quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Da Oração...

"Orais em vão quando vos dirigis a quaisquer outros deuses que não a vós mesmos. Porque em vós está o poder de atrair, e em vós está o poder de repelir. Em vós estão as coisas que desejais atrair e em vós estão as coisas que desejais repelir.
Pois poder receber uma coisa é poder também concedê-la.
Onde há fome, há alimento. Onde há alimento, também deve haver fome. Ser afligido pela dor da fome é ser capaz de gozar da benção de estar saciado.
Sim, na indigência está o suprimento da necessidade.
Não é a chave uma autorização da fechadura? Não é a fechadura uma autorização da chave? Não são ambas, a fechadura e a chave, uma autorização da porta?
Não tenhais pressa em importunar o chaveiro cada vez que perderdes ou não souberdes onde puseste a chave. O chaveiro fez sua tarefa e a fez bem; não se deve pedir-lhe que faça o mesmo trabalho de novo, sempre. Fazei vosso trabalho e deixai o chaveiro em paz; pois ele, depois de ter-vos servido, tem mais o que fazer. Retirai o mau cheiro e o lixo de vossa memória, e certamente encontrareis a chave.
Quando Deus, o Inefável, expressou-vos, ele expressou-Se em vós. Também sois, portanto, inefáveis.
Deus não vos dotou de nenhuma fração de Si - pois Ele é indivisível - mas de toda a Sua divindade, indivisível, inefável, Ele vos dotou a todos. A que maior herança podeis aspirar? E quem ou o que pode vos impedir de vos apossardes dela senão vossa própria timidez e cegueira?
Entretanto, em vez de serem gratos por sua herança, e em vez de procurarem os meios de tomar possa dela, alguns homens - cegos ingratos! - querem fazer de Deus uma espécie de fossa, onde despejam suas dores de dente e de barriga, seus prejuízos nos negócios, suas brigas, suas vinganças e suas noites de insônia.
Outros fazem de Deus sua tesouraria exclusiva onde esperam encontrar a seu bel-prazer e a qualquer momento tudo aquilo que cobicem dentre todas as bugigangas cheias de filigranas deste mundo.
(...)Sim, os homens incumbem Deus de muitas e diversas tarefas; no entanto, poucos parecem pensar que se, de fato, Deus fosse desse modo encarregado de tantas tarefas, Ele as executaria sozinho e não precisaria de homem algum para aguilhoá-Lo a fazê-las ou para relembrá-Lo delas.
Relembrais a Deus das horas em que deve nascer o sol ou pôr se a lua?
Lembrais a Deus de fazer o grão de milho brotar para a vida naquele campo?
Tendes de lembrá-Lo daquela aranha que tece seu refúgio magistral?
Por acaso tendes de lembrá-Lo das inúmeras coisas que preenchem este ilimitado Universo?
Por que pressionais vossos egos franzinos cheios de necessidades frívolas contra Sua memória? Sois menos favorecidos a Seus olhos do que os pardais, o milho e as aranhas? Por que, como eles, não recebeis vossos dons e vos ocupais com vossas tarefas sem alarido, sem dobrar os joelhos, sem estender os braços e sem espreitar ansiosamente o amanhã?
Onde está Deus para que possais gritar-Lhe nos ouvidos vossos caprichos e vaidades, vossos louvores e queixas? Não está Ele em vós e ao redor de vós? Não está Seu ouvido muito mais próximo de vossa boca do que está vossa língua do céu da boca?
Basta a Deus Sua divindade, da qual tendes a semente.
Se Deus, tendo-vos dado a semente de Sua divindade, tivesse de cuidar dela, e não vós, qual seria vossa virtude? E se vós não tiverdes labor algum a executar, mas Deus precisar executá-lo para vós, que sentido terá, então, vossa vida? E de que valerão todas as vossas preces?
Não leveis a Deus vossas incontáveis preocupações e esperanças. Não Lhe imploreis para abrir as portas das quais Ele vos forneceu as chaves.Vasculhai antes a vastidão de vossos corações, pois na vastidão do coração encontra-se a chave de cada porta; e na vastidão do coração estão todas as coisas das quais tendes sede e fome, sejam do mal ou do bem.
(...) Vossos anseios e vossos desejos são a equipagem dessa hoste. Vossa Mente é o disciplinador. Vossa Vontade, o instrutor e o comandante.
(...) Orar, pois, é infundir no sangue um Desejo- Mestre, um Pensamento-Mestre, uma Vontade-Mestra. Trata-se, pois, de afinar o ser para que fique em perfeita harmonia com qualquer que seja o objetivo de vossa prece.
(...) Para orardes não precisais de língua nem de lábios. Mas antes necessitais de um coração silencioso e vigilante, de um Desejo-Mestre, um Pensamento-Mestre e, acima de tudo, de uma Vontade-Mestra que não duvide nem hesite, pois as palavras de nada valem quando o coração não está presente e desperto em cada sílaba. E quando o coração está presente e desperto, melhor é que a língua vá dormir ou se esconda atrás de lábios cerrados.
Nem precisais de templos para neles orardes.
Quem não pode encontrar um templo no coração, jamais encontrará seu coração em qualquer templo.
(...) Mas a vós e a todos os homens eu incumbo de orar por Compreensão. Desejar qualquer coisa que não seja isso é nunca se sentir satisfeito.
Lembrai-vos de que a chave da vida é o Verbo Criador. A chave do Verbo Criador é o Amor. A chave do Amor é a Compreensão.
Preenchei o coração com eles, poupai a língua da dor de muitas palavras e salvai a mente do peso de muitas orações; livrai o coração da servidão a todos os deuses, que desejam vos escravizar com uma dádiva, que desejam vos acariciar com uma das mãos somente para vos agredir com a outra; (...)
Sim, livrai vossos corações de todos esses deuses para que neles possais encontrar o único Deus que, tendo-vos saciado com Ele mesmo, quer ver-vos saciados para sempre.
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(O livro de Mirdad)