quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Você trabalha demais...

Você trabalha demais. Até aí, nenhuma novidade. Todo mundo trabalha demais hoje em dia. Outra coisa que todo mundo faz é reclamar do trabalho, do chefe, das condições, do excesso de tarefas, da ansiedade… os temas são tão comuns e recorrentes que se fossem banidos da mesa de jantar, muitas refeições aconteceriam em silêncio.

Muitas das reclamações estão cobertas de razão. Cada vez é mais comum ouvir histórias de abusos e excessos provocados por chefes, clientes, colegas ou fornecedores. Comuns também são as narrativas de problemas políticos, incompreensão, estagnação, redundância, desperdício, falta de propósito ou práticas insanas. Todas essas queixas têm fundamento, e não serei eu quem irá questioná-las.

No entanto, o ambiente de trabalho é, na maioria das cidades, o lugar em que você passará a maior parte do seu tempo, conhecerá boa parte da sua rede de relacionamentos e terá que conviver, queira ou não, mais intensamente com essas pessoas do que com as que realmente importam para você. Como diz a sabedoria popular, os indivíduos mais presentes na vida são aqueles que você não teve como escolher: pais, vizinhos e colegas de trabalho.

Por mais que a reclamação faça sentido, o problema é que falar mal do trabalho se tornou tão comum que parece ideologia: não há trabalho decente, chefe bom é chefe morto, aposentadoria implica necessariamente em parar de trabalhar e quem gosta do que faz é doente ou alienado.

O trabalho é uma relação, por isso deve ser encarado como jogo, não como conquista. O indivíduo que chamamos de workaholic na verdade não é viciados em trabalho, mas na estrutura artificial que a empresa proporciona a ele. Na maioria das vezes são pessoas de personalidade fraca, que não teriam como se relacionar com os outros em um ambiente social em que todos são iguais. Por
isso se refugiam nas empresas, que, espertas, lhes dão um cargo pomposo no cartão de visitas, propiciam alguns mimos corporativos e demandam do infeliz atitudes sobre-humanas para que possam sustentar seu vício.

Muito diferente deles são aquelas pessoas normais, que simplesmente deram a sorte de se apaixonar pelo que fazem. Tudo o que esses afortunados precisam é de uma boa estrutura para brincar. Se tiverem um ambiente propício, serão produtivos pouco importa seu cargo. Caso contrário, não há dinheiro que compre sua felicidade.

Unanimidades me assustam. Não por serem burras, como dizia Nelson Rodrigues, mas por serem perigosamente emburrecedoras. A partir do instante que criam verdades absolutas, ninguém mais está autorizado a pensar no assunto. Questionar, argumentar ou se opor é praticamente uma heresia. E, como todo sacrilégio em religião fundamentalista, punido com o exílio.

Por mais que seja o trabalho, odiá-lo integralmente pode ser igualmente ruim. Ou pior. Afinal de contas, quem escolheu sua profissão foi você, por pior que ela seja. É claro que algumas condições e escolhas ajudaram a definir o ponto em que você está hoje, mas um fato é inegável: quando você ainda era adolescente alguma coisa “estalou” na sua cabeça e o levou a escolher medicina, engenharia, direito ou, no nosso caso, design e tecnologia.

Qualquer que seja o nome que os psicólogos dêem para esse “estalo”, a realidade é que ele é muito parecido com a atração que sentimos por outras pessoas. Começa com um interesse vago, avança como uma descoberta até chegar a um verdadeiro fascínio. Cada hora que se passa nessa atividade é um novo desafio, nunca fácil demais nem impossível de se realizar. Com o tempo essa
relação se torna maior e mais forte, até o momento que se chega a um nível tão alto que se é praticamente um mestre.

Os sortudos que chegam a esse estágio têm uma característica comum: a consciência do tamanho da sua ignorância. Mas isso não os incomoda mais. Como os sábios religiosos, filósofos, artistas, jardineiros ou mestres deartes marciais, eles sabem que o caminho para se chegar ao conhecimento é tão ou mais importante que o próprio conhecimento. A partir daí eles não se
preocupam mais em doutrinar, controlar ou dirigir. Eles simplesmente fluem, como um barco em um rio.

Antes que este texto fique filosófico demais, fica aqui a recomendação: tente descobrir o que restou de paixão no seu trabalho diário, aquilo que, há alguns anos, você não imaginaria ser capaz de fazer. Todo mundo tem isso, nem que seja um pouco. Concentre-se no que você gosta e deixe o resto do mundo se resolver (ou se aniquilar). Se não tiver sobrado nada, troque de emprego ou atividade: você, certamente, trabalha demais.
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(Luli Radfahrer)

Um comentário:

Simone disse...
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