sábado, 28 de fevereiro de 2009

O melhor...

"O melhor jeito que achei para me conhecer foi fazendo o contrário". (Manoel de Barros)

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Mulher...

"Só gosto de dois tipos de mulher
brasileira e estrangeira
verde ou amarela
gorda ou magricela
A que ninguém ama
A que todo mundo quer
A nobre e a plebéia
A crente e a atéia
A estagiária e a gerente
a mulher fria, a envolvente
Só gosto de dois tipos
Mulher que se arruma depressa
Mulher que perde a hora
A que ri à toa e a que chora
A que não me tem, mas me namora
Mulher que leva na brincadeira
Ou leva tudo a sério, pistoleira
Verdadeira ou mentirosa
Horrorosa, porém gostosa
Mulher que rala muito
Mulher que vive à toa
Só gosto de dois tipos
A boa e a muito boa
Gosto da bem amada
E da mal falada
Daquela que ninguém viu
Da prostituta mais vil
Carinho tipo guerra civil
Gosto da mulher casada
Da mais fogosa tarada
Da que respeita o marido
Da que faz o dono ficar moído
Só gosto de dois tipos de mulher
Da que aparenta ser honesta
e da que me dá o benefício da dúvida
Gosto da mulher de rabo de cavalo
E da que ostenta o rabo largo
Da mulher do beijo doce
Mulher do beijo mais amargo
Da que cai dentro porque é bamba
E daquela que nem gosta do samba
Gosto da mulher que dança bolero
Da mariposa que voa, quero-quero
Mulher que nada fala
mas não se cala
Da aflita que não grita
Ou da calma que se esgoela
Da que tem ciúme dele
Da que tem ciúme dela
Da que me ama antes de me ter
Da que só me ama depois de meter
Gosto da ex e da futura
Da mocréia e da formosura
Mulher do tipo leveza
Beleza do tipo grossura
Só gosto mesmo de dois tipos:
meu bem e amém
Gosto da mulher mais pobre
Gosto da mulher mais rica
Daquela que nunca vem
Da que o tempo todo fica
Seja a mais esbelta
seja a mais atarracada
Qual bola de bilharcada uma, uma tacada
É um eterno rala e rola que embola
dias frios e quentes, infernais
A regra é clara: respeitar os rivais
Mas nunca temer a concorrência
Entre a viadagem e a abstinência
Se o prazer é uma loucura
Pego fogo com a ternura
Se o gozo, uma vertigem
Tomo banho de fuligem
Posso dizer que curto uma vida amena
Rimando loura com morena
italiana azeda com pretinha
pela felicidade da vizinha
Qual a mais carnívora flor
que encontra um dia quem a devore
o desejo guarda traços de fragilidade
mesmo se a paixão furiosa não for maldade
Nesta busca para saciar a fome de prazer
Existe um tempo de irritabilidade
Pois antes que este tempo me derrube
digo claro e profundo o que penso da dor:
Só gosto de dois tipos de mulher
A que tem prisão de ventre e a que faz cocô
Sou fã de toda zoeira
Bate-papo, bobagem ou besteira
Só gosto de dois tipos de mulher
A que só como você se declara
E a que jamais se declara
Gosto sim da mulher que jura gostar
Nada tenho contra quem
não me faz mal no meu harém
As diversas formas do bem-querer
são mais misteriosas que o Além
E quanto mais eu me chafurdo
mais eu morro de saudade
É sim, só gosto de dois tipos
buscando amor nesta cidade
Mulher inteligente que empacou
Mulher que deu mais do que Pelé fez gol
Gosto daquela que dá duro
E que faz sexo seguro no escuro
E daquela que dá sempre mole
E apesar de tanto bole-bole
Não sou de galinhagem
É uma de cada vez
O taxímetro tem milhagem
A verdade não tem talvez
Gosto que me enrosco
no céu, na terra, avião no ar
Peixe na praia, sereia no mar
Mas é uma de cada vez
pra batata não assar
Admiro quem se admira
Joana, Maria, Clara e Mira
Depois de tanta mentira
só me resta dizer uma verdade
Eu só gosto de você
porque só você me deixa à vontade"
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(Alfredo Herkenhoff)

sábado, 21 de fevereiro de 2009

O caso Moshê...

