sábado, 17 de outubro de 2009

O suicidio do bicho-grilo...

São Tiago Antão, no ano II antes de Cristo, peregrinou em jejum pelo deserto, durante seis meses, porque havia matado uma pulga.

Essa atitude lembra muito a de um espécime tipicamente brasileira: o Bicho-grilo porraloquensis . Ele é resultado do cruzamento entre o estudante de filosofia da USP, o hippie da Bolívia e o capoeirista do Pelourinho. Não necessariamente nesta ordem.

Reproduz-se em cativeiro e habita principalmente os quarteirões entre as Ruas Fidalga e Harmonia, na Vila Madalena, em São Paulo.

No Rio adotaram o Baixo Leblon; em Salvador, o entorno do Pelourinho.

É reconhecido por suas batas coloridas, lenços na cabeça e um vocabulário de apenas de quatro expressões: "só", "meu", "muito louco e "tô louco pra caralho."

A alimentação básica do bicho-grilo porraloquensis é arroz integral, batata barôa, empanada argentina, tofu e mais um pouco de arroz integral. Alguns tomam cerveja e fumam um cigarrinho fino e mal-cheiroso.

Os Bicho-grilo têm muitos filhotes. Ninam os rebentos à noite com músicas do Beto Guedes e do Led Zeppelin. Também gostam de colocar nomes diferentes nos filhotes, como Cauê, Aritana, Lenine, Stalimir, Krishna ou Lua. Aparentemente estes nomes são para chocar a sociedade. Como, por exemplo, o de um morador da Rua Girassol encontrado recentemente por pesquisadores e que se chamava Genival Lacerda da Silva Che Guevara.

Nos anos 90, com a proliferação dos bares de pagode e da novela "Vila Madalena", os Bicho-grilo começaram a entrar em extinção. Não podiam mais dormir em redes na varanda e foram ficando cada vez mais tristes. Foi aí que aconteceu a grande diáspora em direção à Visconde de Mauá, São Tomé das Letras, Trindade e calçadas do Espaço Unibanco.

Hoje há poucos espécimes na Vila. Foram sendo expulsos pelas boates, bares, restaurantes e casas de lenocínio. Mesmo assim há agências especializadas em safáris nos bairros onde eles ainda sobrevivem e se reproduzem.

O passeio é instrutivo e muito bem organizado. Percorre-se o local em jipes dirigidos por "rangers" treinados em Bostwana e Quênia. Armados com dardos de tranqüilizantes de maconha, eles mantêm uma distância segura entre turistas e porralocas.

Pode-se também conhecer a área de balão.

O Ministério da Saúde exige apenas vacinação contra larica.

***

Era uma vez um bicho-grilo. Por um motivo porraloca qualquer, ele foi ficando triste, triste. A deprê aumentou tanto que o bicho-grilo resolveu tomar uma atitude drástica: pôr fim à existência.

À noite, na cama (ou melhor, na rede, que bicho-grilo não dorme em cama), ele abriu a gaveta do criado-mudo (ou melhor, o bolso da mochila, que bicho-grilo não usa criado-mudo) e pegou o primeiro vidro de remédio que a mão alcançou.
Fechou os olhos, abriu a boca e tomou todo o conteúdo.

Encolheu-se. Logo chegaria a hora de encontrar Shiva. Ou seria o Paulo Coelho?

Não importa a divindade que o iria receber, o importante era escapar de um mundo que não entendia o reiki, a massagem holística, os florais mineiros e principalmente o tofu. Sim, a indiferença do mundo ao queijo de soja era imperdoável. Nada poderia valer à pena se o gênero humano não tivesse sensibilidade suficiente para substituir qualquer alimento por esse maná.

Meia hora, uma hora, duas horas e nada do bicho-grilo morrer. Ele então resolveu abrir os olhos e ver o que tinha tomado.

Era homeopatia.
.
.
.
(Carlos Castelo)

Nenhum comentário: