quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Pecado & Unidade...

"Não há pecado em Deus, a não ser que consideremos pecado dar o sol algo de sua luz a uma vela. Nem há pecado no homem, a não ser que consideremos pecado queimar-se uma vela inteiramente no sol e assim juntar-se ao sol. Há, porém, pecado na vela que se recusa a ceder sua luz e, quando se aplica o fósforo a seu pavio, amaldiçoa o fósforo e a mão que o segura. Há pecado na vela que tem vergonha de queimar-se no sol e, por isso, oculta-se do sol.

O homem não pecou por desobedecer à Lei, mas por querer encobrir sua ignorância da Lei. Sim, há pecado no avental de folha de figueira. Não leste a história da queda do homem, tão simples e ingênua nas palavras, porém tão sublime e sutil em seu significado? Não lestes como o homem, recém-nascido - passivo, inerte, não-criador? Isto porque, embora dotado de todos os atributos da divindade, era, como todos os recém-nascidos, incapaz de conhecer e de exercitar suas infinitas capacidades e talentos.

Como uma semente solitária encerrada em belíssimo frasco, achava-se o homem no Jardim do Éden. O homem, porém, não possuía solo algum que lhe fosse análogo onde pudesse plantar-se e brotar. A semente, encerrada em um frasco, permanecerá semente, e jamais as maravilhas que nela se acham encerradas debaixo da casca serão estimuladas para a vida e a luz, a não ser que seja escondida em um solo análogo a sua natureza e que a casca seja rompida. Era
uma face que jamais encontrara outra face na qual pudesse refletir-se. Era um ouvido humano que jamais ouvira oura voz humana. Era uma voz humana que jamais tivera eco em outra voz humana. Era um coração que batia solitário.

Solitário - tão inteiramente solitário - encontrava-se o homem, em meio a um mundo bem aparelhado e lançado a seu destino. Era um estranho para si mesmo; não tinha trabalho a executar nem plano a seguir. O Éden, para ele, era o que é para o recém-nascido um berço confortável - um estado de bem-aventurança passiva; uma incubadeira bem aparelhada. A árvore do conhecimento do bem e do mal e a árvore da vida estavam, ambas, a seu alcance; ele, porém, não estendia a mão para colher e provar de seus frutos, pois seu paladar, seus pensamentos, seus desejos e até mesmo sua vida estavam todos encerrados nele mesmo, esperando para serem vagarosamente libertados. E ele, por si mesmo, não podia libertá-los. Conseqüentemente, fez-se com que ele produzisse um auxiliar para si - uma mão que o ajudasse a desatar seus muitos envoltórios.

Onde melhor se poderia obter seu auxílio senão em seu próprio ser, tão rico devido a sua alta potência em divindade? Isto é muito significativo. Eva não é novo pó nem novo alento; mas o mesmo pó e o mesmo alento de Adão - ossos de seus ossos e carne de sua carne. Não surge outra criatura em cena; mas o mesmo Adão solitário é duplicado - um Adão masculino e um Adão feminino.

Assim o aço, sem faíscas, encontra o sílex que o fará emitir faíscas em abundância. Assim a vela, que não havia sido acesa, é acesa em ambas as pontas. Uma é a vela, um é o pavio, e uma é a luz, embora venha de ambas as pontas. Assim, a semente no frasco encontra o solo onde pode germinar e revelar seus mistérios. Assim, a unidade, inconsciente de si mesma, gerou a dualidade, para que por meio da fricção e da oposição da dualidade, possa compreender sua unidade. Nisto também o homem é a fiel imagem e semelhança de Deus, pois Deus - a Consciência Original - projeta de si a Palavra, e tanto a Palavra como a Consciência são unificadas na Sagrada Compreensão.
Não é um castigo a dualidade, mas um processo inerente à natureza da unidade e necessário para o desenvolvimento de sua divindade. Como é infantil pensar de outro modo! Como é infantil acreditar que um processo tão maravilhoso possa terminar seu curso em três vintenas de anos mais dez, ou mesmo em três vintenas de milhões de anos!

É tão pouco importante assim tornar-se um deus?