Em Jerusalém
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Em agosto de 2001, Moshê (nome fictício), um bem sucedido empresário judeu-americano, viajou para Israel a negócios.
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Na quinta feira, dia nove, entre uma reunião e outra, o empresário aproveitou para ir fazer um lanche rápido em uma pizzaria na esquina das ruas Yafo e Mêlech George, centro de Jerusalém.
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O estabelecimento estava superlotado. Logo ao entrar na pizzaria, Moshê percebeu que teria que esperar muito tempo numa enorme fila, se realmente desejasse comer alguma coisa - mas ele não dispunha tanto tempo.
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Indeciso e impaciente, pôs-se a ziguezaguear por perto do balcão de pedidos, esperando que alguma solução caísse do céu.
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Percebendo a angústia do estrangeiro, um israelense perguntou-lhe se ele aceitaria entrar na fila na sua frente. Mais do que agradecido, Moshê aceitou. Fez seu pedido, comeu rapidamente e saiu em direção à sua próxima reunião.
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Homem-bomba
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Menos de dois minutos após ter saído, ele ouviu um estrondo aterrorizador. Assustado, perguntou a um rapaz que vinha pelo mesmo caminho que ele acabara de percorrer o que acontecera. O jovem disse que um homem-bomba acabara de detonar uma bomba na pizzaria Sbarro`s…
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Moshê ficou branco. Por apenas dois minutos ele escapara do atentado. Imediatamente lembrou do homem israelense que lhe oferecera o lugar na fila. Certamente ele ainda estava na pizzaria.
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Aquele sujeito salvara a sua vida e agora poderia estar morto.
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Atemorizado, correu para o local do atentado para verificar se aquele homem necessitava de ajuda. Mas encontrou uma situação caótica no local.
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A Jihad Islâmica enchera a bomba do suicida com milhares de pregos para aumentar seu poder destrutivo. Além do terrorista, de vinte e três anos, outras dezoito pessoas morreram, dos quais seis eram crianças. Cerca de outras noventa pessoas ficaram feridas, algumas em condições críticas.
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As cadeiras do restaurante estavam espalhadas pela calçada. Pessoas gritavam e acotovelavam-se na rua, algumas em pânico, outras tentando ajudar de alguma forma. Entre feridos e mortos estendidos pelo chão, vítimas ensangüentadas eram socorridas por policiais e voluntários. Uma mulher com um bebê coberto de sangue implorava por ajuda. Um dispositivo explosivo adicional montado pelos terroristas já estava sendo desmontado pelo exército.
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Moshê procurou seu "salvador" entre as sirenes sem fim, mas não conseguiu encontrá-lo.
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Ele decidiu que tentaria de todas as formas saber o que acontecera com o israelense que lhe salvara a vida. Moshê estava vivo por causa dele.
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Precisava saber o que acontecera, se ele precisava de alguma ajuda e, acima de tudo, agradecer-lhe por sua vida.
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O senso de gratidão fez com que esquecesse da importante reunião que o aguardava.
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Ele começou a percorrer os hospitais da região, para onde tinham sido levados os feridos no atentado.
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Finalmente encontrou o israelense num leito de um dos hospitais. Ele estava ferido, mas não corria risco de vida.
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Moshê conversou com o filho daquele homem, que já estava acompanhando seu pai, e contou tudo o que acontecera. Disse que faria tudo que fosse preciso por ele. Que estava extremamente grato àquele homem e que lhe devia sua vida. Depois de alguns momentos, Moshê se despediu do rapaz e deixou seu cartão com ele. Caso seu pai necessitasse de qualquer tipo de ajuda, o jovem não deveria hesitar em comunicá-lo.
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Em Nova Iorque
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Quase um mês depois, Moshê recebeu um telefonema em seu escritório em Nova Iorque daquele rapaz, contando que seu pai precisava de uma operação de emergência. Segundo especialistas, o melhor hospital para fazer aquela delicada cirurgia fica em Boston, Massachussets.
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Moshê não hesitou. Arrumou tudo para que a cirurgia fosse realizada dentro de poucos dias. Além disso, fez questão de ir pessoalmente receber e acompanhar seu amigo em Boston, que fica a uma hora de avião de Nova Iorque.
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Talvez outra pessoa não tivesse feito tantos esforços apenas pelo senso de gratidão. Outra pessoa poderia ter dito "Afinal, ele não teve intenção de salvar a minha vida: apenas me ofereceu um lugar na fila."
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Mas não Moshê. Ele se sentia profundamente grato, mesmo um mês após o atentado. E ele sabia como retribuir um favor.
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Salvo pela segunda vez
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Naquela manhã de terça-feira, Moshê foi pessoalmente acompanhar seu amigo - e deixou de ir trabalhar. Sendo assim, pouco antes das nove horas da manhã, naquele dia onze de setembro de 2001, Moshê não estava no seu escritório no 101º andar do World Trade Center.
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(Matéria publicada originalmente pela Targum Press, em 2002.)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Homens...

