somos idiotas ou se alguém nos dissesse que somos gênios! Não importa! São opiniões dos outros. Você sabe quem você é - você não depende da opinião dos outros. Seu ego depende. Seu ego o mantém um escravo da sociedade dentro da qual você vive. Comumente as pessoas pensam que o ego é uma coisa preciosa. Ele não é nada mais do que a escravidão delas".
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"Permaneça sempre aberto e experimentador, sempre disposto a caminhar em uma trilha que você nunca percorreu antes. Quem sabe? Mesmo se ela provar ser inútil, terá sido uma experiência..." (Osho)