Será Deus um amo assim tão cruel e miserável que, tendo toda a eternidade para presentear, não concedesse ao homem mais do que o pequenino espaço de tempo de setenta anos para que este se unificasse e readquirisse o Éden, inteiramente consciente de sua divindade e de sua unidade com Deus? Longo é o curso da dualidade, e tolos são os que o medem com calendários. A eternidade não mede a revolução das estrelas.

Qual foi o primeiro ato de Adão depois de tornar-se dual? Foi comer da árvore do conhecimento do bem e do mal e, desse modo, fazer todo este mundo dual como ele. As coisas deixaram de ser como haviam sido - inocentes e indiferentes. Estas tornaram-se boas ou más, úteis ou prejudiciais, agradáveis ou desagradáveis; tornaram-se dois campos opostos, ao passo que antes era um. E a serpente que enganou Eva, para que provasse o bem e o mal,
não era a profunda voz ativa, embora inexperiente, da dualidade, estimulando-se para a ação e a experiência? De modo algum é de admirar-se que Eva fosse a primeira a ouvir essa voz e a obedecer. Eva era como se fosse a pedra de afiar, o instrumento destinado a tornar manifestos os poderes latentes de seu companheiro. Não estivestes vós, já muitas vezes, a imaginar Eva caminhando furtivamente, por entre as árvores do Éden, com os nervos à flor
da pele, com os olhos a procurar por todos os lados se alguém a estava observando, com água na boca e mão trêmula estendida para a fruta tentadora?
Não tendes desejado, de todo o coração, que Deus paralisasse a audácia louca de Eva, aparecendo-lhe no momento exato em que ela estava para cometer aquela ação estouvada, e não depois, como ele faz na lenda? E tendo ela cometido aquele ato, não tendes desejado que Adão tivesse a sabedoria e a coragem de abster-se de tornar-se seu cúmplice?

No entanto, nem Deus interveio, nem Adão se absteve. Isto porque Deus não queria que sua semelhança se lhe tornasse dessemelhante. Era sua vontade e seu plano que o homem caminhasse o longo caminho da dualidade a fim de desenvolver sua própria vontade, planejar e unificar-se pela Compreensão.
Quanto a Adão, ele não poderia, mesmo que quisesse, rejeitar o fruto que lhe era oferecido por sua esposa. Era-lhe obrigatório comê-lo, simplesmente porque sua esposa havia comido dele, pois ambos eram uma carne, e cada qual era responsável pelos atos do outro. Indignou-se e irou-se Deus porque o homem comeu o fruto do bem e do mal? Deus o proibira. E o fez porque sabia que o homem não podia deixar de comer, e ele queria que o homem comesse; queria também que o homem soubesse antecipadamente as conseqüências de comê-
lo e tivesse coragem de arcar com tais conseqüências. E o homem teve coragem. E o homem comeu. E o homem arcou com a conseqüência.

A conseqüência foi a morte. Ao tornar-se ativamente dual pela vontade de Deus, morreu daí em diante para a unidade passiva. Logo, a morte não é um castigo, mas uma fase na vida inerente à dualidade. A natureza da dualidade é tornar todas as coisas duais e dar a tudo uma sombra. Assim Adão gerou sua sombra em Eva, e ambos geraram, para sua vida, uma sombra chamada morte; mas Adão e Eva, embora sombreados pela morte, continuam a ter uma vida sem sombras na vida de Deus. A dualidade é uma fricção constante; e a fricção dá a ilusão de duas superfícies que se opõem, inclinadas à autodestruição. Em verdade, os opostos aparentes estão completando-se, preenchendo-se e trabalhando de mãos dadas por um só objetivo - a paz perfeita, a unidade e o equilíbrio da Sagrada Compreensão. A ilusão, porém, está enraizada nos sentidos e persiste enquanto estes persistem.

Eis por que Adão respondeu a Deus, quando Deus o chamou, depois de seus olhos terem sido abertos: "Eu ouvi tua voz soar no jardim, e eu temi, porque eu estava nu, e eu escondi-me". Como também: "A mulher que me deste por companheira, ela deu-me do fruto da árvore, e eu comi". Eva não era mais do que carne e ossos de Adão. Pensai, porém, neste novo eu de Adão, o qual, depois de seus olhos terem sido abertos, principiou a ver-se como algo diferente, separado e independente de Eva, de Deus e de toda a criação de Deus.