“Mulher, Irmã, escuta-me: não ames,
Quando a teus pés um homem terno e curvo
jurar amor, chorar pranto de sangue,
Não creias, não, mulher: ele te engana!
As lágrimas são gotas da mentira
E o juramento manto da perfídia.”
(Joaquim Manoel de Macedo)
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“Teresa, se algum sujeito bancar o
sentimental em cima de você
E te jurar uma paixão do tamanho de um
bonde
Se ele chorar
Se ele ajoelhar
Se ele se rasgar todo
Não acredite não Teresa
É lágrima de cinema
É tapeação
Mentira
CAI FORA”
(Manuel Bandeira)

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Sonhe...

"Sonhe com o que você quiser. Vá para onde você queira ir.Seja o que você quer ser, porque você possui apenas uma vida e nela só temos uma chance de fazer aquilo que queremos.Tenha felicidade bastante para fazê-la doce. Dificuldades para fazê-la forte. Tristeza para fazê-la humana. Esperança suficiente para fazê-la feliz. E saudade para fazê-la se sentir amada!"
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(Clarice Lispector)

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Revista feminina...

Por que homem não trabalha aconselhando em revista feminina?
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"Caro Roberto,
Espero que você possa me ajudar.
Outro dia, de manhã, eu peguei meu carro e saí para trabalhar, deixando meu marido em casa vendo televisão, como sempre. Eu rodei pouco mais de um quilômetro, quando o motor morreu e o carro parou. Então eu voltei para minha casa, para pedir ajuda ao meu marido.
Quando cheguei lá, nem pude acreditar naquilo que meus olhos estavam vendo.
Lá estava ele, no quarto, com a filha da vizinha!
Eu tenho 32 anos, meu marido 34, e a garota 22. Nós estamos casados há dez anos. Quando eu o interpelei, ele confessou que eles estavam tendo um caso há seis meses. Eu disse a ele para parar com isso, senão eu o deixaria.
Esclareço que ele foi demitido do seu emprego há seis meses e desde então tem estado muito deprimido. Eu o amo muito, mas desde que eu lhe dei aquele ultimato ele tem estado muito calado, ausente, distante. Ele não está se cuidando e eu temo não poder tê-lo de volta nunca mais. Estou desesperada. Você pode me ajudar? Antecipadamente grata.
Patrícia."
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"Cara Patrícia,
Quando um carro pára, depois de haver percorrido uma pequena distância, isso pode ter ocorrido devido a uma série de fatores. Começe por verificar se tem gasolina no tanque. Depois veja se o filtro de gasolina não está entupido. Verifique também se tem algum problema com a injeção eletrônica. Se nada disso resolver o problema, pode ser que a própria bomba de gasolina esteja com defeito, não proporcionando quantidade ou pressão suficiente nos injetores.
Espero ter ajudado!
Roberto."

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

O pássaro encantado...

"Vocês se lembram? Já contei a estória do Pássaro Encantado de muitas cores, que amava a Menina...
Mas sempre chegava a hora em que ele dizia:
"É preciso partir, ficar longe por muito tempo, para que a saudade cresça, e dentro dela, o encanto."
E ele voava...
A menina ficava e chorava. Até que não mais aguentou a dor da saudade e prendeu o Pássaro numa gaiola de prata, para que nunca deixasse...
Ele ficou, mas murchou. Seus olhos se entristeceram e suas cores se apagaram.
Acabou também a saudade, e o encanto se foi.
A Menina entendeu, então, que é preferível a dor da saudade encantada à tristeza de uma presença encarcerada.
E abriu a porta da gaiola.
O pássaro voou para muito longe até que a saudade voltasse a crescer.
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(Rubem Alves)

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

A tristeza...

A tristeza

é uma mulher

que não se pinta demais

não se perfuma demais

e nem bebe demais

para nos esperar

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(Marcio Scheel)

sábado, 7 de fevereiro de 2009

"Que bom que tenho consciência
Do ser que sou, fragmentado
Alguém sempre em construção
Imperfeito, incompleto, inacabado

Que bom que tenho consciência
Que o crescimento é parcelado
E que quanto mais eu aprendo
Nunca estou, por completo, "terminado"

Que bom que a mim é dado
A oportunidade de corrigir, de ser reciclado
De investir no que acho que está certo
E corrigir, tentar mudar o que está errado

Que bom que a mim é dado
A oportunidade de ser renovado!..."
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(Mena Moreira)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

As portas da percepção...