Este eu era uma ilusão. Uma ilusão dos olhos recém-abertos era esta personalidade desligada de Deus. Não tinha substância nem realidade. Havia sido criada para que, após sua morte, o homem pudesse conhecer seu ser real, que é o ser de Deus. Este eu falso desaparecerá quando os olhos externos apagarem-se e o olho interno for iluminado. Embora isto deixasse Adão
confuso, servia para estimular-lhe a mente e espicaçar-lhe a imaginação. Ter um eu que se possa considerar inteiramente pessoal - isso é verdadeiramente muito lisonjeiro e tentador para o homem que não é consciente de nenhum eu.
E Adão foi tentado e lisonjeado por seu eu ilusório. Embora estivesse envergonhado dele, por ser muito irreal, ou muito nu, dele não queria separar-se; ao contrário, agarrava-se a ele de todo o coração e com toda a sua engenhosidade recém-nascida. Por isso costurou folhas de figueira e fez para si um avental, com que escondesse a nudez de sua personalidade, tentando conservar-se oculto da vista onipotente de Deus.

(...)

Que são as artes e a instrução do homem, senão folhas de figueira? Seus impérios, nações, segregações raciais e religiões, não são cultos de adoração à folha de figueira? Seus códigos de certo e errado, de honra e desonra, de justiça e injustiça; seu avaliar o inavaliável, e medir o imensurável, e padronizar o que está além do padronizável - não é tudo isso remendar a já ultra-remendada tanga? Sua avidez pelos prazeres que estão pejados de sofrimento; sua ambição pelas riquezas que empobrecem; sua sede pela maestria que subjuga; sua cobiça pela grandeza que achincalha - não são todas essas coisas aventais de folhas de
figueira?

Nesta corrida patética para cobrir sua nudez, o homem vestiu um grande número de aventais que, no correr dos anos, agarraram-se-lhe fortemente à pele que ele já não distingue os aventais da pele. E o homem sente-se sufocado, e clama por quem o liberte de tantas peles. No entanto, em seu delírio, o homem tudo faz para ser libertado de sua carga, menos a única
coisa que em verdade pode aliviá-lo de sua carga, que seria atirar fora essa carga. Ele quer libertar-se de sua carga e agarra-se a ela com todas as suas forças. Deseja estar nu e, no entanto, mantém-se completamente vestido.

"Eis-nos aqui, Deus - nossa alma, nosso ser, nosso único eu. Envergonhados, medrosos e sofrendo dores, caminhamos pela áspera e tortuosa vereda do bem e do mal, que tu nos apontastes na aurora do tempo. A grande nostalgia apressou nossos passos, e a fé sustentou nosso coração, e agora a Compreensão libertou-nos de nossas cargas, curou nossas feridas e trouxe-nos de volta a tua santa presença, nus do bem e do mal, da vida e da morte; nus de todas as ilusões da dualidade, nus exceto do manto de vosso ser, que tudo envolve. Sem folhas de figueira para esconder nossa nudez, aqui estamos diante de ti, livres da vergonha, iluminados e sem temor. Vede, estamos unificados. Vede, nós vencemos".

E Deus vos abraçará, com infinito amor, e vos levará diretamente a sua árvore da vida.

Assim ensinei eu a Noé.

Assim agora eu vos ensino".

(O livro de Mirdad)
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"De Tao veio o Um.
Do Um veio o Dois.
Do Dois veio o Três.
E o Três gerou os Muitos.
Toda a vida surgiu da Treva
E demanda a Luz.
A essência da vida engendra
A harmonia das duas forças.
Nenhum homem quer ser solitário
Abandonado e insignificante.
Reis e príncipes se dizem ser assim
Porque sabem do mistério:
Que o inconspícuo será exaltado
E o importante decairá.
Por isto, ensino também eu
O que outros ensinavam:
Quem age egoicamente
Está morto
Antes de morrer.
É este o ponto de partida da minha filosofia."
(Tao Te Ching)

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