A função do cérebro e do sistema nervoso é, principalmente, eliminativa e não produtiva. Cada um de nós é capaz de lembrar-se, a qualquer momento, de tudo o que já ocorreu conosco, bem como de se aperceber de tudo o que está acontecendo em qualquer parte do universo.
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A função do cérebro e do sistema nervoso é proteger-nos, impedindo que sejamos esmagados e confundidos por essa massa de conhecimentos (fluxo de informações, uma vez que a realidade é multidimensional), na sua maioria inúteis e sem importância, eliminando muita coisa de que, de outro modo, deveríamos perceber ou recordar constantemente, e deixando passar apenas aquelas poucas sensações selecionadas que, provavelmente terão utilidade na pratica.
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De acordo com tal teoria, cada um de nós possui, em potencial, a Onisciência.
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Mas, visto que somos animais, o que mais nos preocupa é viver a todo custo. Para tornar possível a sobrevivência biológica, a torrente de Onisciência tem de passar pelo estrangulamento da válvula redutora que são nosso cérebro e sistema nervoso. O que consegue coar-se através desse crivo é um minguado fio de conhecimento que nos auxilia a conservar a vida na superfície deste singular planeta.
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Para formular e exprimir o conteúdo dessa sabedoria limitada, o homem inventou, e aperfeiçoa incessantemente, esses sistemas de símbolos com suas filosofias implícitas a que chamamos idiomas.
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Cada um de nós é, a um só tempo, beneficiário e vítima da tradição lingüística dentro da qual nasceu – beneficiário porque a língua nos permite acesso aos conhecimentos acumulados oriundos da experiência de outras pessoas; vítimas, porque isso nos leva a crer que esse saber limitado é a única sabedoria que está a nosso alcance; e isso subverte nosso senso da realidade, fazendo com que encaremos essa noção como a expressão da verdade e nossas palavras como fatos reais.
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Aquilo que, na terminologia religiosa recebe o nome de “este mundo” é apenas o universo de saber reduzido, expresso e como que petrificado pela limitação dos símbolos. Os vários “outros mundos” com os quais os seres humanos entram esporadicamente em contato não passam, na verdade, de outros tantos elementos componentes da ampla sabedoria inerente a Onisciência.
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A maioria das pessoas, durante a maior parte do tempo, só toma conhecimento daquilo que passa através da válvula de redução e que é considerado genuinamente real pelo idioma de cada um. No entanto, certas pessoas parecem ter nascido com uma espécie de desvio que invalida essa válvula redutora (médium?!).
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Em outras, o desvio pode surgir em caráter temporário, seja espontaneamente, seja como resultado de “exercícios espirituais” voluntários, do hipnotismo ou da ingestão de drogas.
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Mas o fluxo de sensações que percorre esse desvio, seja ele permanente ou temporário, não é suficiente para que alguém se aperceba de “tudo o que esteja ocorrendo em qualquer lugar do universo” (uma vez que o desvio não destrói a válvula de redução, que ainda impede que se escoe por ela toda a torrente de Onisciência), embora possibilite a passagem de algo mais – e sobretudo diferente – do que aquelas sensações utilitárias, cuidadosamente selecionadas, que a estreiteza de nossas mentes considera uma imagem completa (ou, no mínimo, suficiente) da realidade.
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(...) Esses efeitos da mescalina constituem o tipo de reação que se poderia esperar de uma droga com o poder de reduzir a eficiência da válvula redutora que é o cérebro. Quando esse órgão é atingido pela carência de açúcar, o subnutrido ego se enfraquece, já não mais se pode permitir empreender suas tarefas rotineiras e perde todo o interesse por essas relações de tempo e espaço que possuem tão grande valor para um organismo preocupado com a vida neste mundo.
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Assim que a Onisciência vence a barreira daquela válvula, começam a ocorrer toda as espécies de fatos desprovidos de utilidade biológica. Em certos casos, poderão dar-se percepções extra-sensoriais. Outros podem descobrir um mundo de visionária beleza. Ainda outras tem a revelação da glória, do infinito valor e significação da existência primeva, do fato objetivo e não conceituado.
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No estagio final de despersonalização, há uma “obscura noção” de que TUDO está em todas as coisas – de que TUDO é, em verdade, cada coisa (A Realidade é um todo orgânica, entretanto, a mente é analítica e racional, instrumentos que partem dos universais para os particulares, restringindo sua seara de observação e análise, não podendo compreender o todo, o fluxo de informações que a Realidade É).
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Isso é, no meu entender, o maximo a que uma mente finita pode alcançar em “aperceber-se de tudo que está acontecendo em qualquer parte do universo”.
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A esse respeito, quão significativa é a enorme ampliação da percepção das cores sob o efeito da mescalina! A mescalina aviva consideravelmente a percepção de todas as cores e torna o paciente a distinguir as mais sutis diferenças de matiz que, sob condições normais, ser-lhe-iam totalmente imperceptíveis. Poder-se-ia que, para a Onisciência, os chamados caracteres secundários das coisas seriam os principais.
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Tal como ocorre com os consumidores de mescalina, muitos místicos percebem cores de uma intensidade preternatural, não só em seu mundo interior como também no das coisas objetivas que os rodeiam.
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Como conciliar essa percepção aguçada com uma justa preocupação pelas relações humanas, com os deveres e tarefas inadiáveis, para não mencionar a caridade e a piedade atuantes? A velha disputa entre ativos e contemplativos estava sendo renovada – renovada, creio eu, com uma violência sem precedentes. Pois, até aquela manhã, eu só conhecera a contemplação sob suas formas mais humildes e encontradiças – a divagação do pensamento; a arrebatada abstração na poesia, na poesia, na pintura ou na musica; a paciente espera pela inspiração, sem a qual mesmo o mais prosaico escritor não pode pretender realizar alguma coisa; como vislumbres acidentais da natureza “de algo muito mais profundamente interligado”, no dizer de Wordsworth; como silencio sistemático que, leva por vezes, à noção de um “obscuro saber”. Mas desta feita, conheci a contemplação em sua pujança.
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Em sua pujança sim, mas não em toda sua plenitude.
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A mescalina nos permite chegar a contemplação, mas a uma contemplação que é incompatível com a ação e até mesmo com a vontade de agir, com a própria idéia de ação.
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Nos intervalos entre suas revelações, quem toma mescalina é capaz de sentir que, embora de certo modo tudo tenha a sublimidade que devera ter, por outro lado há nisso qualquer coisa de errado.
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Seu problema é, essencialmente, o mesmo que se defronta o eremita, o arfoat e, em outro plano, o paisagista e o pintor de retratos inanimados.
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A mescalina jamais poderá resolver tal problema, servirá apenas para situá-lo, em termos obscuros, para aqueles aos quais ele jamais se apresentou.
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Sua solução plena e definitiva só poderá ser encontrada por quem esteja preparado para reforçar a verdadeira “visão do mundo” por meio do comportamento adequado e de uma vigilância constante, natural e apropriada.
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Ao eremita se opõe o contemplativo-ativo, o santo, o homem que, na frase de Eckhart, está pronto a descer do sétimo céu para levar de beber a seu irmão doente.
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Ao arhat (Iluminado que, em silencio permanece após sua iluminação) refugiando-se do mundo exterior em um Nirvana inteiramente transcendental, opõe-se ao Boddhisattva (Iluminado que, por compaixão, começa a falar) para quem a Peculiaridade e o mundo das contingências são uma mesma coisa, e para cuja piedade sem limites, a cada uma dessas contingencias correspondem outras tantas oportunidades, não só para meditações transfiguradoras, como para também praticar a caridade objetiva.
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O contemplativo-passivo deixa de fazer muitas coisas que teria de realizar, mas para se dispor a uma tal atitude, ele precisa abster-se de praticar uma serie de ações que não deveriam ser levadas a efeito. O mal, acentuou Pascal, seria muito diminuído se os homens aprendessem a permanecer serenamente em seus aposentos. Mas o contemplativo cuja percepção haja sido esclarecida, não precisará permanecer cerrado em seus aposentos. Poderá sair para seus afazeres, tão perfeitamente satisfeito em contemplar e em ser uma parte da divina Ordem das Coisas, que nunca ver-se-á tentado a entregar-se ao que Traherme chamou de “impuros Artifícios do mundo”. Quando nos sentimos como se fossemos os únicos herdeiros do universo, quando o “mar corre em nossas veias (...) e as estrelas são nossas jóias”, quando todas as coisas parecem infinitas e sagradas, que motivos poderemos ter para a cobiça e a soberba, para a fonte de poder ou para as formas mais doentias de prazer?
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Os contemplativos não são propensos a se tornarem jogadores, alcoviteiros ou ébrios; não são levados ao roubo ou à opressão dos fracos. E, essas grandes virtudes negativas, podemos ainda acrescentar outra que, embora difícil de definir, não só é importante como também positiva.
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O arhat e o contemplativo sereno podem não praticar a contemplação em sua plenitude, mas mesmo assim nos poderão proporcionar informações esclarecedoras sobre outra e transcendente região da mente.
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E, se praticarem-na com elevação, tornar-se-ão condutos através dos quais poderá advir uma certa influência benéfica, dessa região ignota, para um mundo de personalidades atormentadas, em constante agonia por falta deste auxilio..
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Conclui-se perfeitamente, à luz dos documentos e rituais religiosos, bem como dos monumentos da poesia, das artes plásticas que chegaram até nós, que, na maioria das épocas e dos lugares, os homens tem atribuido maior importância a suas visões interiores que as coisas objetivas que conhecem. Tem julgado que o que vêem, quando de olhos cerrados, possui maior importância espiritual que o visto a luz do dia. Qual a razão para isso?
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A familiaridade gera indiferença, e o problema da sobrevivência é de uma premência que vai da tediosa rotina à tortura. É para o mundo exterior que abrimos os olhos todas as manhãs, é nele que, de bom ou mau grado, temos de procurar viver.
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No mundo interior não há trabalho nem monotonia. Visitamo-lo apenas vez ou outra, em sonhos e devaneios. Que há, pois, de espantoso, em preferirem os seres humanos, via de regra, olhar para dentro de si mesmos em busca do sublime?
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Isso, de fato, sucede como regra geral, mas não necessariamente: não somente em sua religião, como também em sua arte, os Taoístas e os Zen Budistas procuravam ir além de suas visões, ao encontro e através do Vazio, até as “dez mil coisas” da realidade objetiva.
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Graças a sua doutrina da Palavra tornada carne (O Cristo), poderiam os cristãos, desde o inicio, adotar uma atitude semelhante com relação ao universo que os circundava. Mas, em razão da doutrina do Pecado Original, viram-se em grande dificuldade para fazê-lo. Há apenas trezentos anos, uma expressão de completa fuga do mundo e mesmo de sua condenação, era não só ortodoxa como também compreensível: “Nada há na natureza que mereça nossa admiração, a não ser a encarnação de Cristo”. No século XVII, essa frase de Lallemant parecia ter sentido.
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Hoje, encontramos nela a aura da demência.
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Parece extremamente improvável que a humanidade, de modo geral, algum dia seja capaz de passar sem paraísos artificiais. A maioria dos homens e mulheres leva uma vida tão sofredora em seus pontos baixos e tão monótona em suas eminências, tão pobre e limitada, que os desejos de fuga, os anseios para superar-se, ainda por uns breves momentos, estão e tem estado sempre entre os principais apetites da alma. A arte e a religião, os carnavais e os saturnais, a dança e a apreciação da oratória, tudo isso tem servido, na frase de H. G. Wells, de portas na muralha. E há na vida individual, para uso cotidiano, sempre houve drogas inebriantes.
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Todos os sedativos e narcóticos vegetais, todos os eufóricos derivados de plantas, todos os entorpecentes que se extraem de frutos ou raízes, todos, sem exceção, são conhecidos e vem sendo sistematicamente empregados pelos seres humanos, desde tempos imemoriais. E a esses modificadores naturais de percepção, a ciência moderna adicionou sua cota de produtos sintéticos - o cloral, a benzedrina, os brometos e os barbituratos.
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A maior parte dessas substancias não pode ser atualmente adquirida, a não ser mediante prescrição medica ou então ilegalmente e com graves riscos. O Ocidente só permite o uso irrestrito do fumo e do álcool. Todas as outras portas químicas na muralha são rotuladas como estupefacientes e seus consumidores ilegais são viciados.
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Gastamos, hoje em dia, muito mais em cigarro e bebidas que em educação. E não há nada surpreendente nesse fato. O impulso para fugir a nós mesmos e ao que nos rodeia está presente em cada um de nós, quase todo o tempo.
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O estimulo para fazer algo pelas crianças só é forte nos pais, e, mesmo neles, tão-somente durante os poucos anos de vida escolar de seus filhos. Do mesmo modo, não nos surpreende a atitude geral com relação ao fumo e a bebida.
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A despeito das legiões sempre crescente de alcoólatras inveterados, das centenas de milhares de pessoas que são anualmente mortas ou mutiladas por motoristas embriagados, os humoristas populares ainda armam situações jocosas em torno do álcool e a dos que a ele se entregam. E, a despeito das provas ligando o cigarro ao câncer de pulmão, praticamente todo mundo encara o habito de fumar como algo quase tão normal e natural quanto comer.
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Do ponto de vista do racionalista utilitário, isto pode parecer estranho, mas, para o versado em historia, não seria de esperar outra coisa.
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Jamais a inabalável convicção na existência do Inferno conseguiu evitar que os cristãos fizessem aquilo que lhes sugeria a ambição, a luxúria ou a cobiça. O câncer pulmonar, os acidentes de trafego e os milhões de criaturas miseráveis e criadoras de miséria em razão do alcoolismo são realidades ainda mais positivas que o Inferno no tempo de Dante. Mas tudo isso é remoto e secundário, se comparado com a realidade vivida e presente de uma ânsia por serenidade e liberdade, por um cigarro ou uma taça.
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Os problemas criados pelo álcool e pelo tabaco não podem ser – e isso não admite contestação – resolvidos pela proibição. O impulso universal e permanente para a autotranscendência não pode ser dominado pelo simples fechar das solicitadas portas na muralha.
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A única política razoável seria abrir outras portas melhores, na esperança de induzir os seres humanos a trocar seus velhos maus hábitos por praticas novas e menos prejudiciais. Algumas dessas novas portas seriam de natureza social e tecnológica, outras religiosas ou psicológicas, e outras mais seriam dietéticas, atléticas e educacionais.
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É difícil, é quase sempre impossível falar de fatos mentais, a não ser por meio de analogias tomadas de empréstimo ao universo que nos é mais familiar.
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(Resumo: As portas da percepção. Aldous Huxley)

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Pensamento dominante...

"(...)Não é um pensamento isolado que atrai determinada situação, mas o que você pensa com freqüência até o fim do dia, da semana, do mês, ou mesmo até o fim de sua vida. Isso é o que os psicólogos e psicanalistas chamam de pensamento dominante. É por meio dele que você define seu modo de viver e, com base no caráter desse pensamento, a lei da atração cria formas. Assim, quanto mais pensamos em algo, mais atraímos para nós aquilo em que temos pensado."